Um papel em cada mundo
22 Possibilidades
Tsireya observava com atenção os dedos ligeiros e habilidosos de Lay'ti trabalhando no tear, tecendo o material que tinha colhido mais cedo, uma mistura de algas, cascas de árvores que tinham na região e algumas fibras. A própria Tsireya era muito habilidosa com materiais marinhos, mas não tanto quanto os materiais com que Lay'ti estava acostumada.
—Eu nunca vou conseguir ser tão rápida quanto você — admitiu Tsireya, chegando até mesmo a rir.
—Ah você não precisa fazer tão rápido — Lay'ti opinou — e nem pensar que é tão difícil assim, é só fazer devagar no seu ritmo.
A esposa de Neteyam então levantou e deixou que Tsireya tomasse seu lugar, começando a tecer de maneira mais lenta, mas não menos eficaz.
—Obrigada por me ensinar e pela ajuda — disse a moça Metkayina depois de alguns minutos de trabalho em silêncio — eu sei que meus pais estão ajudando bastante, até mesmo meu irmão, mas tinha medo das coisas não ficarem prontas a tempo.
—Não se preocupe, vocês vão se ajeitar e tempo é o que mais temos, é o que você decidiram fazer, não é mesmo? Esperar. Não se preocupe, vai dar tudo certo — Lay'ti mostrou sua fé nisso.
Um tempo depois foram interrompidas pelos respectivos pares. Neteyam e Lo'ak voltaram da do mar com uma grande leva de peixes nos ombros, era mais que suficiente para celebrar com a família daqui alguns dias, quando o casamento de Tsireya e Lo'ak aconteceria.
—Por Eywa, Isso é uma grande dádiva! — exclamou a noiva animada.
—Bom, nós temos que agradecer a Grande Mãe — Neteyam concordou.
—Mas nós usamos algumas estratégias, Payakan foi conosco e nos mostrou onde os maiores estavam — Lo'ak admitiu, ainda assim orgulhoso de poder contar com a ajuda do amigo.
—Deixa isso lá fora, vou cuidar disso mais tarde — Lay'ti pediu.
—Você me parece cansada, meu amor — Neteyam observou, chegando a acariciar seu rosto com delicadeza e afeição, sorrindo ao observar o ventre dela, que agora estava um pouquinho maior — não se canse, eu espero que você peça ajuda para preparar o banquete amanhã.
—Ah Neteyam, eu vou, não se preocupe, eu estou bem, sabe o que me faria bem agora? — a esposa dele cruzou os braços — um passeio, sair um pouco daqui e ver como está o tempo lá fora, faz tempo que não fazemos isso.
—Que tal um passeio aéreo? — Lo'ak sugeriu, de um jeito um pouco travesso — mas a Tsireya voou tão poucas vezes, talvez seria um bom momento para fazer isso.
—Ah não, você tem certeza mesmo?Estamos prestes a nos casar e você pretende me fazer ficar pelos ares por um longo tempo? É bem diferente pra mim — Tsireya deixou claro sua opinião sobre a questão.
—Eu não quero te deixar desconfortável — garantiu Lo'ak — eu sei que você tem um certo receio disso, mas seria bom experimentar outra vez, podemos fazer de um jeito mais calmo, prometo. Não se preocupe se alguém a achar estranha por fazer algo do povo da floresta no meio do povo do recife,
A sinceridade espontânea dele a deixou um pouco desconcertada. Percebendo isso, Lo'ak pediu desculpas imediatamente.
—Tá tudo bem, sério, é só que, bom, você não está errado, talvez agora que eu vou fazer parte da sua família, que é uma família que voa em ikrans, faz sentido eu voar — Tsireya acabou sorrindo, aceitando o convite.
—Então vamos logo gente! — Lay'ti apressou a todos, escutando o riso deles enquanto deixava a tenda, sua família logo atrás dela.
Tayni aos poucos, conforme a gestação de sua montadora foi avançando, se acostumou com o estado diferente e delicado dela, e sabendo da responsabilidade que tinha carregando mãe e filho, realmente tinha se tornado um ikran mais cuidadoso, o que não era muito difícil, já que a própria Lay'ti sabia das suas condições e não ousava nenhum voo rasante ou alguma movimentação de caça.
Ela, Neteyam, Lo 'ak e Tsireya sobrevoaram a região da Árvore das Almas e depois pousaram, sentando-se perto um do outro sobre uma rocha.
—Imagino que está muito ansiosa pelo bebê, não? — Tsireya iniciou o assunto.
—Nós dois estamos — Neteyam acrescentou — e vocês também estão, não? Com o casamento e tudo mais?
—São muitas coisas pra se esperar — Lay'ti riu antes de responder o que a cunhada tinha perguntado de fato — mas sim, estou ansiosa, fico pensando no dia em que ele vai nascer, como vai nascer...
—Como todo bebê normal, é o que a gente espera — Lo'ak disse em tom de brincadeira, mas esperando que o sobrinho fosse muito saudável.
—Não é disso que eu falo, seu tolo — Lay'ti estreitou os olhos, mas deixou a gracinha dele passar — há um certo debate ainda não travado sobre como vai ser o parto do meu filho, isso me assusta um pouco, confesso.
—As nossas mães, não é? — Tsireya acabou deixando escapar um sorrisinho — olha, se fosse há um tempo atrás, elas brigariam muito pelo jeito de fazer seu parto.
—O que tem isso? Uma criança não nasce do mesmo jeito sempre? — Lo'ak não compreendia.
—Já viu um parto Metkayina, meu querido? — sua noiva chamou a atenção dele.
—Ah submerso, é isso que preocupa a Lay'ti — ele deduziu finalmente — preferia fazer o parto na superfície.
—Eu tenho medo, penso se vou ter fôlego o suficiente, se vou conseguir respirar tempo o suficiente que o bebê precisar — Lay'ti contou, confiando igualnente em todos que estavam ali para compartilhar tamanha insegurança.
—Nossos partos tem sido assim desde que me lembro, na verdade a água ajuda em todo o processo — Tsireya acrescentou, procurando ajudar.
—Eu sei disso, eu vi alguns ao longo dos anos que estamos aqui, mas você sabe, eu sou Omaticaya, da floresta — insistiu a futura mãe, balançada entre as duas identidades.
—Você é Metkayina também, e uma curandeira maravilhosa, vai saber o que fazer quando o momento chegar — Neteyam a aconselhou, segurando o rosto dela delicadamente.
—Eu espero, que Eywa me guie — ela sorriu para o marido, grata por suas palavras.
Tinha certeza que, no tempo determinado, as coisas se sairiam bem para ela e o bebê.
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