Um sabre cor de sangue
10 Capítulo 10 - Galáxia
Notas iniciais
Rey estava bastante acordada, mas a situação ainda parecia irreal para ela: desde sua fuga enlouquecida de Jakku, pilotando o cargueiro coreliano, até ser dominada e capturada em Takodana pelo homem que agora se aninhava junto a ela. Recostada contra a parede, nua naquele estranho quarto, ela acariciava ternamente os cabelos do jovem que dormia em seu colo. Com seu elmo e seu manto negros, o sabre em forma de cruz, ele se transformava em um monstro ameaçador e terrível; mas ali, despido e encolhido, ressonando placidamente, ele não passava de um garoto grande. E como ele era grande! Seu corpo alvo ocupava quase todo o leito, deixando poucos centímetros para Rey. Mas, apesar de toda a força e tamanho que Kylo Ren possuía, dormindo ele era um alvo fácil.
O sabre dele não estava muito longe da cama, então seria simples acabar de uma vez com aquilo. Ela precisaria se levantar para pegar a arma, mas Rey era ágil e habilidosa— antes que ele se desse conta do que ocorria, ela poderia atravessá-lo com o plasma vermelho. Estremeceu ao pensar nisso. Ele era o filho de Han Solo. E era também o primeiro homem a beijá-la, o primeiro que a tomara nos braços, o primeiro que ela desejara. Nunca havia sentido vontade de se entregar para ninguém até aquele dia. Seria mesmo capaz de pôr um fim em tudo, de matar a sangue frio o cavaleiro adormecido? Imaginou que Kylo Ren certamente a mataria sem hesitar, se chegasse o momento...
Assustada com o rumo que seus pensamentos tomavam, ela tirou a mão dos cabelos dele. O jovem encolheu-se ainda mais na cama, talvez sentindo a súbita falta do toque dela. Mas não acordou. Como no momento em que ele retirara a máscara pela primeira vez, sua vulnerabilidade fizera-se manifesta, tangível. Ela soube que não seria capaz de machucá-lo, não agora. Encurvou-se sobre ele até beijá-lo com muita suavidade. Ela poderia fugir. Sim, aproveitar-se do sono dele para ir embora. Correu os olhos pelo quarto, observando a disposição de suas roupas pelo chão, planejando como vesti-las rápida e silenciosamente. Levaria o sabre dele, daria um jeito de abrir a porta do quarto, e não olharia para trás. Por mais que esta fosse a ideia mais sensata, sentia seu coração pesado, o arrependimento brotando nela antes mesmo que resolvesse se levantar.
Mas então Kylo Ren tomou a decisão por ela, ainda que involuntariamente. Esticou seus braços fortes, espreguiçando-se, e sentou-se na cama com ar sonolento. Ela permaneceu imóvel, calada, indecisa. Observou-o esfregar os próprios olhos, como um garotinho faria. Ele se virou para ela, o cabelo úmido caindo em cachos despenteados sobre seu rosto. E então sorriu, parecendo absolutamente inofensivo. Todas as dúvidas de Rey murcharam com aquele sorriso. Ela mordeu o próprio lábio inferior, perturbada pela intensidade do que sentia, julgando-se tola e inconsequente. Como seria capaz de feri-lo quando era inevitável acariciá-lo? Como poderia fugir dele, se tudo o que desejava naquele momento era senti-lo mais uma vez dentro dela? A garota encolheu suas pernas magras e cruzou os braços, consciente da própria nudez, e devolveu timidamente o sorriso.
— Parece que eu caí no sono... – ele começou a falar meio sem jeito, passando a mão pelos cabelos pretos, como se não soubesse o que dizer.
— Tudo bem, você deve ter cochilado por uma hora, no máximo.
Kylo Ren deu de ombros. Ele não pedia desculpas por nada, Rey constatou. Onde ela estava se metendo? Ela deveria ser mais responsável do que isto. Mas as objeções de sua consciência não encontravam apoio no coração da garota, muito menos em seu corpo arrepiado. Mais uma vez ela percebia o calor na pele dele, que agora ela sabia ser a Força cercando-o. Também podia sentir o mesmo poder ao redor dela, mas de uma forma mais contida. A Força a envolvia como um abraço caloroso, e não como o turbilhão de fogo que ameaçava engolfar Kylo Ren. E talvez fosse exatamente isto que o tornava irresistível. Num impulso, ela se ajoelhou sobre a cama e beijou apaixonadamente o garoto sentado ao seu lado.
A surpresa e a excitação de Kylo Ren emergiram em Rey, como se ela pudesse sorvê-las através do beijo molhado que trocavam. Atônito, ele a enlaçou pela cintura, prendendo-a com a força. Rey afastou-se da boca dele por um instante, segurando-o pelos ombros. Ele abriu os olhos e a encarou, ofegante, sem se dispor a soltá-la. Fitou-a de modo confuso, tentou retomar o beijo, mas a garota não permitiu. Agora que já sabia o que a esperava, Rey decidira tomar para si o controle da situação. Sem nada dizer, sentou-se no colo dele. Pôde senti-lo rijo contra ela, mas não deixou que o cavaleiro fosse adiante.
O encaixe seria perfeito. Rey sentiu aflorar em seu sexo a umidade que permitiria a Kylo Ren deslizar para dentro dela. Seus corpos unidos possibilitavam que suas mentes interagissem livremente, e ela viu-se à beira de um abismo – era o desejo dele, escuro como um céu sem estrelas, ávido para absorver Rey e consumi-la com violência. O chamado do Lado Sombrio era aterrador e magnífico, e atingiu a garota com uma fúria impossivelmente doce, do mesmo sabor que os lábios dele. Intoxicada pelo convite da escuridão, Rey arfou, reunindo toda a sua força de vontade para repelir a atração das trevas. Mas Kylo Ren percebera a suscetibilidade nela. Ela pôde sentir o fascínio e a malícia crescerem nele, transbordando para dentro dela, envenenando-a.
Ele aproveitou para beijá-la, segurando firme a nuca dela para que Rey não fugisse mais. Ela compreendeu: Kylo Ren tentava quebrar a resistência dela, fazê-la mergulhar com ele no Lado Sombrio. Por um segundo ela considerou desistir e partir com ele para o interior do negro torvelinho de luxúria e poder. Mas só por um segundo. Usou toda a sua coragem para empurrá-lo, mas ele mal se moveu. Num rompante, Rey mordeu o lábio do cavaleiro. Ele tentou se desvencilhar e continuar a beijá-la, mas ela não cedeu. A catadora de lixo era uma sobrevivente, e sabia muito bem se virar sozinha. Agarrou os cabelos na parte de trás da cabeça dele e puxou com força, afastando-o – se continuasse a mordê-lo, logo sentiria o sangue dele. Ele enrijeceu ainda mais de encontro a ela, e desceu uma das mãos até as nádegas de Rey, tentando mover o corpo dela e facilitar a consumação do ato.
Ela resistiu bravamente. Uma constelação de sentimentos assomava-a. E era disso que o Lado Sombrio se alimentava, daquelas paixões descontroladas e avassaladoras. Ela manteve a cabeça dele puxada para trás, tentando subjugar a raiva que sentia, domar a vontade louca de tê-lo dentro dela. Mesmo aquele confronto entre os dois era incrivelmente excitante. Somente exaurindo seu autocontrole Rey se salvaria de capitular nos braços do guerreiro. Mantendo os cabelos dele esticados com firmeza, sussurrou no ouvido do jovem cavaleiro:
— Kylo Ren, se você tentar me forçar, inclusive a ir para o Lado Sombrio, eu juro que não vai conseguir tirar nada de mim. Nada.
O quarto começou a tremer discretamente, as luzes piscaram. Os poucos objetos dispostos ali, o sabre de luz, as roupas no chão, a garrafa de água, tudo levitou alguns centímetros acima do piso, oscilando no ar. Ela não vacilou nem por um instante. Aquilo não a intimidaria.
— Peça desculpas por ter tentado.
Ela sentia que ele estava furioso, de novo o guerreiro arrogante. Mas por um motivo qualquer, insondável para Rey a despeito da intensa conexão telepática que partilhavam, ele aquiesceu.
— Desculpe. – Murmurou, dissimulando a contrariedade que sentia.
Rey mexeu-se sobre ele, esfregando-se na deliciosa rigidez pressionada contra a parte mais sensível de seu corpo. Ela o beijou com ternura, como se ignorasse deliberadamente o que acontecia entre as pernas dele. Os objetos desceram lentamente e voltaram aos seus lugares. Ela soltou o puxão no cabelo dele, sentindo a dor em seu próprio crânio. Respirou fundo.
— Desculpe ter puxado o seu cabelo.
Agora ela tomaria as rédeas da situação. O desatino era perigoso demais, assim como permitir que o cavaleiro a dominasse também era. Devagar, ergueu os quadris e deixou que Kylo Ren se guiasse para dentro dela. Beijando-o, não sentiu dor alguma ao recebê-lo, centímetro por centímetro. Fizeram no ritmo dela, abraçados, e por muito mais tempo que na primeira vez. Tempo o bastante para que Rey sentisse o prazer rebentar dentro dela, como as ondas do mar agitado que ela sempre via em seus sonhos. Gemendo, agarrou-se a ele, entregue ao êxtase. Kylo Ren logo a seguiu, experimentando um enlevo ainda mais delicioso que o anterior.
Permaneceram assim por um tempo que Rey não foi capaz de contar, esperando que seus corações desacelerassem, que a respiração voltasse ao normal, grudados como se fossem as últimas pessoas da galáxia. Rey já não percebia a ameaça do Lado Sombrio, apenas a saciedade e o cansaço – e não soube dizer o quanto de cada sensação era dela, e o quanto era de Kylo Ren. No entanto, uma destas sensações vinha definitivamente de si mesma:
— Talvez não seja o melhor momento para dizer isso, mas estou morrendo de fome.
Ao ouvi-la, Kylo Ren gargalhou jovialmente, um som delicioso e masculino que fez Rey ter esperanças de que ele poderia ser salvo. Riu com ele, e naquele momento eram apenas um jovem casal saboreando a companhia recíproca. Ele levantou da cama sem tirar a garota do colo, carregando-a nos braços com facilidade. Ela o enlaçou pelo pescoço e o beijou.
— Antes nós precisamos de um banho. – Ele disse, divertido.
Ele a carregou até uma das paredes, onde havia uma pequena caixa de interruptores coloridos. Pressionou um deles e uma porta deslizou, revelando instalações sanitárias. O cômodo era maior do que Rey imaginara, e ela espiou curiosa para dentro dele, deliciando-se ao ver uma banheira — o único luxo óbvio do aposento. Mas logo voltou-se para ele. Ele. Kylo Ren. O jovem ainda sorria, e a garota percebeu que ali não havia maldade; ele se mostrava indefeso. Em pouco tempo Rey saberia que, durante o breve intervalo daquela tarde, ele fora Ben Solo pela última vez.
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