Um segredo obscuro - Dramione
12 Capítulo 13
Hermione sentou-se de frente para Malfoy, em uma mesa de doze lugares, preta, com cadeiras de respaldar alta, no mesmo tom. O ambiente era minimalista, com paredes claras e um lustre pendia do teto, iluminando o local, deixando com uma luz baixa. Havia uma varanda, para o lado de fora da casa, com acesso a um jardim externo. Quadros decoravam as paredes nuas. Alguns abstratos, outros de paisagens. Nada muito pessoal. Havia até mesmo uma lareira no local, que não estava sendo usada no momento.
Malfoy fizera questão de afastar a cadeira para Hermione, que se sentou com a ajuda dele e teve sua perna apoiada por outro cadeira, com uma almofada por baixo. Estava um tanto nervosa por aquela recepção. Não esperava que ele pudesse ser tão atencioso. Nunca esperou isso dele. O imaginava sem modos ou ríspido. Mas, ali estava um homem que não conhecia. E não desejava conhecer.
O silêncio era constrangedor, enquanto um empregado servia o prato branco, com decorações em dourado. Era risoto de molho branco com peixe defumado. Automaticamente o aroma impregnou o ambiente. Hermione, no entanto, não percebia isso. Sabia da riqueza de detalhes da sala. Da rica louça que estava sobre a mesa. De empregado que vestia roupas libre, demonstrando o quanto a família de Malfoy tinha de posses e riqueza. Na disso a impressionava. Na verdade, sentia o ambiente opressivo. Claro que participara de jantares tão caros quando aquele. Contudo, começou a se questionar e a questionar. A pompa da ocasião parecia tão exagerada. Na verdade, tudo aquilo era um exagero. Pensou na sua vida como um grande exagero, de coisas. Ela acumulou tanto, para não ter nada. Para não aproveitar nem um décimo do que tinha. Será que Malfoy se sentia assim também, vazio?
— Você não está comendo — O som da voz dele conseguiu perfurar sua bolha particular.
Ela o fitou. Seu semblante sério, pálido. Ele segurava o garfo, com a mão sobre a mesa. Mas, tão pouco fizera um movimento para experimentar a comida.
— Ah...- ela estava sem reação. O prato com certeza deveria ser maravilhoso. Os sabores deveriam ser muito bem combinados. Nada deveria com certeza estar fora do lugar. Mas, isso não a motivava a experimentar o risoto ou o peixe. Na verdade, em sua garganta parecia ter um bolo se formando. Algo desagradável, que a fez perder o apetite. Se ela fosse sincera consigo mesma, estava cansada. Estafada. E apática. Harry havia morrido e ela estava ali, em um jantar com um homem que mal conhecia.
— Deveria provar. Alexia ficara muito chateada de não provar esse prato. Ela fez especialmente para você.
Para você. Aquelas palavras ecoavam em sua mente, sem produzido qualquer efeito.
— Quero saber como Harry morreu — ela disse, simplesmente sem se importar se seria algo mórbido em um jantar.
Ele soltou o garfo sobre a mesa, soltando um suspiro. Parecia cansado. Passou as mãos sobre os olhos. Ela pode ver sua frustração. Podia senti-la. Ele a fitou longamente. Seus olhos cinzentos eram enervantes. Ela quase desviou o olhar, mas manteve seus olhos sobre ele, sem querer perder aquele jogo, que parecia acontecer em um acordo tácito entre eles. Não podia deixar se notar o olho machucado. O tom púrpura passando ao esverdeado demonstrava que fazia pouco tempo que entrara em uma briga. Mas, por que ele entraria em uma? Ele era um adulto e demonstrava ser contido em suas ações. Um contraste com o que era na adolescência.
— Tem certeza que deseja estragar um jantar como esse? — ele gesticulou com a mão para o prato. Seu humor era um tanto ácido.
Ela anuiu com a cabeça.
— Eu não quero tomar vinho, nem comer nada — ela confessou — Simplesmente eu...
Ela fechou a boca. Não queria contar o que vinha em seu íntimo. O quanto estava nervosa. O quanto sentia que estava enlouquecendo.
— Eu achei que soubesse — ele disse em tom de desculpas, passando a mão pelo queixo. Seu olhar se tornará brando, um tanto piedoso.
— Não sabia — ela murmurou, apertando as mãos sobre o colo — Ninguém me disse nada.
Era claro que não diriam. Ela fez questão de se isolar de todos. Não era mais uma pessoa presente na vida dos seus amigos de escola. E isso a fez pensar em Gina. Como ela conseguiu lidar com tudo aquilo? Será que ela sofrera tanto por causa da morte de Harry?
— Bom...er...- Draco passou a mão pelo pescoço esguio, como se algo o incomodasse. Evitava seu olhar, olhando através dela — Harry morreu um mês antes de Fred. Seu corpo foi encontrado perto daqui, dentro da floresta de pinheiros, que faz divisa com a cidade vizinha. Seu corpo...bom...estava em estado de decomposição.
Hermione sentiu-se enjoada imediatamente, após ouvir sobre a morte do amigo. Conseguia facilmente imaginar seu corpo deitado no chão, sem vida. Em um tom cinzento. Os olhos vazios, olhando para o céu, como se esperasse alguma coisa. Sendo o mesmo olhar que Fred tinha. O que a fez se questionar: Será que Harry teve medo momentos antes de morrer? Aquilo a assustou demasiadamente. Não queria sofrer o mesmo destino que Harry. Não queria morrer sozinha em uma floresta. Não queria ser morta, na verdade.
— E qual...qual a causa da morte? – Perguntou, hesitante.
Malfoy soltou um suspiro audível. A fitou com um olhar exasperante, que significa que não desejava tocar no assunto. O que instigou. Ela queria saber a verdade. Precisava saber.
— Granger, por que não deixamos esse assunto de lado e focamos em nosso jantar?
Ela não sentia a mínima fome. O que sentia era uma energia estranha, eletrizante, que movia seus pensamentos para tentar solucionar o mistério da morte do seu amigo. E já cogitava o que poderia ser a causa de sua morte.
— Ele morreu da mesma forma que Fred, não foi?
Malfoy anuiu com a cabeça, passando a mão entre os cabelos claros. Parecia frustrado. Na verdade, atormentado por aquele assunto. Mas, Hermione não. Ela não sentia isso. O que sentia naquele momento era sede de descobrir quem estava por trás daqueles ataques. Apesar do medo de morrer como seus amigos, era necessário descobrir quem estava causando aquelas mortes e por quê. Com certeza, era um assassino em série, pela forma como as vítimas foram mortas. Contudo, não trabalhava na área investigativa. Não poderia deduzir isso sem ter mais provas concretas.
— E o que vocês disseram sobre a morte dele, Malfoy? Vocês mentiram publicamente? – ela o atacou.
O rapaz fechou o semblante, parecendo irritado. E realmente, ele deveria estar, pois ela o atacara ao dizer aquilo. Isso seria questionar sua própria gestão como prefeito da cidade. Que parecia não conseguir garantir a segurança de seus cidadãos.
— Eu espero que isso fique aqui, Granger. Não queremos causar mais pânico na população.
Ela revirou os olhos. Como ele poderia ser tão obtuso? Como poderia jogar assim, com as pessoas, deixando-as acreditar que tudo estava bem, enquanto um assassino estava à solta pela cidade?
— Você precisa fazer algo. Precisa pressionar Thomas. Ele não é o xerife? Não deveria estar se preocupando com isso?
— Não é tão simples – respondeu, em tom irritado.
— É simples. Você precisa achar outra pessoa que faça o serviço dele melhor. Ou acionar o FBI. Teremos um banho de sangue aqui e você não está realmente se preocupando, está?
Ele evitou seu olhar. Todo seu corpo demonstrava o quanto estava tenso. O quanto isso parecia tirar seu sono. Ela deveria sentir pena dele, mas não sentia. Não mesmo. Depois da pessoa horrível que ele foi na juventude, ele merecia um pouco da dificuldade que passava.
— Você tem um motivo para ter me trazido a sua casa. Não tem? Gostaria de saber qual é.
Era sua última cartada, naquela mesa. Queria entender os motivos dele para estar tão preocupado com ela. Deveria saber de algo. Estava visível na forma como evitava seu olhar. Na forma como cerrava os punhos sobre a mesa.
— É uma longa história – ele confessou – Tudo que posso dizer é que você não deveria ter vindo. No momento que pisou nessa cidade, você esteve em perigo. O tempo todo na verdade.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que tenho uma vaga noção de quem está provocando isso. E essa pessoa pode lhe fazer mal por isso. Mas, eu não tenho certeza. Simplesmente, essa pessoa não estava na cidade quando tudo isso aconteceu. O que me fez chegar na estaca zero de suspeitos.
— E quem você acha que...foi?
Malfoy a fitou, longamente. Parecia realmente tentado a lhe dizer a verdade. Ela realmente pensou que ele diria. Contudo, o homem que parecia ser o mordomo da casa entrou na sala de jantar, com um olhar sóbrio.
— Senhor Malfoy, seu pai está estacionando o carro. Gostaria que colocasse um lugar para ele na mesa?
De repente, Hermione apenas desejava que o chão se abrisse e a engolisse. Simplesmente a tragasse para as profundezas, para sabe-se Deus onde. Talvez, para os domínios de Hades.
— Sim, por favor – Malfoy respondeu, denunciando que estava tão nervoso quanto ela, com a visita inesperada de seu pai.
— Eu acho que vou...subir – Hermione disse, fazendo menção de se levantar.
— Não, por favor, fique – ele pediu, com um olhar educado.
— Eu acho melhor...
Não havia tempo. Não havia mais nada a ser feito. Lucius Malfoy entrava pela porta da sala de jantar, segundos depois que o suposto mordomo havia saído. E não estava sozinho. Estava acompanhado de uma bela jovem, de cabelos escuros e pele branca. Ela trajava um vestido preto, no estilo tubinho, com mangas curtas. Os saltos altos, agulha, a deixavam com uma aparência curvilínea. Lucius olhou para o filho, de forma fria, então, ele a percebeu. E isso era algo que Hermione não conseguia suportar. O olhar de desprezo era algo que a feriu mortalmente. A jovem que estava ao lado dele a fitou de soslaio e dirigiu um olhar charmoso para Malfoy.
— Pai – Malfoy se levantou da cadeira, parecendo incorporar um personagem. Ele não parecia o mesmo rapaz que compartilhava a mesa com ela. O mesmo que deixou transparecer toda sua fragilidade. Não. Ali ele parecia alguém controlado, formal e frio – Não sabia que viria. Deixe-me apresentar minha convidada, Hermione...
— Granger, eu sei – cortei Lucius com frieza, fazendo um gesto desdenhoso com a mão – Eu não vim para ficar muito. Apenas trouxe Astória.
Astória, pensou Hermione. Astória Greengrass. Sabia que a conhecia de algum lugar. Ela era a garota mais popular da escola. A mesma que ria de Hermione, de forma educada, mas que evitava qualquer contato com ela. Nunca foram amigas. Nunca foram próximas. Eram de mundos diferentes. Mundos que a distanciavam de forma astronômica.
— É um prazer revê-la, Astória – Malfoy disse em tom que beirava ao superficial. Ao que parecia, pela forma como cruzava o braço para trás, a presença dela o deixava desconfortável e talvez, irritado. Ele apertava as mãos uma na outra de forma demasiada. Hermione não se admiraria se ele quebrasse os dedos, por aperta-los tanto.
— Eu senti sua falta no meu desfile, Draco – ela disse seu nome, de forma suave e andou até ele. Na verdade, parecia deslizar. Parou a dois passos dele. Muito próxima. Muito intima. Ver aquela cena embrulhava seu estomago. Desviou o olhar para a varanda. Queria sumir daquele lugar – Eu realmente esperava que fosse a Paris.
— Não pude. Estive ocupado – respondeu Malfoy, de forma seca – Mas, queira sentar-se. Eu vou pedir para servir o jantar.
O convite era algo que ela não esperava. Não. Ela não queria dividir a mesa com eles. Seu olhar foi de Malfoy, que estava de lado, sem olha-la. Desejava que ele se virasse para ela. Que dissesse com seus olhos que tudo ficaria bem, com a presença de pessoas estranhas ali. Mas, não. Ele não o fez. Claro que não faria. Ele estava em sua casa e receberia quem quisesse.
— Eu não ficarei – Lucius logo disse – Vou voltar para Seattle. Depois conversamos, Draco – E o fitou, como se desejasse explicações. Hermione fazia ideia de quais ele desejava. Com certeza, saber o motivo para ela estar ali. Uma estranha. Uma indesejada. De uma família de classe média. Alguém que não tinha a menor importância.
— Sim pai. Eu estarei ansioso por isso – Malfoy disse, de forma sardônica.
— Não me teste – Lucius replicou, com um olhar severo. Então, Hermione pode ver as semelhanças. Os dois eram altos, esguios e com cabelos claríssimos. O mesmo porte elegante. Até mesmos as roupas sociais. No entanto, Draco Malfoy era a versão mais bela dele. Mais jovem – Espero que fique bem Astória – ele se virou para ela, com um sorriso afável. Algo que não combinava com ele. Era superficial.
Então, ele saiu, sem olhar para Hermione. Era como se ela não existisse naquele ambiente. Como sempre, uma pessoa invisível. E isso inflamou sua raiva. Ele acreditava estar acima dela, com certeza. Deveria acreditar que ela não valia seu tempo. Mas, ele era apenas um esnobe, rico. Alguém que com certeza era corrupto, para ter o que desejasse, sem medir as consequências. E como sabia disso? Bom, Malfoy filho sempre ficara isento de seus erros de juventude.
— Ah, Draco – Astória disse, sentando-se na cadeira, sem esperar convite – Que jantar maravilhoso.
Ao dizer isso, ela fitou Hermione com o cenho crispado. Deixou transparecer por alguns segundos que a presença de Hermione a incomodava profundamente. O que era reciproco. Ela nem ao menos desejava estar ali.
— Então, você é Hermione Granger? – Indagou ela, como se nunca tivessem se conhecido. Como se nunca tivessem frequentado a mesma escola. Os mesmos lugares – Soube que escreveu um livro.
Ela havia escrito mais que um. Eram mais de dez. Quatro deles best-sellers. Mas, não queria discutir isso com uma jovem que provavelmente lia revistas de moda. Estava sendo um tanto preconceituosa e elitista em sua descrição sobre Astória, contudo, naquele momento não seria caridosa em seus pensamentos.
— Sim – Hermione respondeu secamente.
— Ah, sim – Astória anuiu com a cabeça, como se fosse algo muito interessante.
Malfoy se afastava da mesa, a deixando sozinha. Simplesmente partindo, para onde, Hermione não sabia. Mas, desejava sacudi-lo. Gritar com ele. Queria entender o motivo para deixa-la com uma mulher que com certeza, parecia ser sua futura esposa. Não havia um anel em seu dedo, claro. Ela cruzara os dedos, sobre a mesa. As unhas pintadas de um tom rosa, com um tamanho mediano. Nada vulgar. Na verdade, sua aparência era clássica e agradável. Não era arrebatadora. Talvez, os olhos. Os olhos eram duas pedras preciosas, de tom azul, como safira. O que despertou inveja em Hermione. Inveja pura e simples. Sentia-se miserável por isso. Boba e patética.
O silêncio se tornou opressor. Hermione apenas queria sumir. Simplesmente queria que tudo se acabasse.
— Parece que você quebrou a perna – comentou Astória, interrompendo o silêncio, que poderiam ser segundos, minutos, horas, anos ou dias.
— Sim.
Olhou para a porta, esperando. Não conseguia suportar mais um segundo daquilo. Finalmente, Malfoy voltara, com uma garrafa do que parecia ser champanhe e três taças. Logo Hermione notou que não havia nenhuma sobre a mesa. E que a comida continuava ali intocada.
**
Depois de três taças, Hermione parecia ver dobrado. Dois de Malfoy. Dois de Astória. Pensou que já poderia chama-lo de Draco. Draco, repetiu mentalmente. Por que tudo parecia tão...bom? Astória ria de algo que Draco falara. Hermione não escutou parte da piada. Na verdade, apenas notava seu rosto belo. Um rosto que ela nunca, de fato, parou para contemplar. Ele tinha um rosto oval, com maçãs marcadas. Mas, era bonito. Muito bonito.
— Você não tem jeito – Astória disse, tocando o braço dele, então deitou sua cabeça sobre o ombro dele.
Hermione sentiu desconforto por ver aquela intimidade. Fitou o lustre no teto. Um tom dourado. Contou os encaixes das lâmpadas. Seis, talvez?
— Eu nunca disse que era um cavalheiro – a voz de Draco interrompeu o seu vazio mental – Você simplesmente não compreende isso.
O tom sardônico dele não passou despercebido por ela. A forma com ele a fitava, no entanto, lhe dizia outra coisa. Parecia aprecia-la. E isso deixou Hermione enojada. Aquela cena era romântica. Estava ali, depois de três taças de champanhe. E depois de uma conversa sobre seus livros e sua vida em Londres, que Astória perguntara por mera educação. Não sabia quando os dois começaram a conversar entre si, como se ela não existisse naquela sala. Seria na terceira taça que tomou que isso acontecera?
De repente, Astória o puxou pela camisa, beijando-o de forma arrebatadora. Draco, por um momento, surpreso, aceitou ser beijado e retribuiu. Hermione não conseguia suportar mais aquilo. Puxar a perna de qualquer jeito, baixando-a no chão. Acreditou realmente ter feito de forma suave, mas, de repente, uma ponta horrível percorreu sua perna. Não, ela definitivamente havia feito a coisa errada. Mas, não conseguia mais suportar aquilo.
— Eu vou para... o quarto – ela disse, tentando interrompe-los.
Draco afastou a boca de Astória, parecendo um tanto constrangido. Tinha o rosto avermelhado. Os lábios inchados. Ela estava igual, mas radiante. Tão feliz. Hermione sentiu que queria feri-la, ao ver a felicidade estampada em seus olhos.
— Eu vou ajuda-la – Draco se afastou de Astória, fazendo menção de se levantar.
— Eu mesma posso ajuda-la – Astória disse, com um tom solicito – Desculpe-nos por isso, Hermione – ela falou, a fitando com intimidade – É que nós dois...bom...nós não temos realmente modos – Então, ela virou o rosto para encarar Draco, como se fossem cumplices.
Hermione apenas queria que toda aquela bobagem terminasse.
— Está tudo bem. Eu preciso descansar agora – respondeu, evitando fita-los. Olhou para o chão, para não precisar mais presencia-los.
— Claro, querida – Astória disse em tom compreensível – É visível que está tão cansada. Uma pena o que houve com você.
Sentiu Malfoy se aproximando dela. Não pode evitar de olha-lo. Ele olhava através dela, como se estivesse constrangido. Ela queria dizer que não se importava. Mas, de alguma forma, sim, ela sentia que aquela situação a deixava muito irritada. No entanto, não disse nada. Apenas deixou que ele a ajudasse a se colocar de pé. Foi mancado, então, para longe dele, contudo, ele a acompanhou como uma sombra. Ela estava indo muito devagar, depois que disse boa noite a uma Astória alcoolizada. Lembrou-se imediatamente que não poderia beber. Não. Quem havia pedido isso a ela era Draco. Por que então, ele serviu o champanhe?
Draco, parecendo desejar encurtar as coisas, passou o braço em torno da cintura dela.
— Venha, eu vou te ajudar a ir para o quarto. Se apoio em mim.
Ela o fez, a contragosto. O mundo parecia ruim naquele instante. Não rodava mais. O efeito do álcool a deixou mais letárgica e depressiva, naquele instante. Tons cinzentos, era isso que via. Seguiu o caminho, ao lado dele, sem falar nada. Nem sentir. Seguiram por um pequeno corredor, até chegar ao hall de entrada. Depois, seguiram um lance de escada, que parecia eterno. Sentiu a respiração opressa. A fadiga a tomava de assalto. Mas, Draco a apoiava, como se isso não incomodasse. Até que finalmente chegaram ao patamar, onde havia os quartos.
— Você não precisa me levar para o quarto. Pode ir agora – ela disse, fazendo menção de se afastar dele, contudo, Draco ainda cingia sua cintura e dessa vez, apertou-a contra si.
Estavam lado a lado, o que a fazia evitar seu olhar. Não queria vê-lo. Sentiu sua boca tocar seu ouvido, então. Imediatamente, sentiu arrepios por todo o corpo. Não gostava daquela sensação. Não gostava da sua presença. E não gostava do que ele provocava nela, naquele momento.
— Eu não a amo – ele sussurrou.
— Você não ama a quem? – Perguntou ela.
Ele afastou o rosto e ela virou-se, para encara-lo. Ele a fitava de forma diferente. Parecia intensa demais, como a fitou quando estava deitada sobre a cama.
— Astória – ele respondeu – Eu não a amo.
— Essa confissão não tem sentido – ela respondeu, rindo. Não sabia por que estava rindo.
— Eu não sei. Preciso dizer isso a você, de qualquer forma – ele justificou, parecendo confuso, de repente.
Então, soltou sua cintura, apenas para puxa-la para si. O que a fez ficar frente a frente com ele. Seus corpos muito juntos. Os rostos muito próximos. O olhar dele parecia percorrer todo seu rosto, então. Como se desejasse desvenda-la. Ela ficou atônita, por alguns instantes, diante do seu exame. E finalmente, recuperou sua lucidez.
— O que pensa que está fazendo? – Ela exigiu saber.
— Apenas vendo você – ele disse, levando uma mão ao rosto dela.
Ela afastou o rosto, em seguida. Não queria seu toque. Não queria aquela proximidade, por mais que fosse algo que despertasse emoções primitivas em si. Ele baixou a mão, parecendo constrangido. Mas, não a soltou. Apenas aproximou seu rosto, beijando a testa dela. O toque gelado de seus lábios parecia tão...doce. Quase se rendeu aquilo, mas se lembrou do beijo que ele trocara com Astória.
Soltou-se de Draco, então. Teria caído, se ele não a tivesse segurado pelo braço. Ela soltou-se, mais uma vez, mancando para longe dele. O caminho parecia mais difícil naquele instante. Ela se escorou na parede, para chegar ao quarto. Ele não a acompanhou, dessa vez. E ela não se virou para vê-lo.
**
Fechou os olhos, no instante que o viu. Simplesmente os fechou. Estava deitada sobre a cama, coberta até o queixo. Ele estava a encarando no escuro. Mas, podia ver seu contorno. Ele estava na ponta da cama, parado. Ela engoliu a seco. Pediu mentalmente que ele se fosse. Tinha medo de vê-lo. Não queria vê-lo, não no escuro daquele quarto. Então, sentiu sua presença se aproximar. Ela se encolheu, cobrindo a cabeça. Por um momento, pensou nas orações de sua mãe. Aquelas que era obrigada a decorar e entoar. Parecia bom naquele instante, para alguém que se considerava agnóstica. Recitou-as baixinho. Foi, quando se surpreendeu.
— Você está rezando?
Ela puxou o cobertor da cabeça. Aquilo era...ela nem sabia o que era. Uma invasão de privacidade. Tirou o cobertor da cabeça, com força.
— O que você está fazendo aqui? – Indagou furiosa.
— Você andava pelo corredor a esmo. Eu só a trouxe de volta – Draco respondeu, em pé, do lado que ela estava deitada na cama – Pensei que estivesse dormindo.
— Eu deveria estar – ela respondeu, sentando-se – Você é um pervertido, imoral...
— Imoral, talvez – ele concordou, em tom que não transparecia nenhuma ironia. Ela parou de falar, fechando a boca com força – Mas, eu tenho um senso de responsabilidade que se aplica a você. É minha convidada. Precisava leva-la de volta para o quarto.
— E o que você fazia, para me achar vagando pela casa? – Indagou ela, desconfiada.
— Levantei-me da cama, sentindo a sensação de que você estaria fora da cama – ele respondeu – E vim checar se eu estava certo. E aparentemente, eu estava. Encontrei-a perto das escadas. Seria uma queda horrível. Deveria dormir de porta fechada.
— Farei isso – anotou mentalmente para chavear a porta e deixar a chave longe de si.
Ser sonambula era uma novidade para ela. Nunca tivera problema com isso. Tinha certeza que começara ao voltar para aquela cidade. Não havia explicação lógica para aquilo. Pensativa, notou tarde demais que Draco sentou-se ao lado dela, fazendo o colchão afundar.
— O que pensa que está fazendo? – Indagou ela.
— O que queria fazer antes – ele respondeu, se aproximando dela tocando seu rosto, sem que ela pudesse evitar.
O beijo veio em seguida, causando um misto de raiva, surpresa e prazer. As sensações se misturavam em seu ser, deixando-a confusa, atônita e por fim, voraz. Ela o puxou pela nuca, fazendo-o suspirar. Deixou que ele a devorasse, pois, seu beijo era algo que parecia incomum. Parecia sedento dela. Então, ele a mordiscou de leve nos lábios. A dor que sentiu era prazerosa. Mas, havia algo errado. Sentiu o gosto de sangue inundar sua boca. Afastou-a rapidamente, tocando com as pontas dos dedos o ponto sensível em seus lábios.
— Por que me mordeu? – Indagou ela, entre confusa e furiosa.
— Desculpe, eu não deveria ter feito isso – ele respondeu, tocando-a no rosto.
Ela afastou o rosto, de forma brusca.
— Saia – exigiu.
— Eu...me desculpe por isso – ele disse.
E era estranho ver tão pouco dele, em meio a escuridão. Ele foi se afastando, então. Ela tocou ainda o lábio inferior, machucado. O sangue ainda estava presente em sua boca. O que havia de errado com aquele homem? Só havia uma resposta para isso. Ou ele era sádico ou...era uma bobagem cogitar isso. Pensou que apenas deveria sair dali. O mais breve possível. Principalmente, sairia daquela cidade na manhã seguinte. Fred que a perdoasse, mas não queria mais se expor ao perigo.
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