O teto parecia mofo. Era algo comum para uma casa de estrutura antiga como aquela. Mas, a mancha incomodava profundamente Hermione. Ela fitou o teto, com insistência, desejando arranjar uma cadeira, para limpar a mancha. Sua cabeça, no entanto, estava pesada. Latejava. O ventilador de teto fazia um barulho alto, um rangido irritante, que não a deixava adormecer. Sua situação não era a melhor possível, afinal, não conseguira trocar as passagens de avião. Não havia voos para Londres, até a semana seguinte, pois estavam esgotados. Ela teria de passar mais um tempo ali, o que não era algo que estava esperando. Dali duas semanas, teria um evento, para falar sobre seu novo livro de romance policial, onde aconteceria uma noite de autógrafos. Seu agente ligara para ela, um tanto irritado por ela ter saído de Londres, sem ao menos avisá-la. E seu humor piorara ao saber que ela voltaria em uma semana.

Com aquilo em mente, pensou que poderia trabalhar em seu novo manuscrito. Sentou-se na cama, mas a cabeça latejou em protesto. Precisava pegar leve, ou ficaria com a saúde comprometida. E não poderia se dar ao luxo de ficar doente. Tinha muito trabalho a fazer. Voltou a se deitar na cama, com um saco de gelo sobre a cabeça. Cortesia de Gina, que havia batido em sua porta, depois de trinta minutos que estava dentro do hotel. Não sabia se deveria desconfiar do gesto pacífico ou não. Talvez, fosse apenas um gesto de uma boa hospedeira. Talvez, fosse isso mesmo.

Fechou os olhos, contando mentalmente, usando a respiração, para espantar a ansiedade que a perseguia. Logo seus músculos relaxaram e a respiração se tornou calma. Pensamentos confusos vieram a sua mente. Épocas que não desejava lembrar, mas vinham em sua mente sem ter controle sobre. Conseguia lembrar-se nitidamente dos tempos de escola, quando precisara aguentar anos de ofensas gratuitas sobre sua aparência ou sobre o quanto era estudiosa. As risadas de Parkinson, Crabble e Goyle ecoavam como navalhas, ferindo-a profundamente. O baile de inverno, o qual precisou voltar para casa, pois Parkinson cortara seu vestido com uma tesoura e ninguém ao menos a defendera por isso, nem ao menos seus melhores amigos. Ainda conseguia se lembrar do ar de deboche de Parkinson, o sorriso satisfeito, abraçando Malfoy pelo pescoço. Ele a fitou inexpressivo, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.

Então, o vazio. Era como a tela escuro, como a televisão desligada, sem refletir nada, nem ao menos estática. Ela se sentia letárgica e leve, estranhamente bem. Abriu os olhos, pois sabia que estava de olhos fechadas. Percebeu que não estava em seu quarto, mas em uma floresta densa e profunda. Caminhou, buscando a saída, mas escorregava a cada passo que dava. A terra estava úmida e seu aroma característico emanava. Não se lembrava de ter saído do hotel, o que era muito confuso. Então, divisou alguém, por entre as árvores, chorando. Seguiu o som do choro, vendo alguém de costas. Cabelos ruivos. Pensou se tratar de Fred. Esticou o braço para tocá-lo. Mas, ele se virou antes. Sua garganta estava cortada, jorrava muito sangue. O grito dela nunca veio. Ecoava em sua mente. Fechou os olhos, pedindo para acordar, apenas acordar.

— Ei, ei – sentiu alguém tocar seu ombro. Estava no hotel. Gina estava ao seu lado, com um olhar preocupado – Você está bem?

— Eu...- ela murmurou, sentindo a garganta seca. O rosto estava molhado. Passou o dorso para limpar as lágrimas – Sim.

— Você estava gritando tanto, que os hospedes reclamaram – Gina comentou, se afastando da cama. Mas, não havia julgamento em sua voz – Quer um chá para se acalmar?

Hermione se sentiu envergonhada por ter se permitido gritar e se expor. Mas, a oferta do chá a fez baixar a guarda.

— Sim...eu aceito, se não for incomodar.

Gina anuiu com a cabeça e saiu do quarto. Hermione sentou-se na cama. Então, uma pergunta veio em sua mente. Gina saberia que seu irmão havia morrido devido aquelas circunstâncias? Seria possível que alguém tivesse contado a ela sobre a situação de Fred? Seria ela a primeira a lhe dar aquela notícia? Levantou-se, agitada. Pensava no que fazer. Não gostaria de ser a primeira pessoa a lhe dar aquela notícia terrível. E se não contasse, seria omissão. O que ela não gostaria de fazer com Gina, afinal, Hermione devia isso a ela, pelos anos de amizade que tiveram.

Foi até a janela, para abri-la, pois o quarto continuava abafado, mesmo com o uso do ventilador. Quando abriu, pode ver a rua escura. Já era tarde. Observou a rua erma e vazia. Não se lembrava de Mountain Black ser um local tão vazio e bucólico. O nome da cidade havia sido dado, devido a estar localizado perto de uma cadeia de montanhas, que deixavam a vista da cidade ainda mais impressionante.

Pensativa, ela não havia notado que o carro Mustang continuava parado no mesmo lugar. Quando se deu conta, percebeu que alguém saia de dentro. Tinha quase certeza que era ele, a observando. Ele estava parado, em frente ao carro, olhando para sua janela, com um cigarro na mão. Ela engoliu a seco. Se afastou da janela, cerrando as cortinas.

— O que esse maluco quer? – murmurou.

— O que disse? – Gina indagou, atrás dela.

Hermione se virou, com um sorriso amarelo. Observou a bandeja com chá nas mãos dela. Um gesto atencioso, apesar de fazer muito calor ali, para um chá. Mas, talvez isso a acalmasse.

— Nada – respondeu Hermione – Eu não disse nada.

— Hum – Gina murmurou, desconfiada, se afastando, para deixar a bandeja sobre a mesinha de cabeceira – Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Estou no quarto ao lado.

— Você...não vai para casa? – perguntou Hermione, curiosa para saber o que sua antiga amiga estava fazendo naquele hotel e porque não estava com sua própria família.

Gina franziu o cenho, parecendo não gostar de ser questionada.

— Não. Eu moro aqui – respondeu, secamente – Boa noite.

Hermione tentou saber o que dizer, antes que ela se fosse, mas Gina deixou o quarto, sem que ela tivesse chance de ao menos, pedir desculpas pela intromissão. Sentou-se na cama, então, para beber o chá. Fitou a janela, com a cortina rosa, cerrada. Não poderia deixar a janela aberta. E se alguém tentasse entrar? No caso, o homem que estava do lado de fora, que ela sabia sabia ser Draco Malfoy. Ela sentiu-se enregelar. Foi até a janela, espiando pela fresta da cortina. Ele não estava mais lá. O que de certa forma, era um alívio. Ou, poderia ter imaginado que era ele, afinal, a rua estava escura. Talvez, estivesse imaginando coisas. Mas, por garantia de segurança, apenas fechou a janela.

Voltou a se sentar na cama, pegando o chá sobre a mesinha de cabeceira. Verteu o líquido, que estava morno. Parecia um chá de ervas. Tomou com calma, acalmando sua respiração, respirando e soltando o ar. Não conseguia parar de pensar em Fred. Na forma como ele lhe viera no sonho. O que teria acontecido com ele, para ser morto daquela forma tão brutal? Ainda se perguntava se a própria família sabia da sua situação. Ou se preocupava com ele. Um sono estranho, em seguida, veio. Ela se deitou na cama, com as luzes acesas do cômodo e dormiu. Sua noite fora repleta de pesadelos, os quais via Draco Malfoy persegui-la, por entre ruas ermas, ou Fred sendo assassinado pelas mãos de Malfoy.

**

Hermione passou a manhã escrevendo seu manuscrito, ao menos, trabalhando nele. O próximo livro de sua série policial precisava ser publicado em seis meses, o que lhe dava pouco tempo para trabalhar. Ficou dentro do quarto e tomou café muito mais tarde, sem cruzar com Gina pelo hotel. Apenas com poucos hospedes. Não se atreveu a sair do hotel. Contudo, o tédio parecia corroê-la por dentro. Não escrevia uma linha fazia mais de trinta minutos e seu personagem não parecia conseguir desvendar o mistério quanto ao assassinato de um personagem central, mas secundário. Fechou a tampa do notebook, sentindo-se péssima. Uma escritora medíocre. O que havia feito de sua vida, a não ser, escrever? O processo criativo era tudo que tinha. Tudo que lhe restou, depois que seus pais cortaram contato com ela. Tinham seus motivos claro. Disseram: "Você é um tanto arrogante, Hermione. Pensa somente em si mesma. Na sua carreira. Naquilo que deseja, mas no fim, vai morrer sozinha, amargurada, sem ninguém". Ela não chorou com aquela acusação tão dura do seu pai, feita por telefone. Não. Ela não chorou. Mas, também, não voltou para casa, quando sua mãe estava doente. Será que estaria viva agora? A culpa a correu por dentro, como se fosse um verme, se alimentado dela. Era hora de parar de pensar. Precisava se levantar da cama. Precisava sair daquele quarto. Respirar, pois parecia que o quarto estava faltando oxigênio. Um ataque de pânico, talvez? Bom, não era dada a ataques de pânico. Muito menos, momentos de irracionalidade.

Levantou-se da cama, deixando o notebook sobre a colcha, que parecia ser feita de retalhos de outros tecidos. Olhou atentamente a peça única. Aquilo só poderia ser feito pelas mãos habilidosas da senhora Weasley. Sorriu consigo mesma. Como Molly Weasley era bondosa. Uma excelente mãe, amiga. Como ela estaria lidando com a morte do seu garoto? Como poderia não ter tentado lutar por ele, para tira-lo do uso da heroína? O que uma droga poderia fazer com um ser humano, cheio de vida, para então, definha-lo, consumi-lo por dentro, de forma tão profunda, enfim, o desumanizando? Eram reflexões as quais Hermione não queria ter. Lembrou-se imediatamente que precisava sair daquele hotel. O local parecia enfeitiçado, para que ela parasse para refletir coisas que não desejava. Pensou consigo mesma: aquilo não era problema seu. Saiu do quarto, em seguida, trancando a porta com a chave com pingente de madeira. Enquanto descia as escadas, observava o ambiente. O hotel estava em um estado conservado, para a quantidade de anos que existia. Talvez, duzentos. Ela não saberia dizer. Mas, o chão de madeira estava bem polido. O corrimão não estava destruído pelo avanço do tempo. Conservado e envernizado. Desceu as escadas, deslizando a mão pelo corrimão, fitando o teto. Um lustre de porte médio estava pendurado, iluminando o ambiente. A luz que incidia era de tom amarelado, cansando sua vista. Fitou a recepção, vazia. A campainha de prata. A cadeira antiga, giratória de estofado cinza. Como Gina conseguiu aquele lugar e passou a morar ali? Onde estavam seus familiares. Mais uma vez, Hermione estava divagando sozinha. A porta da frente se abriu, de repente. A campainha antiga, de presença tocou. Ela fitou assustada para o visitante inesperado, mas era apenas um dos hospedes do hotel. William Moore. Ao que parecia, o hotel hospedava uma parte dos turistas, interessados em conhecer as cadeias de montanhas que rodeavam a cidade.

— Boa noite, Hermione — ele disse, com um sorriso, corado. Vestia uma camiseta azul, combinando com uma calça caqui e botas para caminhada — Vai até Lower's? Sugiro um velho whisky do senhor Lower. Nossa, eu parece estar pegando fogo por dentro.

Hermione não pode deixar de rir da sinceridade do rapaz.

— Bom, vou experimentar — ela anuiu com a cabeça, de forma simpática.

— Te vejo no café da manhã. Acho que vou voltar cedo. Vamos sair as cinco para escalar a Mountain Black — ele disse, como se já fossem amigos.

Hermione não negou que não o veria pela manhã, pois com certeza, ele não voltaria cedo da sua caminhada. E que talvez, ela o evitasse. Apenas sorriu mais uma vez e deu boa noite, saindo e fechando a porta, escutando mais uma vez o sino familiar. Desceu as escadas da varanda, que rangiam sobre seus pés. Percebeu tardiamente que Gina estava sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma hospede, talvez. Elas lhe deram boa noite, de forma cordial, cumprimento que Hermione retribuiu, um tanto constrangida. Não sabia o que fazer diante de uma velha amiga, que se tornara uma mera desconhecida para ela. Apenas girou pelos calcanhares e seguiu seu caminho, passando pelo portão de ferro.

Fez o caminho até o bar da família Lower. Nominado Lower's, em homenagem a família e ao primeiro Lower que se estabeleceu no local, com seu whisky envelhecido em um barril, enquanto fazia a travessia da Irlanda até a América do Norte. A brisa morna a envolveu, em sua caminhada. Passou por ruazinhas comuns, com casas tão parecidas e tão antigas. Algumas crianças andavam em suas bicicletas, no local onde carros poderiam passar, contudo, tudo estava tão ermo e tranquilo. O céu não estava encoberto. A lua no firmamento brilhava, com sua beleza e encanto, com certeza, convidando os moradores a saírem de suas casas, pois estavam espalhados em seus quintais, conversando, bebendo ou comendo. Alguns até mesmo grelhavam carne em suas grelhas. Era típico daquela vizinha se portar daquela forma. Não sabia que sentia falta da familiaridade daquelas ruas.

Virou a esquerda, entrando na rua onde o comércio se localizava. Alguns lugares estavam abertos, como restaurantes e bares. Seguiu para o local que tinha uma faixada pendurada, de madeira, com o nome "Lower's" talhado. O bar seguiu um estilo rústico, de pub. Hermione escutou a conversa, as risadas. O ar condicionado estava em uma temperatura agradável ao menos. Não imaginava que o senhor Lower se daria ao luxo de deixar o local mais goumertizado, para agradar sua clientela. Esperava questiona-lo e conversar sobre seus negócios, afinal, o conhecia desde pequena, mas encontrou um atendente no balcão, o qual nunca virá. Tinha um piercing na sobrancelha escura, a cabeça raspada e braços a mostra, coberto de tatuagens. Atrás dele havia uma coleção de copos de vários tipos, para servir bebidas variadas. Bebidas nas pratilheiras altas reluziam, pela meia luz do ambiente.

— O que vai querer? — ele perguntou, com uma voz grave.

O atendimento não era bom, mesmo que o bar estivesse reformado e parecendo uma franquia. Ela apenas disse que queria um whisky com gelo e ele puxou a garrafa do alto de uma pratilheira, com o rótulo da família. Eles continuavam sua tradição, ao menos. Sentiu falta da familiaridade que tinha naquele lugar. Os jovens se aglomeravam em mesas e bancos de madeira. Da caixa de som saia música folk. A risada ecoava no ar, mas isso não contagiava Hermione. Ela se sentia deslocada ali. Não havia motivos, nem nada que a ligasse àquela cidade. A única pessoa que importava, havia morrido. E não contava seus pais, pois eles cortaram laços há tanto tempo que sentia-se órfã.

— Dia difícil? — indagou o atendente, deixando a bebida sobre o balcão, com um suporte de papelão. Não percebeu o que estava desenhando no suporte. Fitou apenas o atendente. Tinha grandes olhos castanhos. Mas, seu olhar era sisudo. Havia uma identificação na camiseta preta. Seu nome era Roy.

— Por que pareço estar tendo um dia difícil? — rebateu ela, pegando o copo de whisky e bebericando a bebida. Continuava igual, como sempre fora. Forte, encorpada e descia rasgando.

Ele cruzou os braços fortes, mostrando suas tatuagens tribais, com uma sobrancelha negra erguida, como se a desafiasse.

— Não sei. Talvez, pelo seu olhar cansado. As olheiras — apontou com o dedo indicador para ela — E quem pede whisky, para tomar sozinho, no balcão, geralmente, não está tendo um dia fácil.

Ela bufou e riu com escárnio.

— Você parece especialista em tipos de clientes, então — ela zombou.

Isso não o desecorajou. Na verdade, se ela queria que a conversasse se encerrasse, para tomar sua bebida em paz, aquele foi o caminho errado de se seguir.

— Bom, eu sei muito bem sobre meus clientes e o que eles guardam dentro de suas almas, trancando seus segredos com correntes, as vezes. Geralmente, conheço-os muito melhor, quando se sentem aqui, no balcão.

Hermione suspirou, revirando os olhos, mexendo a bebida. O gelo derretia de forma lenta. A bebida ficaria aguada, em breve, mas ela havia perdido a vontade de provar o melhor whisky da região.

— Eu não estou parecendo uma pessoa com um dia péssimo. E você não sabe nada sobre mim — retorquiu.

Ele a fitou, nada convencido.

— Sei quando alguém precisa conversar e não estou enganando dessa vez.

Quando alguém pegaria um banco ao seu lado, para que ele calasse aquela maldita boca? Verteu a bebida, quase que toda, deixando ainda um resto no copo. O whisky queimou-a por dentro, mas, não importava. Queria dar o fora dali, antes que falasse algo que ele não gostaria de ouvir e com consequência, ser chutada para fora do bar. Ao que parecia, alguém entrou no recinto, ressoando a campainha de presença e Roy se afastou dela, mas talvez, não tivesse desistido de importuna-la.

Voltou a mirar sua bebida. Droga! Sentia-se miserável novamente. Parecia que Roy entendia sim dos seus clientes, mas, ela jamais iria admitir isso a ele. Isso iria inflar seu ego, que já era enorme e ele não deixaria de importuna-la. E ela não queria fazer amizades naquela droga de cidade. Estava de saída, para nunca mais voltar. Mas, algo acendeu em sua mente. Uma ideia se formava. Talvez, Roy soubesse da morte de Fred. E poderia lhe dar algumas pistas. Eles poderiam ser conhecidos, pois Roy fazia o estilo de Fred. E Fred gostava de frequentar o Lower's. Poderiam se conhecer. Olhou para Roy, que estava entretido com o cliente. Não havia percebido quem estava sentado uma banqueta distante dela. Notou os cabelos loiros, a jaqueta de couro, a calça jeans claras e botas de caminhada. Voltou a olhar Roy, que parecia conversar com ele de forma tranquila, como se já se conhecessem. Não conseguia ouvir o teor da conversa, devido ao barulho, mas não precisava ouvir a voz do homem que estava ao seu lado, para saber quem era. Precisava sair dali, o mais rápido possível.

— Roy — tentou chamar a atenção dele, com um aceno da mão, mas ele não parecia ter ouvido, pois estava de costas para ela, pegando uma garrafa com uma mão e com a outra um copo.

— Ele não vai te ouvir. Quase nunca ouve.

Ela se virou, abruptamente para quem dissera isso. Um par de olhos cinzentos a fitaram, de forma inquietante. O maldito havia trocado de banqueta, para ficar ao lado dela. Ela se encolheu, segurando o tampo de madeira do balcão, controlando sua ansiedade.

— Tudo bem. Eu vou deixar o dinheiro no...- ela estava puxando do bolso a carteira, quando ele tocou seu ombro.

— Fique, não se sinta pressionada pela minha presença — ele disse, perto do seu ouvido.

Ela não gostou do contato dele. Não gostou da forma como sua voz de barítono reverberou em seu ser, de forma inquietante, como se vibrasse em todas as suas células. Não gostou da forma como ele segurava seu ombro, tão pouco. Se afastou, irritada. Bom, ela não iria se sentir pressionada pela presença dele. Naquele momento, era uma questão de honra aproveitar sua bebida em paz. E não iria sair dali, por causa dele. Mesmo que ele fosse um maldito perseguidor.

— Por que estava espiando minha janela? — ela perguntou, em um tom que ele pudesse ouvir, mas não se atreveu a olha-lo.

Escutou a risada dele. Parecia tranquila, sem zombaria.

— Eu queria ver o que uma mulher como você estaria fazendo aqui. Fiquei curioso, admito.

— Você não tem bom senso. Parece um maldito stalker — ela rebatou, com irritação — Veio até aqui, para me vigiar também?

— Não...não...claro que não — ele riu, em seguida — Eu não estou interessado.

Isso a ofendeu, contudo, ao menos, ele não parecia tão louco quanto pensara a princípio. Contudo, suas preocupações quanto as intenções dele não se apagaram. Ainda ficava a questão do por que ele estar do lado de fora do hotel, a observando. Eles não eram amigos. Passavam de meros conhecidos. Ela o odiara por tanto tempo, que não havia como simplesmente sentarem juntos e tomarem uma bebida, como se nada tivesse acontecido. Mesmo assim, bebericou o resto do whisky, que ficara aguado por não bebê-lo no tempo certo.

— Então, se não está interessado, qual é seu problema? — indagou ela, ríspida. Roy havia terminado de preparar a bebida de Malfoy, deixando-a sobre o balcão, dando uma piscadela irritante para Hermione. Outro cliente havia chegado, naquele tempo e ele foi servi-lo.

— Eu disse, apenas curiosidade — pegou o copo, com uma bebida que parecia se mojito e verteu — Eu não a estava perseguindo. Aliás, como está sua cabeça? Ainda dói?

— Dói um pouco...é...- ela se calou. Ele estava tentando estabelecer uma conversa amigável e ela não iria cair nessa. Mas, havia caído. Respirou profusamente. Estava se deixando se levar pelo efeito do álcool — Roy — chamou ele, que a fitou, com um olhar solicito, dessa vez. Por algum motivo, havia conseguido o afeto do atendente. O que não era o que ela estava esperando — Mais um desse — ergueu o copo.

— É pra já — ele disse, com um sorriso um tanto malicioso.

Ela revirou os olhos. Mas, estava gostando de estar ali. A música se tornava agradável aos ouvidos. A risada das pessoas pareciam contagiante. Até mesmo a presença de Draco não a incomodava. Não muito.

— Você vai ficar bêbada logo, se pedir mais um copo — Malfoy avisou, ao lado dela — Não que isso seja da minha conta, mas as bebidas do Lower...

— São fortes, eu sei — interrompeu ela, tomando coragem para fita-lo. Ele a olhava com uma espécie de curiosidade estranha. E ela não queria ser o objeto das suas atenções — Me diga uma coisa, senhor Malfoy, o senhor não tem outro lugar para ir? Talvez, para um local mais...ao seu gosto?

Ele deu de ombros, vertendo a bebida do seu copo.

— Não. Aqui está muito bom — ele respondeu, com humor — Se não está bom para você, no entanto, sugiro voltar para seu hotel.

Touché!, pensou ela. Bom, havia solucionado o mistério, quanto a ele ser ou não um perseguidor. E ele não era. O que era de certa forma, uma alívio, afinal estava sentada ao lado dele. Contudo, ele parecia muito aberto a se relacionar com ela, o que demonstrava o interesse que ele havia dito não existir. Lembrou-se de segurar seu copo com força, afinal, se ele fosse alguém com quem deveria se preocupar, colocaria algo em sua bebida. Um beladona não estava em seus planos.

Ficaram em silêncio. Era algo que desejava, de fato. Roy se aproximou, servindo outro copo e retirando o sujo. Hermione bebericou devagar a bebida dessa vez. Roy continuava seu atendimento da noite. O bar se enchia de vida. Malfoy continuava ali, conversando com Roy, nos momentos em que ele estava livre. Hermione notou que havia mais de um atendente naquela noite. Alguns iam e vinha da cozinha, com portas de vai e vem. Pessoas que não conhecia. Rostos que não se lembraria pela manhã. Roy se aproximou dela, depois de terminar o segundo copo.

— Vai mais um? — indagou.

— Pode ser — ela respondeu, mesmo que já tivesse passado sua cota.

Não queria voltar para o hotel. Nem para seus pesadelos. Não parecia algo atraente. E a companhia de Malfoy ao seu lado, mesmo que silenciosa, era reconfortante. Ele era o único da cidade que reconhecia no meio dos rostos desconhecidos dentro do bar. O que era irônico, afinal, ele era um dos garotos o quais a viram sofrer bullying constante, fazendo o mesmo, sem nunca ajuda-la. Nunca oferecendo uma mão ou sua amizade.

— Você conhecia Fred? — perguntou a Malfoy, tomando o terceiro copo aquela noite.

Ele não havia terminado seu mojito ainda, o que era curioso.

— O que? — ele disse.

— Eu disse, você conhecia Fred? Fred Weasley?

— Ah — ele disse. Seu rosto demonstrou reconhecimento. Fitava além dela, como se recordasse algo — Sim, sim. Ele era atleta.

— Exato — ela disse, com a língua entorpecida — O melhor, eu diria. Um bom amigo. Alguém que estaria do seu lado, não importava o que acontecesse.

— Hum — Malfoy disse. E ficou em silêncio.

— Você sabia que ele morreu? — Ela perguntou, tomando a coragem que não tinha antes, o fitando profundamente. Ele a encarou, sem emoção alguma, como se aquilo não fosse seu problema. E não era. Mas, ela queria alguém para falar sobre sua morte. Alguém que não a conhecia de verdade e que não fosse fazer qualquer julgamento sobre ela ou sobre Fred — Fazia muito tempo que não conversávamos. Uma ligação era o que eu esperava dele, mas ele nunca ligou, sabe? — ela riu, sem humor algum. Uma risada amargurada — Mas, tudo bem. Ele me pediu para visita-lo e eu o encontro morto. Morto...

Vazio, sem vida. Essas palavras ecoavam em sua mente, como se fosse pregos em um caixão. Era tão mórbido. Tão triste, como plantas secas em um vaso de terra. Passou o dedo indicador sobre o copo, sentindo-se realmente, muito mal. Queria ter tido a chance de ajuda-lo. A culpa era algo que não ajudava em nada, mas estava encalacrado em seu ser, de forma pegajosa.

— Eu não sei o que dizer — Malfoy disse. Ela não sabia se ele parecia sentir muito. Não estava olhando para ele, apenas para a bebida ambarina em seu copo — Fred não era alguém com quem eu conversaria. Não éramos próximos.

— Eu sei — ela murmurou — Você era um babaca.

A risada dele ecoou, então. As palavras sinceras dela não pareciam tê-lo ofendido. E ela queria feri-lo. Queria feri-lo tão fundo, como uma navalha cortando sua pele. Por que estava tão agressiva, afinal?, se perguntou. Talvez, porque não pudesse perdoa-lo por tudo que ele a fez passar. Pelas piadas que fizera dela. De como a olhava com desdém frio. Um olhar de superioridade.

— Eu sei — ele concordou, deixando o copo de bebida pela metade no balcão — Acho que eu tinha inveja de você, dos seus amigos.

— Inveja? Inveja do que? — ela perguntou, se virando para ele, enxergando vermelho. A raiva pulsava em seus ossos.

Ele não parecia ter medo disso. Na verdade, estava muito confortável em seu banco de bar, com as costas apoiadas no pequeno encostos e os pés sobre o ferro que circundava o banco. Parecia intocável. Tão...absurdamente perfeito. Imaculado. Ela queria tirar aquele olhar tranquilo dele. Queria abala-lo em sua estrutura, mas apenas segurou o copo consigo. Se tivesse apertado com mais força, talvez, o quebrasse.

— Inveja de como a vida parecia simples para vocês — ele respondeu, de forma sincera — Pacata, mas simples. Uma família estruturada. Boas notas. Parece algo a que se invejar.

Sua resposta não fazia o menor sentido para ela, afinal, ele era filho do governador do estado. Como poderia desejar algo tão pacato, como a vida que ela e seus amigos tinham? Sem perspectivas de sair daquela cidade pequena e provinciana?

— Isso não faz o menor sentido. E isso não o exime de ter sido um maldito idiota — ela rebatou, bebendo o whisky, como se fosse água — E isso...nossa...- ela sentiu a cabeça rodar.

— Wow, vai com calma — ele disse, parecendo se preocupar — Você deveria ir para o hotel. Descansar. Você bateu a cabeça e não foi no médico para verificar essa contusão. E está...- ele a fitou com um olhar estudado — Um tanto arroxeada.

Ela levou os dedos a testa. Doía a menor toque. Mas, não se importava. Colocou o copo gelado sobre o machucado, sem se importar se estava sendo deselegante. O contato da superfície fria a fez chiar de dor, mas o deixou ali. O álcool já estava anestesiando o resto da sua dor. Malfoy a fitou com um olhar de riso.

— Você não parece bem — comentou — Eu preciso ir, mas me disponho a leva-la de volta.

— Não, obrigada — ela negou com a cabeça, estalando a língua — Não preciso de você.

— Ok — ele anuiu com a cabeça. Seu semblante se fechou.

Levantou-se, pegando a carteira do bolso e deixou algumas notas sobre o balcão. Despediu-se de Roy e saiu do seu campo de visão. Que fosse para o inferno, pensou. Voltou a beber o whisky, que havia misteriosamente terminado.

— Você devia ir pra casa — Roy comentou, em frente a ela. Não se lembrava de ele estar ali, a olhando. Ele parecia atraente. Ou era a bebida lhe dizendo isso.

— Por que todos estão me mandando para casa? — indagou, irritada — Eu pago pela bebida, você serve.

Roy riu, negando com a cabeça.

— Eu tenho meus princípios e esse bar é um local respeitável, familiar. Então, peço que vá pra casa.

Hermione bufou, irritada.

— Eu posso te servir uma água, se não quer ir para casa ficar sozinha.

Ela o fitou com um olhar zangado. Como ele se atrevia a ser tão...perspicaz? Anuiu com a cabeça a contragosto. Ele voltou com o copo de água em seguida e ficou ao seu lado, se escorando no balcão. Ela pode ver as tatuagens e seus padrões geométricos. Não havia percebido que ele tinha triângulos nos braços. Uma tríqueta.

— Desenhos interessantes — ela disse, terminando de tomar a água — Tem significado?

— Algumas sim. Outras, nem tanto — ele respondeu, parecendo envaidecido pela pergunta dela — Eu já fiz muita besteira. Tatuei bêbado algumas, com alguns amigos. Outras, apenas pela moda, como essa tribal — indicou no braço direito — Algumas são para proteção. Outras eu achei interessante o desenho. Eu apenas...não sei...eu gosto de ter esses desenhos. São partes, fragmentos da minha personalidade...

— Escrita em seu próprio corpo. Interessante — ela disse, com a língua enrolada — Diga-me Roy. Quero perguntar algo a você. Estaria disposto a ser sincero?

— Claro — ele respondeu, um tanto surpreso pela mudança de assunto.

— Você conhecia Fred Weasley?

O cenho dele franziu. A boca crispou. Algo havia reluzido em seus olhos. Algo que ele não parecia disposto a compartilhar. O que a fez se sentar melhor no banco. Precisou se segurar na beirada do balcão, para não cair, devido ao movimento brusco e por estar alcoolizada.

— Conhecia. Por que? — perguntou, ríspido.

— Como era a relação de vocês dois?

— O que? Você é uma maldita policial?

O tom bruto dele a assustou. Alguns clientes que estavam no balcão viraram suas cabeças para saber que havia gritado.

— Eu sinto muito...- sussurrou, assustada — Eu não queria...

— Não. Você não queria. São 100 pratas, moça. E dê o fora.

Hermione puxou, ou tentou puxar a carteira do bolso, deixando a cair no chão. Suspirou, desalentada e desceu do banco, precisando se equilibrar no balcão. Aquela bebida era a mais cara que tomara em toda sua vida. Bom, estava mentindo. Tomou outras mais caras, mas não esperava pagar por aquele valor, naquele bar. Pegou a carteira do chão, sentindo-se humilhada, deixando o dinheiro sobre o balcão, sobre o olhar fulminante de Roy. Uma pena. Ele parecia tão gentil no início, pensou consigo mesma, tropêga, saindo do bar.

O calor insuportável da cidade a envolveu como uma abraço quente. Andou pela calçada, sentindo-se desorientada. Ao que parecia, Roy seria sua fonte de informações sobre Fred e como ele vivera sua vida, antes de morrer. Talvez, soubesse quem era o assassino dele. Mas, mais uma vez ela sentiu que isso não era seu problema. Mas, se estava pensando nisso por tanto tempo, era porque sentia que era seu problema. Era seu problema.

Tropeçou na calçada, caindo de joelhos. O impacto era doloroso. As mãos arderam. Fazia muito tempo que não bebia assim. Seu agente havia lhe dito, nada de bebidas, drogas. Precisava constantemente fazer exames, exercícios. Cuidar do seu físico. Da sua saúde. Era necessário. Ela gostava daquela rotina. Mas, as vezes perdia a cabeça. Levantou-se com dificuldade, sentindo-se estranhamente observada. E aquela sensação não dissipou, até chegar ao hotel. Quando chegou em frente ao portão de ferro, notou que estava fechado. Pegou o celular com dificuldade no bolso, derrubando-o no chão.

— Ótimo — resmungou, pegando o celular no chão e vendo a tela trincada. Era um sucessão de acontecimentos azarados — O que mais falta acontecer?

Verificou no telefone que eram dez horas em ponto. Gina não estava brincando quando disse que Hermione precisava chegar antes das dez horas. Estava fulminando de raiva. Tonta e bêbada. Não era justo ela dormir do lado de fora, por uma exigência daquela. Não. Ela não ficaria ali. Bateu palma, pensando que Gina viria atende-la. O máximo que conseguiria, claro, era chamar a atenção de uma forma errada, mas não se importava. Precisava entrar. Tinha que entrar. A maldita sensação de estar sendo vigiada não ia embora. Era algo muito assustador. Uma sensação pegajosa e também, paralisante. Logo se lembrou do telefone. Poderia ligar. Pesquisou o telefone do hotel no Google e o encontrou. Ligou e logo, no quarto toque, alguém atendeu.

— Boa noite — escutou a voz irritada de Gina.

— Oi...Gina...eu...estou aqui fora — disse, em tom baixo — Pode abrir?

Escutou o som inconfudível de um suspiro contrariado do outro lado da linha.

— Você sabe que horas são? — Gina perguntou, pelutante.

— Você sabe que sou sua cliente? — rebateu — E que posso processa-la?

O telefone foi desligado em seguida. Ela fitou a tela, muito irritada. Muito...A porta da frente se abriu, em seguida, dissipando sua raiva. Seu medo. Gina viria abrir o portão e ela poderia ficar em segurança. Olhou para trás, mesmo paralisada. Havia um mustang parado do outro lado da rua. Um maldito mustang. O que Malfoy fazia ali? Por que ele estava ali? Ela pensou em atravessar a rua e exigir satisfações. Provoca-lo. Mas, Gina havia percorrido a distância entre a casa e o portão e o abria, com um ar carregado. Encolerizado.

— A próxima vez que chegar depois das dez, não vou abrir — ela ameaçou.

Hermione não se importava. Não se importava mesmo com seu mau humor. Apenas entrou, tropeçando para dentro do quintal e percorreu a distância entre a entrada e a casa, aos tropeços, mas não estava se importando. Chegou a seu quarto, depois de duas quedas. Estava sendo observada por um olhar severo de Gina, que a seguiu como uma sombra até seu quarto. Chaveou a porta, recostando-se na parede e deslizou até o chão, sentando-se. Estava no escuro, o que não era promissor. Com dificuldade, ligou a luz, alcançando o interruptor, sem se levantar. Estava segura. Estava bem. Seu medo apenas era uma bobagem. Se encontrasse Malfoy novamente, iria ameaça-lo. Pedir uma ordem de restrição. Mas, o que precisava fazer era tentar trocar as passagens do seu voo, para voltar imediatamente para casa.