Um romance cristão
4 CAPÍTULO 4 - Você acredita em coincidências?
O dia já estava no fim, mas o sol brilhava como se fosse meio dia. Enquanto dirigia pela cidade após pegar algumas encomendas de tecido em um distribuidor, Ana abaixou o quebra-sol do carro para não ter a visão ofuscada.
Agora, enxergando melhor, ela pôde ver mais detalhes do caminho enquanto estava parada naquele sinaleiro. Ela nunca tinha feito aquela rota na qual o GPS a estava guiando, na verdade, era a primeira vez que buscava tecidos naquela região da cidade. Mas naquele dia precisou cobrir a falta do funcionário da loja que era o motorista de mercadorias. Mas pensando bem… Ana semicerrou os olhos quando o sinal abriu e ela atravessou o cruzamento, adentrando em uma rua larga e comprida… tinha a impressão de já ter passado por aquele lugar antes…
O motorista do carro de trás buzinou e Ana passou para a pista da direita, reduzindo a velocidade. De relance, entre tantos postes de iluminação, um lhe pareceu familiar, um poste com muitos cartazes colados em volta. Ela se lembrava dele, e se não estivesse enganada… Ana olhou para o lado e antes que pudesse titubear, virou o volante para a direita. Estivera ali na noite da festa de promoção de Heitor, há poucos segundos atrás havia passado pelo lugar em que o carro havia estragado, e a igreja na qual havia sido ajudada deveria estar a apenas algumas ruas de distância.
Mentalmente, ela se concentrava para lembrar o caminho. Direita, esquerda, direita novamente. Não deveria ser muito longe dali.
Ela cerrou os olhos quando a diante, a placa de uma igreja despontou em seu campo de visão, e ao estacionar o carro em frente à fachada do prédio, Ana sentiu seu coração acelerar inesperadamente. Agora, de dia, ela enxergava melhor a construção, o galpão comercial pintado com a mesma cor que a construção ao lado, que se parecia como uma igreja com janelas retangulares de vidros coloridos. Era comum, nada muito elaborado ou chamativo, simples até demais.
Será que ela deveria realmente bater no portão?
Ela queria agradecer aos irmãos que tinham lhe prestado auxílio na outra noite, se é que algum deles estava ali naquele momento, mas ainda assim, impulsivamente tomou a iniciativa e bateu no portão com força. Os momento seguinte pareceu longo e silencioso. Nenhuma resposta.
Ela bateu de novo. E de novo. E na quarta vez, bateu mais forte.
Nada.
ela se afastou um pouco, olhando ao redor. Só então percebeu o interfone no canto da parede, entretanto, antes que cogitasse alcançá-lo, o barulho de chaves tilintou e uma mulher apareceu ao abrir o portão. Ela deveria ter uns 50 anos e sobrancelhas arqueadas, apesar de não parecer surpresa ao ver uma desconhecida ali.
—-- Oi, boa tarde, posso ajudar?
Ana pigarreou, mas conseguiu encontrar a própria voz.
—-- Oi. Eu estive aqui há algumas semanas, meu carro ficou sem gasolina a noite, e um cara e uma adolescente me ajudaram. eles eram daqui.
—-- Sim…?
—-- E eu queria agradecer.
—-- Ah, sim, é claro. --- A mulher sorriu, puxando mais o portão, abrindo o caminho. --- Entre.
Ana assentiu e a mulher fechou o portão atrás de si.
—-- Você se lembra do nome deles?--- Perguntou.
Ana hesitou.
—-- Não tenho certeza, mas ambos tinham olhos verdes e eram irmãos.
A expressão no rosto da mulher se acendeu e ela riu.
—-- Seria Melissa e Marcos?
—-- Acho que sim. --- Ana assentiu e a mulher balançou a cabeça.
—-- Aguarde só um minuto.
Ela caminhou até o fundo do galpão onde havia algumas pequenas salas e entrou em uma delas. Poucos minutos depois, ela saiu e acenou para Ana, logo atrás dela um homem de bermuda apareceu. Ele segurava um envelope nas mãos e caminhou na direção de Ana enquanto a mulher que tinha aberto o portão seguiu em outra direção.
Quando ele se aproximou, Ana o reconheceu, embora agora o rosto dele parecesse mais nítido do que há três semanas atrás. As feições firmes das quais ela se lembrava eram mais suavizadas naquele momento, talvez porque estivesse de dia ou talvez porque a situação fosse outra. O cabelo era realmente cacheado e castanho, como ela se lembrava, mas estavam penteados para trás, e os olhos verdes que encaravam os seus brilhavam como vidro. Ele sorriu e estendeu a mão.
—-- Oi, é bom vê-la de novo!
Ana o cumprimentou com um rápido aperto de mãos.
—-- Oi, igualmente… hãm…
—-- Marcos.
—--Isso, Marcos. --- Ana deu um sorriso amarelo, constrangida. --- Desculpe, é difícil lembrar os detalhes daquela noite.
Ele assentiu.
—-- Aliás, meu nome é Ana. --- Ela emendou.
—-- Espero que a gasolina não tenha acabado outra vez.
—-- Ah, não, hoje está tudo em ordem. --- Ela sorriu, sem graça: --- Mas eu queria agradecer, pelo outro dia. Você e sua irmã foram muito gentis.
Ele gesticulou com as mãos, como se dissesse “não foi nada".
—-- Melissa e eu não poderíamos ter feito diferente naquela noite, e você apareceu pouco antes de fecharmos a igreja. Deus literalmente te colocou na nossa porta aquele dia.
Ana sorriu educadamente.
—-- Marcos! --- A senhora que abriu o portão para Ana acenou do fundo do galpão. --- Não se esqueça do papel!
—-- Pode deixar, Pâmela.--- Ele respondeu, se voltando para Ana novamente. --- Desculpe, mas eu preciso comprar mais papel para a impressora…
—-- Ah, certo. -- Ana assentiu e sorriu sem graça. --- Eu também tenho que cumprir horário, só fiz um desvio rápido.
Ela não tinha noção do que esperava encontrar ali ou tirar daquela situação, só que não havia sido como ela esperava. Havia sido ligeiramente abaixo das suas expectativas, embora ela não soubesse exatamente o que esperava que acontecesse. Talvez aguardasse algo “mágico” assim como tinha sido naquela noite, mas ela não viu aquela mesma magia naquele encontro rápido que estava tendo ali.
Marcos a acompanhou até o portão novamente, ou talvez, tenha sido ela que o acompanhou, ironicamente. Quando eles chegaram na calçada e ele fechou o portão atrás deles, Ana percebeu que o sol já estava se pondo. Caramba, Elisa iria lhe matar pelo atraso.
—-- Foi muito legal da sua parte aparecer aqui hoje, Ana. --- Marcos falou quando ela abriu a porta do carro. --- Geralmente as pessoas não aparecem aqui outra vez, muito menos para agradecer. Obrigada.
Ana sorriu.
—-- No fim das contas, eu é que agradeço.
Ela entrou no carro e abriu a bolsa para checar as mensagens no celular. Tinha 3 ligações perdidas, duas de Elisa e uma de Heitor. Quando pegou as chaves e ligou o carro, percebeu que Marcos não tinha andado mais do que apenas alguns metros. Ele estava de costas e fez menção de seguir o caminho pela calçada, mas parou por um instante e Ana assistiu aquela cena com curiosidade. Depois de alguns segundos, ele se virou, com um sorriso constrangido e ela abaixou a janela do carona. Ele se aproximou e se apoiou na porta, tinha o envelope antes sem rugas, agora amarrotado envolto como um rolo em mãos.
—-- Não me entenda mal, mas amanhã à noite vamos ter uma reunião aqui no anexo. Você está convidada, se quiser participar.
—-- Uma reunião?
Ele sorriu.
—-- Um culto.
Ana parou por um instante, mas sem pensar mais do que uma fração de segundo, disse:
—-- Ok.
Marcos piscou, e então, como se “a ficha caísse”, relaxou os ombros e assentiu, desencostando do veículo. Ele tinha ficado surpreso por ela aceitar, mas parando para pensar direito, até mesmo ela tinha ficado surpresa.
—-- Começa às 20:00 horas.
Ana sorriu educadamente e acenou em despedida pouco antes do carro começar a andar. E enquanto se afastava da igreja, franziu o cenho.
Sério?
Ela tinha mesmo acabado de aceitar ir em um culto em uma quinta à noite?
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