O shopping a essa hora estava um pouco menos movimentado que a hora de almoço mas muitas pessoas ainda passeavam por ele, tomando sorvete e enrolando até terem que voltar ao seu trabalho. Os gritos de ordem de Letícia serviam apenas para fazer as pessoas se afastarem, atraindo a curiosidade dos passantes mas não o impulso de ação dos seguranças do shopping, que naquele momento pareciam que não existiam.

Letícia em sua fração de segundo olhou para dentro da loja de móveis e para o Jean que se distanciava a cada milisegundo. Seu instinto dizia para recuperar sua bota, mas seu senso de dever dizia que não poderia deixar Jean escapar de forma alguma. Se o perdesse de vista, as chances de encontra-lo no shopping, ainda mais sozinha, seriam quase mínimas. Procurou algum segurança para o qual pudesse pedir ajuda mas não avistou nenhum.

A detetive então saiu correndo em direção as escadas do segundo andar. Calçava num de seus pés uma bota preto com um pequeno salto, semelhante a um coturno feminino, era o sapato que acompanhava Letícia nas principais investigaçções e trabalho de campo. O outro pé estava descalço, sua meia tinha se enroscado na sua outra bota, e Letícia sentia o contato do seu pé com o chão gelado do shopping. A cada passo que dava, num movimento desuniforme e rápido, sua outra bota ficava para trás, a medida que Jean ficava a cada momento mais próximo. Subiu a escada rolante se colocando entre os clientes do shopping enquanto gritava desesperadamente para que alguém parasse aquele rapaz.

Subiram as escadas para o terceiro andar, Letícia a uns 20 metros de distância de Jean. Quando a detetive alcançou o topo da escada, uma multidão se aproximou e tapou sua visão. "Licença polícia!" gritava a detetive tentando abrir espaço por entre as pessoas que tomavam distraidamente sorvete. Quando enfim conseguiu passar avistou Jean quase alcançando a escada rolante para o piso do cinema. Ia começar a correr quando dois seguranças se aproximaram lhe oferencendo ajuda. "Tampem as saídas de emergência e escadas de incêndio, ele pode subir mas vamos impedi-lo de descer" Ordenou a detetive enquanto corria em direção ao próximo piso.

Lá em cima, já mais esbaforida, a detetive tomou um ar enquanto procurava para onde o suspeito tinha corrido. Não estava nas cadeiras de espera, nem perto da cabine de pipoca, será que estava nos elevadores? "Senhora, o rapaz entrou na sala 12" desta vez era uma voz feminina que vinha detrás. Uma das faxineiras tinha aberto uma das portas de vidro que dividiam o andar do acesso as salas de cinema, lhe conferindo uma pequena vantagem. "Ele tentou usar os elevadores mas não conseguiu, deve tentar usar as escadas de incêncio que ficam próximas as salas" indicou a faxineira.

Correu novamente a detetive sentindo dessa vez a sensação do carpete sob seu pé descalço. Sala 7, sala 4, sala 9, sala 6, sala 11, sala 8, sala 13, sala 10, sala 10. Parou na frente da sala 12 e viu o cartaz do filme de ação que estava sendo exibido naquela sala. Entrou correndo mas acalmou o passo quando viu a tela aonde era projetado o filme. "Vou me mover devagar assim ele não vai suspeitar que o encontrei aqui na sala" Letícia subiu lentamente as escadas da sala procurando um lugar na fileira mais superior da sala, deonde poderia observar a movimentação e tentar localizar o rapaz. Subiu lentamente, analisando as pessoas, e tentando mascarar sua respiração ofegante. Tinham no máximo 30 pessoas assistindo aquela seção de cinema e Letícia poderia observa-las todas da última fileira.

"Os deste lado já olhei, agora faltam os daquele ali" a detetive começava a descer em direção ao primeiro amontoado de pessoas vendo o filme quando sentiu que pisava com seu pé descalço naquele chão melado e em pipocas abandonadas pelos clientes. "E se ele se deitou no chão?" Era uma possibilidade grande, ela não poderia correr esse risco. Letícia desceu até a parte debaixo da platéia e começou a analisar as pessoas sentadas em busca do Jean. Ia de grupo em grupo e a cada fileira se abaixava e se certificava que não havia ninguém deitado naquela fileira. "Onde estão os seguranças para me ajudar?" pensava Leticia irritada.

Vasculhou o último grupo e nada. Sentou-se irritada na última fileira e ficou pensando por onde poderia ter escapado Jean. Remoeu todas as possibilidades, que o rapaz poderia estar em algum grupinho, poderia ter se deitado, poderia ter.. apesar de escura a sala não tinha esconderijos. Olhou para o filme enquanto pensava nas possibilidaes. "Incrível como esses filmes tudo se resolve fácil, ou tiro, ou se alcança o fugitivo..." Atrás da tela era impossível, mas e embaixo? E nas cadeiras de baixo? Seria possível? Letícia desceu correndo em direção aquelas duas fileiras inferiores.

Não havia ninguém sentado mas poderia haver alguém deitado no chão. Se ajoelhou e na primeira fileira estranhou não reparar nas luzes que ficavam acesas na parte inferior da parede, bem aonde terminava a fileira de cadeiras. "Tem algo estranho nesse lugar". Foi caminhando pela fileira em direção aquela porção estranha quando mais próxima reparou que a massa que tampava a fileira rolou para a fileira da frente.

'Jean, parado, aqui é a polícia, isso é uma ordem!" gritou a detetive no meio da sessão. "Eu não fiz nada dona, eu só estava estudando" aquela massa escura que tinha rolado para a fileira da frente era Jean. "Eu só estava estudando lá, não sei nada de computador não". Letícia colocou sua mão sobre o coldre e fez que iria sacar sua arma se Jean não se entregasse. "Jean, se entregue agora, não há nada o que você possa fazer, se isso é um mal-entendido, por que você correu? Por que não nos contou a verdade?" Jean já estava de pé e seu corpo ainda era uma massa um tanto escura, na qual era possível distinguir que seus braços estavam para cima, em sinal de rendição.

"Eu não fiz nada pra aquela escola, eles que quebraram o meu computador, eles que não devolveras as minhas peças" Jean ia lentamente dando passos para trás enquanto Letícia saia do corredor das poltronas e tentava se aproximar de Jean, a mão atenta posta em cima do coldre para qualquer eventualidade. "Eu não se de nada dona" insistia o rapaz. "Vamos conversar com você na delegacia e se você está certo vamos libera-lo e lhe pedir desculpas pelo mal entendido" explicava a detetive. Os dois andavam lentamente, distanto uns 8 metros, mas próximos a saída de incêndio da sala de cinema.

"A escola pode retirar a queixa, tudo vai depender..." A detetive continuar o raciocínio quando subitamente a porta de incêndio se abriu e inundou a sala de cinemas com a forte luz do corredor. "Parado Jean!' gritou insistentemente a detetive enquanto tampava seus olhos por conta da ceguei momentânea fruto da porta de incêndio aberta. "Eu não fiz nada!" gritou jean mais uma vez se afastando pelo corredor enquanto a detetive, imóvel ao lado da saída de incêndio, tentava retomar sua visão .

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.