Um papel em cada mundo

31 Descobertas de um antigo lar


A alegria de Nimwey, apesar de mais contida, continuou evidente, o que aqueceu o coração de seus pais quando se reuniram de novo.

—Me conta como foi seu dia, meu jovem — Neteyam perguntou de um jeito descontraído, que o fez rir de maneira adorável.

—Eu nadei com tio Lo'ak e tia Reya, o que foi muito legal, e depois vovô me contou histórias da floresta, e eu pensei uma coisa depois disso, duas coisas na verdade — disse Nimwey, pensativo.

—Que coisas foram essas? — Lay'ti perguntou, oferecendo mais comida ao filho.

—Eu... — ele achou melhor começar pela ideia que causaria menos estranhamento — ouvi histórias do vovô Jake e os costumes dos Omaticaya que ele aprendeu, ele contou de quando te ensinou a pescar papai, fiquei pensando em como seria estar nesse rio.

—Ah eu lembro do que tá falando, eu era um pouco mais velho que você, na verdade, tem uma maneira de te mostrar como era o rio — Neteyam propôs, o que aguçou a curiosidade do filho.

—Como? — indagou Nimwey, intrigado.

—Tem uma coisa que o povo do céu criou que se chama câmera, ela cria pinturas do que é apontado para ela — seu pai explicou.

—Ah sei, tia Tuk me mostrou uma vez — ele compreendeu.

—Nós temos pinturas, fotos, de vários momentos em família, inclusive uma desse rio — Neteyam se levantou do lugar e foi buscar algumas das fotos que estavam guardadas ali.

Ele fez questão de mostrar a Nimwey, que ficou encantado ao ver sua família um tanto mais nova do que eram agora, inclusive ele.

—Esse bebê sou eu? — ele perguntou, tirando qualquer dúvida.

—É você sim, fazia alguns dias que tinha nascido — sua mãe confirmou — meu menininho... tão grande agora.

—E esse é o rio que fica na floresta — Nimwey continuou olhando outras fotos, observando o lugar que não lhe era familiar, sua curiosidade sobre a floresta aumentou ainda mais.

Floresta fazia Nimwey se lembrar de sua mãe, o que o fazia lembrar da segunda coisa que tinha pensado durante sua lição submersa.

—Pois é, eu e sua mãe costumávamos ir até lá — Neteyam contou, o que fez o filho se sobressaltar levemente, era como se o pai tivesse lido seus pensamentos.

—Você costumava nadar lá, mãe? — Nimwey criou coragem para perguntar.

—Eu brincava na água de vez em quando — Lay'ti admitiu — por que pergunta?

—Porque eu pensei em ter vocês nadando comigo no mar, seria legal — ele pediu de forma singela, esperando que principalmente sua mãe atendesse seu pedido.

—Ah meu bebê... — Lay'ti suspirou — eu entendo, meu amor, entendo mesmo, parece que eu não sou adepta aos costumes daqui, mas é que eu sinto saudade da floresta, não é que eu não goste da água, é só difícil pra mim, às vezes, mas a natureza de Eywa é uma só, eu faço parte das duas culturas, assim como você.

Neteyam olhou para ela, com orgulho e admiração. Lay'ti se sentiu grata mais uma vez por ter o apoio dele em sua vida.

—Vai ser muito bom irmos mergulhar juntos — ele anunciou a Nimwey, sabendo que a esposa aprovaria a ideia — o que acha disso, filho?

—É muito bom, obrigado pai — Nimwey se animou outra vez, mais uma naquele dia que estava sendo muito bom para o menino — e obrigado, mamãe.

—Não tem de que, meu menino — Lay'ti o puxou para mais perto de si e beijou o topo de sua cabeça, também grata pelo filho.

Aquele precioso garotinho a estava ajudando a deixar as velhas inseguranças para trás. Acabou que Nimwey perguntou mais sobre os Omaticaya e que diferenças a floresta tinha em relação ao recife. Neteyam ficou contente em contar, enquanto Lay'ti e Nimwey ouviam, a imaginação de sua esposa se enchendo das antigas lembranças, de tudo que viveu ali, de como gostaria de um dia voltar. Mas ao mesmo tempo, lembrou-se do que o filho tinha acabado de pedir, simplesmente aproveitar o ambiente em que estavam juntos, como uma família. Era isso que Lay'ti faria.

No dia seguinte, Neteyam foi o primeiro a acordar, sentindo Lay'ti relaxada ao lado dele, Nimwey estava logo ali do outro lado, na sua própria rede. Ela acabou acordando com o movimento do esposo, o que a fez abrir os olhos, e deixar Neteyam se sentindo um pouco culpado.

—Não queria te acordar, sinto muito por isso — ele se desculpou num sussurro muito baixo — volte a dormir, por favor.

—Eu vou, pode deixar — ela respondeu, fechando os olhos novamente — bom treinamento pra você e pra todo mundo...

Neteyam apenas beijou a testa dela, rindo baixinho e a deixando descansar, olhou para Nimwey mais uma vez, o que o fez se lembrar das conversar que tiveram na noite anterior e compartilhar do mesmo sentimento de saudade da esposa.

A floresta seria sempre o lar deles, onde nasceram, mas agora, naquele exato momento, ele sentia que estava no lugar certo, estando ocupado com um posto importante, fazendo a diferença na comunidade em que viviam, sentindo-se satisfeito com o que estavam fazendo.

Quando encarou os jovens recrutas naquela manhã, eram todos Metkayina, mas nenhum deles duvidava de sua capacidade ou ferocidade como um guerreiro, ao contrário, o respeitavam muito.

Neteyam começou suas lições com a lança, sobre o equilíbrio que tinha que manter nos pés e como empregar a força ao arremessá-la e fincá-la, e os movimentos precisos para derrubar um adversário ainda segurando a arma. Nos seus ensinamentos, havia algumas poucas coisas que seu pai havia ensinado há tanto tempo atrás, mas que não deixavam de ser útil. Mais uma vez, concluiu que a mistura do que tinham aprendido ao longo dos anos, não importava de onde vinha, formava exatamente quem eles eram.

Eventualmente, foi a vez de Lay'ti e Nimwey se levantarem e cumprirem as tarefas do dia. Hoje ele tinha continuado suas lições do mar na companhia de tio Lo'ak e tia Tsireya outra vez.

Lay'ti o observou por um tempo, vendo o quanto ele estava feliz com o que estava fazendo, então se voltou para seus afazeres. Kiri logo veio lhe fazer companhia, visitando alguns doentes e ajudando no que podia. Cada pequena ação do dia era o que dava mais sentido a Lay'ti estar ali onde estava.