Um papel em cada mundo

4 Uma ausência suspeita


Os primeiros dias nas cavernas foram estranhos, marcados por suspeita e é claro, medo. Era normal os Na'vi compartilharem Pandora com a natureza, com seus outros irmãos, porém ali, fora da floresta, sem estarem envoltos por plantas e flores, parecia estarem invadindo o território dos ikran. No entanto, estarem ali uniu mais o povo, uma convivência que já era cheia de comunhão e compreensão, se intensificou ainda mais.

O que fez Lay'ti se habituar a morar ali eram seus notáveis talentos, ela se juntava aos outros cozinheiros e compartilhavam a refeição com todos juntos, além disso, ela estava atenta aos cuidados médicos que alguém precisasse.

Naquela manhã, uma família pediu justamente a ajuda dela para lidar com a filha doente a alguns dias, enquanto Mo'at estava ocupada com outros feridos. Isso era algo que tinha mudado, o Olo'eyktan precisou criar uma milícia para combater os humanos, que como ele tinha previsto, vieram atrás de seu povo. Ela tinha plena consciência que Neteyam e Lo'ak acompanhavam o pai nos ataques constantemente, o que a deixava preocupada sempre que eles saíam.

Depois de preparar um caldo para sua paciente e se certificar que ela tinha tomado, mesmo com pequenos protestos, Lay'ti estava caminhando de volta para sua tenda, quando foi interrompida por uma agitada Tuktirey.

—Oi, Tuk, está tudo bem? — ela quis saber, percebendo a urgência da mais nova em falar com ela.

—Lay'ti, é o Neteyam, ele se machucou no ataque de hoje, achei melhor você dar uma olhada nele — explicou a menina.

—Machucou? Machucou como? Tem alguém cuidando dele? — a curandeira se assustou com a notícia, sua preocupação normal com o noivo aumentando.

—Tem sim, a vovó já cuidou dele, ele tá bem — Tuk achou melhor dizer, vendo que ela tinha ficado muito preocupada.

—Ah que bom, graças à Grande Mãe — Lay'ti deu um alto suspiro — ainda assim eu vou dar uma olhada nele.

—Acho que ele vai gostar — Tuk deu um sorrisinho de lado, enquanto Lay'ti, ao acompanhá-la, apenas revirou os olhos.

Ela o encontrou sendo um pouco perturbado por Lo'ak e Spider, o que já era bem típico, mas olhando para ele rapidamente, Lay'ti não encontrou nenhum ferimento aparente.

—Neteyam, Tuk disse que se machucou, você está bem mesmo? — ela entrou na tenda, sem muita cerimônia, acostumada a já ser parte da família.

—Oi pra você também, Lay'ti — ela ouviu Lo'ak reclamar.

—Oi, pessoal, desculpe a pressa e falta de jeito, é que Tuk contou sobre o ataque — ela corrigiu seus modos.

—Ah não foi nada, foi um arranhão nas costas — o próprio Neteyam alegou, dando de ombros, mas gemendo um pouco depois disso.

—Nada, não é? Deixa eu ver isso — ela se aproximou irritada, inspecionando a ferida nas costas dele — é, foi alguma coisa, mas está bem tratado, você devia tomar mais cuidado.

—Eu tomei, eu juro — ele respondeu quietamente, mas olhou de relance para Lo'ak, e Lay'ti compreendeu tudo.

—Você precisa ser mais responsável — ela se voltou justamente para o irmão Sully do meio.

—Quem te contou alguma coisa? — ele ficou na defensiva, como era esperado.

—Eu te conheço, cresci com vocês, esqueceu? — ela rebateu, cruzando os braços — eu não quero perder vocês dois por causa de uma encrenca que você tenha arrumado.

—Tudo bem, Lay'ti, já entendi — Lo'ak se levantou — eu agradeço por se preocupar, mas eu não quero ouvir outro sermão, já ouvi o bastante do nosso pai.

—Está bem, eu vou ser boazinha, só dessa vez — Lay'ti conseguiu sorrir — jantar por minha conta, então?

—Não precisa se dar ao trabalho — Neteyam achou melhor poupá-la do esforço por gentileza — eu sei que andou ocupada o dia todo cuidando dos doentes, por que você não come com a gente hoje?

—Ah cara, sério? — Lo'ak reclamou outra vez, mas Lay'ti apenas riu.

—Ela merece um descanso, irmão — o mais velho insistiu firmemente.

Sem mais protestos, ela sentou com os Sullys e dividiu a refeição com eles. Pelo bem de Neteyam e Lo'ak, os assuntos tinham mudado, os fazendo esquecer da adrenalina que passaram mais cedo.

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A tensão de estarem escondidos, constantemente se protegendo e atacando nunca deixava os Omaticaya e esse sentimento de pressão e pesar apenas aumentou com notícias complicadas. Lay'ti não tinha visto nenhum dos Sullys naquele dia, nem mesmo Neteyam tinha falado com ela antes de partir, o que a princípio apenas a fez sentir falta do gesto e não necessariamente preocupada. Conforme o dia foi passando, ela não ouviu notícias dele, acreditou que tivesse numa missão mais longe da fortaleza, na companhia dos pais, o que era um alívio para ela, uma segurança a mais.

Então o eclipse chegou, trazendo a noite e deixando tudo escuro. Nenhum dos Sullys veio falar com ela, nem ela ousava ir até a tenda do Olo'eyktan, tudo parecia muito tenso e suspeito, se fosse um dia comum, ela receberia uma visita deles, mas para não aparecerem até agora, algo estava acontecendo, algo grave. Só restava esperar por notícias.

O dia terminou, ela foi dormir, e então iniciou uma nova jornada diária. Comeu quietamente com os pais e só então se juntou a Mo'at, perguntando se ela precisava de ajuda, se havia alguém para ser atendido.

—Não, ma'Lay'ti, está tudo bem, ao menos com os guerreiros — a tsahik explicou — mas estou vendo que algo a perturba, o que aconteceu?

—Eu não tive notícia dos seus netos ontem, senti a falta deles — ela deu de ombros, sentindo que podia ser sincera com ela.

—Sobre isso, algo realmente aconteceu com a família, mas talvez seja melhor esperar Neteyam falar com você a respeito — recomendou Mo'at.

O conselho deixou Lay'ti um pouco mais aflita, mas ainda assim, ela resolveu esperar. Ocupou-se preparando poções e caldos, deixando de prontidão para quem precisasse.

Dentro de alguns instantes, Neteyam surgiu ali, completamente como um guerreiro, a viseira de caçador sobre a testa, a faca no cinturão, aljava cheia de flechas e o arco poderoso na mão.

—Você está bem? — Lay'ti se levantou, indo até ele, hesitando um pouco em tocá-lo, pensando num abraço, mas interrompendo a ideia.

—Eu estou — ele suspirou e conseguiu sorrir, a observando com o que era pena, dúvida — nós precisamos conversar, sobre uma coisa muito séria.

Ela apenas assentiu e o seguiu até um lugar mais reservado. Suas velhas responsabilidades como futura tsahik a diziam que tomar essa posição estava mais perto do que nunca agora.