Um papel e uma caneta

1 "Bloqueio criativo é mesmo uma merda né?"


Notas iniciais
Bom, essa é uma one que tive um rápido surto de inspiração. Queria fazer mais uns quatro ou cinco capítulos, mas depois decidi que ficaria mais interessante como uma one. Espero que gostem!

Meus dedos estavam congelados. A única coisa na qual eu conseguia fazer era olhar para a tela branca do meu notebook, esperando palavras chegarem, esperando ideias chagarem. Já foram dois anos desde o lançamento do meu segundo livro, que era uma trilogia planejada, sendo que os dois primeiros sendo um verdadeiro sucesso. Algo que de fato, eu não estava esperando. Era tudo novo para mim, era assustador e perturbador.

Desde o lançamento do segundo livro, as coisas começaram a piorar gradativamente. A pressão era sufocante. Meu agente me cobrava ao mínimo quatro vezes ao dia, se eu tinha escrito pelo menos um rascunho do último livro. Meu editor me mandava e-mails todos os dias, fazendo perguntas e criando expectativas. Isso sem contar os fãs. Minhas redes sociais ficavam lotadas de mensagens diretas e comentários questionando sobre meu último livro. Aquilo tudo era sufocante. Mesmo sozinho em meu apartamento, num mais profundo silencio, eu me sentia sufocado, como se milhares de pessoas ao mesmo tempo gritassem comigo, querendo o último livro.

Empurrei a cadeira pra trás e me afastei bruscamente da minha escrivaninha e me dirigi a cozinha em busca de um café. Eu precisava me acalmar, e rápido. Não poderia me dar ao luxo de perder a cabeça, precisava terminar aquele livro. Ou melhor, começar. Tomei um gole do forte e sem açúcar café que tinha feito a pouco tempo e fechei meus olhos. Tentei imaginar como ondas na praia, ideias surgindo em minha cabeça, preenchendo o vazio no qual eu me encontrava.

Nada. Nada. Era como se eu não soubesse mais escrever, como se não pudesse mais imaginar. Como se não pudesse mais concluir um universo que eu mesmo tinha criado. Eu me sentia uma fraude. Uma farsa, se disfarçando de escritor. Eu não merecia pertencer a essa profissão.

Levando minha caneca de café de volta ao quarto onde ficava minha escrivaninha, para enlouquecer mais um pouco e passar mais um longo dia, ignorando meu agente, editor e fãs. E fazendo um total de zero progresso e sem escrever uma sentença se quer. Porém ao entrar no meu quarto, diante do meu computador, sentado em minha cadeira, olhando em minha direção, confirmei que finalmente estava ficando louco.

— Bloqueio criativo é mesmo uma merda né?

Uma pessoa idêntica a mim, proferia essa frase. Tirei meus óculos e esfreguei os olhos, coloquei meu café na escrivaninha e tentei me acalmar. Isso não poderia ser real.

— Vai tomar o restante desse café?

Apenas consegui balançar a cabeça negativamente. Então, o ser a minha frente tomou um grande gole do meu café, na qual cuspiu logo em seguida.

— Isso tá uma merda! Não sabe fazer café, porra! Nem um grão de açúcar? É por isso que está nesse bloqueio criativo de merda. Uma pessoa deixa de ser um humano, quando toma um café forte da porra desse jeito. E ainda sem açúcar.

Eu não conseguia me expressar. Parte da minha mente lutava para entender que não era real, mas, outra parte dela jogava na minha cara que de fato tudo isso está acontecendo.

— Bom, eu só posso estar ficando louco...

— Isso eu não sei – Interrompeu meu outro eu – Mas o que eu sei é que você precisa urgente de mim. Sem mim, você jamais irá terminar seu livro. É um fato.

— Mas quem raios é você? — Gritei – Pra começo de conversa eu nem deveria ter falado algo, você deve ser apenas algo da minha mente, pra completar a minha insanidade, pra determinar que eu surtei. Ou devo estar tendo o sonho mais real da minha vida. Se for mesmo um sonho, ele está sendo bem inútil no momento, pois poderia estar me dando a porra de uma ideia para começar a porra do meu livro!

Eu realmente tinha enlouquecido, estava gritando comigo mesmo, esse é o fim.

— Eu não estou aqui necessariamente para dizer quem eu sou. Escolhi aparecer como você pois pensei que seria menos impactante, pelo visto me enganei. Essa não é a primeira vez diga-se de passagem. Enfim, estou aqui por um motivo bem mais interessante. Quero ajudar você a escrever seu último livro. Eu sou a única pessoa desse universo capaz disso agora. Olha, você não tem muitas opções. Na verdade, você não tem nenhuma, só a mim. Então, o que você diz?

Fechei meus olhos, respirei bem fundo. Deixei o ar entrar e sair, várias vezes de olhos bem fechados, esperando que quando os abrisse eu acordaria em minha cama o meu “eu” tivesse desaparecido, mas era bem óbvio que nenhuma das duas coisas aconteceram.

— Vai me responder ou não?

— Tudo bem – Tentei levar aquilo como real – Vamos imaginar que tudo isso seja realmente real e que você esteja realmente tentando me ajudar. O que eu teria que fazer?

Meu outro “eu” sorriu maliciosamente, como se esperasse realmente que eu fizesse tal pergunta. Ele tirou do bolso um pequeno pedaço de papel e uma caneta preta e entregou os dois objetos a mim. Novamente duas forças dentro de mim entraram em disputa, uma queria eu pegasse logo, mas outra de que eu apenas saísse correndo do meu quarto. Decidi pegar o papel e a caneta.

— Escreva nesse papel seu nome e todo o bloqueio se extinguirá. Ao escrever seu nome no papel, entrará na história. Seu nome será tão falado como de Stephen King, C. S. Lewis, Tolkien, Rick Riordan, Philip Pullman, Suzanne Collins ou da pessoa que escreveu Harry Potter. Você será influente no mundo literário, a única coisa que você precisa fazer é escrever seu nome.

Aquilo era tudo que eu queria. Minha paixão era escrever. Mas, por causa de toda a pressão, comecei a me questionar se era um bom escritor, ou se não passava de uma fraude. Toda essa pressão estava me deixando louco, a ponto de temer nunca conseguir terminar de escrever o último livro da trilogia.

Peguei a caneta e comecei a escrever meu nome nela. Isso tinha que acabar, eu tinha que terminar de escrever meu livro.

— E agora? O que acontece? Eu magicamente vou ter ideias para concluir meu livro?

— Sem dúvida — Meu outro “eu” respondeu

— E o que você vai querer em troca, se isso der certo? Não sou tolo para saber que isso é de graça. Se é para enlouquecer, que seja de forma detalhada, não é?

— Um dia você me pagará. Pode ter certeza que essa dívida, você terá comigo por um bom tempo.

Ele se levantou da minha cadeira e pegou o papel e caneta da minha mão e guardou no bolso, como aquele mesmo sorriso malicioso de antes. Deu novamente um gole no café, e fez uma tremenda cara feia ao fazer isso e saiu em direção a porta.

— Espera! — Exclamei – O que é tudo isso? Foi um sonho? Foi real? Quem diabos é você?

Ele ficou em silencio e foi em direção a porta. De costas para mim eu consegui ver seu sorriso malicioso e disse sem se virar:

— Já que você insiste em saber...Eu sou o que você acabou de falar. Sou o Diabo.

Notas finais
Obrigado por lerem!!
Se quiserem, podem deixar um comentário para saber o que acharam =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!