Um romance quase de cinema
3 Capítulo 2
Obrigada pelo carinho de cada uma aqui! Vamos continuar a aventura?

Sim. Este foi o tipo de relação que tive durante anos com meu noivo. Era engraçado como muitas pessoas que estavam de fora não sabiam o que acontecia dentro da minha casa. Diziam que eu era a mulher mais sortuda por estar com o “partidão da cidade”. Rafael era o tipo de homem desejado. Moreno, alto, educado e muito atencioso com todos. Era de uma família tradicional e conservadora da cidade de São Paulo.
Agora o meu porto seguro estava novamente me esperando. Larissa. Quando ligara dizendo que estava voltando a morar com ela por um determinado tempo, ela surtou de pavor no telefone quando soube o motivo.
Depois de um tempo, minha vida, aos poucos, foi voltando à normalidade. Rafael não me procurou ou me ameaçou mais. Ele soube do boletim de ocorrência e resolveu ficar quieto. Apesar de toda a calmaria, a filial da empresa no Rio de Janeiro precisava de uma gerente em outro setor e, minha chefe, por pedido meu, concebeu-me o posto, assim eu ganharia muito mais dando-me condições de viver sozinha. Apesar de Larissa sentir que agora estaríamos longe de verdade, ela me apoiou.
— Será o melhor para você! Esqueça aquele otário e siga a sua vida. – me disse.
— Só estou mudando de endereço. Quando você me visitará?
— Não sei. Realmente não sei, mas a empresa que trabalho está exigindo muito de mim. Eu não preciso desse emprego, mas não gosto de ficar parada. – eu ainda ficava pasmada com a fortuna que Larissa tinha herdado da família. Ela tinha tudo sem precisar se esforçar, mesmo assim, ainda tinha disposição para enfrentar o cotidiano da maioria dos mortais no Brasil.
— Não deixe de me visitar. Preciso de uma diarista de vez em quando. – brinquei.
— Vou começar a cobrar pelo meu serviço de faxineira e decoradora. Sentirei a sua falta. – ela disse tristemente. – Eu tenho namorado agora... Nunca pensei que fosse me apaixonar por alguém a ponto de querer ficar perto todo o tempo...
— Eu te entendo. – falei para deixá-la mais feliz, mas por dentro sentiria falta da minha amiga doidinha. Eu sabia como funcionava o início de uma relação. A vida quase que se resumia à pessoa ao seu lado.
— No próximo fim de semana, te visitarei. Prometo. Depois me conta quando encontrar um namorado novo.
— Você não está esperando que eu me envolva com alguém?
— Nãaaao. Quero apenas que você se divirta com alguém. – balancei a cabeça negativamente rindo de suas palhaçadas.
— Te amo, amiga! – abracei-a com um peso no peito.
— Não chore, Misha. Lembre-se que estou com um cara maravilhoso aqui e você está indo para um lugar só seu. Veja como um recomeço! Um novo lar e quem sabe um novo... Pau.
— Você não vale nada mesmo. – ri.
(...)
Quando eu conto sobre minha amiga Larissa, eu sorrio só por saber que sem sua companhia, a vida não seria tão colorida. Ela sempre teve um jeito despojado, começando por seu cabelo que pintava de rosa para chamar a atenção das pessoas.
— Gosto de ser diferente! Não faço parte desta sociedade monótona e cheia de padrões. – disse uma vez quando retocava a raiz do cabelo com a tinta cor pink.
Seus traços orientais deixavam-na ainda mais exótica. Não havia um homem que não a olhasse com desejo, pois Larissa nunca fora muito magra, tampouco gorda. Seu corpo tinha o formato ideal e sua personalidade marcante, assim como o seu cabelo, atraía o sexo masculino de tal forma que me fazia rir quando algum tarado grudava nela.
— Sai daqui, rapaz! Eu não sou para o seu bico! Se manca! – disse ao aluno do terceiro período da faculdade quando ainda estudávamos. O pobre coitado era tão novinho que não tinha como aquilo funcionar. Ele insistiu por uma semana, mas seu papo era muito infantil e Larissa, apesar de ser despachada, não queria ser maldosa ou rude com ele.
— Tadinho! Viu como ele saiu daqui?
— Misha, pelo amor de Deus! Não me crucifique. Você viu como ele encheu o meu saco? Eu não faço isso, mas desta vez eu precisava acabar com a ilusão do garoto.
— Eu te entendo, Larissa. Juro. Só fico sentida. – ri da situação.
Quando um professor demorava a entrar na sala, algumas vezes, ela chegava com alguma revista teen e, junto com amigas no trabalho, brincava com os testes sobre "ele te trai", "como conquistar o boy dos seus sonhos". Relembrando estes tempos, em uma dessas oportunidades, para matar o tempo, me deparei com um teste sobre relacionamentos abusivos. Achei interessante e em tom de brincadeira comecei as perguntas.
— Este aqui é só marcar tudo de ruim. – falei.
Aquelas perguntas tinham tudo a ver com Rafael e como ele era. Mesmo sem conhecê-lo ainda, recordo mais ou menos do resultado que obtive ao marcar as alternativas mais absurdas, mas que agora eu via como eu fui parte delas. Li o resultado do teste para as meninas:
— O seu relacionamento é extremamente abusivo. O desejo do outro em controlar você e tê-lo somente para si ultrapassa a razão, seja em menosprezar você na frente de amigos ou da família, seja te insultando em lugar privado. Reveja o seu parceiro e busque ajuda com amigos e familiares. – a minha voz engasgou e ri sem graça. – Ahh! Pessoal, enjoei. Por hoje, tá ótimo! Estes testes são tão óbvios.
— Eu preciso voltar aos meus estudos. Tenho prova na terça. – Larissa me deu um beijo no rosto se despedindo das meninas. Ninguém havia reparado o meu incômodo e guardei aquela revista na mochila.
Um incômodo que me fez ver que eu tinha uma tendência a relacionamento doentio.
Agora, eu estava tomando um passo para a minha independência amorosa e social.
Um recomeço... Tomara, meu Deus!
(...)
— Sensacional! Este será um dos maiores eventos previstos aqui no Rio de Janeiro. – disse a minha entusiasmada chefe do outro lado da linha.
— Já está tudo certo. Eu tenho a agenda de todas as celebridades que aceitaram o convite da empresa e conseguimos juntar o lançamento do filme A maldição da lua com a festa de caridade proposta pelo senhor Harry.
Harry Scott, um magnata da indústria cinematográfica nascido nos Estados Unidos, gastava toda a sua fortuna com luxuosas festas no Brasil. Por algum motivo, ele escolhera um país subdesenvolvido para passar o que restava de sua vida, pois a sua idade era bastante avançada, talvez tivesse uns oitenta anos ou mais. Apesar de eu organizar durante todos os anos os eventos de caridade que ele contratava junto à empresa que trabalho, nunca tive a oportunidade de conversar pessoalmente com ele.
— Eu peço para que tome cuidado, Misha. – minha chefe preveniu-me. – O entusiasmo das fãs pode ser um pouquinho... Exagerado. – continuava preocupada. Eu a compreendia, afinal este evento era o maior que faríamos. Era ousado. Percebendo que o motivo por trás da suposta bagunça que poderia ocorrer era a presença do ator Nick Cooper, o protagonista do filme, eu tentei tranquilizá-la.
— Mas Nick Cooper não poderá comparecer e de acordo com a revista Fofocamania seu compromisso aqui foi substituído por algum tipo de gravação para propaganda comercial, se não me engano. A agente dele mal me atendeu e só me disse que estava cancelada a sua presença neste evento especificamente.
— Ele é o boom do momento. Seu papel de mocinho no filme romântico está prometendo uma arrecadação extraordinária. Se ele não vier, acho que teremos tudo sob controle.
— Entretanto, para apaziguar o bafafá que poderia surgir, outros atores foram confirmados. A protagonista que faz o par romântico com ele, o pistoleiro assassino que eu não me lembro do nome... – procurei na agenda rapidamente. – Achei. David Bolman e o diretor de arte.
— Mesmo assim, acredite em mim. Nunca fizemos algo tão grandioso. Sempre existirão fãs.
— Eu estou me preparando para tudo, pode confiar que dará tudo certo. – eu sabia como resolver qualquer problema.
(...)
— Tem muita gente lá fora. Você viu? – uma das garçonetes me parou para conversar em um momento de descanso. Eu estava hospedada no Hotel ao lado da casa Noturna Night’s, isso possibilitaria me arrumar em tempo recorde quando acabasse de organizar os últimos detalhes da festa de caridade e da première do filme A maldição da lua.
— Fique tranquila. Você só precisará se preocupar com os convidados quando o grande coquetel começar. – sorri e apertei a sua mão para que se sentisse menos nervosa.
— Eu sou nova na empresa e tenho medo de fazer alguma caga... Digo alguma besteira.
— Não vai. Todo esse alvoroço é por causa do Nick Cooper, mas ele não virá, então temos poucos fãs. O número seria ainda maior se ele estivesse no Brasil. – parei para raciocinar e agradeci a Deus por ele não comparecer, poderia dar alguma coisa errada.
Passei pela cozinha e conversei com os chefes da empresa que foi contratada. De acordo com eles, a comida estaria pronta no horário marcado. Era hora de me despedir por alguns minutos do local e me preparar para recepcionar a multidão de celebridades. Dizer que já estava cansada seria absurdo, pois o que me dava ânimo era a adrenalina de estar com os olhos focados em qualquer tipo de situação imprevista e eu adorava tudo isso.
— Eu não perderia isso por nada, amiga. – Larissa estava pronta e me ajudando a dar os últimos retoques. Seu vestido era lindo, um rosa tomara que caia até o joelho com bordados mais escuros na mesma cor e um lindo cinto dourado combinando com o seu sapato, mas o que compramos para mim, sem dúvida me deixava com ar de atriz hollywoodiana.
— Espero que essas pequenas pedras não grudem na roupa de ninguém. – ri ao me olhar no espelho e passar a mão pelo decote quadrado de um tubinho preto longo e cheio de pedras negras brilhantes.
— Não vai acontecer. – ela disse terminando o meu rabo de cavalo alto. – É mais fácil você causar um acidente se alguma pedra se desprender do seu vestido. Imagine uma diretora de qualquer longa escorregando em um objeto preto no chão? – ela gargalhou e eu fiquei apreensiva.
— Será?
— Você realmente acha que pode acontecer? Pare de paranoia, Misha. Meu Deus! Estou só brincando. Relaxa um pouco. – eu estava tensa. Era fato. Esse projeto da agência, sem dúvida nenhuma era o mais ambicioso.
— Vai levar o boy à festa? Eu te dei dois convites.
— Ele não quer saber disso. Odeia essas coisas. Vai entender... Mas eu não ligo e se aparecer alguém interessante, eu pego.
— Meu Deus, Larissa! E a fidelidade?
— Vou deixar do lado de fora da festa! – ela era doida mesmo. Olhei o relógio impacientemente.
— Cadê o maquiador? Tenho que estar lá em uma hora no máximo. – assim que falei, o telefone tocou anunciando a chegada do profissional. Larissa me olhou com uma cara de “você é uma bruxa?”.
— Graças a Deus ele chegou. – a presença do maquiador na hora certa deixou o meu corpo mais relaxado.
— Vou te deixar à vontade. Preciso desfilar com o meu vestido pelo saguão do hotel. Assim eles pensarão que eu também faço parte da nata. Beijos de luzes.
— Só não demore! – gritei, mas Larissa saiu como um furacão. Tinha certeza que ela encontraria o que tanta buscava naquela noite: holofotes.
Após o serviço impecável do maquiador, dei uma última olhadela e aprovei o look. Estava elegante. Apenas o sapato prateado de salto alto me incomodava, pois eu estaria correndo de um lado para outro.
— Meus queridos pés, eu me despeço de vocês, tenham uma boa morte. – falei no elevador.
— Quanto drama, Jesus! – minha amiga revirou os olhos. – Eles estarão novinhos em folha amanhã ou... Depois.
— Cheio de calos e machucado... Isso não é estar novinho. – ri prevendo o que me esperava.
— É uma pena aquele gatão do Nick não comparecer. – Larissa mudou de assunto. Senti a sua ansiedade crescendo. Sempre que ela começava a se sentir feliz, gesticulava demasiadamente a ponto de o braço bater nas pessoas à sua volta. – Queria dar um abraço bem apertadinho e dizer obscenidades em seu ouvido. – minha amiga tinha um grande problema que eu particularmente adorava.
Plateia para ela não era motivo para ela se calar, pois sempre falava o que vinha na cabeça. As pessoas que desciam juntamente conosco no elevador olharam–na de soslaio e eu ri.
— Mesmo assim, a Jennifer Wilde atraiu uma galera para frente da casa Noturna, você chegou a olhar? – continuou
— Percebi, mas nada muito aterrorizante. Você vai ficar para o coquetel?
— Claro, amiga. Não perderia por nada comida e bebida de graça. Obrigada por você me entregar o convite! – me abraçou de supetão desequilibrando-me.
A porta do elevador se abriu e as pessoas saíram cochichando.
— Lá vão as invejosas. Podem falar de mim! – ela gritou antes de sairmos do grande cubo metálico.
— Larissa, pare! – puxei o seu braço.
— Por quê? Eu só comentei sobre Nick. Garanto que aquelas velhas ali estão doidas para dar para um jovem viril como ele também. Ahh, tudo sem vergonha contida!
— Talvez, amiga... Talvez. – falei rindo enquanto caminhávamos para um corredor.
A escolha do Hotel no centro de Copacabana foi estratégica. Ele possuía uma entrada alternativa para a casa noturna. Eu havia escolhido exatamente para isso. Assim, os trabalhadores poderiam ter acesso às dependências onde ocorreria o evento sem causar problemas ou ter dificuldades.
— Bem, minha cara colega, é hora de se socializar porque agora chegou a minha hora de trabalhar a noite inteira. – abracei-a e apertei o seu nariz, era um costume meu. – Juízo nesta sua cabecinha.
— Você deveria dizer isso à minha linda e maravilhosa vagina depilada. Ela está pronta para fisgar um caso de uma única noite.
— Larissa, fale baixo! – empurrei-a com carinho. Ela não tinha pudor algum, diferente de mim. – Vá caçar o seu boy, te encontro meia-noite na festa, tá legal? – ela assentiu, saindo rumo ao outro canto da grande casa onde aconteceria o jantar beneficente.
— Senhorita? – um senhor me abordou no corredor. – Muito prazer em conhecê-la. Sou Harry. – apresentou-se com seu sotaque carregado. Seu corpo, sua impostação de voz, até a sua velhice emanava dinheiro e poder como se ele fosse um aristocrata. Seus cabelos brancos não eram um símbolo de antiguidade, de forma alguma.
— O prazer é todo meu senhor. Enfim nos conhecemos.
— Eu fico lisonjeado que uma mulher tão bela como você me fará companhia no jantar. Sua chefe falou muito bem de você e pelo telefone pude perceber o seu profissionalismo. – adorava elogio.
— Eu faço o melhor. Quero que o seu evento seja um sucesso e que possa angariar fundos para os asilos que você tanto cuida. É um gesto nobre e que infelizmente não é seguido por muitos.
— Vou te contar uma coisa interessante. Quando ficamos velhos, não ligamos tanto para pequenos problemas, assuntos bobos, pessoas insignificantes... Nada disso importa. – caminhamos até o salão com inúmeras mesas adornadas para o jantar e nos sentamos. Os funcionários corriam com os últimos retoques. A banda ensaiava sobre o palco. Tudo fluía.
— Passamos de um estágio a outro cada vez que completamos certa idade. E eu, vivi. Não posso ser ingrato e dizer que sofri. Trabalhei muito, mas desfrutei do meu dinheiro. Mas, algo faltava em minha vida. Então reverti parte da minha fortuna em asilos. Vi o peso da velhice para aqueles que não foram tão afortunados como eu. – continuou.
— Por isso veio ao Brasil? – perguntei.
— Oh, sim. Este país é maravilhoso! Eu viajava constantemente a negócios e quando resolvi tirar algumas férias, as passei aqui. – Harry olhou para cima pesaroso. – Não pensei duas vezes em viver com seu povo quando me aposentasse. Infelizmente, minha esposa morreu de câncer antes que pudesse estar comigo nesse paraíso. Mas, veja? Aqui estou eu. – seu sorriso iluminou a história triste como se mesmo após a tragédia houvesse um final feliz.
— Aqui está o senhor. – sorri.
— Minha querida Michelle, este evento é muito especial. Eu sempre faço jantares, mas desta vez, este precisa ser um sucesso. Estou pensando em fazer algo diferente. Acho que conseguirei.
— O quê seria?
— Surpresa. Será uma surpresa. – seu rosto dizia que ele iria aprontar e eu imediatamente comecei a pensar em várias situações que Harry poderia usar no jantar, mas nada me passou. Ele era intrigante. Minhas mãos começaram a suar. Surpresa em meu trabalho não era tão bem-vinda porque o controle e a segurança era o que me movia tranquilamente. Algo que eu não pudesse esperar poderia ocasionar um sucesso ou um fracasso.
Era esperar e pagar para ver.
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