Um pedaço da realidade

1 De volta onde tudo começou


-Você tem que tomar muito cuidado. Sabe que está frágil. – disse enquanto andava, ela ainda se negava a dizer uma palavra. Olhei para seu rosto que parecia ser de porcelana, sua branca pele estava ainda mais clara pela luz que entrava fracamente a fazendo parecer um anjo. Seu longo cabelo loiro liso estava batendo em um das rodas da cadeira de rodas, então tivemos que prender em um rabo de cavalo antes de leva-la de volta para casa.

-Eles estavam certos. Você não é confiável. – ela disse, apenas sorri.

-Por que eu não seria confiável?

-Porque me trouxe para onde tudo começou. Essa casa não é um bom lugar. Eles me disseram. – ela disse olhando ao redor evidentemente apavorada.

-É a única casa que você tem e se negou a falar com qualquer outra pessoa da família. Não tivemos outra escolha. – disse. Abandonei a cadeira perto da porta e entrei para olhar a casa.

Ela estava certa de ter medo desse lugar. Toda a madeira da escada fazia barulho ao subir, as portas rangiam mesmo com vento fraco e as janelas não tinham trancas, abrindo e fechando quando queriam. Andei um pouco pela única parte da casa que era segura, o piso de ladrilhos. A tinta das paredes estava saindo as deixando ainda mais feia. Entrei na cozinha para verificar se todos os móveis ainda estavam lá e por sorte vi que não faltava nada na casa.

-Você quer dormir aqui em baixo ou lá em cima? – perguntei, eu poderia subir com ela para seu quarto se ela quisesse e deixar a cadeira perto dela.

-Quando eu era pequena dormia no quarto de minha mãe toda noite. – um silêncio se instalou, mas ela terminou a frase logo depois – Mas eu quero dormir no meu.

-Aconteceu algo lá?

-É que minha mãe disse que estou grande demais para dormir com ela.

-Sua mãe morreu, Carrie. – repreendi sua atuação.

-É o que todos dizem. Mas então por que ela ainda está me dizendo que não sou criança? – olhei em seus olhos, era óbvio que ela era a pessoa mais assustada de todas.

-Você acabou de sair do hospício, por favor, não volte. Sabe como a situação daquele lugar é horrível se alimentando de pessoas como você. Eu estou aqui para ajudar, então me permita. – disse voltando para perto dela que fechou os olhos e assim que abriu deu um pequeno pulo.

-Você sabia que tem uma cobra colorida em cima de sua cabeça, nesse momento? – ela perguntou sorrindo. Gostaria de saber onde ela está vendo comédia numa situação dessa. Passei a mão pelo meu cabelo sabendo que ela estava mentindo, mas percebi que era verdade. Joguei-a no chão e pisei em sua cabeça antes que ela conseguisse se mexer.

-Carrie, você não pode brincar com coisas como essa. – disse suspirando, ela apenas abaixou a cabeça e assim que levantou, havia lágrimas em seus olhos.

-Eu achei que era outra ilusão...

Então era isso, ela já não conseguia distinguir o real da ilusão. Isso talvez fosse mais assustador do que havia imaginado. Me aproximei dela e segurei nos guidons da cadeira, com vontade de leva-la de volta para o manicômio, ela não conseguiria sobreviver sozinha.

-Acho melhor voltarmos. – disse devagar, ela nem olhou para trás, apenas sorriu.

-Por favor... não me leve de volta. Você tenta fazer o melhor para as pessoas doentes, mas nem todos são assim. Tem pessoas que... – ela apertou o punho forte deixando marca de suas unhas em sua pele e sorriu se virando para trás com os olhos molhados e ficou calada.

-Talvez possamos fazer uma espécie de teste. Você quer ficar no andar de cima ou no térreo? – perguntei mais uma vez, consegui identificar em seu rosto uma surpresa banhada de agradecimento. Ela sorriu de uma maneira angelical mais uma vez.

-Quero ficar em meu quarto. Ele fica lá em cima. – ela disse, eu empurrei a cadeira para perto da escada e a peguei no colo. Era óbvio que ela estava receosa com o fato de ter um homem cuidando dela, mas o único a aceitar o emprego fui eu.

Começamos a andar e conseguíamos ouvir as escadas rangendo com cada passo que dávamos, assim que finalmente chegamos ao seu quarto depois de passar por um curto corredor, vi como ele era bonito. Uma cama com um lençol por cima para espantar os mosquitos já que estamos praticamente em uma fazenda longe tudo, com um edredom vermelho por cima e uma janela repleta de flores mortas, decidi que seria a primeira coisa a tirar da casa.

A deitei na cama, apesar de saber que ainda iria demorar para que ela conseguisse andar por conta própria, queria começar a obriga-la a tentar. Ela havia sofrido um acidente de carro pouco antes de ir para o hospício e ficado sem o controle das pernas, mas depois de muita fisioterapia ela poderia conseguir fazer quase tudo por si mesma.

A vida dela não era fácil, isso era perceptível. Perdeu o filho e o marido no acidente, seus pais já haviam morrido quando ela ainda era uma criança e foi morar com seu avô que morreu pouco depois, a obrigando a ir para o orfanato. Ninguém a adotou, ela foi para a faculdade e terminou pouco depois de se casar. Já estava grávida na formatura, e na volta bateram o carro.

-Se precisar de alguma coisa, tudo o que precisa é tocar esse sino que virei o mais rápido que puder. – avisei, ela sorriu e assentiu.

Entreguei-o para ela e desci para pegar sua cadeira de rodas e mala e colocar em seu quarto, comecei a arrumar de acordo com o que ela pedia. Onde iriam sua blusas, saias, vestidos e as outras vestimentas deixei por sua conta.

-Você vai ficar bem. Eu sei que vai. – disse, ela sorriu sem tanta certeza quanto eu deixei transparecer apesar de não confiar em minhas próprias palavras.

Sai de seu quarto e comecei a arrumar o meu, o mais simples que havia naquela casa. Olhei para a porta com a impressão que deveria proteger Carrie da maneira que eu pudesse, porque sei que no meio da noite ela iria gritar sem motivos, que ela não iria querer ficar sozinha em alguns momentos e que ela iria me avisar de amigos ou familiares que estavam andando pela casa, sem saber se era, na verdade, uma ilusão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.