Um presente para Oliver
2 Uma família em apuros.
Notas iniciais
Felicity Smoak.
— Vamos logo Emily, estamos atrasados. — buzinei da mini van.
— Ela está tendo um chilique porque acordou com uma espinha. — Ben explicou enquanto atacava o cinto.
— O que é um chilique, tia Lis? — Angie perguntou de sua cadeirinha.
— Outra hora a tia explica, amor. — tornei a buzinar. — Anda Emily. — resmunguei apressada. Estava atrasada por dormir demais.
— Que saco, eu queria poder não ir a essa droga de escola hoje.
— Olha a boca, mocinha, e põe logo o cinto. — ela bufou irritada. — As vezes eu esqueço o dom de odiar que só os adolescentes tem.
O resto do caminho foi um silêncio total, apenas o som do vento era ouvido. Desde que Laurel e Ray morreram tem sido difícil com as crianças, encontrar o equilíbrio é quase impossível, mas aos poucos nós estamos entrando nos trilhos.
— Chegamos. — estacionei em frente ao velho prédio, enquanto Emily saia em disparada seguida por Ben, eu me dirigi até a cadeirinha de Angeline para soltá-la.
— Tenha um bom dia, tia Lis.
— Tenha um bom dia, princesa Angie. — dei beijinho de esquimó nela antes de observar ela correr para dentro do prédio.
Voltei para o carro sentindo toda a tensão precoce do dia, mas antes que eu arrancasse dali meu celular apitou anunciando uma nova mensagem.
"Um café reforçado com a sua gravidinha predileta, topa?"
"Claro, te encontro na mesma cafeteria de sempre. Xoxo."
Respondi animada, eu precisava relaxar de toda essa bagunça. Ao menos alguns minutos.
[...]
Adentrei o lugar ouvindo o sino da porta bater, era uma velha e tradicional cafeteria no centro da cidade. O que eu mais amava sobre aquele lugar era sua estrutura de madeira que deixava tudo mais aconchegante é aquecido, juntamente com o aroma de café se misturando a lenha queimada, graças a velha lareira no canto. Passei meus olhos rapidamente pelo lugar e não foi difícil avistar a loira sentada mais ao fundo alisando sua barriga de seis meses recém-completos.
— Olá Sara. — cumprimento assim que me aproximo.
— Hey tia Lis, como vai? — ela se levanta e me abraça desajeitada por conta do barrigão.
— Eu vou bem, e nossa gatinha aqui? — aliso seu ventre. — Olá Ella.
— Estamos bem. — ela afirma voltando a sentar. — Mas algo me diz que esse seu bem, não está tão bem assim. O que houve?
— Não é nada, apenas chateações do dia a dia, mas não quero te atormentar com isso.
— Felicity, você anda muito sobrecarregada, divide comigo, afinal somos amigas. — suspirei vencida.
— É só que... As vezes me questiono se não seria melhor eles terem deixado a guarda das crianças com você, não me entenda mal, eu amo aqueles projetos de Palmer, mas está cada vez mais difícil. Emily está numa fase que eu devo estar pagando pelo o que fiz a mamãe, Angeline tem sempre tantas perguntas, e o Ben, ele tenta se passar por forte, mas no fundo está tão assustado quanto eu. E para completar, estou prestes a começar no emprego novo e não obtive respostas da agência de babá. — desabafei sentindo toda a atmosfera frustrar junto comigo.
— Lis, respira. — a loira pediu. — Antes de tudo você precisa respirar a cada fala. Uma coisa de cada vez.
— Olha pra mim, eu sou a tia Lis, a brincalhona e desajeitada que costumava visitá-los e levar presentes nos feriados. Eu não sou mãe, Sara, nunca serei. E então todo dia eu acordo e preciso matar um leão por dia para dar o melhor que eles merecem.
— Você precisa organizar os pensamentos, os meninos te amam e eu tenho certeza que eles entendem que você está se esforçando, eles sabem que você está fazendo o melhor.
— Você é a tia materna, casada, bem estruturada, construindo uma família. Deveria ser você a cuidar deles. Eu não entendo o porquê de terem escolhido a mim.
— Já abriu a carta? — neguei de imediato. — Nunca vai saber, então.
— Eu não tenho coragem. Vai ser viver a morte deles de novo Sara.
— Então você nunca saberá o propósito deles. — bebericou o chá. — Eu te amo, mas as vezes você é tão cabeça dura, Felicity.
— Vamos mudar de assunto? — sugeri antes que ela começasse seu sermão de grávida. — Como está o Tommy?
— Aquele lá anda todo animado com a volta do melhor amigo. Lembra que eu te contei de um ex namorado de colégio da Laurel? Oliver Queen, o homem mais galinha de Star City.
— Aquele que passou cinco anos em Los Angeles? — ela confirmou. — Eu lembro de você ter falado algo sobre ele.
— Parece que o pai obrigou a voltar sob ameaça de deserdar o dito cujo, Oliver faz o tipo playboy mulherengo que adora esbanjar a fortuna da Família.
— É bem o seu tipo de cara. — ela fez uma careta enquanto eu ria. — O Tommy só sossegou depois do casamento, mas eu bem lembro de você viver se queixando dele pelos cantos quando ia a Coast City.
— Thomas é um idiota, mas o que posso fazer se me apaixonei por ele? — deu de ombros. — Mas sabe que no fim nem foi tão mal, eu adoro o jeito cafajeste dele, nos momentos certos, claro.
— Deus me livre, tô fora. De irresponsável já basta eu com três crianças a tira colo, não preciso de mais soma a minha bagunça. — virei a xícara de café num gole só. — Amiga, eu preciso ir agora, tenho as última entrega do meus documentos do RH da empresa.
Me despedi de Sara com a promessa de um almoço em família assim que eu me organizasse melhor na cidade. Eu precisava entregar esses documentos, ou ficaria sem plano de saúde, também tinha que por questões da casa em ordem, como pagar as contas, fazer cópias das chaves e receber o restante da mudança, e ainda precisava passar em algum lugar e comprar o jantar, precisava ligar para o plano de saúde das crianças e transferir para Star. Era tanta coisa pra resolver que eu estava começando a cogitar a ideia de me internar num sanatório. Demorei mais que o esperado no RH, quando saí da empresa já passava das 13:00, e eu não tinha cumprido metade da lista de afazeres.
O tempo passou voando quando dei por mim, eu já estava mais que atrasada para buscar as crianças, corri o mais rápido que pude, mas o trânsito sempre caótico não parecia cooperar, pra completar ainda tomei uma multa por dirigir acima do limite permitido.
Depois do que pareceu séculos, estacionei em frente ao prédio escolar sentindo meu coração comprimir com a imagem das três crianças sentadas no batente, eles não mereciam esse caos. Buzinei repetidas vezes, fazendo a atenção deles se voltar para mim.
— Como foi o primeiro dia? — sorri amarelo tentando passar naturalidade.
— Você esqueceu a gente. — Emily sentou-se emburrada enquanto Ben ajudava Angeline com a cadeirinha.
— É tia, você esqueceu da gente. — Angie cruzou os bracinhos e formou um enorme e fofo bico.
— Eu sei, e peço mil desculpas, mas é que nós chegamos à poucos dias aqui e eu to correndo para organizar tudo. Mas vou compensar levando os três para pedir um japa no capricho, o que acham?
O bico de Angeline logo se desmanchou em um sorriso, enquanto eu me contorcia inteira para fazer um high five com Ben. Emily estava inerte em suas músicas no fone de ouvido.
— Tudo bem, estão prontos para a boa notícia? — eles soltaram um sonoro sim. — Vocês estão olhando para a nova chefe do departamento de T.I das consolidações Queen. — anunciei de forma extravagante.
— Oba, a tia Lis não é mais uma desempregada. — Ben ergueu os hashis para o alto numa dancinha de comemoração.
— E qual a notícia ruim? — Emily quebrou o silêncio assim que chegamos do restaurante. — Sempre tem uma.
— Então, eu não sei se é de todo ruim, mas você e o Ben precisam começar a escolher os cursos complementares do horário da tarde, e vocês terão uma babá. — soltei de uma vez com Angie sentada em minhas pernas.
— Ótimo, como se não bastasse ser olhada torto todo dia naquela escola, ainda serei chamada de criancinha.
— Não é assim, Emily, a babá tomará conta de vocês enquanto eu estiver trabalhando, eu não posso deixá-los sozinhos, vocês são menores.
— Droga de cidade.
— Olha a boca, mocinha. — ralhei tapando os ouvidos de Angeline.
— Ela só está assim porque brigou na escola hoje. — Ben tapou a boca com as mãos num sinal de quem havia falado demais.
— Você brigou na escola? — perguntei pasma pela informação. — Emily o que está acontecendo com você? Você nunca foi agressiva, o que te deu para sair batendo nas pessoas por aí?
— É sempre assim, você me acusa sem nem ao menos procurar saber o que aconteceu.
— Emy... — suspirei frustrada.
— Eu não me importo, você nunca liga mesmo, tudo se resume a você e a sua carreira, mas quer saber? Eu odeio essa cidade e essa droga de escola, odeio ter vindo morar com você e eu odeio você! Obrigada por estragar minha vida. — ela gritou correndo para o quarto, enquanto Angie se agarrava a mim.
— Está tudo bem, já passou. — apertei a pequena em meus braços. — Vamos escovar os dentes e por o pijama? — ela concordou e logo eu a levei até o banheiro, onde troquei sua roupa e a supervisionei escovar os dentes.
— Boa noite, tia. — se jogou na cama para que eu a cobrisse.
— Boa noite, princesa Angie. — posicionei sua boneca perto dela e beijei sua testa. — Durma com os anjos.
— Tia Lis, por que a Emy está brava? — a pergunta veio quando eu estava prestes a deixar o comodo.
— Ela só está sentindo saudades do papai e da mamãe, querida.
— Eu também sinto falta deles. — me aproximei de sua cama. — Você também sente?
— Sim, meu bem, todos os dias. Mas sabe o que eu faço quando estou com saudades? — ela negou. — Eu fecho os olhos, ponho a mãozinha no coração assim. — botei a dela repousada no peito. — E mentalizo as vozes e os rostinhos deles.
— Eu vejo. — ela sorriu. — Eles disseram que me amam um muitão.
— Pois então, está melhor agora?
— Sim, obrigada tia Lis. — recebi um abraço apertado antes de sair do quarto.
— Eu amo você, Angeline, nunca esqueça. — beijei mais um vez seu rostinho e saí do quarto.
Cada dia estava mais difícil seguir em frente, a morte precoce do meu irmão e cunhada devastou a família, eles eram o elo que nos mantinham unidos, mesmo papai e mamãe se odiando, mas eles sempre estavam lá pelos netos. Dizem que a dor une, mas quem disse isso nunca deve ter sentido de verdade tal sentimento. Mamãe se enterrou em Vegas, onde gerenciava um hotel cassino, ela mal dava notícias e apesar de parecer não se importar, eu sabia que no fundo era apenas uma forma de fugir do sofrimento, porque no momento que ela olhasse as crianças, ela lembraria de Ray, e isso só traria mais dor. Papai vive viajando pelo mundo com sua empresa de computação gráfica, ele é outro que foge dos fantasmas. Capitão Lance travou uma luta contra a dependência alcoólica e a depressão que caiu sobre ele desde que Laurel se foi, ele acabou achando melhor se afastar das crianças. E então tinha Sara, ela sempre me ajudava como podia, no começo até dormia conosco dia sim dia não, mas aí veio a gravidez e ela precisava de cuidados. No fim as crianças só tinham a mim para cuidá-las e estava sendo difícil sem a ajuda da família, mas olhar os rostinhos de cada um no fim do dia, me fazia dormir feliz por saber que nós tínhamos uns aos outros para nos apoiar mesmo em dias difíceis como hoje.
— Ei carinha, está tudo bem? — abordei Ben que já estava prestes a entrar no quarto.
— Oi tia Lis. — se aproximou. — Eu estou indo jogar um pouco de videogame antes de dormir. Tudo bem pra você?
— Tudo bem, mas vê se não fica até tarde acordado, amanhã você tem aula. — baguncei os cabelos castanhos e rebeldes.
— Sim senhora, sargento. — bateu continência me fazendo rir. — Boa noite. — gritou correndo pelo corredor.
— Agora vem o mais difícil. — suspirei sentindo meus músculos tencionarem em antecedência.
Caminhei o mais devagar possível até a porta do quarto, batendo uma, duas, três vezes, até que obtive um curto e abafado "entra" ecoar. Respirei fundo contando até cinco antes de empurrar a porta. Emily estava deitada com o corpo virado para a parede, toda encolhida e com apenas a luz do abajur acesa.
— Em... — arrisquei chamar, mas ela não moveu um único músculo. — Será que podemos conversar?
— Vai embora, eu não quero conversar. Não com você. — bufei frustrada com a malcriação dela.
— Emily, eu vim pedir desculpas. — me aproximei cautelosa sentando em sua cama. — Quer olhar para mim? — ela virou devagar. — Amor, eu sei que as vezes não te dou a atenção que merece e pareço desatenta com vocês, mas eu quero que você entenda que também é difícil pra mim, Emy. Eu sempre fui sozinha e estava acostumada a ter que ser responsável apenas por mim, mas agora eu preciso ser responsável por mais três crianças lindas e bagunceiras. — ri tentando melhorar o clima. — Mas não é porque eu me atraso, esqueço horários e não cumpro promessas que eu não amo vocês. Eu estou me esforçando, juro que estou, mas preciso da sua ajuda para fazer essa trupe entrar nos trilhos.
— Eu sinto falta deles. — ela confessou, e eu senti meu coração apertar quando encarei seus olhinhos vermelhos pelas lágrimas. Não era justo que ela sofresse tanto, ela era apenas uma criança de 13 anos.
— Eu também sinto. — alisei sua perna. — Mas onde quer que estejam, eles estão olhando por cada um de nós.
— Me desculpa tia. — ela se jogou nos meus braços agarrando minha cintura, enquanto chorava copiosamente. — Eu não queria ser assim, não queria, mas quando eu lembro daquele acidente eu sinto tanta raiva tia, tanta raiva. — fungou. — Devia ser eu a morrer.
— Ei, nunca mais repita isso. — alisei seus cabelos tentando acalmá-la. — Emily, a morte não dói pra quem se vai, ela devasta quem fica, seus pais sofreriam tanto se tivesse sido ao contrario meu amor, você ia querer vê-los sofrer? — ela negou. — Eu sei que essa perda dói muito em você, mas eu não quero que volte a falar isso, quando sentir muita saudade você pode conversar com eles em pensamentos, contar seu dia e até mesmo lembrar dos momentos.
— Eu sinto que estou esquecendo dos rostos a cada dia, eu não quero esquecer.
— Sua mente pode até esquecer querida, mas o coração sempre lembrará. — apertei ela mais a mim. — Agora a dor parece insuportável, mas aos poucos ela vai se diluindo e com o tempo se transformando em lembrança, uma lembrança tão boa que a cada vez que você pensar neles um sorriso vai escapar pelos seus lábios.
— Obrigada tia. Obrigada por ter vindo até aqui.
— E eu sempre virei, esqueceu que somos um por todos e todos por um? Você pode espernear e fazer o quanto quiser de birra, mas eu sempre virei atrás de você, porque eu te amo Em, e nada muda isso.
Passei mais um tempo ali esperando até que ela pegasse no sono, o que não demorou a acontecer por conta do tanto que ela havia chorado. Mais um dia estava indo embora, mais um dia vencido.
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