Aos poucos, Hermione foi se recuperando da sua perna quebrada e iria receber alta naquele dia, depois de uma semana no hospital.

— Não há nada com que se preocupar. É muita sorte não ter tido a perna amputada – o médico havia lhe dito, em tom jocoso.

Hermione, no entanto, não acreditou ser algo engraçado. Ela passou por um momento horrível, ao ter batido o carro. E isso era pelo fato de estar tendo algumas alucinações. Ela sentia isso. Que não estava realmente bem. Contudo, temia contar isso para alguém. Que estava vendo Fred e que também, vira Roy, depois da sua morte. Alguém poderia pensar que o melhor era interna-la e não queria isso. Com certeza, pediriam autorização aos seus pais e pela relação que tinham, eles concordariam prontamente.

— Não é engraçado, Sr. Jones. Eu poderia ter morrido – replicou ela, de mau humor.

— Claro, claro – ele disse, anuindo com a cabeça, mas sem dar muita atenção a ela – Tem alguém que virá busca-la, agora que vai sair do hospital?

Ela mordeu os lábios. Não, ela não tinha ninguém.

— Eu vou dar um jeito – ela respondeu – Eu sempre dou.

— Claro – ele a fitou com pena. O que a deixou furiosa – Mas, pelo que a recepcionista me contou, você tem pais que moram na cidade. Ela ligou assim que você sofreu o acidente e...

De repente, Hermione não escutava mais o que o médico dizia. Estava entrando em estado de choque. Como aquela recepcionista havia tomado a decisão de falar com seus pais, sem consulta-la? Ela não queria de maneira alguma que eles soubessem que estava na cidade. Não. Isso era um absurdo!

— ...Então, acredito que eles virão busca-la, em breve. Mas, se não vierem, eu posso pedir para alguém da equipe ajudá-la a ir para casa...

— O senhor não precisa fazer nada, doutor Jones – ela retrucou, irritada – Já fez o bastante.

Ele a fitou, boquiaberto pela grosseria dela. Sabia que estava sendo grosseira, mas deveria impor limites a ele. Como ele se atrevia a se meter em sua vida?

— Bom...eu...er – balbuciou. Estava pálido, o que demonstrava que havia ficado constrangido por ter sido retrucado por ela – Eu vou deixa-la agora.

Ele lhe deu as costas, saindo pela porta aberta do quarto. Bom, ela havia sido um tanto dura com ele. Passou a mão pela testa, se sentindo uma completa idiota. Que pessoa estava se tornando? Com certeza, do tipo insuportável, a qual ninguém iria querer ter por perto, a qual um dia, quando morresse, ninguém iria comparecer no enterro, ou iria, apenas para falar mal dela pelas costas. Riu com amargura, de si mesma. Deveria pedir desculpas a ele, mas seu orgulho parecia gritar. Não. Ela não queria pedir qualquer desculpa a ele. Aquele médico havia invadido sua privacidade e lhe causara um grande aborrecimento. “Mas, não custa nada a você pedir desculpas”. Pensou ter escutado. Virou-se, para ter a visão de Fred, recostado no parapeito da janela, com seu olhar zombeteiro, os braços cruzados. O corte em sua garganta continuava ali, parecendo ter coagulado.

— Você não é real...você...- ela fechou os olhos, passando as mãos sobre o rosto.

— Hermione? – escutou a voz de alguém, que fazia anos não escutava.

Abriu os olhos sobressaltada. Fred não estava mais ali. O que era bom. Precisava tomar algum remédio, para controlar as visões que tinha dele. Mas, tinha problemas maiores naquele instante. Virou o rosto para a porta, sentindo o estomago retorcer. Sua mãe estava na soleira da porta, com um olhar preocupado e o que era pior, havia desgosto em seu olhar e julgamento.

— O que você fez de si mesma? – Ela murmurou, levando a mão a boca. Os olhos se encheram de lágrimas. Seus cabelos, outrora loiros, estavam esbranquiçados.

Hermione não era nada parecida com sua mãe. Por ser adotada, elas se diferenciavam em aparência. Enquanto Hermione tinha a pele cor de oliva, cabelos cacheados, escuros e espessos e olhos cor de mel, sua mãe adotiva tinha olhos castanhos e cabelos loiros. E seu pai, que graças a alguma intervenção divina, se isso realmente existisse, não estava ali. Mas, ela se lembrava muito bem da sua aparência. Cabelos escuros, rareando no alto da cabeça, olhos expressivos, de um tom azul e alto. Aquela família havia lhe acolhido, claro, quando ninguém mais a queria no sistema de adoção. Ela já tinha dez anos. Quem iria querer uma garota crescida como ela? Ninguém a queria. Ela não sabia quem eram seus pais, tão pouco. E apenas queria ter alguém que pudesse ama-la. Sonhava todas as noites em ter uma família. No orfanato, assistia a filmes sobre famílias felizes. Seriados que demonstravam o quanto uma família poderia ser perfeita. Com o tempo percebeu que nada disso era real. Que eram apenas ficções, para ser vendidas por grandes corporações, que vendiam um sonho que não existia, de fato. Monica a tratava no início, com certo afeto, mas quando ela cresceu, engravidou finalmente. Era tudo que queriam, um filho que fosse do sangue deles. Não alguém que era adotado, como ela. Por isso, Hermione entendia o dilema de Harry, que era um órfão, adotado pela tia, que o maltratava dia sim, dia não. Ao menos ela não teria que fazer as tarefas de casa, como Harry e ser espancado constantemente pela tia, quando ele não fazia o que ela desejava.

— Mãe, apenas saia – ela pediu, em tom tremulo. Suas mãos tremiam. Seu corpo inteiro parecia ter sofrido algum tipo de descarga elétrica por ver Monica novamente.

— Por que você fez isso? – Monica disse, em tom choroso, com a mão na boca, chorando de forma audível – Eu não te criei para ser uma alcoólatra.

O sangue de Hermione enregelou nas veias. Quem havia dito que ela era uma alcoólatra? Nunca foi e nunca seria. Sabia que era um erro voltar para aquela cidade! Nunca deveria ter voltado para Mountain Black. Parecia que todos estavam contra ela naquela maldita cidade!

— Eu.não.sou.alcoólatra! – ela frisou cada palavra, com o dedo em riste. Monica a fitou com um olhar assombrado, balançando a cabeça – E eu não pedi para você vir. Não quero mais nada que venha de você! Por que não cria seu filho perfeito, como sempre quis? Ahn?

Monica negou com a cabeça, com um olhar que beirava a raiva e pena.

— Você nunca esteve satisfeita com nada que demos a você, Hermione, e precisa culpar Geoffrey. Ele não tem culpa de nada do que você tem feito! – Seu tom de voz era acusatório, o que inflamou a raiva de Hermione, por todos os anos de negligência sofrida. Por sempre ser relegada, para que Geoffrey pudesse ter toda a atenção que a família Granger acreditava que precisava ter. Eles nunca foram sua formatura, ou em uma reunião escolar, a não ser que fosse muito essencial. Enquanto ela tirava notas boas na escola e apresentava o boletim aos seus pais, eles apenas acenavam com a cabeça e voltavam suas atenções a Geoffrey – Não o culpe por você ser o que é, Hermione. Uma pessoa egoísta, que só se importa consigo mesmo e sua carreira. Você nunca veio nos visitar. Nunca nos ligou. E ainda por cima, nos traz vergonha. Você deveria se envergonhar. Irá queimar no inferno, por isso. Por ser uma filha ingrata!

— Ora, vamos de novo com seu discurso religioso, senhora Granger – ironizou Hermione – Mas, eu já não tenho medo de ir para o inferno, como você sempre disse. Eu não tenho mais medo de nada!

— Pois devia ter. Devia temer sua língua venenosa! – Acusou Monica, com um olhar irado, dessa vez. O choro havia cessado e seu rosto estava salpicado de veias em seu rosto.

A briga que travavam deveria estar chamando a atenção de alguém do lado de fora, pois, uma enfermeira entrou e exigiu que Monica saísse do quarto de Hermione. O que era bom. Muito bom. Ela não precisava mais da sua mãe adotiva. Não precisava de ninguém. Mas, seu peito doía, doía tanto. Tanto que fez algo que nunca fizera, durante dez anos. Chorar.

**

Penso que nunca tive um lugar para mim, não aqui. Não nessa cidade. Não quando eles te julgam, como se você fosse o filho de um homem miserável. Meu pai, claro, não é um miserável. Ele é um cara decente. Aquele pai que compra tudo que pode, para os filhos. Mesmo que seja pouco. Somos da classe média. Saímos da classe baixa, há um bom tempo. Mas, ainda assim, recebo olhares de pena dos meus colegas. E mesmo que me esforce nos esportes, sou taxado de o filho pobre dos Weasley. Apesar disso, eles dizem, aquele que se esforçou e vai dar um retorno financeiro para a família. Assim, com Gui, Carlinhos, Percy e George.

Quer saber, eles que vão para o inferno!

Hermione adora essa palavra. Diz constantemente, com medo de realmente ir para o inferno. Pobre Hermione. Ela não sabe que o inferno não existe? Bom, para os budistas, não existe inferno. Nem para os judeus. Mas, para os presbiterianos, isso é muito sério. Ser temente a Deus e tudo mais. Não que eu não acredite em algo, ou uma força maior. Mas, normalmente estou mais interessado em cuidar da minha vida. E ter muitas garotas ao meu redor. Apesar disso, não vejo tanta graça mais. Angelina não me deixa em paz. Não desde que terminei com ela. Vamos terminar a escola e ela quer que eu a leve para o baile. Mas, eu não ligo para isso. Não ligo para essa droga de baile.

— Ei Fred! – Escuto alguém chamando. Viro e lá está Hermione. Ela sempre está atrás de mim. Alguém me disse que ela parece uma pulguinha atrás de mim. O que é certamente ofensivo. Malfoy é um babaca quando diz essas coisas. Mas, ultimamente, Hermione tem sido muito insistente e estar na minha cola.

— Oi, Hermione – falei, um tanto cansado. Fui acompanhando seu passo, que era muito mais lento que o meu. Olhei para o relógio. Precisava ir para o vestiário, me trocar e treinar. E ela parecia muito mais interessada em falar sobre si mesma.

— Hoje tivemos prova de biologia, você precisa saber como estava difícil – comentou ela. Como se eu me importasse com isso. Com as minhas notas eram péssimas, mas por seu jogador de futebol americano, eu tinha passe livre – Então, você precisa estudar. Venha na minha casa, depois do treino. E vou te ajudar. Já sei que você vai ter prova amanhã.

— Sabe o que, é, Mione...é que...- Não sabia o que dizer a ela. Gostava dela e não queria magoa-la – Não vai rolar, sabe a Angelina...

— Ah, sei – ela disse, comprimindo os lábios. Senti pena, de repente. Os pais dela não lhe davam qualquer atenção. Isso era visível. E ela recorria aos amigos. Eu, o Harry, Rony e Gina. Nós éramos o seu centro gravitacional – Tudo bem então. A gente se vê por ai.

Eu vi ela se afastar e me senti péssimo. Um verdadeiro babaca. Por que eu tinha que ser tão imbecil? Não pensei muito. Minhas pernas me guiaram até ela.

— Quer saber, Mione, acho que vou dar o cano com a Angelina – eu disse, colocando o braço em volta do seu pescoço, beijando seus cabelos escuros. O cheiro de jasmim invadiu minhas narinas, me deixando um tanto...tonto. Não sabia exatamente o que sentir, naquele momento. Somente sei que era bom.

Ela me fitou, de soslaio. Estava ruborizada. Ela era linda. Quando foi que ela ficou tão bonita? Foi no mesmo tempo que eu comecei a notar as garotas? Nós éramos da mesma idade. Eu deveria ter percebido que ela não era mais aquela garota de cabelo armado e dentes encavalados. Usava até mesmo aparelho. O que ajudou muito. Seu sorriso estava harmônico, ressaltando seu rosto.

— Sério? – Ela perguntou, andando ao meu lado, deixando-se encostar ao lado do meu corpo. E isso nossa, isso era incrível.

— Sim. Me espera nas arquibancadas. Vai me ver jogar – pedi. E sinceramente, não sei o que tinha cabeça. Talvez, fossem os hormônios falando.

— Tá bem – ela concordou, tímida.

Saímos do pátio e eu segui para o vestiário e ela as arquibancadas. Fui para o vestiário, para notar que Malfoy estava lá, com seu grupo de valentões. Ele estava sem camisa, mostrando algo que não tinha. O físico dele era esguio demais. Mas, pela sua cara de soberba, ele estava se achando o máximo. Nem perdi meu tempo com ele e fui para meu armário.

— Ei cabeça de cenoura – escutei ele chamar. O apelido que ele nunca deixava de usar comigo e com Rony.

Nem dei ouvidos. Se eu desse, ele estaria no chão, sangrando e eu, bom...em um reformatório. A última vez que briguei na escola, com aquele imbecil, o diretor da escola queria me expulsar e meus pais estavam desesperados. O pai dele, um político influente, queria me colocar no reformatório. Sorte a minha, que como ele disse mesmo, estava de ótimo humor e iria deixar passar, se eu, como capitão do time, deixasse o filho dele ganhar a partida da escola. Como somos de times rivais e meu time sempre vence, aquilo na verdade, era para me humilhar. Eu teria dito não, mas eu não sabia se ele cumpriria com a palavra. Então, deixei o time de Malfoy vencer. Foi o pior dia da minha vida. E todos queriam me matar por isso. Mas, era necessário. Eu não queria ir para o reformatório. E Deus sabe que aquele almofadinha iria me colocar lá, de algum jeito ou de outro.

— Não vai responder? – Malfoy disse, se aproximando por trás de mim. Então, fez algo que eu sabia que ele faria, empurrou a porta do meu armário aberto, com força.

Os amigos dele, Crabble, Goyle, Zabini e Nott riram como hienas. Eu apenas respirei. E respirei. Mas, sabe como é, eu não sou saco de pancada. Parti para cima dele, segurando-o pela garganta e o jogando contra o armário. Ele me fitou com os olhos arregalados. Pelo canto do olho notei que os amigos dele, ao invés de tentarem defende-lo, saíram correndo. Então, gargalhei. Eu ri muito disso. Do fracasso daquele imbecil. O soltei, ainda com a barriga doendo, por rir da sua desgraça.

— Você está ferrado! – Malfoy disse, com um tom irritado, apontando o dedo logo para mim, como se eu tivesse medo dele – Eu vou dizer isso ao diretor. Isso não vai ficar assim.

— Vai, diz – eu o incitei, me aproximando dele, perigosamente. Ele se encolheu, indo para trás. Eu era maior do que ele em estatura – Diga e eu conto para todo mundo que você transou com Nott, no vestiário.

— O que? – Dessa vez sua boca estava escancarada. Claro que era uma mentira, mas eu tinha que me prevalecer também – Seu...

— Seu o que, mesmo? – Provoquei.

Ele mordeu os lábios com força, me encarando com ódio.

— Isso não vai ficar assim – ele disse, passando a mão pelos cabelos claríssimos. O ódio brilhava em seus olhos. Era ótimo de ver.

Então, ele saiu, batendo os pés, sem nem ao menos vestir uma camisa. Santo Deus, quem iria querer ver um palmito daquele andando por aí? Dei de ombros e fui me vestir. Logo meus colegas chegaram. Nós conversamos sobre a jogada que faríamos. O treinador deu algumas dicas muito boas. Iriamos acabar com o time adversário. Seria outra escola contra a nossa. Então, fomos para o campo, treinar. Vi Hermione nas arquibancadas, quando entrei em campo, assim como Angelina e um monte de garotas. É, eu estava ferrado.

**

Meu joelho estava doendo muito. Demais, realmente. Não havia feito nada, a não ser ter sido derrubado algumas vezes no gramado, mas tudo bem. Estava tudo bem. Eu só precisava descansar. Saí do campo, irradiando irritação. Nem para brincadeira eu estava. O pessoal foi se afastando de mim, claro. Eles sabiam que eu estava com um péssimo humor. Tomei meu banho, vesti minhas roupas e saí, a procura de Hermione. Iria desestressar. E quem sabe fazer algo que me passou pela mente. Eu gostava de Hermione. Não sabia o quanto. E havia notado aquilo depois de muito tempo.

Infelizmente, meus planos foram frustrados, quando cheguei no pátio da escola. Rony estava caído no chão. Hermione estava ajoelhada, tentando ajuda-lo a se levantar. Corri rapidamente, para ver ele. Mas, o que era pior, não era Rony, mas Harry. Ele estava caído no chão. Seu rosto era uma massa sangrenta.

— Put...- eu exclamei.

Rony estava bem melhor. Apenas um olho roxo. Mas, reclamava.

— Aquele maldito! – ele disse, se colocando de pé.

— Rony, você está sangrando – Hermione disse, tão solicita. Meu ciúme ferveu nas veias. Rony parecia muito feliz pela atenção dela.

— É só um olho roxo e um nariz quebrado, nada demais – ele deu de ombros, com um sorriso sangrento para ela. Aquele imbecil.

— Vamos ajudar o Harry, Rony. Olha o estado dele.

Rony anuiu com a cabeça, sem tirar os olhos de águia de Hermione. Eu a fitei de relance. Ela parecia atordoada demais para perceber. Estava agora, tentando ajudar Harry a ficar de pé. Eu fui em seu auxilio. Rony, como sempre, não ajudou muito. Apenas saiu andando dizendo que iria na diretoria, falar sobre o ataque. Eu me preocupei e colocar Harry em um banco. Hermione sacou o celular velho, para tirar umas fotos de Harry. Ele estava com os olhos semicerrados e com um ar bobo. Seus óculos, bom, eu não havia achado.

— Ele te pegou feio, heim – comentei.

— Nã...o...nada...eu aguen...to – ele disse com a voz enrolada, colocando a cabeça para trás, apoiando na parede – Aí – ele resmungou, levando a mão ao rosto.

Tive pena dele. Muita pena. Aquele garoto era um verdadeiro saco de pancada. Hermione sentou-se ao lado dele, segurando sua mão. Um gesto que vi inúmeras vezes, quando Harry aparecia com um olho roxo, ou algum hematoma. Eu nunca dei bola para isso. Mas, naquele momento...

— O diretor disse que é para você ir lá, Harry – escutei Rony dizer, atrás de mim.

— Eu não acho que ele consiga. Ele precisa é ir em um médico – apontei, irritado – O diretor Crawling é um idiota.

Rony deu de ombros. Claro, não era problema dele mesmo. Claro que não se importaria. Fui até o diretor, no entanto. E suas palavras eram um veredito cruel.

— Eu não tenho o que fazer, senhor Weasley. Veja, tem provas concretas de que for o senhor Malfoy?

— Você só pode estar de brincadeira! – exclamei, batendo a mão contra a mesa.

O diretor, rechonchudo e pequeno demais para seu terno, se empertigou.

— Escute, garoto, é melhor sair da minha sala, ou te darei duas semanas de expulsão. E isso significa não jogar contra os Browns.

Eu não acreditava no que estava ouvindo. Aquele homem tinha a capacidade de ser manter omisso, diante do que acontecera? Havia testemunhas. Eu iria conseguir provar que era Malfoy por trás de tudo. Mas, infelizmente, aquele dia parecia um desastre. Os alunos que estavam na escola disseram não terem visto nada. Meu encontro com Hermione foi por água abaixo. Ela estava tão ocupada, quanto eu, tentando encontrar pessoas que viram o ocorrido. A única coisa que poderíamos fazer, era cuidar do garoto. Ele ficou na minha casa, depois que deixou o hospital, para fazer curativos. Hermione, claro, ficou ao seu redor, como uma galinha mãe. Ela era adorável. Sempre foi.

**

Hermione fitou as mãos, sentindo-se doente. Ainda conseguia se lembrar do sonho que tivera. Havia dormido, pelo choro. O médico não viera chama-la, para deixar o quarto. O que era bom. Ela não sabia o que fazer. E não estava bem. Não mesmo. Havia sonhado com a noite do baile. A mesma noite em que George a beijou a força, fingindo ser Fred. Ela passou a mão pela boca, sentindo-se horrível. Como pode acreditar por um momento que era Fred? Deveria ter percebido que não. Deveria ter percebido que ele estava apenas brincando com ela. Como ele disse, estava bêbado. Mas, uma pessoa que está sobre o efeito de álcool sabe o que está fazendo. Bom, ela acreditava que sim, mas ultimamente, tomar vinho a estava fazendo ter apagões. O que não era bom.

Pensou em Fred. Fred era seu melhor amigo. O homem que amou. Sempre amaria. Mas, ele nunca retribuiu seus sentimentos. Não. Ele nunca lhe disse nada. Deixou-a partir para Londres, sem pedir que ela voltasse. E nunca quis ir, a não ser, pela constante insistência dela. Queria vê-lo de novo. Olhou para o quarto branco, um tanto sem graça. Olhou para a janela, pensando que ele estaria ali, rindo ou fazendo uma piada boba. Mas, ele não estava. Queria ter mais uma visão dele. Uma alucinação, claro. Porém, naquele instante, não estava se importando nem um pouco. Escutou batidas na porta. Olhou para o lado. Malfoy estava lá, com uma cadeira de rodas. E seus óculos Ray Ban no rosto. Para que ele precisava deles? Penso consigo mesma.

— Eu disse que viria. E aqui estou – ele disse, empurrando a cadeira.

Ela se sentiu grata, de repente. Ele era um estranho. Alguém que todos odiavam, inclusive ela. Mas, ele era o único que restara, depois de tudo. Harry não estava ali. Rony também. Gina. Fred. Engoliu a seco.

— Obrigada – ela murmurou.

— O que? Você disse: obrigada? – Ele provocou.

— Quer saber, se manda.

Ele riu, então, aproximando a cadeira ao lado da cama.

— Ah, mas agora eu não quero ir – seu tom era sardônico. Então, se aproximou da cama. Não poder olhar em seus olhos era enervante – Venha, eu vou te ajudar a sentar na cadeira.

— Não preciso – negou com a cabeça, tentando descer da cama, mas se desequilibrou no processo.

Ele a amparou com os braços. Parecia...gentil. Tão estranho. Ela sentiu o constrangimento tomar conta de si. O rosto estava pegando fogo. Ele a pegou no colo, com facilidade e a colocou na cadeira.

— Pronto – ele disse – Agora, quer ir para onde?

Ela o fitou com a cabeça inclinada. Ele ainda continuava com aqueles óculos ridículos.

— Desde quando você malha? – Ela provocou.

Ele lhe deu um sorriso malicioso.

— Desde que levei uma surra...bom...- ele se calou. Ela queria que ele completasse a frase. Queria que ele dissesse seu nome – Vamos, senhorita. Você está me irritando agora e não estou mais de boa vontade com você.

— Ah, nossa. E eu pedi mesmo a sua ajuda? – Retorquiu ela.

— Não, mas eu sou o único por aqui que está disposto a isso, então...

A frase ficou no ar. Ele se posicionou atrás da cadeira e a empurrou, assoviando. Ela revirou os olhos. Então se lembrou de algo importante.

— Ei, eu ainda estou de camisola.

Passaram pela porta do quarto e ele não parecia ter lhe dado ouvidos.

— Eu deixei no carro suas coisas – Malfoy respondeu – Acho que só falta sua bolsa.

Ele parou de empurrar a cadeira e ela ficou no meio do corredor. Depois, voltou com o bolsa, deixando-a sobre o colo dela e voltou a empurrar a cadeira.

— De nada – disse.

Ela riu baixinho e passou pela recepção. Estava irritada. Viu o médico então, aquele que havia destratado. Devia desculpas a ele.

— Ei, me empurre para perto do médico bonitão – pediu.

— Bonitão? Essa é boa.

— Vai, aquele de cabelo escuro ali – ela apontou.

Escutou o suspirou audível de Malfoy, mas ele empurrou a cadeira para perto do doutor Jones. O homem, no entanto, não parecia feliz de vê-la. Na verdade, ficou ainda mais pálido do que era.

— Doutor, eu sinto...muito – ela se desculpou.

Ele a fitou com a sobrancelha arqueada e soltou um suspiro. Estava com as mãos dentro do bolso do jaleco branco. Havia um estetoscópio em volta do seu pescoço.

— Ah...- ele murmurou, constrangido – Está tudo bem. Espero que fique bem – Então, fitou além dela. Com certeza, olhava para Malfoy. Seu olhar era grave – Senhor Malfoy. Não sabia que o senhor era o contato de emergência da senhorita Granger.

— Agora sou – escutou ele responder, de forma despreocupada – Até mais doutor.

— Até – Jones disse, fitando Hermione com preocupação.

Teria questionado ele, se Malfoy não a estivesse empurrando para fora de sua vista, indo em direção a saída.

— Por que pediu desculpas ao médico? – Indagou Malfoy, quando passaram pela porta automática, saindo para um dia gelado e cinzento.

— Santo Deus. Estou congelando! – Hermione ignorou a pergunta dele, se abraçando.

— Ah, aguente mais um pouco – ele provocou, a empurrando.

Descerem a calçada e passaram para o outro lado da rua. Hermione sentiu o vento entrar por sua camisola. O que era constrangedor e desconfortável. Sentiu algo cair em seus ombros. Era a jaqueta de couro de Malfoy. O fitou, sem entender.

— Vista – ele pediu, ou mandou. Ela não sabia dizer, na verdade.

Ela vestiu a jaqueta, com cheiro de colônia muito cara. Uma marca que ela conhecia muito bem. Depois, ele abriu a porta do passageiro, colocando-a dentro do carro. Ele havia colocando o banco para trás, apenas para que ela pudesse ficar confortável. Não entendia porque ele estava sendo tão gentil. Então, depois desse gesto silencioso, ele fechou a porta e levou a cadeira de roda para o hospital. Ela o acompanhou com os olhos, até ele voltar, abraçando-se. Aquele aroma era maravilhoso. Aquele carro, Deus, era maravilhoso. Bancos de couro, painel de última geração. Ela teve inveja dele. O carro que ela alugara estava em pedaços, com certeza.

Malfoy voltou para o carro, entrando pela porta do motorista. Bateu a porta e virou para ela. Ele continuava com os óculos, como se não quisesse que vissem seus olhos.

— Não vai colocar o cinto? – Perguntou.

— Ah...- Foi só o que soube dizer.

Colocou o cinto e espero que ele ligasse o carro. Mas, ele não fez isso. Ainda a encarava.

— O que foi? – Indagou, confusa.

— Nada – ele disse, passando a mão pela massa de cabelos loiros – Você parece...hum... ter chorado.

— Eu? Chorar? Eu não choro – ela retrucou, rindo.

— Sei – ele comentou, dessa vez, dando partida no carro.

— Não vai pôr o cinto? – Alfinetou ela, vendo que ele apenas manobrava com o carro, sem ter afivelado o cinto de segurança.

— Não – ele deu de ombros, olhando pelo retrovisor e dando a ré.

Depois, saiu com o carro da vaga e seguiu pelas ruas.

— Eu não disse para onde vou – ela comentou, olhando para as ruas vazias, repleta de casinhas comuns.

— Não precisa. Eu já sei onde leva-la.

Ela o fitou, curiosa.

— Para onde vamos? – Indagou.

— Você verá. Já estamos chegando.

Ele não a fitou mais. Estava concentrado, sem dizer uma palavra. Ela sentiu que ele não a levaria de volta para a pensão. O caminho que fazia ia em direção as montanhas. Deveria estar com medo, mas estranhamente, não estava.