Notas iniciais
“The boy with the thorn in his side, behind the hatred there lies a murderous desire for love... How can they look into my eyes and still they don't believe me? How can they hear me say those words still they don't believe me? And if they don't believe me now, will they ever believe me?”

Ele não se julgava ferido o bastante para precisar de uma maca, mas Hux e a equipe de resgate insistiram. Talvez para que se sentisse ainda mais humilhado, não soube ao certo. Mas não importava. O corte em seu rosto não chegava a incomodá-lo, cauterizado pelo próprio sabre que o criara. A lesão infligida pelo animal que acompanhava Han Solo também parecia dormente, semi-anestesiada pelo ódio que o consumia. A verdadeira dor o destroçava por dentro, e nada seria capaz de aliviá-la. O Líder Supremo estava certo, como sempre estivera. Sentimentos destruíram os planos de seu avô, e sentimentos quase destruíram os planos de Kylo Ren.

O veículo de resgate não estava longe. Ele se deixou carregar de olhos fechados, uma das mãos segurando firmemente o cabo de seu sabre de luz, pronto para ligá-lo a qualquer momento. As lágrimas amargas que derramara não haviam sido testemunhadas por ninguém, mas a umidade deixada por elas formara uma fina película de gelo em seu rosto desmascarado. Sob a penugem branca, ele parecia pálido como um cadáver. Em sua mente, repassava os últimos instantes do encontro com a catadora de sucata. Nenhuma traição doera tanto quanto a dela, nem mesmo quando sua mãe o enviara para longe, para treinar com Luke Skywalker. Sua mãe, não. General Organa. Mas desta ele já havia cuidado – privara-a até do corpo do marido para prantear. Logo Kylo Ren a mandaria para junto do contrabandista, olhando-a nos olhos como fizera com ele.

E então ele lidaria com a catadora. Maldita Rey. Simplesmente lembrar daquele nome já doía mais que o rombo que a arma wookie deixara em seu abdome. Na próxima vez em que se encontrassem ele não vacilaria. Tomaria de volta o sabre de Anakin, que lhe pertencia por direito, e então se vingaria dela com uma crueldade que ele ainda não era sequer capaz de conceber. Entretanto, prostrado sobre a maca, constatava duramente que nem seus anos de meditação e treinamento permitiam que ele controlasse seus pensamentos, que obsessivamente se fixavam na maldita garota do deserto.

Rey nua em sua cama, beijando-o, recebendo-o dentro dela, gemendo. Rey sorrindo, abraçando-o, acariciando-lhe os cabelos. Rey na banheira, desfrutando da água quente, falando de sua vida em Jakku. A esperança de que ela se tornasse sua aprendiz. O desejo de fazer dela sua companheira. A mente de Kylo Ren fervilhava com estas visões, como delírios febris. Maldita Rey! Ele deveria ter resistido aos encantos da catadora de sucata. Como havia sido tolo.

Após a longa tarde que passaram juntos, ele a deixara em seu quarto por alguns minutos, com a combinação de que voltaria com comida. Ela o ajudara a vestir-se, até mesmo a prender o sabre em sua cintura. Antes de fechar a porta, ele a observou mais uma vez, linda e cheirando a banho recém-tomado, enrolando seus cabelos no penteado em forma de três coques. Ainda ficou parado alguns instantes em frente ao painel cerrado, desejando voltar para o quarto e não sair mais de lá. Por fim, caminhou apressado até a sala de guarda mais próxima, sondando o caminho para evitar encontros indesejáveis, planejando se daria alguma desculpa aos seus subordinados, ou se simplesmente usaria a Força para obter um jantar para a garota. Acabou por fazer um pouco de cada.

Mesmo assim, não fora simples conseguir um kit de alimentação para oficiais longe do horário das refeições – seria menos complicado levar a ração dos stormtroopers, mas Kylo Ren queria impressionar Rey. O mais difícil de arranjar havia sido o cubo de sobremesa, um quadrado doce que ele detestava, mas que certamente agradaria à garota. As poucas mulheres com quem convivera gostavam de alimentos adocicados. Mas, enquanto voltava, já no corredor ele sentiu algo estranho no ar. A nítida impressão que ele tinha de Rey sumira, como se o quarto estivesse vazio.

E estava mesmo. Sobre sua cama, ele encontrou uma tira de tecido cinzento, não mais do que alguns centímetros, resquícios da manga improvisada que Rey usava. Mas ele tinha certeza de que atara as faixas nos braços dela meticulosamente, prometendo-lhe uma armadura de verdade. Sobre a mesa, ela também deixara as toalhas dobradas, ao lado de duas garrafas vazias de água. Fizera de tudo para que ele soubesse que sua saída havia sido deliberada, que ela não fora surpreendida por alguém da Primeira Ordem. Ele teve certeza de que ela fugira, o abandonara. Largou a comida e vasculhou o quarto, certificando-se até de que o elmo destruído do avô permanecera intocado. Rey não levara nada, exceto sua cálida presença.

Exasperado, ainda procurou por ela na sala de interrogatórios, mas encontrou o aposento tão desocupado quanto seu quarto. Tomado de fúria, ligou seu sabre e destruiu em segundos as paredes metálicas e a plataforma de contenção. Por trás de sua máscara, seus olhos se encheram d'água, mas ele não chorou. O ódio e o desespero logo deram lugar à solidão. Talvez ele a tivesse deixado partir, se ao menos ela houvesse lhe pedido... naquele breve idílio, ele não teria conseguido recusar nada que Rey pedisse. Mas fugir daquela forma, dizimando os sentimentos dele, era imperdoável.

Sentimentos.

Kylo Ren era impotente diante deles, como Vader também o fora.

Pensar nos sentimentos do avô arrastou sua mente para lembranças sobre sua mãe... o que inevitavelmente lhe trouxe à memória o rosto do pai. Por mais que matá-lo fosse a coisa certa a ser feita, aquilo não lhe trouxera nem paz, nem poder. E fizera com que Rey o odiasse! Oscilava entre o contentamento por tê-la feito assistir à morte de Han Solo, e a mais profunda culpa por fazê-la acreditar que ele não passava de um monstro parricida. Ela não percebia que o tolo, covarde, trapaceiro Han Solo não valia nada. Talvez Rey não valesse nada.

Rey. Rey. Rey...

A maca logo alcançou a nave que os levaria até outra base da Primeira Ordem. A mudança na iluminação era perceptível mesmo com as pálbebras de Kylo Ren cerradas. Com destreza e cuidado ele foi rapidamente transferido para uma cama de verdade, enquanto os técnicos terminavam de despi-lo para que pudessem verificar a gravidade de seus ferimentos. Ele finalmente abriu os olhos, e a luz ofuscante misturada aos analgésicos o deixou tonto. Um dróide médico lhe fez algumas perguntas, mas instantes depois ele já não se recordava das respostas. Sua mente vagueou mais uma vez, e ele viu a si mesmo na superfície glacial do planeta, procurando Rey desesperadamente, sem nunca encontrá-la. O vento congelava as lágrimas que ele derramava, o ferimento em sua barriga queimava numa dor lancinante, mas ele continuava andando, procurando por ela inutilmente. O feixe de plasma vermelho em seu sabre faiscava, iluminando a neve e as árvores com um lúgubre tom escarlate.

Pensando em sangue e em vingança, Kylo Ren finalmente sucumbiu à inconsciência.

* * *

Muito, muito longe dali, Rey chorou até pegar no sono.

Notas finais
Oi, pessoal! Logo que eu terminei de assistir Star Wars - The Force Awakens pela primeira vez, coloquei na cabeça que iria escrever uma fanfic sobre Rey e Kylo Ren. Planejei uma história curta, com dez capítulos, que descrevesse um encontro entre eles e terminasse de forma dramática, mas sem se distanciar tanto do roteiro do filme. Não tinha nenhuma pretensão, nunca havia publicado nada aqui no Nyah, em nenhum momento divulguei a fic, mas de repente tive esse recepção maravilhosa de todos vocês, com muitos comentários, recomendações, visitas, mensagens privadas... sinto-me verdadeiramente lisonjeada! Vocês são pessoas sensacionais, sempre com mensagens inspiradoras, elogios... e eu simplesmente não quero desapontar ninguém, mas sinto que o momento que eu queria retratar terminou... o que vocês acham? Agradeço qualquer tipo de feedback, sugestão, correção, etc. Mais uma vez valeu MESMO por todo o carinho que senti de vocês nessas últimas semanas. Tive um ótimo tempo escrevendo, escolhendo as citações que abrem cada capítulo, e espero que vocês também tenham aproveitado a leitura. Um beijo, que a Força esteja com vocês! Livia
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!