Um salto de fé
1 Um salto de fé — capítulo único
"Com um salto ou dois o que vem depois?"
Sempre seria estranho acordar estando acima do chão, com frio no inverno e completo alento no verão mas ainda assim estranho. Estranho por estar próxima demais do teto. Estranho por sempre que virar seu corpo bruscamente ter de olhar para a cama e o cobertor estirado muito longe do que se lembrava, as vezes outros móveis flutuavam pelo cômodo e quantas não foram as vezes que livros e bonecas e CD's e qualquer outro objeto que estivesse em suas mãos quando seu senso perdia para o sono amanheciam em gravidade zero. Suspensos por uma linha invisível, tal como marionetes.
Era sempre um desconforto estomacal ter de unir todos os seus dedos para que tudo caísse em seu devido lugar, arrumar e organizar seus pertences e se lembrar de usar luvas antes de dormir. As vezes ela contemplava a ideia de não ter a habilidade de manipular a gravidade. Em verdade se perguntava se não era esta que a manipulava, sempre tendo de se conter em nome desta.
Se não tivesse cuidado pessoas viravam balões e seu estômago e tudo o que havia colocado nele, sairiam para fora.
É, algumas vezes ela detestava isso, e todo o resto. Talvez por isso que ela tenha desejado ajudar as pessoas, fazer algo em prol do próximo com essa habilidade que só lhe dava dores de cabeça parecia ser a melhor forma de sofrer menos com isso.
"Um salto e mais três talvez seja melhor tentar outra vez,
arriscar um giro em desperto desatino para assim enxergar outra vez o caminho."
Conhecer outros como ela ajudara a aplacar seu então solene desconforto, mas nem todos pareciam ter problemas com suas singularidades como ela tinha, alguns até mesmo eram felizes sendo capazes de feitos que apenas ele eram capazes de cumprir enquanto outros sofriam por conta disso. Era um senso comum extremamente estranho aquele no qual ela se colocara, o que não deixava de causar estranheza a normalidade que aquilo causava.
Seus pais lhe disseram ter passado por isso também quando novos e que conforme cresciam conseguiram se adaptar a própria singularidade que tinham, mas que vê-la daquele jeito, com as mesmas inseguranças que eles tiveram de carregar em um passado não tão distante, não era uma visão que causava conforto, tão pouco alento de se ver e não poder fazer muito além de guiá-la com suas lições.
Ou talvez não devesse realmente ser. A semelhança poderia estar ali e ser fortemente compartilhada entre eles três mas ela era diferente, pensava diferente, se sentia diferente. Ochako realmente deseja ser mais do que seus pais já foram, desejava usar ao máximo da gravidade de volta e meia a fazia refém de sua própria força.
E querendo ou não, a parte menos pior era ter pessoas que entendiam como ela se sentia.
"Um salto de fé é necessário
para aquilo que se esconde seja posto á mostra e assim novamente o centro acima do chão torne a ser visto mais uma vez."
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