Um salto de fé

1 Todo o seu esforço não foi em vão


Notas iniciais
Olá, pessoal! Aqui estou eu com mais uma fanfic do Neji. Desta vez, estou adotando essa ideia porque não queria que ficasse sem dono!

Boa leitura!

− Ela foi forte. — Sua voz soava embargada, mecânica aos próprios ouvidos. – Quando ninguém achou que seria, quando todas as pessoas – sua família inclusa – não confiava mais nela, ela foi forte.

Uma pausa, desta vez mais longa. Seus olhos atingiram o horizonte onde uma sombra esguia o encarava. Por de trás de uma árvore, a culpa de toda uma vida. No fim da guerra, pintado como um herói. Por dentro, se sentindo um covarde.

− Eu não falo apenas de força física, mas de algo mais profundo e mais intenso. O tipo de força que vem da alma, capaz de varrer da sua frente qualquer desafio.

“A força de Hinata vinha do seu desejo de provar a todos o que ela poderia ser. Não apenas a menininha fraca e tímida que todos conheceram na época da academia, mas a mulher poderosa que se tornou. E ela morreu, não por uma imprudência, mas por um ato de coragem e fé em tudo aquilo que acreditava. Há quem diga que Hinata morreu por amor, mas eu discordo disso. Ela não morreu por um único homem. Ela morreu pela fé naquele que poderia nos salvar: Uzumaki Naruto.”

Um trovão cortou os céus, mais alto que todos os outros. Seu byakugan não estava ativo, mas Neji reconheceria a silhueta de Naruto em qualquer lugar. E mesmo tão distante, os ombros curvados evidenciavam a culpa que sentia quando o golpe derradeiro fora dado contra Hinata.

O primo ainda se lembrava da cena, pois estava próximo. Incapaz de protegê-la, cercado pelos Peins com quem batalhava só viu o desfeche: o golpe letal que atingiria Naruto chocar-se contra seu corpo. E ela caindo no chão.

Até agora, Neji sentia o sangue seco embaixo das próprias unhas. Sentia o sorriso de Hinata lhe dilacerando por dentro dizendo que havia cumprido sua missão. A sua parte na guerra.

Engoliu o choro que fechava sua garganta, o sabor salgado se tornando amargo a cada palavra dita que parecia tão sem sabor perto do que a prima havia se tornado. Do que poderia ter se tornado. Talvez a líder mais justa que o clã Hyuuga poderia ter tido.

− Eu acompanhei de perto o seu crescimento. – Neji prosseguiu. As pesadas gotas de chuva pareciam o cenário perfeito para o velório. Guarda-chuvas negros começaram a se abrir em um mar envolto de tristeza e pesar. Ela era uma heroína de guerra. Seu nome seria esculpido na pedra onde os heróis estavam. Mas Neji preferia que estivesse viva. – Todas as manhãs, sem exceção, quando eu acordava, Hinata já estava treinando.

“Aprimorando seus golpes e criando novas técnicas baseadas naquilo que nosso clã possuía. Pois ela queria um estilo próprio e me dizia que um dia, com o incentivo que havia recebido, chegaria até o topo de nosso clã e mudaria tudo. Acreditei em cada uma de suas palavras e vi nela um desejo que em mim havia morrido há muito tempo: o de ver os Hyuugas progredirem sem olhar para trás. Ela me disse que não gostaria que tudo o que meu pai fez fosse em vão. E acreditei nela. Quis acreditar. Porque Hinata acreditava em mim. E Hinata acreditava no amor. Não apenas esses amores românticos de contos de fadas, mas no amor verdadeiro. O amor de família acima de todos. E tudo o que ela queria, era que sua força fosse reconhecida por aqueles que mais amava. A vi treinando com afinco, dia após dia, suor após suor. Vi as pessoas duvidando de suas habilidades e ela conquistando seu pequeno espaço apesar da timidez exacerbada. Muitos de vocês que estão aqui hoje podem não saber disso, mas o alcance do byakugan dela beirava os dez quilômetros. E isso é muito mais do que líderes já obtiveram no passado.”

Burburinhos começaram do lado dos Hyuugas. Shino era uma estátua ao lado de Kiba, que derramava grossas lágrimas sobre as marcas vermelhas do clã Inuzuka em suas bochechas. E Kurenai apertava o embrulho com o bebê em seus braços, os olhos rubros pintados pelo orgulho e pela tristeza que sentia pela perda daquela que considerara como uma filha.

− Treinei ao seu lado por dias a fio, vencendo-a em embates, vendo-a evoluir com suas técnicas. – Neji cerrou os punhos, olhando de soslaio para a foto escolhida de Hinata, cercada por lírios brancos; sua flor favorita. – E sei que se ela deu a vida para que Naruto vivesse, era porque sabia de sua importância como peça chave para vencer essa guerra.

“Então não pensem que ela era apenas uma garotinha tola, pois minha prima sabia exatamente onde estava a sua mente naquele momento. E onde estava seu coração. Se ela morreu se declarando, foi porque não queria que aquelas palavras findassem sua existência junto à dela. Mas Hinata não está morta. Porque carrego comigo sua vontade e o seu desejo não por um clã melhor, mas por uma vila inteira. Se ela é capaz de morrer por aquilo que acredita e ama, serei capaz de viver pela mesma razão. E espero que cada um de vocês também. Que o desejo de Hinata nos alcance. E que ela possa descansar em paz.”

Como que para findar seu discurso, a chuva amainou um pouco tornando-se garoa fina. O sol surgiu timidamente entre as nuvens e Neji tornou a olhar o ponto onde antes Naruto estava. Agora vazio. O funeral prosseguiu, brindado por um arco-íris. Mas para ele, tudo parecia cinza e insosso. Tudo parecia incerto.

—x-

− Foram belas as suas palavras, Neji. Eu não teria dito com mais sentimento o que você exprimiu sobre minha filha. – A voz do tio o alcançou abaixo da copa da árvore onde ele se encontrava. O enterro havia acabado há algum tempo, as pessoas se dispersado de volta para suas casas.

− Hiashi-sama. – Neji curvou-se brevemente para o tio em sinal de respeito. – Disse apenas o que achei que deveria ser dito, pois minha prima não foi uma garotinha tola ali. E quero que todos saibam disso.

Hiashi parou ao lado dele, fitando o horizonte. Pequenas bolsas roxas abaixo de seus olhos evidenciavam a falta de noites completas de sono. Às vezes, Neji o via perambulando pelos jardins da mansão principal, talvez pensando no que poderia ter feito de diferente.

− Acho que não fui bom o suficiente para ela, Neji. – disse ele. – Não fui capaz de reconhecer sua força a tempo, pois sempre achei que Hinata era frágil. Que nunca seria uma boa líder para o clã.

Neji não podia culpar o tio por isso. No passado, no exame chuunin, quase a matara pelo mesmo motivo. Por achar que Hinata era fraca. Por achar que ele deveria ser da família principal. E no fim das contas, ela provou-se mais forte do que todos eles.

− É preciso muita força de vontade para morrer por aquilo em que se acredita. – Neji sentenciou, cuidadoso, pois não queria ser desrespeitoso com o tio apesar de tudo.

− Ela teria sido uma boa líder, você tem razão. Sua visão do mundo... a sua pureza... – Hiashi olhou para o sobrinho e tocou seu ombro com a mão direita, apertando-o com firmeza. – Ela teria sido uma ótima líder, Neji, como quero que Hanabi seja.

Uma trilha de lágrimas correu por seu rosto, mas Neji não ousou a comentar nada sobre isso.

“Mas Hanabi é jovem e inconsequente ainda. Forte. Talvez a Hyuuga mais forte de toda essa geração. Um gênio como você, meu caro sobrinho, mas que precisa ser direcionada para o caminho certo, pois é tempestiva e impulsiva. E essas qualidades podem atrapalhar seu espírito de liderança no futuro.”

− Acredito que no momento certo, ela estará pronta para arcar com as responsabilidades, Hiashi-sama. – Neji o consolou, mas também acreditava nisso. Hanabi podia ser explosiva e agir com impulsividade, mas também sabia analisar bem uma situação antes de agir. Motivo pelos quais a kunoichi se destacara não somente na academia shinobi, mas em todo o clã.

− Sei disso. – Hiashi sentenciou. – Mas quando esse momento chegar, quero que esteja ao lado dela. Quero que mostre para ela o caminho que deve trilhar, Neji, para que injustiças como as que aconteceram ao seu pai e a você não tornem a se repetir.

“O clã Hyuuga é muito antigo e entranhado em raízes que não mudarão tão cedo. E existem certas coisas que devem permanecer como são. Mas o que você disse é verdade e Hinata realmente acreditava, como sei que você acredita, que certas mudanças são necessárias e vêm para o bem de todos nós. Para o crescimento de todos nós. Quero que Hanabi seja capaz de ver isso no futuro, meu sobrinho, e quero que você faça parte disso. Seja seu conselheiro, mostre à ela que o caminho que ela deve trilhar não será apenas flores, mas também espinhos. Mas que você estará lá, não como aquele que sempre a protegerá, mas que será a palavra que a guiará para o caminho certo quando ela quiser se desviar. Mude a cabeça daqueles velhos conselheiros aos poucos. Introduza as suas ideias. Faça desse clã, não apenas um clã melhor, mas uma família melhor. Uma família com ideais justos para todos nós.”

Quando Hiashi terminou de falar, a surpresa estava estampada nos olhos perolados de Neji. Ele não sabia o que dizer, embora os lábios entreabertos quisessem exprimir algum tipo de palavra.

− A mudança deve começar por nós, Neji. – Hiashi afastou-se sem ousar a limpar a trilha úmida que as lágrimas haviam deixado. – E eu confio em você para dar o primeiro passo.

Sem saber o que dizer, Neji encarou as costas do tio que partia dali. Lágrimas pintaram seu rosto quando olhou para o céu. Lágrimas de emoção por saber que o sacrifício da prima não havia sido em vão e renderia frutos para todos eles.

—x-

Neji sabia que as coisas não seriam fáceis, mas estava disposto a tentar. Mudar raízes entranhadas há muitas gerações exigiria um desgaste emocional e um jogo de cintura que ele sabia que poucos possuiriam. Mas Hanabi era jovem e cheia de vida, e tinha os ideais certos para seguir em frente. Neji a moldaria do barro até que estivesse afiada para se tornar a melhor líder que aquele clã já viu. Certamente a mais justa.

Não seria fácil, é claro, mas sua vontade era de ferro. E a lembrança de tudo o que Hinata havia feito para que tivessem aquela chance sempre o permearia.

Sim, seria difícil. Mas com o tempo, as coisas mudariam. E talvez, apenas talvez, um dia aquele símbolo amaldiçoado pudesse deixar de existir e o clã pudessem se unificar em uma única família.

Neji tinha fé.

Ele acreditava, pois no mundo shinobi as coisas já começavam a mudar e avançar com Hatake Kakashi assumindo o posto como Hokage.

E se o mundo seguia em frente, os Hyuugas deveriam seguir também.

Neji abriu as portas do dojo, encarando Hanabi enquanto ela o aguardava para o treino.

Ele já havia dado o primeiro passo. Agora bastava seguir em frente, sem olhar para trás, mas nunca esquecendo o passado que o havia permitido chegar até ali.

Notas finais
Eu acho que consegui atingir todos os pontos do prompt com essa fic. Espero que a pessoa que o pediu goste!

Ela não se identificou, mas eu sei quem é. Fica como presente pra você ♥

Espero que gostem dessa pequena releitura do final!

E aí, acharam plausível? Nos vemos no próximo projeto!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!