Não era todos os dias que Seraphina queria trabalhar. Não, nada disso. Ela era uma enfermeira que estava completamente exausta de tanto pegar plantões para poder custear as contas que ainda dividia com uma amiga de faculdade. Contudo, ela estava beirando o limite da exaustão porque estava simplesmente curiosa sobre um paciente.

“Isso não é no mínimo antiético, Seraphina?”

“Ninguém sabe o que eu estou fazendo além de você. E não tem como ninguém achar que tem nada de errado, sendo que eu o trato como um paciente normal.”

“Sim, mas será que ninguém no hospital percebeu que você está com 4 plantões de 12h durante a semana só pra tratar normalmente de um paciente? Você, a mesma pessoa que não podia esperar mais que um plantão acabasse?!”

“Antes você reclamava que eu não trabalhava o suficiente, hoje você reclama que eu trabalho demais. O que você quer de mim Calvera?”

“Quero que você me diga pra que diabos está fazendo isso? O que você ganha trabalhando tanto especificamente com aquele paciente? Isso é loucura!!!!”

“Não é loucura nenhuma. Eu só tenho mais incentivo pra trabalhar. Ao menos não estou atrasando as contas do apartamento, certo? Você não tem motivos pra reclamar. Nenhum motivo pra reclamar.”

“Eu moro com você e não te vejo há quase duas semanas. Eu só sei que você tem um certo interesse nesse paciente porque ele é amigo do meu ex-namorado e ele sempre vai visitá-lo. Você nem cogita que esse cara possa ter uma vida além do hospital, certo?!”

“Como você sabe que é o amigo do Kardia? E como vocês estão se falando?!”

“Ele trabalha no mesmo escritório que eu. Chegou lá há duas semanas e está fazendo da minha vida um inferno. Eu ainda o amo Seraphina e eu nem posso conversar com você sobre isso porque você não está aqui. Está louca em cima daquele cara que é o melhor amigo dele.”

“Você sabe se ele tem alguém?”

“O Kardia?”

“Não..o amigo.”

“Aaaaaaaaaah, mas eu sabia que era por causa de homem!!! Seraphina, você vai morrer de tanta canseira, minha deusa, parece louca!! Reduza seus plantões!”

“Não vou! Não quero! Provavelmente no fim do mês me mandarão reduzir.”

“Porque terão que te pagar demais e é bem isso que você merece!”

“Talvez eles me dêem banco de horas. Eu não sei! Mas não é isso que me preocupa. Me conte essa história do Kardia. Sei que estou devendo como amiga.”

“Bom, sabe que namoramos durante a faculdade, certo? Então. Eu estou trabalhando na empresa na qual ele sempre sonhou em trabalhar. Só agora ele entrou. Não é bem uma história, é só um fato que aconteceu.”

“Lembro bem que Kardia não é só um fato. Ele é O fato. Ele não é o amor da sua vida? Algo assim? Pra não dizer o mínimo? E você vive se culpando pelo término do namoro?”

“Não tem bem o que culpar. Não é culpa dele se eu não estava segura de mim e vivia fazendo cena de ciúmes, mas ele não me deixava segura. Sempre parecia que eu devia correr atrás de algo, que eu estava atrás dele por alguma razão que não era amor. Era como se ele vivesse me afastando, sei lá por que. Mas passou. Estamos cordiais agora, como adultos devem ser.”

“Se você diz, mas você não me engana, mulher. Eu sei quando está triste. Deixa eu ir trabalhar agora. Até amanhã.”

Seraphina se apressa para pegar o metrô, já que não podia se atrasar de modo algum. Ela tinha que pegar o primeiro turno da noite para poder cuidar daquele paciente em particular.

Se alguém fosse perguntar pra ela o motivo daquela cisma, ela não saberia responder. Só sabia que achava aquela figura muito interessante e que ele parecia ser uma pessoa boa. E se tinha algo que estava faltando na vida de Seraphina eram pessoas boas. Ele não precisava ficar com ela, claro que não, ela nem iria querer isso, contudo, ficar perto dele não era nada demais, mesmo que fosse com ele em coma.

Chegou ao hospital bem em tempo de pegar o primeiro turno. A enfermeira chefe, sabendo um pouco daquela cisma, decidiu ajudar a moça, designando-a para o moço em coma. Só que naquele dia em particular, ele não estava sozinho. Quando ela chegou ao quarto, havia mais um moço com ele, o ex da amiga Calvera. Era meio impossível de não saber, quando a foto de cabeceira é ele, certo?

Seraphina hesitou porque ouviu que ele estava falando com o comatoso e achou que seria uma invasão de privacidade. Mas como a ética dela estava deixando a desejar, colou o ouvido na porta.

“Degel, já faz um mês que você está aqui nessa cama. Por que não acorda? Eu fiquei receoso em lhe ver, já que eu não acredito ainda que você esteja nessa situação. Não acredito que o meu melhor amigo esteja em coma e eu tenho tanto pra lhe contar....como eu não sei quando você vai acordar, na verdade ninguém sabe, eu vou falar. Já que eu falo pouco, como você mesmo tirava sarro. Bom, eu finalmente consegui entrar naquela empresa que eu sempre sonhei. E sabe quem trabalha lá? A Calvera. A minha namorada da faculdade. Você se lembra, certo? Do tanto que eu falava nela? Do tanto que eu amo? Mas a insegurança dela foi demais pra mim. Bom, a Calvera trabalha lá e ela está ainda mais linda, tem um alto cargo, mas parece que não ganha tão bem quanto os outros diretores. E eu não entendi isso ainda. Eu não entendi porque eu estou aqui e você está aí, sendo que o culpado desse acidente fui eu. Degel, você precisa acordar. Precisa me dizer que não me culpa, precisa me perdoar e precisa viver.” Kardia começa a chorar.

Seraphina se sentindo uma invasora naquele momento simplesmente tira o jaleco e vai pra casa, se sentindo horrível por tratar como uma curiosidade um fato tão doloroso pra alguém.