Obrigada por acompanharem a minha história! Vamos lá?

O espaço preparado para a coletiva de imprensa estava lotado. Repórteres de diversos países, além das agências brasileiras, tomavam o lugar com uma euforia assustadora. Colocamos diversas TVs nas paredes para promover o filme e causar aquela sensação de estar participando mais ativamente. Além do tapete vermelho do lado de fora, um grande cordão grosso separava os fãs do local onde os artistas tirariam as fotos, e foi ali que redobrei a segurança para que nenhum louco ultrapassasse a faixa.

Meu celular e o mapa da grande casa de eventos eram as minhas ferramentas mais importantes naquele momento além do rádio comunicador. Do lado de fora, inúmeras pessoas gritavam o nome de Nick Cooper e da atriz Jennifer Wilde, seu par romântico.

— Não sei se sinto pena dos outros atores que vieram no lugar dele. – conversei pelo rádio com a minha segurança preferida. – O cara nem está aqui, cambio. – eu tinha um canal exclusivo com ela e isso nos deixava à vontade para falar besteiras. Sempre trabalhávamos juntas, pois sua empresa de segurança era uma das mais bem conceituadas e eu sempre era a encarregada de contratar os seus serviços.

— Eu entendo. É como assistir à première de Crepúsculo sem Robert Pattinson.

— Outro filme de vampiro e todo esse alvoroço. Elas não se cansam?

— Quando se tem um homem lindo mordendo pescoços de donzelas, nunca se terminará essa paixão. Quem não gosta de uma mordidela no cangote? – eu até pensei em rir, mas o primeiro carro da noite havia chegado e a gritaria ensurdeceu os meus ouvidos.

— Começou o show. Cambio e desligo.– despedi-me.

— Jenny, eu te amo! Jenny, eu te amo.

Os fãs gritavam e, como parte do meu trabalho, escutei essa bela canção por uma longa hora, afinal era de se esperar que os fãs enlouquecessem após a sua aparição. Jennifer havia chegado em uma limusine preta. De acordo com as minhas fontes, ela hospedara-se em um hotel próximo ao local e, por isso, não se atrasara.

Seu vestido era a verdadeira atração e não os seus longos cabelos, pois Jennifer os prendeu deixando apenas uma pequena parte solta nos lados das orelhas. Devido à cor branca gelo de seu vestido, as luzes que incidiam sobre ela refletiam-se como um cristal faz. Era feito com uma longa calda plissada o que harmonizou ainda mais cor de seus cabelos escuros. Ela era linda! Vê-la na televisão era uma coisa, mas a sua altura e seu corpo atlético a deixavam ainda mais exótica de perto. Estava deslumbrante essa noite. A atriz foi simpática com todos, tirando selfies, autografando, dando tchau e posando para os fotógrafos. Sua aproximação no cordão de segurança deu trabalho à equipe, pois todos queriam agarrá-la. Ela, por sua vez, não pareceu incomodada. Assim que terminou com o seu momento celebridade, eu me posicionei para levá-la ao local certo.

— Que medieval. – ela balbuciou em inglês fechando a cara por alguns segundos ao passar por mim na porta. Falara de seus próprios fãs?

Eu não era paga para opinar, muito menos para me ofender com qualquer tipo de comentário, mas aquilo me enojou.

— Boa noite! Meu nome é Michelle. – cumprimentei-a e me apresentei com a educação de praxe. – Temos um local confortável onde a senhorita poderá se sentar para a entrevista que logo ocorrerá assim que todos os seus colegas chegarem.

— Preciso de água. Aqui faz muito calor. – ela pediu sem me olhar. Caminhávamos até o pequeno palco e pelo pouco percurso que fizemos, pude escutar pelo menos umas cinco reclamações diferentes.

— Providenciarei imediatamente. – avisei.

— Ótimo. – apontei para a poltrona e solicitei por rádio a um garçom que trouxesse o pedido da rainha.

Os demais artistas foram chegando, mas sem tanto entusiasmo dos fãs, a não ser pelo loiro deslumbrante, rival do protagonista do filme. Assim que toda a equipe se encontrava sobre o palco, a imprensa teve o seu momento. Alguns grupos de fãs com permissão especial puderam participar, alguns até mesmos vestidos de vampiro. Era algo surreal, mas bem divertido. Acabei me pegando sorrindo ao ver tanta paixão por alguém que nem conheciam e percebi o quanto minha vida estava monótona. Não ia ao cinema e não lia mais livros para entretenimento, somente aqueles necessários para a profissão. Eu mergulhei no trabalho para esquecer todo o resto e a consequência foi Diversão zero.

— A maioria dos filmes é voltada para o público feminino. Você acha que a maldição da lua seria mais um para o gênero? – perguntou um repórter da revista Fofocamania.

— Não se trata de gênero. Este filme é voltado para todo o público. Tanto feminino quanto masculino. É só olharem para mim. – brincou arrancando risadas de todos, inclusive minha. – A história é uma distopia misturada com fantasia e é isso que a faz ser tão especial. – completou.

— Sobre o seu par romântico, o ator Nick Cooper, vocês são considerados o novo casal teen da atualidade. As meninas se enlouquecem quando os veem juntos. Você se identifica tanto com ele como aparenta no filme? – uma fã, dono de um blog dedicado ao filme, pergunta com um inglês impecável.

Jennifer suspira com um sorriso. Essa atitude é notória de alguém apaixonado, mas tudo poderia ser um jogo de marketing.

— Eu e Nick somos um par perfeito. – um “ohhh” se fez presente por todo o ambiente. – Maaas, somos amigos desde a infância. Fizemos testes juntos para vários filmes, brincamos, saímos entre amigos comuns, não teria como não existir uma ligação entre nós. Seria impossível.

— Por que ele não veio? – uma outra pessoa perguntou no meio da multidão.

— Compromissos. – mais uma vez um “ohh” só que triste ressoou pelo salão. – Pois é, pessoal. Ele não pôde vir. – ela sabia como encantar a todos.

Os demais convidados foram entrevistados por diversas pessoas e o diretor contou um pouco mais sobre o futuro da trilogia.

— A empresa cinematográfica responsável por toda essa linda produção que vocês poderão usufruir nos próximos dias no cinema... – falou o diretor de arte. –... Confirmou essa semana que mais dois filmes serão lançados. Vocês terão muito mais de Nick Cooper e Jennifer Wilde nesta grande aventura. – isso bastou para que todos fossem ao delírio.

— Tenho certeza que muitas surpresas virão. – Jennifer completou a frase do diretor com um sorriso de fazer qualquer homem beijar os seus pés.

Eu estava adorando tudo aquilo, mas uma gritaria fora do lugar parou a entrevista de repente. O diretor do filme, o outro ator, que eu me recusava a me lembrar do nome, e a própria atriz se assustaram com o repente que houve.

— O que está acontecendo? Cambio. – perguntei no canal aberto a toda a equipe. Meu lugar era estratégico, pois era longe da multidão, mas perto o suficiente dos convidados, ou seja, eu era como uma sombra por trás do evento.

— Senhora, parece que o ator Nick Cooper acabou de chegar. Cambio. – um segurança me informou.

— O quê? Você tá me zoando? – minha frase cheia de gíria saiu sem querer, mas não havia tempo de cuidar da postura e vocabulário formal. O tumulto iniciado, e que parecia caótico, era mais importante. E minha intuição gritava que a noite estava somente começando, pois pelo que escutei, tudo na parte externa do evento estava totalmente fora de controle.

(...)

Passava das dez horas da noite quando a gritaria recomeçou. Primeiramente, pensei que fossem apenas fãs enlouquecidas com a première, mas o corre-corre dos seguranças confirmou que se tratava de alguém importante e muito conhecido. Como eu era a organizadora e responsável por manter tudo em perfeita calma, fiz como meus colegas de trabalho e corri como uma doida para ver o que estava acontecendo. O salto alto era um empecilho, mas nada me faria diminuir o passo após ver uma grande limusine parada na frente da casa noturna.

Os monitores das TVs nas paredes mostravam flashes de câmeras, assim como repórteres alvoroçados que cobriam na área externa.

— Não acredito. – falei ao perceber que se tratava realmente de Nick Cooper.

Dizer que Nick causou um tumulto foi pouco. Ele distribuía sorrisos e autógrafos sem se importar com a sua sanidade física. Todos queriam tocá-lo. Várias meninas precisaram ser socorridas após desmaiarem e isso foi me dando aflição, pois qualquer problema sério como uma invasão poderia colocar tudo a perder. Ele veio como um vendaval inesperado com aquele terno escuro e gravata prateada encarando a imprensa e os fãs com acenos e beijos sorridentemente como se estivesse em casa dando tchau para sua mãe após sair para trabalhar.

Eu esperei pacientemente o seu momento acabar, observando-o atentamente. Sua altura era tão impressionante quanto à de sua amiga atriz. Quando, enfim, ele terminou de dar a atenção aos jovens histéricos, se virou procurando por alguém para instruí-lo. Essa pessoa seria eu, mas fiquei hipnotizada quando vi a cor de seus olhos. Além de seu talento, como não poderia conquistar o público brasileiro com seus belíssimos pares de olhos azuis? Eram chamativos.

— Olá! Boa noite? – cumprimentou em inglês ainda com o sorriso no rosto. Pisquei algumas vezes um pouco envergonhada por viajar naquele momento. Precisava sair de meu leve torpor.

Não era a primeira vez em que me deparava com pessoas bonitas, ricas e famosas, mas esse rapaz tinha uma simpatia estampada em sua forma de se mover e sorrir que até eu, que não era fã, fiquei sem ação ao vê-lo por perto.

— Boa noite, senhor Cooper! Sua presença não era esperada. – comentei despretensiosamente olhando para a prancheta na minha mão. – Vamos entrar? Eu pedi para que coloquem mais uma cadeira no palco. Só precisaremos esperar alguns minutos.

— Tudo bem. Posso aguardar.

— Me acompanhe, por favor. – pedi gentilmente. Caminhei à sua frente para guiá-lo até uma sala privada longe dos holofotes.

Ninguém o havia visto na parte interna, de acordo com a minha ajudante na segurança. Ela veio até mim depois de alguns minutos.

— O que é isso, meu Deus? – comentou seriamente em português como se falasse sobre algo profissional. – sorri.

— Caiu do céu e veio diretamente para cá. – tentei fazer uma piada sobre anjos.

— Ele é... – ela o olhou e acenou com a cabeça como se o cumprimentasse. – excitante. – não pude deixar de dar uma gargalhada que acabou chamando a atenção de Nick. Ele estava sentado no sofá dentro da pequena sala destinada aos atores. Lá havia tudo que eles precisavam como alimento fresco, bebidas, mesas, etc.

— Desculpe-me, senhor Cooper. Minha colega de trabalho está nervosa com toda a situação que sua aparição causou hoje e eu não pude deixar de desfrutar de seu pequeno pânico. – menti.

— Aparição? Não sou um fantasma, lady. – ele riu. – Eu quis fazer uma surpresa aos meus fãs. A minha assessoria de imprensa me informou que o público brasileiro é um dos maiores que tenho como admiradores e seria injusto não participar do lançamento do filme logo no país onde A maldição da lua será possivelmente campeã em vendas.

— Eu agradeço o seu carinho com o meu povo, mas é que... – parei de falar. Não precisava sempre mostrar o meu ponto de vista. Isso poderia valer o meu emprego.

— Sim? Continue. – insistiu sem tirar o semblante curioso e feliz do rosto. Seu olhar avaliativo me deixava cada vez mais sem graça e eu precisava lembrar que, de certa forma, ele era o cliente.

— É que... Desculpe-me, mas mesmo que você se sinta assim, você já causou um tumulto sem precedente. Primeiro porque ao cancelar o evento, muitos fãs se desesperaram, pois eles o aguardavam com tanta veemência e... Ao você cancelar, a anarquia foi instituída. – ele continuava me olhando sem dizer nada enquanto eu vomitava as palavras. – Agora, ocorrerá o mesmo desespero porque muitos deixaram de vir acreditando que você não estaria e... Aqui está você. – apontei para ele. – Será um caos do mesmo jeito, não concorda?

— Sem dúvida alguma. – colocou a mão no queixo pensativo. – Mas, essa balbúrdia poderia ser excitante para eles. Afinal, entre vir e não vir, eu, como fã, escolheria esta surpresa a nada.

— Sim. Analisando desse ponto de vista, sim. – respondi. A segurança nos olhava um pouco desconfiada pela conversa intensa que estava tendo. Eu não tinha autorização para me “confraternizar” assim com qualquer um deles, mas eu não conseguia evitar. Nick, apesar de educado, tinha sempre uma fisionomia debochada e ao mesmo tempo provocativa que me fazia responder. – Eu não assisti a nenhum de seus filmes, porém tenho certeza que são interessantes. É só olhar o comportamento das pessoas lá fora. O senhor deve ser um ótimo ator.

Era verdade. Eu preferia ler no meu tempo livre. Eu cheguei a ler o livro em que o filme foi baseado. Era o que eu sempre fazia, mas me locomover até um cinema... Não. Até fiz isso antes de conhecer a Rafael, mas depois de tudo, deixei este lado da vida e foquei no trabalho mais que nunca. Era a minha forma de esquecer os meus problemas.

— Não me chame de senhor, senhorita Michelle. – disse lendo o meu crachá desde o sofá. – É uma pena que eu não tenha mais uma fã para me adorar. – ele estava se gabando?

— Eu não sou de adorar nada, infelizmente. Não tenho muito tempo para isso. – sorri. – Você gostaria de um copo com água? Um refrigerante, talvez? – Nick continuou me encarando com um sorrisinho de lado. Era óbvio que me estudava e seu olhar, que parecia de um predador, começou a me incomodar de verdade.

— Estarei lá fora. – a segurança me disse. – Foi um prazer, senhor Cooper. – falou em inglês antes de se retirar da sala.

— Peço para que espere mais um pouco, estão providenciando a sua cadeira. – informei-o sem saber mais o que conversar com ele. Todo o grande problema da situação estava na minha capacidade de comunicação com alguém tão bonito que não tirava os olhos de mim. Até o seu jeito descontraído de se sentar com as pernas cruzadas e os braços no sofá me deixava constrangida. Parecia uma adolescente por dentro em frente a um professor sexy esperando a prova oral. Oral... Inacreditável como meu cérebro conseguia transformar uma palavra descrevendo uma situação banal em algo indecente.

— Eu já disse que não estou com pressa. Por que não se senta um pouco. – pediu apontando para a poltrona de um lugar ao seu lado.

— Não posso, preciso estar sempre em alerta. – falei sem parecer rude, mas a verdade era que não estava à vontade naquele lugar.

— Ahh! Vamos lá. Eu sei que você será a minha companhia essa noite. Venha. – não havia como negar. Sentei-me na poltrona e o olhei com simpatia.

— Errr... Seja bem-vindo? – perguntei sem jeito e ele riu. Foi uma gargalhada tão gostosa que acabou arrancando um pequeno sorriso meu.

— Devo atrever-me a dizer que você é muito...

— Idiota?

— Fofa. – minha cara esquentou de vergonha e ele notou. Como não notaria já que minha pele branca sempre me denunciava?

— Obrigada, senhor Cooper.

— Sou apenas um americano querendo a sua atenção. – ele disse seriamente apertando os lábios para não rir.

— Então, acabou de ganhá-la, senhor. – fui irônica. Apesar da máscara de mulher ousada, não pude mais manter o contato visual. Disfarcei um pouco o meu constrangimento fingindo estar trabalhando no celular, mas a verdade era que eu estava pesquisando sobre ele na internet o que chegava a ser cômico e um pouco excitante, pois a distância que me separava dele era de apenas alguns centímetros.

Li cuidadosamente a última notícia que havia sobre ele era de um jornal dos Estados Unidos onde aparecia a sua foto segurando uma câmera. Dizia "Nick Cooper, um dos homens mais cotados, se divertiu bastante na saída da boate onde passou parte da noite com sua amiga Jennifer Wilde. Ele pousou para os fotógrafos fazendo caretas enquanto tiravam sua foto. Será que os dois são o novo casal de Hollywood? Vamos esperar para ver!”.

Passei mais algumas de suas tiradas em momentos distintos e aquele sorriso que fixara em sua cara estava presente em todas. Parecia ser uma pessoa feliz e descontraída.

— Desculpe-me se a deixei envergonhada. – ele quebrou o silêncio. – Às vezes, não consigo separar o meu lado ator do meu lado pessoal. Estou tão acostumado a ser o cara perfeito e galante nos filmes que abuso um pouco na vida real.

— Um conquistador?! – perguntei, arqueando a sobrancelha e escondendo a tela do meu celular sobre o meu vestido.

— Não. Apenas um homem que não perde a oportunidade quando vê uma mulher bonita. Apenas isso. – fiquei com a boca aberta após uma cantada tão direta. Ele talvez pensasse que nós brasileiras fossemos fáceis, uma visão equivocada claro.

— Obrigada pelo elogio, senhor Cooper. Acredito que sua cadeira já esteja pronta. – imediatamente me levantei para deixá-lo sozinho. Quem sabe ele não se beijaria todinho de tão narcisista que era.

— Perdoe-me. – apressou-se em segurar a minha mão. – Eu não quis deixá-la acanhada. – parecia sincero, mas eu não tinha tempo para aquilo.

— Não me ofendeu, Don Juan de Marco. – falei ironicamente, afinal essa era a minha marca. Retirando o meu braço, sorri educamente. – Temos que focar em seu sucesso essa noite. Será ótima a sua aparição no grande salão. – provoquei.

— Espero não assustar ninguém. – fez um gesto com a mão como se fosse um fantasma pronto a atacar arrancando-me um riso involuntário. – Obrigado por sua companhia, Michelle. – falou dando-me uma piscadela que fez o meu corpo tremer ligeiramente. Havia um charme diferente do povo latino. Era algo mais frio, mas não menos travesso.

Eu era mulher e não dava para ser durona e dizer que Nick Cooper não provocava os meus hormônios adormecidos, afinal um monumento daquele não era de se jogar fora e eu estava sem sexo há muito tempo a ponto de cogitar a possibilidade de virar freira.

— Estou ansioso para ver mais uma vez os meus fãs. – finalizou. Parecia ser um homem normal novamente, sem nenhuma atitude arrogante. Nick seria um ótimo objeto de estudo com aquele comportamento contraditório entre ser um devasso contido ou um cavalheiro.

— Tenho certeza que sim. – disse antes de sair da sala para verificar como estava o evento no palco.

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