Um sabre cor de sangue
3 Capítulo 3 - Vermelho
Notas iniciais
Sem a barreira pesada da máscara que sempre usava, Kylo Ren inspirou com prazer o ar da sala de interrogatórios. O cômodo rescendia a um dos produtos usados pela equipe de higienização da base, imaculadamente limpo mesmo após incontáveis prisioneiros terem passado pela plataforma de contenção. E também cheirava a medo, um odor sutil que somente alguém com sentidos aguçados como os dele seria capaz de perceber.
Livrar-se do elmo havia sido mais um impulso do que uma decisão. A garota o imaginava como um monstro, uma criatura de face distorcida e horrenda, não-humana, ou então terrivelmente marcada por cicatrizes. Quando ela o desafiou, não resistiu ao ímpeto de mostrar-se como era. Ela aprenderia a temê-lo a despeito da aparência que tivesse.
Aproximou-se devagar da plataforma, saboreando a reação que sua face exposta causara na prisioneira. Ela permanecia quieta, observando-o com um misto de terror e desprezo no rosto. Kylo sabia que ela esperava um monstro abstrato de histórias infantis, mas agora descobriria que os homens comuns podiam ser mais temíveis que o rathtar descontrolado que ele vira em sua mente.
Não obstante, ele não poderia ser considerado exatamente um homem comum. É claro que, despido de seu uniforme negro e da arma que construíra para si mesmo, ele não aparentava nada de especial. Sim, era mais alto que a maioria dos humanos, e os anos de treinamento físico manifestavam-se em sua agilidade e no corpo musculoso porém esguio – mas nenhuma destas características o tornava único. O que realmente fazia dele alguém extraordinário era imperceptível à maioria dos olhos – a Força, apesar de estar em tudo, não se mostrava para quem não fosse digno dela.
E em momentos como aquele, prestes a invadir e arrasar a mente de um prisioneiro, ele podia senti-la queimando dentro de si, uma fogueira ardendo em seu peito, flamejando por seu abdome e membros. Tinha a sensação de que as chamas poderiam escapar por suas costelas, subir até seu crânio e iluminar suas órbitas, tingindo-as de vermelho como o laser em seu sabre. Sentia o poder latejar no ritmo das batidas de seu coração, espalhando-se por seu corpo através de suas veias, junto com o sangue, até apoderar-se de cada célula. A Força transbordava dele, crua e indomada, e ele sabia que era por isso que fora escolhido por seu Líder.
Durante alguns segundos, teve a impressão de que a garota o via como ele se imaginava, ou como olhos habilidosos na Força poderiam enxergá-lo: uma criatura fulgurante de cor escarlate, devastando tudo em seu caminho, transformando em cinzas qualquer inimigo. Ignorou este pressentimento, julgando que talvez ele mesmo estivesse projetando tal imagem na mente frágil dela. Inclinou-se sobre a mesa de contenção até seu rosto quase tocar o de sua cativa.
Ela não desviou os olhos, desafiadora, e ele notou que eram de um âmbar brilhante. A catadora de lixo tinha feições delicadas, levemente queimadas pelo sol de seu planeta desértico. Ela usava o cabelo puxado para trás em pequenos coques, num penteado que ele julgou infantil, mas que combinava com o frescor e a impetuosidade que percebia nela. Alguns fios soltos ladeavam o rosto jovem. Mesmo um homem como ele era capaz de perceber as coisas belas. O cheiro do medo que ele havia captado ainda permanecia mas, ignorando-o, aspirou o odor natural dela, suave e agradável, algo adocicado misturado a areia e suor. Era o aroma que ele sentira ao carregá-la até a nave, e que permanecera impregnado em seu manto.
Kylo também observou o movimento do tórax dela, subindo e descendo. Continuou utilizando seus poderes telepáticos sutilmente, para evitar que a garota resistisse a ele, e descobriu que ela tentava apaziguar a própria respiração: julgava que assim demonstraria coragem e auto-controle. Mas ainda assim arfava, os seios pequeninos tremendo de maneira quase imperceptível. Sentiu-se desconcertado ao perceber que estava olhando para eles, mas não permitiu que seu embaraço transparecesse. Não era incomum ter prisioneiras mulheres, mas até aquele momento a aparência de suas vítimas lhe havia sido indiferente, não se importava com seu gênero ou nem mesmo idade. Desde muito cedo voltara suas paixões para o poder e a vingança, e esforçava-se para que não sobrasse espaço para mais nada. Sua única devoção devia ser ao lado sombrio da Força, e ele sabia bem que este era um caminho solitário, sem espaço para compaixão.
Entretanto, por um instante pensou que poderia se apiedar dela, tão desamparada, tão franzina. Gotículas de suor pontilhavam a testa da garota, e ele podia perceber seu coração acelerado através da pulsação que reverberava no pescoço frágil. A tensão, ele soube, beirava o insuportável para ela. Pareceu-lhe quase covarde amedrontá-la daquela forma, logo ele que poderia destruí-la com facilidade, extinguir sua vida num piscar de olhos, ou até mesmo machucá-la de outras formas... ainda que nunca houvesse usado esse tipo de coerção. Mas enterrou este pensamento no fundo de sua mente. Ninguém merecia sua clemência, tampouco seu desejo – apenas seu ódio. E aquela catadora de lixo fazia parte da corja rebelde que ousava desafiar o Líder Supremo, que ousara desafiar seu avô, e ele não permitiria que continuassem a fazê-lo. Não pretendia matar a garota, ao menos não agora, mas decidiu que se regozijaria em tirar dela tudo o que fosse necessário.
Concentrou-se nos olhos cor de âmbar mais uma vez. Ela trazia em algum lugar de sua memória o mapa que permitiria a Kylo Ren esmagar de uma vez por todas a Resistência. Ele arrancaria esta informação da catadora de lixo, era o que fazia de melhor. Com cautela, projetou-se para o interior da mente da prisioneira, e aprendeu que seu nome era Rey.
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