— Saijou-san, será que poderíamos conversar no fim da aula? Tenho algo importante para te dizer.

Claudine sente seu corpo paralisar por alguns segundos, tentando registrar o convite que sua parceira — e maior rival — a fez. Enfim o momento havia chegado; há meses ela vinha sentindo algo estranho no ar, algo que não compreendera de primeira, mas que fora se comprovando a cada interação que tinha com a outra garota.

E depois de contracenarem tantas vezes juntas, com inúmeras trocas de olhares que pareciam ir além dos personagens; tantas coreografias em dupla com toques parecendo cada vez mais íntimos; e a cada conversa casual fora da escola em que riam sobre qualquer coisa e se tornavam mais próximas; ela enfim entendeu o que estava acontecendo.

Maya gostava dela; gostava além da amizade que construíram tão lentamente nesses dois anos de ensino médio. E a garota japonesa, que antes era apenas sua maior rival que iria ultrapassar a qualquer momento como melhor da classe, foi ganhando suavidade em seus olhos também. Apesar de muitas vezes ter um comportamento irritante sendo orgulhosa demais, ela já não parecia tão distante quanto era no começo, tendo mostrado tantas vezes como era gentil, dócil e o quanto se preocupava com todos e, principalmente, com ela.

Mas mesmo depois de todo esse tempo, Claudine ainda não estava pronta. Ela antecipava que esse dia chegaria, mas mesmo depois de tanto pensar, ela ainda não sabia o que responder. Será que ela sentia o mesmo pela rival?

— Saijou-san, está tudo bem? — A voz de Maya interrompe seus pensamentos, e a garota francesa balança a cabeça como se voltando ao mundo real.

— Oui, apenas me distraí. — Ela disfarça passando a mão em seus longos cabelos loiros e ondulados. — Como quiser. Onde quer conversar?

— Podemos conversar no estúdio mesmo para não atrapalhar nossa rotina de ensaios extras. — A morena solta a tensão de seus ombros com a resposta positiva. — Não vai demorar muito.

— Certo.

O sinal toca nesse instante, encerrando o intervalo de almoço e interrompendo a conversa de ambas. Maya, formalmente como de costume, pede licença e segue para o banheiro, deixando Claudine parada no meio do corredor ainda atônita com o convite.

Ela sente uma vontade imensa de gritar e botar isso pra fora. Será que ela deveria desabafar com alguém? Futaba estava sempre disponível para ouvir suas lamentações sobre a rival, mesmo que não soubesse ainda sobre esses sentimentos incertos entre elas. Mas não havia tempo para falar com a outra garota, com as aulas de tarde sendo lotadas de atividades. Ela estala a língua em frustração, já que nem um conselho ela conseguiria no momento.

Era apenas ela e seu turbilhão de pensamentos até o fim do dia, e esperava não enlouquecer até lá.

A primeira aula da tarde era coral, o que era sorte pois impediria qualquer interação entre elas — e talvez Claudine poderia usar o tempo para organizar os pensamentos. Entretanto, entre uma estrofe e outra da música, cada uma em um grupo diferente de acordo com seu tipo vocal, a francesa se pega olhando para a japonesa, que a olha de volta com um sorriso confiante e a quase faz desafinar. Ela continuava insuportável como na primeira vez que se conheceram; quanto a isso sua opinião nunca mudou.

A aula seguinte era de cenografia e todas seguem para um dos estúdios onde ficavam guardados os elementos de palco. Entre as tarefas que a professora as dá, Claudine se pega inconscientemente evitando a rival, se mantendo em grupos diferentes e em atividades opostas. Nisso ela acaba elaborando um plano de cenário com Futaba, que facilmente nota que algo abalava a amiga — entretanto, não havia tempo para contar toda a história para ela, o que faz Claudine apenas desviar o assunto e se manter distraída.

Porém, hora ou outra, ela se pega olhando novamente para o motivo de suas distrações — que agora estava do outro lado do estúdio com Nana, as duas parecendo ocupadas escolhendo cores para os tecidos cenográficos. O que ela sentia sobre a outra garota, afinal?

Estava tão difícil definir. Ela mal consegue dizer que eram amigas, e insistia em chamá-la de rival mesmo depois de tanto tempo. Mas por mais que ela não admitisse, era claro que seus sentimentos pela outra talvez não fossem tão diferentes assim.

Quando ela se dá conta, o sinal indicando o fim das aulas toca, e seu coração já dispara em seu peito. O momento da verdade se aproximava, e agora ela não tinha mais como escapar.

Como de costume, Maya se aproxima dela para irem juntas ao vestiário e depois a um dos estúdios livres. Claudine segue com ela em silêncio e as duas trocam para suas roupas de treino antes de encontrar a sala em que a importante conversa aconteceria.

Assim que estão a sós, com a porta da sala fechada, Claudine se sente tão nervosa que sua respiração fica pesada. Maya parecia calma, mas a francesa sabia que a outra era boa em disfarçar seu nervosismo.

— Então, sobre o que eu queria conversar, Claudine– quero dizer, Saijou-san... — Maya começa, confirmando as suspeitas da outra.

— Eu já disse uma vez que pode me chamar só de Claudine. — Ela responde meio impaciente devido ao nervosismo.

— Ah, sim, é costume. — Maya desvia o olhar. — Bom, eu não sei exatamente como dizer isso e é um pouco difícil encontrar as palavras certas…

A medida que a outra garota fala, Claudine sente seu peito apertando. Aquilo era real e estava acontecendo; não era mais uma de suas imaginações de como ela previa que essa cena aconteceria. Maya estava ali, na frente dela, prestes a abrir o seu coração para ela.

E, neste momento, Claudine sente que sua confusão de sentimentos se foi. Ela sabe o que sente; ela sabe o que deve responder.

Assim, antes que Maya continuasse, ela a interrompe bruscamente.

— Não precisa dizer mais nada, Tendou Maya! Eu já sei de tudo.

— Sabe? — Maya arregala os olhos em surpresa.

— Sei. Já sei há muito tempo. — Claudine diz com um suspiro, tentando acalmar seu coração.

— Por que não me disse nada?

— Eu… deixei que tomasse a iniciativa enquanto pensava sobre o assunto também. Mas agora que esse momento chegou, eu acho que já sei a resposta. — A loira leva seu punho fechado até seu peito, sua expressão um pouco mais suave.

Maya fica levemente confusa, porém interpreta entre as linhas e acaba por abrir um sorriso.

— Só de saber disso já fico feliz.

— Pois bem. Eu… — Claudine se prepara, olhando com confiança nos olhos de sua prestes a se tornar ex-rival. — Eu também gosto de você, Tendou Maya.

A morena pisca algumas vezes, agora visivelmente confusa. Três segundos depois e seu rosto fica totalmente vermelho, e Claudine percebe que havia algo errado.

— Maya? — Claudine chama, um leve desespero em seu tom de voz.

— Você me pegou de surpresa, Claudine. — Maya leva as mãos ao rosto.

— Surpresa? — A francesa sente sua pressão cair. — O que você ia dizer?

— Acho que nem tem mais importância agora.

— Como não? Desembucha!

— Eu… — Lentamente Maya remove as mãos de seu rosto, que ainda continuava avermelhado. — Eu ia contar que esta manhã acabei comendo o pudim que você guardou na geladeira dos dormitórios.

— Que nous racontes-tu là? Tu es bête ou quoi! — Claudine dispara em francês, como costumava quando ficava nervosa, com seu rosto agora vermelho como uma pimenta. — Você tem que estar zoando, isso não é importante!

— É sim! Sei como fica brava quando comem sua comida. — Maya defende.

Claudine não podia se sentir mais embaraçada. Como pode interpretar tudo tão errado e chegar à conclusão de que Maya estava prestes a se confessar? Ela queria cavar um buraco e se esconder; era o único jeito de fugir de tamanha humilhação.

Entretanto, no momento em que seu corpo descongela e ela decide sair correndo dali, Maya agarra seu braço e a impede.

— Espera, não vai embora assim. — Ela pede, mas Claudine nem olha para ela.

— Claro que vou. Finge que nada aconteceu aqui.

— Temo que isso seja impossível agora, Claudine.

Mordendo o lábio inferior, Claudine vira sua cabeça para poder encarar a outra garota.

— Lembro que uma vez você me disse que podia me ler como um livro e isso só se mostra cada vez mais verdade. — Maya diz suavemente enquanto solta seu braço. — Acho que não consigo esconder nada de você por muito tempo.

— O que quer dizer, Tendou Maya? — Claudine responde com irritação.

— Eu gosto de você.

Se fosse possível, o rosto de Claudine ficaria ainda mais vermelho.

— Por que estava enrolando tanto pra me contar?

— Eu tinha medo da sua resposta. Não queria te perder.

Claudine sente seu coração acelerar de novo e solta um suspiro.

— Idiota. Eu não iria a lugar nenhum.

Em um impulso, ela se aproveita da proximidade entre elas para puxar Maya por sua jaqueta de treino e fazer seus lábios se encontrarem. O beijo tímido dura apenas alguns segundos, mas é suficiente para selar aquele momento de confissões.

— Não pense que me esqueci do pudim. — É a primeira coisa que Claudine diz ao interromper o beijo, seus rostos ainda próximos uma da outra.

— Que tal pularmos nosso ensaio de hoje e irmos até uma confeitaria? Acho que precisamos comemorar, e posso lhe dar quantos pudins quiser.

— Desde que não vire rotina, pode ser.

Sem mais delongas, as duas saem do estúdio para seu plano espontâneo ainda meio timidamente. Enquanto caminham no corredor da escola, elas sentem suas mãos baterem uma na outra, como se ambas quisessem dar as mãos mas estivessem muito nervosas para tomar a iniciativa, e acabam rindo juntas enquanto enfim deixam as mãos se encontrarem.

E, nesse momento, ambas tem certeza de que iriam se acostumar com isso rapidamente.

FIM

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