Eu estava mascando chiclete pra porra. Desde que decidi largar o cigarro, eu resolvi colocar outra coisa nessa boca que gosta de estar ocupada. Fazia um frio do caralho e eu caminhava agasalhado pelas ruas da cidade, nessa noite estaria aberto a feira que gostava de frequentar pra comer um churrasquinho ou comer um feijãozinho tropeiro com uma cervejinha. Hmnn... era uma delícia.

Só não esperava encontrar minha ex ali, foi difícil reconhecê-la, porque seus cabelos estavam tingidos de verde e usava um batom vermelho, então eu pensei que fosse o coringa se sobressaindo naquela multidão, mas era ela. Estava mais gorda que antes, trocou a armação dos óculos, seus braços estavam fechados por tatuagens e ela usava também um aparelho nos dentes.

Aquela mulher faria 37 anos, eu sei disso porque temos a mesma idade, mas ela parecia uma adolescente, até mesmo usava roupas dos Ursinhos Carinhosos como antigamente, ela gosta bastante dessas camisas estampadas.

Eu peguei a minha marmita e aluguei uma mesa, depois grudei o chiclete debaixo dela, olha, eu também sou meio infantil às vezes, mas não presto e gosto de julgar. A minha cervejinha estava ali também e a fome era grande. Eu tinha certeza que podia comer um cavalo inteiro. Por que pensei cavalo? Eu não sei.

Só que a danada chegou perto e se sentou na cadeira vaga. Alô, eu paguei por essa mesa e pera aí, ela estava mesmo “beliscando” minha marmita? Eu sei que comprei tamanho família, mas só desse jeito que me sentiria satisfeito.

— Olá?

Ela continuava estranha, esse típico jeito de ir se metendo sem dizer um “oizinho” antes foi um dos motivos que eu terminei com ela.

— Perdi alguma coisa?

Não responder era típico dela também, continuava se fazendo de sonsa enquanto comia o meu cavalo.

— Ei!

— Ai, Charles, continua sendo o formal de sempre.

— E daí, tenho 37 anos, é mais do que certo eu ser formal, me deixa em paz...

Tentei afastar as mãos dela da minha comida, ela resolveu abrir minha gelada e começou a beber.

— Ei!

— Você não cheira mais a cigarro.

Caramba, ela se inclinou até o meu lado pra me cheirar. Confesso que fiquei vermelhinho, muito tempo que não falo com uma mulher.

— Sim, eu parei faz um tempinho aí... me dá minha loirinha, por favor...

— Você me parece bem. Por que passa a noite de natal por aqui? Seus pais morreram?

— Vira essa boca pra lá! — Eu dei batidas na mesa pra assustar o mau agouro, embora fosse de plástico. — Eu tenho 37 anos pô! Não passo a véspera com eles faz anos!

— Sua mulher, então?

— Sou solteiro, mas vi na internet que isso é normal. — Eu ficava desesperado com esse tipo de pergunta. — Na internet fala que está havendo uma nova fase de adultos, é uma fase que é um tipo de adolescência mais estendida. Por consequência, a infância diminuiu.

— Então isso é um eufemismo para adulto fracassado.

— Como pôde entender assim, criatura? — Ela estava certa. — Só são adultos que não têm filhos e gostam de ver desenhos animados ainda.

Eu havia me esquecido da marmita e da gelada, essa última havia acabado e eu não tomei nem um gole.

— Você sente orgulho por ser assim?

Eu revirei os olhos e grunhi.

— Você já se viu no espelho hoje?

Nesse momento minha ex se calou e eu me dei conta de que os talheres de pláticos nem estavam mais nas minhas mãos, quando vi que ela os segurava com as suas.

— Eu acho que sou fracassada também.

— Como assim “também”?

— Eu recentemente coloquei Botox na testa, porque minha mãe notou uma veia muito feia nela...

— Ah... isso é normal, olha, fazer plásticas e essas coisas é super normal. Não se sinta mal com isso, você não vai deixar de ser você.

— Mas na verdade me senti mal por estar envelhecendo, e nem ao menos tenho um filho...

Pô! Aí foi pesado, porque sofro com isso pacas também.

— Charles, você se lembra como demorei para gostar da minha aparência na adolescência? Aceitar como sou? E quando finalmente me aceito, vejo que vou ter que passar por isso tudo de novo... vai ser doloroso.

Eu quase chorei nesse momento, a minha ex tinha uma autoestima muito baixa. Eu lembro que ela começou a tirar selfies a partir dos 23.

Um vento passou e eu me tremi todo feito Pinscher.

— Tá um frio do caralho, que tal a gente levar o que sobrou e beber um vinho na minha casa?

— Você continua o educado de sempre, e eu a atrevida de sempre que não vai recusar esse pedido.

— Não é educação, eu quero realmente te levar lá. Sabe, podemos ver Naruto, tu gosta?

— Já vi todos os episódios.

— Sério? Não me dê spoilers, por favor!!!!!

E partimos pra casa, maratonamos Naruto — chorei pacas quando Jiraiya morreu — e fizemos amor. Foi um natal sussa.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!