Um sabre cor de sangue

2 Capítulo 2 - Máscaras


Notas iniciais
"She's not the kind of girl Who likes to tell the world About the way she feels about herself She takes a little time In making up her mind She doesn't want to fight against the tide"

Rey nunca havia estado nos braços de alguém até aquele momento. Durante os poucos instantes em que recobrou os sentidos percebeu que a carregavam no colo, mas seus olhos ainda turvos não conseguiram divisar para onde. Teve medo de cair e, por instinto, enlaçou o pescoço de quem a levava, e a pessoa empertigou-se instantaneamente. O corpo que a sustentava era quente mesmo através de grossas camadas de um tecido duro, emanando calidez como a areia de Jakku no começo da noite; um corpo forte, que ela soube ser masculino. Apesar de tão próximo, o rosto dele lhe pareceu uma máscara, um poço sombrio envolto por um capuz negro. A escuridão em torno dele era hipnótica, irresistível, e ela se deixou levar até submergir outra vez na inconsciência.

Muito tempo depois, a primeira coisa que voltou a sentir foi o frio. Repousava sobre uma placa rígida e metálica, talvez algum aparato de resfriamento. Não estava realmente deitada; a posição da mesa era incômoda, inclinada num ângulo quase perpendicular ao chão. Desta vez não havia braços fortes ao seu redor, apenas um cheiro indistinto, artificial, nada parecido com o odor pungente de seu planeta ou com o aroma da floresta em Takodana. Confusa e dolorida, tentou se espreguiçar e espantar o que lhe pareciam ser os resquícios de um sonho estranho. E então percebeu que estava presa.

Piscou algumas vezes até se acostumar à iluminação artificial da sala, e logo notou a figura negra ajoelhada a sua frente, acolhida num manto. O susto a despertou por completo. Soube então que havia sido capturada, mas pelo menos ainda a mantinham viva. Compreendeu que havia sido poupada para algum tipo de interrogatório. Mas Rey era forte; apesar de atemorizada, decidiu que tortura nenhuma seria capaz de fazê-la trair a Resistência. Preparou-se para o pior, o que quer que fosse.

– Onde estou?

Sua voz soou trêmula, mas ainda assim desafiadora. O vulto coberto de negro aproximou-se dela, e Rey reconheceu o inimigo na floresta, o monstro que possuía um sabre cor de sangue. O coração da garota acelerou ao pensar no que poderia esconder-se sob a máscara escura. A respiração dela se tornou mais curta e rápida, gotas de suor frio escorreram por sua nuca; apesar de tentar demonstrar bravura, o medo que ela sentia era agora visível, palpável. Ele era tão alto, assomava-se sobre ela como a sombra de alguma besta agourenta e terrível, como um mau presságio. No silêncio da sala, ela podia ouvir fracamente o ruído da respiração dele por detrás da máscara, um lúgubre farfalhar surpreendentemente orgânico.

– Você é minha convidada.

Havia uma certa gentileza cínica na voz distorcida e metálica. Rey se deu conta da fragilidade de seu corpo magro e aprisionado, à mercê de seu captor. Seus membros delgados e bronzeados, que sempre lhe pareceram fortes e saudáveis, tinham agora um tom doentio e anêmico sob o brilho amarelento da luz da sala. Cerrou os punhos, tentando de algum modo parecer menos fraca. Precisava manter-se calma: despojada da possibilidade de fugir ou lutar, sua mente seria a única arma contra ele.

– E os outros, onde estão?

– Se você se refere aos traidores, ladrões e assassinos que chama de amigos, ficará aliviada em saber que eu não faço a menor ideia.

Ela considerou cuidadosamente o desdém na voz dele. Era difícil julgar as intenções de alguém com as feições ocultas. Seu coração apertou-se, conjecturando que ele facilmente mentiria para fazê-la falar, e que todos poderiam estar mortos agora. Lutou para afastar este pensamento. Continuou encarando o homem alto, com um ódio crescente que jamais havia sentido. Imaginou-o caído no chão, dominado e vulnerável como ela estava agora; Rey teria tomado o sabre dele e, empunhando-o com as duas mãos, enterraria o feixe no peito do inimigo até o estranho guarda-mão em forma de cruz.

– Então você ainda quer me matar?

Mas não era uma pergunta, na verdade. Rey era transparente para ele, o monstro conseguia ver seus pensamentos sem esforço. Ele era um animal peçonhento, uma criatura ominosa que invadia e contaminava com sua presença algo sagrado e inescrutável, pois ninguém deveria ter o direito de invadir assim a mente das pessoas. Ela deixou que a fúria tentasse tomar o lugar do medo, sacudindo com raiva as algemas que a prendiam.

– É o que acontece quando tem uma criatura mascarada caçando você!

Encarando-a, ele deu alguns passos para trás, seus movimentos fluidos e harmoniosos como que para contrariar a ideia de monstro que Rey fazia dele. Puxou o capuz para os ombros largos e, tocando pontos escondidos sob o próprio queixo, destravou a máscara, que abriu lentamente com um ruído abafado. E então ergueu o capacete.

Rey engoliu uma interjeição de surpresa, espantada pelo rosto muito jovem e pálido que surgiu diante dela, com traços fortes e masculinos. Os cabelos negros eram volumosos e pendiam desalinhados, deixando-o com um ar adolescente e perigosamente inofensivo. Os olhos dele, que a observavam de forma atenta e desapaixonada, eram também escuros, com sobrancelhas espessas e inquisitivas. Rey pensou ter visto algo queimando no fundo do olhar dele, uma tênue faísca avermelhada que logo desapareceu. Observaram-se calados por um tempo que lhe pareceu muito longo. Agora a máscara dele era outra – não mais de monstro intangível, mas de inocência quebrada, maculada por orgulho. Rey não soube distinguir quanto havia de menino triste e de homem cruel naquele semblante.