Um pouco de carinho
1 Um pouco de carinho
Notas iniciais
Era fim de tarde e logo começariam as rondas noturnas. Todavia Saitou sentia-se indisposto. Uma forte febre o abateu, deixando-o de cama quase o dia inteiro. Porém, se via na responsabilidade de estar a par de tudo o que acontecesse na base. Mesmo com Hijikata e Kondou insistindo para que ele descansasse. Demorou um pouco, mas os superiores conseguiram convencê-lo. O capitão de olhar frio então se isolou em seu quarto, relaxando para tentar dormir.
Até que não era má idéia. Era uma folga de todo aquele estresse diário, de patrulhas e reuniões, encontros e desencontros de espadas pelas ruas da capital. Um tempo só para ele sossegar também dos treinos.
Dormiu tão profundamente de tal forma que chegou a sonhar com algumas coisas. Sonhou com neve, com cerejeiras... Sonhou até mesmo com Okita sorrindo daquele jeito despreocupado de sempre para ele e isso o surpreendeu. Tinha ciência de que, vez ou outra, via o companheiro em seus sonhos. A maioria sempre era uma alusão ao seu medo de perdê-lo, à preocupação com a saúde dele e a instabilidade emocional, combinada a seus impulsos, que o faziam cometer certas loucuras.
Por tanto vê-lo sorrindo assim, como se não houvesse nenhum tipo de problema, era muito reconfortante.
— Hajime-kun... Hajime-kun!
Foi quando o ouviu chamando seu nome. Acordando, descobriu o próprio o observando.
— Olá, dorminhoco! – Disse Souji com uma animação estampada no rosto fora do comum.
— O que está fazendo aqui?
— Eu vim cuidar de você. O que mais poderia ser? – O mais velho estava deitado ao seu lado, apoiando o rosto com a mão direita enquanto a esquerda se mantinha em cima de uma perna levantada. – Senti sua falta hoje...
— Estou doente... E não fique perto de mim. Não quero que fique enfermo também. – O canhoto respondeu virando para o lado oposto, para desgosto do visitante.
— Ah. Não sei se fico feliz por você se preocupar comigo... Ou se fico triste por estar sendo rejeitado! – Okita disse em tom desapontado mudando de posição também. Agora com ambos os braços atrás da cabeça e o corpo voltado para cima. – Pensei que estando febril, você estaria mais receptivo as minhas sugestões...
— Idiota...
Okita detestava fazer as rondas sozinho. Apenas se conformava quando realmente necessário. O que raramente acontecia. Era egoísta e sabia disso. Só que de uma maneira peculiar. Demonstrava sendo irritante e crítico, o que de fato era para disfarçar a ansiedade. Assim sendo, nunca perceberiam o segredinho que dividia com Saitou. Não fazia muito tempo que ambos descobriram que compartilhavam algo em comum... Um sentimento que os unia.
— Ora, vamos... Não me fale mal. – O maior pediu, quase implorando. Saitou apenas deu um longo suspiro.
— Por que ainda está aqui? – Hajime indagava sem paciência. Realmente não queria que Souji ficasse doente por sua culpa, afinal todo o cuidado com o rapaz era pouco. Mas por outro lado, estavam muito vulneráveis se repentinamente alguém resolvesse aparecer ali. Heisuke e Shinpachi eram abelhudos demais.
— Po que eu quero ficar contigo. – Okita disse.
— Souji. Estou doente... Quantas vezes terei que repetir? Se quiser brincar, brinque sozinho! – Ditou, elevando a voz mais do que pretendia. Por sorte, não o suficiente para causar nenhum alarde.
Indignado, o jovem de cabelos castanhos sobressaltou-se e, sem dizer mais nada, deixou-o sozinho em seu quarto.
Hajime não tinha certeza se o outro queria mesmo, ou não, fazer aquelas coisas no momento. Em todo caso, a melhor opção seria não estar perto dele enquanto corresse o risco de deixa-lo doente. Não demorou muito e caiu no sono mais uma vez. Porém brevemente.
Do lado de fora, Okita esfriava a cabeça. Completamente aborrecido, deu algumas voltas rápidas pelo jardim da base. O sol estava se pondo e a cor alaranjada fazia-se presente, aos poucos tingindo o cenário com aquela bela mistura de tons de outono.
O espadachim respirou fundo duas vezes, liberando toda a sua frustração e pensou um pouco. Ele não queria fazer nada daquilo com seu amante rabugento, só queria mesmo ficar com ele. Deitar ao lado, vigiando seu sono. Nunca vira Saitou ficar doente. Resfriado já, mas nem isso impedia o mais baixo de cumprir com seus deveres. Ele era mesmo incrível.
Resolveu ir, mais uma vez, enfrentar a ira daquele que provavelmente seria o mais temido samurai do grupo. Qualquer coisa valeria a pena se conseguisse alcançar seus objetivos. Entrou de fininho, certificando-se de que não haveria ninguém por perto e fechou cuidadosamente a porta.
Para sua surpresa, Saitou estava acordado e sentado.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Acordei não muito tempo depois de você ter saído... – Sem jeito, o menor desviava o olhar. Não queria admitir, mas a verdade era que sentiu vontade de dormir ao lado de Souji. Nunca tinham muitos momentos a sós e talvez, nem nunca teriam. Por que não aproveitar?
Odiava dizer, mas a febre o havia deixado carente.
Okita andou até sentar-se próximo dele, aguardando-o prosseguir. Quando notou que isso não aconteceria, sorriu e puxou o mais novo para um beijo rápido e em seguida o abraçou.
— Eu te conheço muito bem, não conheço? – Saitou nunca iria dizer e Okita entendia só de olhar para ele. Ninguém era tão próximo de Hajime Saitou quanto Souji Okita era.
— Conhece... – Ele soltou uma leve risadinha devolvendo o abraço e descansando a cabeça no ombro maior. – Mas... Souji, eu ainda não quero que você fique doente.
— O que haveria de tão mal em eu ficar doente? Sabe, se isso acontecer você vai cuidar de mim e eu te monopolizarei. – Riu no final. – É o plano perfeito!
— Não seja tolo... Eu sei que sua saúde está fraca. Se acontecer alguma coisa...
— Não vai acontecer nada. – Okita selou os lábios pálidos, dessa vez com mais afeto e aproximando-se até que seus corpos estivessem colados o suficiente para sentirem o calor um do outro, ou da febre. – Eu disse ao Hijikata-san que iria te vigiar hoje à noite e que se precisasse de alguma coisa eu ajudaria.
— Então...
— Então temos a noite inteira para ficarmos a sós.
Os dois deitaram-se no chão, ainda abraçados. Esfriaria durante a noite e por conta da febre, Saitou aconchegou-se em Okita, sem ter ciência disso. Apenas foi se posicionando confortavelmente. Só queria o maior como remédio.
— Hajime-kun, você está ficando mais quente... Quer que eu traga alguma coisa?
— Não... Eu vou ficar bem.
— Tem certeza?
— Sim. Eu só preciso descansar
— E de um pouco de carinho?
— Também.
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