Creio eu que muitas coisas continuarão as mesmas. Já estou mentalmente pronto para a volta de minha rotina na escola, depois do Sábado e do Domingo passarem como dois dias entediantes e repletos de algumas tarefas domésticas, como sempre.

Saio de minha casa e vou até o ponto de ônibus um pouco distante, virando uma rua. No caminho, me deparo com alguns homens velhos sentados sem fazer nada naquela hora da manhã, me lembrando dos velhos que ficam bebendo nos bares próximos, aproveitando o resto de vida que lhe resta com o dinheiro da aposentadoria.

Fico parado no ponto, em uma rua solitária no limite da cidade à alguns metros de distância. Alguns outros estudantes do bairro também estão à espera.

Noto que a garota morena e bonita, que eu conhecia apenas de vista e que costumava pegar o mesmo ônibus, não está presente. Já faz semanas que ela não vai para o colégio, certamente por causa de suas fotos nuas que foram vazadas na internet depois que ela terminara com o namorado. Não sei o que acontecera com ela depois daquilo tudo. Por algum motivo a palavra "suicídio" surge na minha cabeça como uma possível solução, e talvez também tenha se passado na cabeça dela também.

O ônibus chega alguns minutos depois e eu embarco, me sentando próximo à janela, no assento maior. Em breve o ônibus irá lotar de alunos de escolas públicas e de pessoas que acham completamente desagradável viajar com o ônibus lotado de alunos de escolas públicas. Mais um dia como qualquer outro, que irá se repetir por longos três anos.

Na escola, falo brevemente com alguns dos meus colegas até chegar o momento de seguirmos para as salas. Quando o sinal toca, parece até algum tipo de treinamento para quando formos pegar o trem ou metrô em horário de rush.

Na sala, a professora de espanhol dá sua aula, sem nenhuma motivação. É uma aula entediante para mim, eu confesso, mas as coisas não precisariam ser tão ruins assim. A professora era bastante calada e falava apenas o necessário para ensinar a matéria. Comecei a puxar assunto com ela e descobri uma pessoa incrível, apaixonada pela cultura latina que havia viajado por quase todos os países de língua espanhola da América do Sul.

A época do fim do Ensino Fundamental havia sido uma das piores da minha vida devido à quantidade frequente de humilhações. Afinal, as pessoas costumam ser cruéis.

Por causa disso, demorou um tempo para eu me adaptar nessa outra escola. Vi que apesar das pessoas ruins, também existiam pessoas legais e eu só pude ver isso depois.

Fiz curso de computação gráfica e acabei descobrindo pessoas incríveis que tinham gostos parecidos com os meus. Era um lugar onde eu me sentia em casa, lidando com coisas que eu gostava.

Minha vida estava melhorando por esses lados, mas em casa as coisas não estavam tão boas assim. Eu sempre tive o desejo de ser o melhor como designer gráfico e estudava todos os dias para isso, sempre conseguindo novos conhecimentos na área, enquanto meus pais imaginavam que eu estava apenas brincando ou jogando mais alguns jogos online.

Como estava ficando mais velho, meus pais me pressionaram cada vez mais e tive que trabalhar. Comecei no bar e mercearia do meu pai e lá fiquei durante muito tempo, parcialmente aprisionado.

Sempre que podia eu lia ou escrevia, deixando as coisas mais suportáveis. Um dos meus sonhos é terminar de escrever um livro e o publicar. Estou organizando as ideias e toda a história. É algo que tenho que fazer, pois eu fiz uma promessa de nunca parar de escrever. Quem sabe me tornar um escritor famoso e vender milhões de cópias não seja uma má ideia?

Talvez, quem sabe, eu possa me tornar um renomado designer gráfico, trabalhando em uma grande agência de publicidade, fazendo tudo aquilo que eu mais gosto.

Talvez, antes do meu ponto final chegar, eu trabalhe como freelancer, arrumando trabalhos aqui e ali, dividindo o aluguel do meu apartamento com meus outros colegas, nos divertindo quase todas as noites assistindo filmes ou jogando videogame.

Talvez, antes do meu ponto final chegar, eu encontre o amor de minha vida para vivermos uma história emocionante viajando pelo mundo, conhecendo lugares, culturas e pessoas diferentes.

Talvez exista reticências no lugar do meu ponto final. Quem sabe minha história não continue mesmo depois de ter acabado?

Mas, nada disso vai acontecer.

Eu não fazia ideia de onde vinha, mas o tiro foi certeiro. Um pequeno projétil mortal vagando perdido por aí até encontrar um alvo aleatório e acabar com tudo. O resto da minha vida se esvaziou em uma poça de sangue.

Os sonhos eram insignificantes e não haveria reticências.

Talvez, quem sabe, exista um ponto final antes do ponto final.

Notas finais
Considerem um pequeno desabafo a diversos sonhadores que morrem todos os dias vítimas de violência. Comentem o que acharam!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!