Olá, sou Lois Lane. Fui repórter investigativa do famoso Planeta Diário. Mas fui demitida há 6 meses porque de acordo com o meu antigo editor-chefe “não sei escrever nada além de fantasias e lendas urbanas”. Isso porque há um ano, colho depoimentos de pessoas que afirmam ter visto um super-humano realizando feitos milagrosos ao redor da cidade, e mais recentemente, ao redor do país.

Tudo começou quando o jovem Justin Lawrence de 9 anos, quase morreu atropelado na periferia da cidade quanto atravessou a rua pra buscar uma bola. De acordo com o próprio garoto, ele foi salvo por um jovem misterioso de capa vermelha.


“O moço me perguntou se eu tava bem e falou pra eu tomar cuidado na rua. Aí eu falei ‘desculpa, moço’, aí ele falou ‘haha, tudo bem’, aí ele sumiu e todo mundo ficou me olhando.” — Relata Justin.


Quando eu o pergunto se ele reencontrou este homem depois do acontecido, o menino faz questão de me corrigir:


“Ele não é um homem. Homem é meu pai. O carinha que me salvou é... Sei lá... Tipo... Um Super-Homem".



O termo “Super-Homem” já foi usando antes por Nietzsche (Übermensch), para designar um homem que seria, dentre outras coisas, livre da moral cristã. É claro que a criança do relato não leu Nietzsche, do contrário, não daria esse nome a um ser que parece tanto se guiar por conceitos de benevolência, amor ao próximo e sacrifício. Ainda assim, “Superman” realmente é o nome ideal.

Uma semana depois da história de Justin (que obviamente eu não tive coragem de publicar na época), apareceram casos semelhantes. Eleanor Stewart, 23, dona de casa, sobreviveu a um tiroteio. Mario Schwartz, 44, trabalhador da construção civil, sobreviveu ileso a um acidente de queda de vigas. Karen Smith, 17, estudante, sobreviveu a um acidente na roda gigante do Parque Luthor. Todos descrevem o mesmo herói. Um homem de 1,90, “S” no peito, e capa vermelha indo até quase o calcanhar. Seria irresponsabilidade da minha parte ignorar essas histórias nesse ponto.

Colhi todos esses relatos, e minha insistência em tentar publicar uma matéria especial sobre todas essas pessoas salvas me custou o emprego. Pois recusei escrever sobre qualquer coisa sem que a minha matéria especial fosse aceita.

Ninguém sabe o quanto essa história me instiga. Ele é real? Se for, realmente é um humano, ou seria uma força da natureza. Se for humano, por que se esconde e não se comunica conosco? Haviam muitas perguntas, e eu não desistiria fácil.

O Planeta Diário não é um jornal que publica sobre lendas populares. Era o que meu antigo editor-chefe me disse. E era o que eu pensava, até ler a matéria abaixo:

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Adultos e crianças escapam milagrosamente de incêndio em edifício

Ed Byrnes | 19/04/1939


Cerca de 23 pessoas sobrevivem a um incêndio ocorrido em um prédio. De acordo com os relatos, tanto de moradores próximos quanto dos bombeiros, as vítimas foram “surgindo” uma a uma em locais seguros.

O caso ocorreu no centro de Metropolis, na última terça-feira (18).

De acordo com o Corpo de Bombeiros de Metropolis, o incêndio começou devido a uma sobrecarga na rede elétrica. Ainda segundo eles, o acidente pode ter ocorrido por um fio desencapado.

Assim que os bombeiros chegaram no local, as pessoas estavam a salvo do lado de fora do prédio. Nenhuma das vítimas sofreu lesões graves.

Carl Williams de 32 anos, atribui o fenômeno a uma “intervenção milagrosa”.

“Eu vi a fumaça chegando na janela e já fiquei todo desesperado. Aí eu ouvi que tinha um monte de gente gritando e correndo de um lado pro outro. A gente tentou escapar, mas o calor e a fumaça estavam insuportáveis e não dava pra fazer nada direito. Aí passou uns minutos, né!? De repente todo mundo que ‘tava’ ali começou a ser puxada muito rápido por um vento azul. Depois disso eu só senti a sensação de um par de mãos adultas me carregando pra fora do prédio. Só que foi muito rápido. Nem deu pra ver direito quem era” — Relembra o morador.

As demais vítimas corroboram com a versão de Williams, ainda que especialistas atribuam esses relatos a sintomas de um stress pós-traumático coletivo.”

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Pelo visto, até mesmo o Planeta Diário que tenta manter uma postura tão cética sobre eventos milagrosos deu o braço a torcer. Não só isso, mas me ofereceram o emprego de volta. Eu aceitei, mas estava decidida a só publicar minha matéria especial quando eu conseguisse entrevistar esse super salvador desconhecido.

Era 12 de Julho de 1940. Entrei no escritório e me deparei com um postite escrito à mão pregado na minha máquina de escrever.

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“Encontre-me no terraço às 23:00. Traga um caderno de anotações.
SM

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Poderia ser ele. Poderia ser qualquer pessoa. Poderia ser algum maníaco se passando por ele. Era o meu dever ir conferir. Apesar da minha fama de maluca, é claro que não fui sozinha. Foi fácil convencer meu amigo fotógrafo Jimmy Olsen a vir comigo.

Às 22:30 estávamos lá, esperando, num misto de expectativa e medo, planejando o que iríamos fazer se surgisse um psicopata. Às 23:20, penso que é normal se atrasar, afinal, as pessoas são muito atarefadas. 00:42 eu já fico frustrada me perguntando quem foi que me pregou essa peça.

“Desculpem a demora, mas há sempre mais alguém precisando de ajuda”.

Quando olho para trás, ali estava ele. Sorrindo. Bem mais forte do que os relatos diziam. Sua capa balançava ao vento, e seus pés não tocavam o chão. Eu não tinha reação, me senti uma jornalista iniciante, e a única pergunta que me veio foi “quem é você?”. Ele me contou que seu verdadeiro nome é Kal-El, que veio de um planeta chamado Krypton e que pode fazer coisas que os humanos da Terra não conseguem.
— Por que se escondeu por tanto tempo? — Perguntei
— Por puro medo. Não pelo que podem fazer comigo, e sim, pelo que a minha imagem pode causar a esse mundo. Nunca houve alguém que pudesse fazer o que eu faço. Eu não tenho em quem me espelhar. Eu posso atrair gente com más intenções, que podem usar pessoas próximas a mim para me atingir. Mas ainda assim, ajo. Ajo porque sei que existem milhões de pessoas de bom coração no mundo que se tivessem os meus poderes, fariam exatamente o que eu faço, ou até mais. — Me respondeu o Superman com um olhar esperançoso.
— E por que você não se mostra para essas pessoas? O mundo precisa de um herói que faz o impossível. E se não for você, vai ser outra pessoa.
— Eu ainda não sei se estou pronto por mais que o meu corpo esteja. Eu já aprendi a resolver problemas, mas não sei ser um símbolo de heroísmo.
— Ninguém sabe. A humanidade não conhece uma moral absoluta. Muitas questões ainda são controversas para todos. Mas já sabemos que fazer o que pode para ajudar uns aos outros é o caminho. Você faz o impossível porque você pode o impossível. E o mundo precisa ver o que você faz. Pense em quem te inspira e no quanto ele foi necessário para você.

Naquele momento, Superman olha para cima com aquele olhar esperançoso novamente e com um sorriso sincero. Jimmy aproveitou o momento e tirou a primeira foto daquele grande herói pego desprevenido. Superman nos agradeceu, disse “até breve”, e voou pelo céu para salvar mais vidas.

Naquele momento, eu tinha meu emprego e minha matéria. Jimmy tinha uma foto exclusiva. Mas nada disso parecia importante porque quem mais ganhou naquele dia foi o mundo. O mundo ganhou o seu símbolo de justiça.

“Tenho um pouco de pena de Metropolis. É triste saber que a minha família, que ergueu essa cidade das cinzas, não recebe o devido mérito. Enquanto isso, o primeiro charlatão fantasiado que aparece, é alçado como um messias por uma fração ignorante da população. Com certeza, estamos carentes de heróis.”

Lex Luthor (CEO da Lex Corp) | 27/07/1940

“Com certeza, Superman é bem intencionado e está fazendo a coisa certa. Só tenho ressalvas pelo fato dele ter decidido se mostrar para o mundo. Não estamos prontos. Não ainda. Já tivemos salvadores milagrosos antes, e tudo o que fizeram foi tornar a humanidade eternamente dependente, esperando pacientemente por sua volta. Ainda assim, desejo toda a sorte do mundo a ele.”

John Jones (Detetive) | 13/01/1945

“Um dia eu vou ser tipo ele.”

John Henry Irons (Estudante do Primário) | 07/12/1948

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!