Notas iniciais
Não postei aqui o capítulo 7, por isso os dois capítulos estão juntos.

O espelho de bolso refletia uma imagem que ela não esperava. Olheiras profundas. A pele de cor morena parecia mais acinzentada aquela manhã. Passou os dedos sobre as bolsas em voltas dos olhos. Não dormira. Tinha certeza de não ter dormido. Bocejou, colocando a mão sobre a boca. Saiu do banheiro, vendo o quarto um verdadeiro estrago. O que havia acontecido aquela noite?

Lembrava-se de ter ido dormir. Sim. Havia se deitado na cama. O coração estava opresso. O olhar estranho de Malfoy continuava a perturbá-la. Sua forma intimidadora conseguira afetá-la demasiadamente. E a morte de Roy...ela suspirara naquele instante, apenas de pensar no pobre rapaz. Por que estava acontecendo aquelas coisas, naquela cidade? O que havia de errado com os habitantes daquele lugar?

Tinha certeza de que adormecerá com aqueles pensamentos em mente. Mas, então, lembrou-se de levantar-se da cama. Sair do quarto e descer as escadas. O que fizera depois disso? Sentou-se na cama, pensativa. Colocou as mãos entre a cabeça, tentando puxar da memória o que a levaria a descer as escadas e para onde estava indo. Saiu da pensão! Era isso! Mas, o que diabos tinha na sua cabeça para ter saído?

Andava pelas ruas, naquele momento. Se recordava perfeitamente de andar, descalça. Seus pés eram prova viva disso. Estavam machucados. Observou a pele magoada e com alguns cortes. Então, Roy apareceu. Da mesma forma de Fred. Ele não conseguia falar. Simplesmente, uma visão fantasmagórica, com um olhar eternamente assombrado. Da sua garganta pingava gotas de sangue. Fechou os olhos, apenas de se lembrar daquela visão horrível. Ele pediu a ela algo. Mas, o que exatamente ele havia pedido? Não conseguia se lembrar.

— Pense Hermione – sussurrou para si mesma.

Tinha a nítida impressão de ser levada para a pensão de volta. Malfoy. Parecia que ele a havia levado de volta. Mas, como ele poderia estar lá? Estaria enlouquecendo de vez? Respirou profusamente. Resolveu se levantar da cama. Pela visão periférica, pode ver uma garrafa de vinho, caída no chão. O líquido rubro se espalhava pelo chão de madeira. Pegou-a, limpando o chão com uma blusa que encontrara sobre a mala de viagem.

— Merda, merda, merda – praguejou, deixando a blusa manchada sobre a mala. A garrafa deixou sobre a mesa de cabeceira.

Passou a mão pelo rosto, cansada. Exausta. Precisava de um banho. Precisava se organizar para dar o fora daquela cidade. Pegou suas roupas dentro da mala e saiu do quarto, rumando para o banheiro no final do corredor. Tomou um banheiro demorado, deixando que a ducha fizesse seu trabalho de aliviar seus ombros tensos. Terminou o banho, colocando uma calça jeans e uma blusa de lã preta, fina. Colocou suas botas de caminhada e saiu do banheiro. Escutou vozes no andar de baixo da casa, descendo as escadas, para verificar o que poderia estar acontecendo, pois as vozes pareciam alteradas. Chegando perto da sala de estar, escutou a voz do xerife. Thomas parecia tentar conter um dos hóspedes da pensão. O homem parecia alterado e ofendido.

Resolveu que sairia sem ser vista da pensão da senhora Thompson. Não queria ser interrogada, tão pouco. Saiu da casa, apenas para sentir o frio enregelar seu corpo. O céu estava cinza plúmbeo. Talvez, fosse chover, pois ventava muito. Notou que do outro lado da rua, havia um Mustang estacionado. Malfoy estava na região, o que começava a irritar Hermione. Ela voltou para dentro, dando de encontro com algo sólido. Atordoada, fitou a pessoa com quem havia se encontrado.

— Malfoy – murmurou.

— Granger – ele disse, em tom debochado. Um sorriso brotou de seus lábios – Está melhor hoje?

— Melhor? – indagou ela, confusa – Do que está falando?

— A encontrei na rua, de madruga – ele respondeu – Você parecia desorientada. Um tanto alcoolizada.

— O que? – exclamou ela.

Não se lembrava de ter bebido antes de dormir. Talvez, um copo de vinho. Mas, isso foi antes de se deitar.

— Deve ser sonambula – ele disse mais para si mesmo, do que para ela.

— Eu não sou sonambula! – protestou, irritada – Eu não...- Ela se calou. Teria bebido tanto na noite anterior? Seria possível?

— Parece que agora você faz ideia do que aconteceu – ele constatou, com um olhar divertido – Deveria tomar cuidado. Trancar a porta poderia ajudá-la.

— O que você fazia na rua, de madrugada? – indagou ela, percebendo que era estranho ele estar a noite, vagando pelas ruas.

— Eu não consigo dormir – ele respondeu, parecendo sincero. Seu rosto parecia cansado, de repente, como se um peso enorme estivesse sobre seus ombros – Resolvi dar uma volta e a vi vagando, perto do cemitério.

— Não pode ser...- ela colocou a mão na boca, assustada – Você está mentindo!

— Não estou – negou com a cabeça, não parecendo ofendido pela acusação – Eu nunca minto.

Ela engoliu a seco. Seria possível estar tão desorientada para andar cinco quilômetros até o cemitério da cidade? Não poderia ser verdade. Contudo, tudo se encaixava perfeitamente. Seus pés feridos. O joelho ralado, podendo indicar que ela havia tropeçado e caído no chão. E na noite em que pensara ter batido o carro...talvez...

— Você me encontrou outra vez, no mesmo estado, não foi? Meu carro não está amassado sem motivo.

Ele a fitou com um olhar sério. Não parecia desejar responder aquela pergunta, pois permaneceu em silêncio por longos segundos.

— Sim – respondeu, lentamente – Encontrei você e seu carro na estrada. Você estava um pouco machucada, nada grave.

— Por que não me disse? – exigiu ela. Sua voz se elevara um pouco.

— Fale baixo – pediu ele, virando a cabeça para trás. Então, voltou a fitá-la, com exasperação – Eu não queria assustá-la. Eu apenas fiquei preocupado. Pensei em contar a verdade, mas pensei que assim, você pensando que alguém havia destruído seu carro, a faria ir embora da cidade.

Ela o fitou, desconfiada. Suas palavras ligaram alertas em sua mente. Seria possível que...não, não poderia ser isso.

— Você está escondendo alguma coisa – acusou ela – Você me quer fora, por quê?

— Eu apenas estou preocupado com sua segurança – respondeu ele, rapidamente – Eu...

Ele parecia agoniado, então. Como se estivesse lutando contra algo dentro de si. Mas, Hermione não estava tão atenta a esses sinais, pois apenas queria esganá-lo com suas próprias mãos. Como ele se atrevia mentir sobre um acidente? Aquilo era realmente grave e ela poderia ter tido uma séria contusão. E como ela poderia estar andando pelas ruas, sem se recordar de nada? O que mais ela teria feito, nesse estado?

O xerife Thomas saiu da sala de estar, naquele instante, parando no corredor. Olhou curiosamente para Hermione e Malfoy. O hospede que havia sido interrogado, um homem de meia idade, passou pelos dois, intempestivo, esbarrando neles. Não se desculpou. Apenas abriu a porta e saiu, deixando o ar frio entrar. Malfoy passou a mão pelo terno, parecendo alisá-lo e fechou a porta. Seu rosto tão expressivo alguns instantes atrás, havia se fechado, como o tempo do lado de fora.

— Prefeito, não sabia que viria aqui...hoje – Thomas disse, olhando para ele, depois para Hermione, parecendo supor algo. Algo que Hermione esperava que ele não supusesse.

— Vim ver uma velha amiga – Malfoy disse, em tom neutro – Isso não é um crime, é?

Um protesto teria saído, se Malfoy não tivesse lançado um olhar em advertência para ela. Calou-se, um tanto desconcertada. Não sabia o que dizer, naquele momento. Talvez, a resposta fosse vir muito depois, mas no momento, estava paralisada. Provavelmente, o medo que sentia dele na adolescência havia se aflorado de novo.

— Ah, entendo – Thomas disse, passando a mão pelo queixo recém barbeado – Bom, é ótimo encontrá-la, senhorita Granger. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas, se não se importar.

— E eu teria chance de recusar? – Hermione replicou, em tom petulante, sem perceber.

Thomas a fitou, com um olhar solene, que parecia demonstrar que não gostara do seu desacato.

— Hermione é sempre tão petulante – Malfoy zombou, mas com uma voz que continha afeto – Adora fazer isso, não é? – seu olhar era cheio de significado.

Ela o fitou de volta, com um olhar que exigia respostas. Principalmente, que desejava compreender o que ele estava realmente tentando fazer. Ele relou sua mão sobre a dela de leve, o que enviou arrepios do lado direito do seu corpo, como se fosse uma descarga elétrica. Ela suspirou, involuntariamente, o que gerou um sorriso de satisfação em Malfoy.

Depois daquele evento estranho, ela resolveu responder quaisquer perguntas que Thomas tivesse para ela.

**

— Então, você alega que não viu Roy, desde a noite do aniversário do bar Lower’s? – perguntou Thomas, com um bloco de notas na mão — O xerife estava sentado na poltrona da senhora Thompson. E sobre seu colo, havia um prato de bolinhos intocados, cortesia dela.

Hermione mastigou o interior da bochecha, sentindo-se tensa. Não se lembrava de tê-lo visto. Mas, também, não tinha mais a mesma certeza sobre o que de fato havia acontecido naqueles dias. Nem ao menos atendia as ligações do seu agente. Ele havia ligado dez vezes. Ela não havia percebido, claro. Mas, começava a se perguntar se estava realmente bem.

— Sim...eu...tentei encontrá-lo – ela respondeu, com sinceridade – Ele conhecia Fred e eu queria perguntar a ele como meu amigo estava, antes de morrer. Fui até o bar, depois a casa dele. Mas, não o encontrei – Deixou de mencionar, claro, quanto as palavras da avó dele. Não seria necessário dizer que aquela senhora o odiava profundamente. Thomas ao ouvir isso, apenas anotou no bloquinho, pensativo, gerando mais ansiedade em Hermione, que cruzou as pernas, para controlar o tremor no joelho direito – Bom...quando não o encontrei, voltei para a cidade. O resto, bom, você já sabe, xerife.

Thomas anuiu com a cabeça, olhando através dela. Algo parecia se formar em sua mente, com certeza. Alguma ideia, talvez. Esperava que não fossem ideias erradas.

— Bom, acho que é só por hoje – Thomas disse, colocando o bloco e caneta dentro do bolso da jaqueta azul e se levantou – Espero que não saia da cidade, Granger. Enquanto não resolvermos o caso, vamos precisar que fique por aqui.

— O que? – exclamou ela, dessa vez, sentindo indignação. Todo medo havia se esvaído – Eu tenho o voo para Londres, na semana que vem. Eu simplesmente não posso ficar.

— Adie seus compromissos – Thomas deu de ombros, então, demonstrando que aquilo não era problema dele – Houve um assassinato. E a senhorita deve ficar, até que possamos reunir provas suficientes.

— Eu posso responder sobre essa questão, se estiver fora. Se precisar, eu voltarei – ela argumentou, sentindo-se injustiçada – E se for para fazer parte de um inquérito policial, você vai ter que falar com meu advogado.

— Não há problema algum nisso, Granger. É só me passar o número dele – retrucou Thomas, com um tom irônico.

Hermione mordiscou os lábios com força, sem saber o que dizer. O que havia de errado com aquele homem? Ele não parecia interessado na morte de Fred, mas a de Roy...havia gerado uma comoção. Testemunhas. Ela estava entendendo a situação. Como o caso veio a público, de forma tão brutal, ele não poderia deixar de fazer seu trabalho.

— Você está em beco sem saída, não é? – ela provocou, se levantando do sofá.

— Como disse? – indagou Thomas, parecendo ofendido. Sua sobrancelha escura estava arqueada – Se eu fosse você, não iria por esse caminho, Granger. Posso considerar desacato. E desacatar uma autoridade é passível de passar alguns dias na cadeia.

Ela o fitou, com uma raiva crescente, que se inflamava a cada palavra autoritária dele. Não sabia como retrucá-lo e Thomas, entendendo que ela não tinha mais nada a dizer, a fitou com um sorriso cínico.

— Bom, espero que tenhamos chegado em um concesso, Granger. Tenha um bom dia – E se girou pelos calcanhares, saindo da sala.

Ficou parada, fitando a janela. A chuva caia com força, do lado de fora. Queria gritar. Queria...Deus, como ela queria fazê-lo engolir suas palavras. Escutou passos, no assoalho. Malfoy estava no batente da porta de entrada da sala.

— Parece irritada – ele comentou, com as mãos dentro do bolso da calça social.

— Você não imagina o quanto – ela retrucou, ainda em estado de cólera – E você, o que tinha na cabeça? Nos fez parecer amantes na frente de Thomas. E isso é...

Ela fez uma careta. Ele apenas lhe deu um sorriso irônico.

— Isso é algo que não poderia acontecer, não é?

— Exatamente – ela pontou.

— Claro. Mas, eu não fiz nada, Granger. Poderia ter dito qualquer coisa a ele, que ele pensaria o que quisesse sobre nós. Por isso, não preciso dizer muitas coisas, ou me justificar.

— Mas, você se justificou – rebateu ela.

— Eu disse apenas a verdade. Somos velhos amigos, ou quase isso – ele ironizou, mas então, um sorriso brotou de seus lábios – Bom, conhecidos seria melhor. Não é como se você apreciasse minha companhia, nos tempos da escola.

— Há, isso é engraçado, vindo de você – replicou ela – Você era horrível. Uma pessoa desagradável. Seus amigos era um bando de delinquentes. E você muito pior que isso.

Ele passou a mão pelo queixo, anuindo com a cabeça, mas seu olhar continha indiferença.

— Pode-se dizer que sim – ele concordou – Mas, pouco importa, Granger. Isso tudo passou. Não somos mais essas pessoas. Eu não sou o mesmo.

Ela não queria acreditar que ele havia mudado.

— Sinceramente, eu não me importo – ela retrucou – Eu preciso dar uma ligação. Com licença.

Sem esperar uma resposta dele, saiu da sala, passando rente ao seu lado. Sentiu o toque dele em seu braço. Respirou, irritada e seguiu para as escadas, mas sentia o olhar dele queimando sua nuca.

**

— Você espera que eu aceite que seja cancelado a noite de autógrafos? Você deve estar de brincadeira comigo! – A voz do agente de Hermione era algo que enregelava o sangue em suas veias.

Ela suspirou. Joshua nunca foi razoável, sempre visando o dinheiro e status em primeiro lugar. Fechava contratos milionários, mas quando a questão era sair do que era planejado, isso o tornava alguém insuportável de lidar. Contudo, ela precisava dele. Muito. Sem ele, sua carreira não seria aquela que tanto sonhou e almejou. Apesar disso, pensava sinceramente que essa carreira não valia tanto. Olhando para si mesma, tendo aqueles dias de folga forçada para refletir, percebeu que estava se destruindo por dentro. Se tornara outra pessoa. Não era a mesma Hermione altruísta que conhecera. Se tornara alguém frio e egoísta. E pelo trabalho, deixará tudo para trás, até mesmo sua própria família. Suas origens.

Sentou-se na cama, observando a mancha no chão de madeira. Havia tentado limpar o vinho derramado, mas a mancha continuava ali, insistente. Teria pedido a senhora Thompson um pano com algum produto de limpeza, porém, a senhora estava tão atarefada aquela tarde e com os clientes reclamando sobre o xerife ser muito invasivo em suas perguntas, aquela senhora doce e bondosa se tornara irritada e nada maleável. Então, preferia dar a notícia sobre o chão em outro momento. Não queria escutar os gritos dela, ou ter que procurar outro lugar para ficar.

— Josh, você sabe que não tenho como sair daqui. Não é como se eu quisesse ficar – justificou Hermione, tentando usar seu melhor tom de voz, para amaciá-lo.

— Você sabe que tudo tem um custo, Hermione. Sabe quanto tempo estava planejando essa noite?

— Eu sei. Mas, veja, eu não tenho como sair daqui. Vou ter problemas com a polícia.

— Me diz, como é que você foi se meter nisso, Hermione? Achei que fosse mais cuidadosa.

Sua provocação não passou despercebida. Ele era muito preocupado com as aparências e só aceitou ser agente dela por esperar dela o mesmo. Ela realmente era assim, contudo, não sabia que estar ali lhe causaria tantos problemas. Se soubesse, nunca teria voltado a Mountain Black.

— Você não está sendo razoável, Joshua – ela apontou. Sentia a raiva crescente dentro de si. Ele sempre se mostrara intransigente, quando contrariado, mas naquele momento, esperava solidariedade dele – Sabe que tomei os devidos cuidados para vir até aqui. Mas, eu precisava vir. Fred precisava de mim. Se tivesse vindo antes, eu teria evitado que ele morresse.

Escutou um muxoxo do outro lado da linha. Conseguia imaginar que o efeito das suas palavras fez Joshua sentir-se culpado. Podia imaginá-lo agora, sentado sobre sua espreguiçadeira, em sua cobertura, em frente a London Eye, tomando um chá breakfast tea, da marca Twinings e usando um suéter de tom vermelho escuro, com algum manuscrito no colo, de algum escritor renomado.

— Hermione, Hermione. Você sabe meu calcanhar de Aquiles...

— Que é dinheiro. Eu sei.

— Não – negou ele, com um risinho nervoso – Você sabe que me preocupo com você. Tudo que está relacionado a você, me afeta. E me afeta muito.

Hermione engoliu a seco. Em que momento de sua vida, se tornara tão baixa? No começo, poderia dizer que estava apaixonada por Joshua. Gostava da companhia dele. Da sua forma de guiar sua vida, lhe dando tantas dicas. Cuidando de tudo para ela. Contudo, com o tempo, a relação se tornara instável. E Fred...bom, ele fora o estopim de tudo. Os dois se separaram. Joshua tinha uma nova amante, e Hermione tinha...ninguém.

— Eu não disse isso para provocá-lo – Hermione se adiantou – Eu apenas quero que saiba que nada disso que está acontecendo é culpa minha.

— Claro que não é, querida – ele concordou, um tanto falso. Era óbvio em seu tom de voz – Mas, você precisa voltar. Estou aguardando ansioso seu manuscrito, do próximo livro.

— Claro, eu voltarei assim que possível. Tchau Josh – E desligou. Simplesmente desligou.

Suspirou, cansada. Precisava de uma bebida. Ou melhor, não precisava dela. Ao que parecia seu estado estava muito alterado por causa disso. Então, se levantou da cama, esticando as pernas. Não havia nada a ser feito, enquanto esperava o tempo de o inquérito policial passar. E ela contatou sua advogada, para ajudá-la naquela questão, mas Linda estava em Bahamas, em sua lua de mel. Voltaria apenas em duas semanas. Ela pensou em tentar outro advogado, contudo, esperaria mais um pouco. Talvez, duas semanas para se reorganizar fizessem bem a ela.

O que a fez pensar em seus pais novamente. O que eles estariam fazendo agora? Com certeza, seu pai estaria assando alguma carne na grelha. Sua mãe estaria costurando algum cachecol de lã. Uma rotina que nunca mudaria, ela sabia disso. Não havia novidades na família Granger. Nada que os tirasse de sua rotina maçante. Porém, queria vê-los de volta. Havia um ímpeto de encontrá-los novamente. Fazia tanto tempo que não pensava neles.

Saiu do quarto, pensando nisso, não sem antes colocar sua jaqueta de couro e descer as escadas, tentando não gerar muito ruido. Temia encontrar a senhora Thompson na sala e ser inunda por sua indignação crescente quanto a polícia ser enxerida e ouvir suas reclamações sobre o quanto sua pensão seria prejudicada. Quando seguiu passar ilesa, pois ela estava conversando com um hospede na sala de estar. Não resolveu parar para cumprimentá-la, apenas seguiu para a porta da frente. Abriu-a, para notar que a chuva havia passado. O frio começava a se tornar um tanto rigoroso, mas nada que Hermione não suportasse.

Seguiu para o carro, munida de suas chaves e observou o quanto o veículo estava avariado. Contabilizou em sua mente os gastos. Trocar a tela do celular, pagar pelo conserto do carro, pagar pelo assoalho do quarto da pensão, além de pagar duas semanas de diárias na pensão, bom, aquilo seria uma boa soma. Não gostava de gastar sem uma previsão, contudo, deveria ter pensado que uma viagem como aquela iria lhe custar algo. Inclusive, sua sanidade.

Entrou no carro, seguindo para a casa dos seus pais. Começou a sentir calafrios por isso. Por ter de vê-los de novo. Seu estomago retorceu. Como eles a tratariam, agora que estava de volta? Como seria encontrá-los mais uma vez? Temia que eles a rechaçassem. Bom, ela merecia isso. Merecia ser ignorada por eles. Mas, mesmo assim, desejava em seu íntimo que pudesse ser recebida de volta. O filho prodigo voltando a casa. Sabia que seria essa visão que seus pais teriam, um tanto bíblica. Era a forma como viam a mundo, sem um pensamento crítico, que não fossem embasados em alguma crença e dogmas. Tentaria não ser crítica, também. Se esforçaria para entendê-los.

Ligou o rádio, para distrair a mente. A primeira estação de rádio só produzia chiado. Tentou a próxima. A mesma coisa aconteceu. Foi passando de rádio, enquanto se dirigia a casa dos seus pais, que era mais próxima as montanhas. As ruas se tornavam mais arborizadas. O dia se tornava cada vez mais escuro. Sentiu certa apreensão de estar dirigindo a noite, contudo, nunca teve problema com isso. Parecia que algo estava prestes a acontecer e apreensão a deixava de certa forma um tanto irracional. Coração acelerado, os lábios secos. Era o que sentia. Tentou mais uma vez sintonizar a rádio. O que sintonizara, no entanto, parecia ser uma pregação evangélica. Suspirou. Mais uma vez sobre a salvação da alma. Que todos aqueles que renegavam a Deus, iriam queimar no fogo do inferno. Hermione desligou o rádio. Não precisava escutar algo como aquilo.

Estava quase chegando, quando o rádio ligou sozinho novamente. Era a mesma pregação. Desligou, um tanto irritada e assustada. O som do rádio ligando no último volume fora algo que a sobressaltou. Quase perdera o controle do carro. Pensava consigo mesma, que era uma bobagem. O rádio era eletrônico. Deveria ter dado algum defeito. Riu de si mesma. Então, o rádio ligou mais uma vez, causando pânico em Hermione. Sentiu os batimentos cardíacos em seus ouvidos. Tentou desligá-lo, mas não conseguia. Apertava o botão de desligar, contudo, o som da voz do pastor, fazendo sua pregação continuava ecoando, com um volume quase insuportável.

— Maldição! – praguejou, tentando baixar o volume.

Olhou pelo retrovisor, para ver se ninguém vinha atrás dela. Precisava estacionar e tirar o rádio. Era removível. Contudo, ao ver pelo retrovisor, não esperava ver Fred e Roy sentados no banco de trás, com a mesma aparência a qual tinham, quando morreram. Ela gritou. O pânico a deixou nervosa, fazendo-a girar o volante. O carro deslizou na pista. Não conseguia usar os freios. Simplesmente, havia perdido o controle. Tentou pisar no pedal, mas estava emperrado, como se estivesse com defeito. Pela velocidade que seguia, pois a pista era de cem por hora, o carro girou e girou, até adentrar o barranco. A descida por entre as árvores fez o veículo bater contra um dos pinheiros. Hermione bateu com força mais uma vez a cabeça, que ainda estava com um hematoma feio. Apagou em seguida.

**

— O que há com esses jovens? – pensou ter escutado.

— Ela parece ter bebido – escutou alguém zombar – Não imaginava que Hermione Granger, a melhor da sua turma de formandos, teria problemas com álcool.

— Tenha mais respeito – escutou o outro protestar – Pode ser algum problema hereditário.

— Velho Granger bebendo? Essa é boa. Ele é um carola.

— Não sabemos se isso não vem de outras gerações.

— E desde quando ser alcoólatra é algo hereditário.

— Não sei. Li em uma revista.

— Deixa de ser idiota, Morris. Vamos só a tirar daqui e colocá-la na cama.

Hermione começou a se mexer. Sentia que não conseguia abrir os olhos. Mas, ao menos, conseguia mexer seus membros.

— Ela está acordando, Davis.

— Moça, fica calma. Estamos te tirando do carro.

Hermione abriu os olhos. Pareciam cobertos de areia. Somente via escuridão, mas a luz de faróis iluminava os rostos de dois homens. Pela roupa, pareciam paramédicos.

— Ela está consciente, isso é bom – um deles disse.

— Vou precisar que você fique calma e deixe-nos retirá-la daqui. Sou Morris. Você não se lembra de mim, mas estudamos juntos no colégio.

— Vai cantar a moça, agora? – o seu colega zombou.

Hermione não conseguia dizer nada, ou ao menos protestar. Estava exausta. Sentia a cabeça latejar e uma dor intensa na perna.

— Pisque uma vez se está me entendendo, Granger – Morris pediu.

Ela o fez. Entendia, mas não conseguia falar.

— Ótimo. Vamos tirar você agora.

Ele a removeu com todo cuidado possível. Mas, ela choramingou de dor. Morris a tratou com um respeito que nunca sentira em toda sua vida. Com a ajuda do outro colega, ela fora removida para uma maca e levada para ambulância. Procurava o olhar bondoso de Morris, enquanto ele colocava o soro nela. Sentiu-se sonolenta, de repente. Com certeza, morfina devia ter sido aplicada, pois a dor que sentia era intensa, contudo, tinha medo de olhar sua perna.

— Vai fica tudo bem – Morris parecia ler seus pensamentos, segurando sua mão, enquanto a ambulância seguia seu caminho – Apenas durma.

E ela dormiu, vendo seus olhos castanhos bondosos.

**

Acordou com a nítida sensação de estar caindo. Lembrava-se perfeitamente de cair em um abismo. Mas, estava na cama. Seria mais um de seus sonhos sonâmbulos? Teria de perguntar a sua mãe se era sonambula. Nunca teve problemas para dormir. Bom, seu problema era não dormir as horas recomendadas. A ansiedade era algo que lhe dava insônia. Estranhamente, em Mountain Black conseguia dormir. Contudo, parecia que saia do seu quarto, para andar a noite pela cidade. Suspirou. Então, abriu os olhos. Primeiro, reconheceu que não estava na pensão. Segundos depois, havia se lembrado do acidente. O rádio que ligara sozinho. Lembrava-se de ter a visão nítida de Roy e Fred no banco traseiro. Fechou os olhos com força, sentindo seu corpo estremecer. Uma dor aguda irradiou então, de sua perna. Observou que ao mexê-la, doía muito. Tocou-a com hesitação, sentindo o gesso sobre seus dedos. Socou a cama, com raiva. Por que isso estava acontecendo consigo? Por que os freios não funcionaram? Tinha a impressão de apertá-los com o pé. Tinha certeza de ter feito isso e não adiantara.

Passou a mão pelo rosto suarento, sentindo a ansiedade na boca do estomago. Alguém a queria morta. Alguém a queria longe dali. Só restava saber quem era o responsável por isso. Ao menos, um acidente ela sabia que era sua culpa. Contudo, não sabia se poderia acreditar em Malfoy, sobre ser sonambula. Isso ela teria de descobrir com seus pais. Os pais que ela não queria realmente ver e que com certeza, eles não queriam vê-la.