Um pug de terno.
1 Capítulo 1
O clima abafado invade impiedosamente todos os lugares. A cortina azul agora é amarela em chamas. O cachorro se deita aproveitando a temperatura mais agradável do chão mudando o tempo todo de lugar quando o piso esquenta. Nesses dias o chamo de abelha do calor coletando o pólen do frio. Sinto pena dele, mas tenho pena de mim também e isso me parece justo. O sol entra pela janela queimando a minha pele. Sinto como se Deus estivesse agora com uma lupa apontada na minha direção igual aos garotos malvados que matam as formigas. Minha pele derrete, o suor evapora e a cor de tudo é amarela. O ventilador se torna o utensilio mais inútil usado esperançosamente nos dias de calor quase igual a tudo na vida. Não espero muito do dia de hoje. Alguma coisa me diz que vou fritar como um ovo. Não sou um ovo, eu penso, e ligo o ar condicionado. Meu cachorro latiu. Decidi pensar que isso foi um agradecimento. Aos poucos a cor amarela deixou o lugar junto do oásis que havia se formado na sala de estar. Ilusões, imaginação nada mais só o frio. Nada mais me separaria da felicidade exceto a realidade. Um sorriso irônico brindou a cortina que agora é azul novamente. Minha abelha agora é um pug e Deus não queria mais me matar. Sorri novamente. O dia acabou de se tornar possível. Quem sabe agora até o impossível pudesse ocorrer, como, por exemplo, a estação mudar repentinamente. A neve começasse a cair nos meus olhos congelando minha alma. Assim eu poderia colocar uns brincos bonitos na alma congelada. Eu não sentiria nada. De fato, o frio não acaba com a imaginação.
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A campainha toca avisando visita. Visitas e seus sorrisos. Os sorrisos e suas visitas. Meu cachorro se agitou parecendo agora um leão protegendo a floresta. Vai leão mata tudo mesmo porque hoje eu não quero sorrir. Olho para a geladeira e percebo que começou a enferrujar. Um dia isso iria acontecer mesmo. A campainha tocou de novo. Geladeira enferruja a vida e me deixa aqui no frio. A campainha toca novamente. Tomei coragem, vou ver quem é. A janela estava amarela. Vi um oásis no meio da rua. Não quero imaginar isso de novo. A campainha tocou três vezes seguidas. Ouvi um grito. Alguém gritava dizendo que sabia que eu estava ali. Olhei de novo pela janela amarela e vi um mágico na porta. Ele tinha um chapéu de mágico. Um bastão de mágico. Um coelho de mágico. E ele fazia mágica porque sabia que eu estava ali. Que homem bobo e que não é persistente, pois logo foi embora. Fechei a janela e comecei a rir. Esse mágico está mais para palhaço.
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Meu pug se acalmou e agora está deitado no sofá. Sempre pensei que a convivência com os humanos tirasse a vontade de ser um bicho livre dos animais. Agora está ali deitado com um olhar descansado e vazio. Ele perdeu a liberdade de estar num bando de cachorros fazendo loucuras por ai. Indo em bares de cachorros, bebendo álcool de cachorro. Transando com as cachorras. Vivendo uma vida de Bukowisk. Mas ele está ali agora sem liberdade, exatamente como eu. Acho justo.
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A noite e a escuridão chegavam aos poucos. A cor cinza começou a tomar conta. O cheiro de pessoas voltando do trabalho também. Fiquei imaginando meu pug de terno e gravata numa mesa de computador com esse mesmo olhar. Sorri agora com dor. Noite querida seja bem vinda só não entra no meu coração. Frase de infância quando minha mãe era revestida pelo manto de ser incrível. Mas crescemos e nos tornamos críticos. Hoje em dia ela está vestida de qualquer um. Abro a janela. Pessoas chegando do trabalho. Pessoas vazias. Pessoas cansadas. Pessoas tristes. Pessoas contentes. A noite não escuta meu pedido e meu coração está cinza e aperta. Eu sei coração é só mais um dia. Ar condicionado para o coração seria útil. Um frescor para o calor da tristeza. Mais um dia termina. A luz acaba e o ar condicionado desliga. Dia complicado esse viu.
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