Um pouco de destino

2 O Primeiro Aviso


Notas iniciais
êêê esse é meio que o primeiro capítulo, e eu postei de uma vez porque that's life e eu tava animada escrevendo. enfim. divirtam-se.

3 anos antes.

“Octavia! ” A cabeça de Amelia Macmillan saltou para o corredor, enquanto sua voz, aguda e insistente, berrava. A garota voltou-se para trás, encarando o interior de sua cabine novamente. “Ela saiu há uns 10 minutos. Eu devia ir procurar?”

“Amy, você conhece ela.” O tom despreocupado de Roxanne contrastava com o da sua melhor amiga, sempre tão controladora, sempre tão ansiosa. A morena mordeu seu sapo de chocolate, e completou, ainda com a boca cheia: “Deve estar procurando o Tim. Talvez finalmente dê um fora nele.”

O garoto ao lado dela revirou os olhos, descrente. As probabilidades de Octavia Finnigan terminar com o garoto eram ínfimas, por mais que os amigos dela desejassem o contrário. Timothy era irritante, não muito inteligente, com certo complexo de inferioridade e uma habilidade incrível de se intrometer onde não devia. Por outro lado, tinha belíssimos olhos azuis e um tanquinho que não se conseguia só jogando quadribol. Octavia não estava com ele só por causa disso, é claro, mas estaria mentindo se dissesse que não ajudava.

“Honestamente, se ela fosse terminar com ele, podia ter feito isso durante as férias, né? Não aguento mais esse garoto andando com a gente.” Thomas comentou, por fim, e revirou os olhos novamente. Ele o fazia com frequência demais. Era um hábito ruim, assim como separar os feijõezinhos de todos os sabores por cor após colecionar várias caixas (e nunca as comer) ou tirar pétala por pétala de flores para jogá-las dentro das blusas das amigas.

“De qualquer jeito, volte pra dentro, Am. Tem uma corrente de ar insuportável vindo daí.” Roxanne deu uma última mordida em seu sapo de chocolate enquanto falava, e sua melhor amiga soltou um longo suspiro antes de fechar as portas da cabine e sentar-se outra vez.

Houve silêncio, um segundo, não muito mais que isso. E quando Thomas abriu a boca para preenche-lo, sem ainda ter certeza do que falar, um baque alto demais para ser ignorado ocupou o trem, como se muitas portas fechassem ao mesmo tempo, e então as luzes se apagaram. Não foi instantaneamente, Roxanne percebeu, pouco depois, enquanto sua mente divagava no meio de tudo aquilo. Demorou pouco tempo, instante, entre o barulho e a escuridão. E então, menos tempo ainda para os gritos.

Thomas gritou junto com o coro de tantas outras cabines, provavelmente audível do vagão inteiro, e Amelia gritou de volta, pedindo para que ele ficasse quieto. Não que houvesse nenhuma chance de o garoto prestar atenção ou do silêncio voltar rapidamente após o pânico. Pânico. Sim, essa era exatamente a única coisa que preenchia a mente de Roxanne. A morena agarrou o banco embaixo de si, enfiando as unhas nele, e seus dedos formigaram em reação. A garota não conseguia soltar. Seus olhos varreram a cabine, procurando enxergar algo.

“Cadê a merda da minha varinha? ” Ela não teve certeza se tinha falado ou somente pensado, mas não ficou muito tempo nessa questão. Seu maxilar doeu, e a garota percebeu que trincava os dentes com muita força – mas, assim como os dedos, não poderia parar. Sua mente não deixava. O pânico não deixava.

“Lumus!” Amelia disse – ou gritou, embora Roxanne não conseguisse mais saber a diferente em meio aquele caos – e a ponta de sua varinha iluminou-se. Thomas parara de gritar, mas ofegava, pressionando suas costas contra o canto da cabine, os olhos arregalados agora tentando acostumar-se com a luz.

“Merlin, vocês dois! Roxanne! Terra pra Roxanne!” A Weasley piscou e soltou seus dedos, aos poucos. Eles doíam quase tanto quanto sua cabeça.

“Desculpa.”

“Tudo bem.” Amelia suspirou. Seu rosto estava como sempre, preocupado, com aquela pontada de desespero. Essa era a parte boa de estar sempre ansiosa, de estar sempre medo. Estava sempre pronta para situações como aquela. Roxanne aprendera já dois anos antes que a lufana era a melhor pessoa possível com quem ficar em horas de desespero.

“Vem. A gente precisa achar a Octavia.” A outra concordou com a cabeça. Seu corpo agia como se ela tivesse tomado álcool demais, demorando para responder seus comandos. Forçou-se a se levantar somente quando percebeu que Thomas já estava de pé, pronto para seguir a amiga, e olhava-a levemente preocupado.

“Rox?” O garoto ergueu uma sobrancelha. Ele demorara meses para conseguir dominar aquela habilidade, e agora vinha naturalmente. A menina tirou os olhos do amigo ao ver que Amelia abria a porta, e balançou a cabeça em uma afirmativa.

Os dois foram em direção à porta, e tentaram olhar o corredor, sem sucesso, já que o corpo da lufana ocupava toda a pequena fresta que ela tinha aberto. A Weasley estava pronta para pedi-la para sair da frente quando a própria loira, percebendo o que os amigos queiram, abriu a porta inteira, dando alguns passos para frente e adentrando o corredor. Lá, ela paralisou.

“Ei. ” Sua voz soava tão assustada quanto poderia ficar. “Vocês precisam ver isso.”

Ela não precisou falar duas vezes. Os amigos realmente teriam ido – estavam curiosos demais para não o fazer – se o trem não tivesse parado dramaticamente, fazendo com que todos fossem jogados para trás em um movimento brusco. Os três gritaram, juntando-se a inúmeras outras vozes naquele vagão. Amelia, já fora da cabine, caiu no chão, e sua voz interrompeu-se. Thomas e Roxanne, levemente mais sortudos, somente bateram nas paredes. Logo depois de um pequeno gemido, ambos se ergueram e foram socorrer a terceira, ao perceberem que não haviam se machucado muito.

“Amy! Tudo bem?” A morena curvou-se sobre o corpo da amiga. Era uma pergunta redundante. A loira resmungava, deitada de lado no chão, e havia algo de definitivamente errado com o braço embaixo de seu corpo. “Meu deus, a gente precisa de um professor. ”

Na verdade, eles precisavam mesmo era chegar em Hogwarts, porque Amelia não tinha sido a única a cair no chão, e vários outros alunos pareciam ter quebrado ou fraturado partes diferentes no corpo. Thomas estava prestes a comentar aquilo quando seus olhos, varrendo o vagão procurando Octavia, pararam ao perceber algo de diferente no chão. Era palpável a tensão no local, e agora o menino percebera por que. Não só por causa de tantas pessoas caídas, mas por causa de uma frase, entalhada no solo do vagão em letras grandes, sob os pés e corpos dos alunos de Hogwarts.

cui multum datum est multum quaeretur ab eo

Em uma cabine não tão longe dali.

Albus, Rose e Scorpius não queriam sair da sua cabine. Eles ficaram se encarando sem dizer muito, mesmo após a luz voltar. O loiro mexia seus dedos, desconfortável, pensando em abrir a boca para dizer algo. Deveriam olhar o que acontecia lá fora, os três sabiam. Mas não era exatamente o que queriam, porque havia um sentimento de culpa pairando no ar que todos reconheciam, uma culpa que os incomodava e não parecia que iria embora tão cedo.

Tinham sido avisados.

Albus Severus Potter achava extremamente injusto. Gostava de viver tranquilamente, sem chamar atenção, e seu nome tornava aquilo difícil e cansativo. Um pouco impossível, também. Apesar de todas suas tentativas, todo seu esforço para que focassem em James (que nunca parecia se importar com a fama), todo seu cuidado para não ser nada mais que a média (o que às vezes envolvia errar algumas respostas de propósito nas aulas de poções), tudo absolutamente em vão. Porque tinham avisado justamente a ele.

O garoto lembrava-se de perguntar exatamente aquilo. “Por que justamente nós?”, ao que o homem, com a cara coberta por um capuz de um casaco, somente disse: “Vocês têm nomes importantes. E você” aquela foi especificamente para Albus, para seu desespero. “vai nos ajudar.”

Ajudar. Claro. Albus odiava aquela parte específica do diálogo. Rose e Scorpius tinham o assegurado diversas vezes que era mais um pedido do que uma constatação, mas ele não acreditava naquilo. Talvez não precisassem que ele colaborasse para ajudar. Aquilo o aterrorizava mais do que qualquer coisa. Mais do que saber quem eram eles, o que eles queriam, por que eles tinham resolvido avisar antes.

E quando o trem parou, abruptamente, eles já estavam preparados. Sabiam de cada uma das partes do plano. Tinham ficado sabendo cerca de um minuto antes de acontecer. Um minuto inteiro, contado no relógio, apesar de nenhum deles saber aquilo com tanta precisão. Um minuto no qual eles discutiram longamente, perguntando-se se alguém se machucaria, se eles podiam avisar um professor, se eles deveriam avisar alguém.

“Ninguém vai acreditar na gente.” Rose assegurou, pessimista como sempre. Os outros dois, raramente, acreditaram nela.

“Mas que merda que eles querem?” Scorpius tinha perguntado, alguns segundos antes do barulho encher o vagão.

“Você ouviu. Atenção. Mudança. Não é como se –” o Potter foi interrompido pelo baque, pelo escuro e pelos gritos. E foi desde essa hora que o silêncio encheu a cabine.

Ainda se encaravam enquanto ouviam as falas do lado de fora, os gritos, as reclamações. Haviam pessoas machucadas, com certeza. Pessoas caídas no chão, era também provável, com a parada brusca do trem. O pensamento acertou Rose antes dos outros: “Será que havia alguma fatalidade?” Segundo o plano que tinham lhes contado, não, mas sempre haviam imprevistos. E se alguém os tivesse visto? Será que eles seriam práticos ou piedosos?

“A gente precisa ver se as pessoas ’tão bem.” Foi Scorpius que disse, por fim, seus olhos confusos trocando entre o amigo e a amiga mais rapidamente do que o normal, como se observasse uma de suas discussões.

“Obviamente elas não estão bem.” Apesar de sua fala, a ruiva já se mexia em direção a porta, a curiosidade impulsionando-a.

“Você sabe o que eu quis dizer. ”

E, sim, ela sabia. Mas desejou que não soubesse. O mero pensamento de que qualquer um de seus colegas pudesse ter morrido era perturbador demais, até mesmo para a prática Rose Weasley.

Então é óbvio que não foi uma surpresa muito agradável quando, ao sair, eles não viram só todas as pessoas machucadas, caídas no chão, nem só o escrito entalhado na madeira. Não, eles já esperavam aquilo, de uma forma ou de outra. Na janela da cabine da frente, porém, quase imperceptível, em pequenas gotas, sangue. Inconfundível. Scorpius segurou o braço da melhor amiga, e ela pousou a mão sobre a boca.

“O que houve?” Albus questionou, postando-se atrás dos dois. Não precisou de uma resposta, visto que ao pôr sua cabeça entre os outros dois, enxergou também o líquido vermelho no vidro.

Engoliu em seco, e abriu caminho até o corredor. Podia ouvir os amigos atrás de si, então desejou não precisar abrir a porta. Havia alguns olhos neles, também, apesar da maior parte das pessoas estarem ocupadas demais cuidando de seus próprios conhecidos machucados, ou discutindo entre si o que teria acontecido ali. O Potter pôde ver seus dedos tremendo enquanto levava-os em direção à porta da cabine. E, em seguida, seu corpo inteiro tremendo quando conseguiu olhar o que estava lá dentro.

Octavia Finnigan, inconsciente, no chão, com um roxo em sua cabeça e sangue em suas mãos e em sua barriga.

Notas finais
mais informações sobre essa mensagem fofa ou como foi que essa galera falou com o trio no próximo capítulo. ou não. veremos. ¯_(ツ)_/¯
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.