Um sabre cor de sangue
1 Capítulo 1 - Fumaça
Notas iniciais
Ele nunca havia segurado uma mulher nos braços antes. Enquanto caminhava em meio aos destroços e à fumaça carregando o corpo frágil, lembrou-se dos abraços da mãe quando ainda era um garotinho, um menino solitário e magricela, que se esgueirava pelos cantos observando o mundo dos adultos. Houve um tempo em que a mãe era quase que somente dele, sempre rindo, contando-lhe histórias. Nesta época feliz ele nunca se deu conta da situação em que viviam. A rotina de mudanças e de fugas lhe parecia cheia de aventuras, mais histórias para o repertório da mãe. E um dia ele mesmo poderia fazer parte destas histórias – a mãe havia lhe confidenciado que ele era o herdeiro de uma linhagem nobre, poderosa e sábia, capaz de realizar todo tipo de proezas, e que assim que tivesse idade suficiente começaria a treinar essas habilidades para lutar ao lado dela.
Naquele tempo o pai também se dedicava a ele. Carregava-o nos ombros, trazia-lhe sempre presentes de suas viagens, explicava-lhe longamente sobre os planetas que visitara ou como pilotar naves. Sempre que passava por ele na correria do cotidiano oferecia-lhe uma piscadela marota, o cumprimento particular que usavam entre si, ou carinhosamente bagunçava-lhe os cabelos escuros. Mas o pai não gostava de conversar sobre poderes, e mudava de assunto quando ele falava do treinamento prometido pela mãe.
Com o tempo notou que o pai e a mãe discordavam em muitas coisas, e conforme ele crescia os beijos entre os dois se tornaram paulatinamente mais raros. Mais de uma vez o garotinho fora acordado por conversas acaloradas que acabavam assim que os pais notavam sua presença ainda sonolenta, atraído pelas vozes. Certa vez ele entendeu bem o que diziam: a mãe insistia que alguém logo viria buscar o menino, e o pai argumentava que ele era pequeno demais para partir, fraco demais, que não suportaria a separação da mãe, que as outras crianças faziam troça dele, o atormentavam com apelidos. “Eu sei”, a mãe disse. “Já o vi sendo chamado de fraco, e isso me preocupa”.
Fraco. Covarde. Mimado. Filhinho da mamãe. Era assim que as outras crianças o chamavam. Chorão. Esquisito. Ouvia estes e outros insultos frequentemente, e guardava a vergonha escondida dentro do peito, tentando manter a dignidade em nome dos pais. Acreditava que eles não notariam se conseguisse disfarçar bem.
Mas ouvir aquilo mudou tudo. Saber que os pais... que os pais concordavam... que ele era fraco, e covarde... tomado de raiva e vergonha, ele correu até o casal e começou a gritar. Descontrolado, quebrou o que viu pela frente, arrancando fios de um painel até as mãos sangrarem em contato com o metal, duas de suas unhas arrancadas; por fim, o pai o segurou pelos braços e o sacudiu, tentando chamá-lo de volta à razão. A mãe se aproximou, pedindo que se acalmasse, mas aquilo fez com que ele gritasse ainda mais alto, histérico. O pai aumentou o aperto ao redor de seus braços finos, e a criança sentiu as próprias mãos formigarem conforme a dor sobrepujava a fúria.
Os dedos do pai pareciam capazes de quebrar-lhe os ossos. A dor então encontrou o medo, e o menininho apavorado não conseguiu se conter: a urina quente encharcou suas calças, enquanto a humilhação amargou sua boca como bile. E então algo estalou dentro dele, no fundo de sua mente, como a explosão que segue um curto-circuito. Ele não se moveu, apenas tomou fôlego e encarou o pai já sem novas lágrimas nos olhos. Engoliu o resto do choro e, num sussurro maligno demais para uma criança, ordenou que o pai o soltasse. A boca do pai abriu-se de espanto conforme seus braços pendiam ao lado do corpo, inúteis, libertando o garoto. O homem balbuciou algo parecido com um pedido de desculpas, mas o menino fez sinal para que ele se calasse. Com sua voz infantil corrompida por um escárnio terrível, sibilou: “quer bater em alguém? Bata nela”. E sorriu quando o pai esbofeteou com força o rosto da mãe.
A garota em seus braços suspirou, e foi o suficiente para tirá-lo do devaneio em que mergulhara. Empertigando-se, esforçou-se para expulsar aqueles pensamentos. Seu passado não significava mais nada. Seus pais não significavam mais nada. No final, os dois tolos o haviam abandonado, enviado para longe o menininho frágil e sensível que ele havia sido, transformando qualquer bondade que pudesse ter trazido dentro de si em ódio, em raiva, em poder. Hoje ele era um cavaleiro, um homem forte, mais alto do que o próprio pai, carregando para sua nave uma prisioneira de guerra. Sua prisioneira de guerra, provavelmente aliada dos dois idiotas que o chamavam de filho. E ele a faria contar tudo o que sabia, de um jeito ou de outro.
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