Um rinoceronte
6 Senhorita Maria
Maria, a florista, encarava desolada o que um dia havia sido a sua floricultura. “São tristes as peças que a vida nos prega” ela pensou “Primeiro fui impedida de chegar à minha floricultura porque chegou o primeiro rinoceronte e a praça foi interditada. Então, quando pude voltar à loja, vendi mais flores que já havia vendido em minha vida toda, para que as pessoas as levassem para o tempo do rinoceronte. Então chegou o segundo rinoceronte, e agora: Completamente destruída! Como sou infeliz”. De fato, sendo a praça pequena demais para que os dois rinocerontes a ocupassem, alguns estabelecimentos haviam sido esmagados pelos passos pesados do segundo rinoceronte. A floricultura de senhorita Maria era um desses estabelecimentos. Menos que o prédio, como lhe doíam todas aquelas lindas flores esmagadas por debaixo dos escombros, flores de todas as cores e tamanho, suas belíssimas flores! Olhou com indignação para a gigantesca criatura que balançava o rabo tranquilamente, com um olhar de mosca morta, sem ter a menor ideia do estrago que havia causado. “O Rinoceronte”, a grande divindade rinocerôntica, que grande bobagem!
— O senhor deveria se envergonhar! – ela disse, para o segundo rinoceronte – Nem imagina todas as flores que destruiu com essa negligência! E o senhor – ela disse, voltando-se para o primeiro rinoceronte – Deveria se envergonhar! Deixando que o adorássemos como uma divindade quando na verdade havia outro rinoceronte exatamente igual ao senhor!
Os rinocerontes apenas continuaram tranquilamente balançando o rabo, o que irritou mais ainda a pobre florista. A passos decididos, ela passou por entre as duas criaturas, indo na direção do prédio da prefeitura – esse sim, intacto. De punhos cerrados, subiu as grandes escadarias e bateu à porta do escritório. Não obtendo resposta imediata, ela bateu novamente. O secretário enfim respondeu às batidas insistentes, abrindo a porta para revelar seu sorriso sem convicção.
— Senhorita Maria! – exclamou, desanimado. Ela não esperou que fosse convidada para entrar e se dirigiu, certeira, à escrivaninha do prefeito, que estava quase que estatelado como um morto em sua poltrona, o olhar distante.
— Senhor prefeito!
O prefeito voltou-se lentamente.
— Vim aqui manifestar a minha indignação!
O prefeito a encarava sem dizer nada. A florista ficou um pouco desconcertada, mas prosseguiu.
— Esse segundo rinoceronte! Destruiu a minha floricultura! Destruiu todas as minhas belíssimas flores!
O prefeito imóvel.
— Eu... Eu demando uma indenização!
— Senhorita Maria... – interveio o secretário — Sentimos muito pela sua floricultura, mas estamos num momento crítico para a administração da cidadela, e se pudesse nos dar mais tempo para...
— Não! Eu já esperei demais por uma atitude do senhor prefeito! O que pretende fazer sobre esses rinocerontes?
— Estamos tomando as providências...
— Que providências? Construindo um segundo templo para seus deuses rinocerontes? Já chega! Aqui e agora, vou tomar a frente do que precisa ser feito por essa cidadela!
— Mas... Senhorita!
— Estou oficialmente destituindo o prefeito! De... Destituindo o prefeito! – ela ergueu o indicador – A partir de agora, sou eu quem manda! Sou... Sou eu quem manda! Todos na cidade deverão plantar flores! Todos os jardins... Haverá inspeções para se certificar de que os jardins estão satisfatórios! Todos deverão comprar flores! Muitas flores! Quem for visto sem flores, será... Se tornará comida de... De rinoceronte!
O funcionário se afastou, assustado, e colocou-se entre a florista e o prefeito. Algo estava acontecendo. Quanto mais ela falava, mais pesada parecia ficar. A pele se engrossava, formando grandes rugas ásperas, o tom de voz ia ficando mais grave e menos humano.
— Vocês serão comida de rinoceronte!
Sua pele foi se tornando acinzentada, e seus membros começaram a inchar. Os olhinhos foram se tornando pequenos e escuros, o chão do escritório se fez instável e começou a rachar sob seus pés. Ela caiu de joelhos.
— Comida de... Oh, senhor prefeito, o que está acontecendo? – ela se lamentou, e logo não foi mais capaz de articular palavra nenhuma, apenas alguns grunhidos.
Secretário e prefeito, de olhos escancarados, encaravam aterrorizados a transformação da florista. O chão enfim cedeu e os dois só tiveram tempo de agarrar-se à janela. Em um instante, o que antes fora uma jovem senhorita tornara-se um terceiro rinoceronte balançando o rabo sobre os escombros da prefeitura. Os dois que assistiam, incapazes de falar qualquer coisa, apenas procuravam não cair da janela onde haviam se agarrado, numa parede que milagrosamente não havia cedido com todo o resto. Como que despertando de um transe, o secretário içou-se para sentar no batente da janela e ajudou o prefeito a fazer o mesmo. Deu alguns tapinhas no rosto dele.
— Senhor prefeito! Temos que sair daqui!
— Oh, secretário! Ela virou um... Oh, secretário!
— Sim, senhor prefeito! Ela virou um rinoceronte! É terrível, pavoroso, mas temos que arranjar uma maneira de sair da...
— Por isso! Por isso não sabíamos de onde tinham vindo os rinocerontes! Por isso surgiram do nada!
— Senhor prefeito! A parede não vai demorar a ceder! Pense comigo!
— São pessoas! Eram pessoas que se tornaram rinocerontes! Oh, secretário! Eles viraram rinocerontes! O que será de nós! O que será de nossa cidadela? Oh, secretário!
— Senhor prefeito! – o secretário foi incisivo – Eu sei que é terrível, horrível e apavorante! Mas agora nossa maior preocupação é descer daqui!
O prefeito chacoalhou a cabeça, como que acordando do transe.
— Como vamos descer? – perguntou como uma criança.
O secretário pensou por alguns instantes. Então arregalou os olhos e segurou o braço do prefeito.
— Vamos pular no rinoceronte!
— O quê? Está maluco, secretário?
— Pulamos em cima dela e escorregamos até o chão, então saímos correndo!
— Ela está muito distante, de qualquer jeito, não vamos alcança-la!
— Ela está indo na direção da praça para ficar com os outros rinocerontes, vai passar por aqui! Senhor prefeito, o senhor precisa confiar em mim.
— Mas...
— Vamos! Em três, dois, um... Pule!
Na verdade quem pulou foi o secretário, porém como ele estava puxando o prefeito pelo braço, ele foi junto. Os dois gritando caíram bem em cima das costas do rinoceronte que havia sido a florista, e ela nem pareceu notar. Eles então escorregaram, dependurados pelo rabo do rinoceronte, e caíram estatelados no chão. Os dois ficaram ali, olhando para o céu.
— Mas que situação desagradável. – o prefeito disse.
— De fato, senhor prefeito. – respondeu o secretário.
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