Um olhar para o horizonte.
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Eu ando me perguntando , por que sempre apago . Deve ser algum problema , sei lá , algum habito que adquiri com o tempo. Apagar e quando acordar , estar tudo bem , tudo em seu devido lugar. Mas dessa vez , eu ainda estava lá , estava escuro e tinha me lembrado que escolas fecham á noite.
Me levantei correndo e me senti tonta , corri pra porta que me separava da escada , para ir em bora , estava trancada. Que má sorte. Oque eu iria fazer a noite toda num telhado com frio ? Droga !
Estava sem celular , só com a roupa do corpo , sem ter o que fazer , de noite , numa escola que a única vista era o céu. O que fazer ? Era uma chance perfeita pra me tacar de lá e por um fim em tudo que me perturbava , em tudo que me faz sofrer . E lá estava eu , em cima do parapeito , de novo. Pensei em tudo de bom e ruim que aconteceu comigo , esperando motivos para não prosseguir com isso.
Olhava pra baixo , tendo minha última visão e pensava em como minha mãe reagiria . Quando coloquei meu pé para fora , quase me jogando , alguém abriu a porta e gritou :
– HEY ! O que está fazendo ?!
Me virei com estranheza , eu reconheci a voz . Mas por que raios , alguém que eu conheço estaria aqui a essa hora ?
– Vamos , desça !
Eu desci sem ao menos olhar o rosto da pessoa . Quando percebi , estava em casa deitada na minha cama com os olhos fixados ao teto , me perguntando o que tinha acontecido.
– Filha ? Já acordou ?
– Não.
– Hahahaha , sua boba . O café está na mesa ... mas se quiser eu trago aqui , ok ?
– Hã ?
Por alguma razão ela estava doce como mel comigo.
Deve ser por que ela soube de ontem á noite , mas , não consigo nem ao menos lembrar quem era a pessoa que me ajudou. Era tudo uma grande paranoia que eu acreditava viver.
– Filha , hoje tem encontro com o grupo , você deve ir e contar das coisas , tudo bem?
– .... — apenas a olhei , como alguém que queria dizer : não !
E lá estava eu , naquele lugar "Suicídio Comunitário" , belo nome .... acho que gostei mesmo dele.
– Quer falar sobre ontem Jase ?
– O que ?
– Sua mãe me disse que você não voltou pra casa á noite. E quando ela percebeu , lá estava você deitada .... estranho não ?
– Curioso ... eu também não sei como fui parar lá . Não pergunte á mim.
– Wow , hoje você está com a língua afiada !
Lancei um olhar mortal
– Você queria que eu falasse , não ? Pois é o que você terá — e por final , um sorriso irônico.
– Oh ! Ok , ok. Que tal ... você , Annie , quer falar sobre algo ?
Annie era uma garota mais quieta que eu ! Tinha cabelos negros e curtos , com olhos azuis como uma piscina límpida , e usava roupas largas , porém bonitas , que não deixavam nada aparecer vagamente.
– Ah ... eu ... bem , não — ela desviava o olhar a todo momento , ficava vermelha fácil . Era estranho
– Tem certeza ? Disseram que ....
– NÃO ! – Ela gritou
Isso me surpreendeu , ela nunca tinha feito nada precipitado antes. Bem , eu só vim aqui duas vezes.
– Nossa , ela grita ? Hahaha — tive que falar isso , por mais que queimasse o meu filme.
Ela me olhou e ficou vermelha , logo depois saiu correndo da sala.
– Jaaaaase ! Ela é tímida !
– O que eu tenho a ver ?!
– Vá falar com ela.
– Não.
– Agora.
Eu me negava , não suportava receber ordens , ainda mais de alguém que eu bati. Mas , quando percebi , estava correndo atrás dela. Que saco ! Só por que ela é tímida , isso é culpa minha ?!
Podia vê-la sentada , cabisbaixa olhando para baixo.
– A-annie ?
– He ? — ela olhou pra mim e logo desviou o olhar , vermelha como uma pimenta.
– Desculpa aquilo ...... eu não queria perder a chance de .... quer dizer , eu .... ah , deixa quieto ! Me desculpe .... ?
– Tu-tudo bem ...
Eu me aproximei dela .
– Por que é tão quieta ?
– Hã ?!? — Ela percebeu que eu estava pertinho dela , e quase caiu se afastando
– Você me escutou ?
– S-sim !
– Então , res-pon-da !
Annie estava cada vez mais e mais vermelha , era inacreditável como o corpo humano tinha sangue pra jogar na sua cara nesses momentos. Estava esperando que ela falasse algo , mas ela só conseguia desviar o olhar e falar "an , he , haaaa" , extremamente estranha.
– S-só nã-não tenho o cos-costume d-de falar c-com pessoas !!!
– Você é anti-social ?
– E-e-e-e-eu ?!! Na-nada disso !!!! — ela falava gaguejando muito , acho que pela vergonha — só não costumava falar com os outros — ressaltou baixinho.
– E por isso você tentou se matar ? Por que é anti-social ?
Ela me olhou quase chorando , acho que deveria calar a boca de uma vez.
– NÃO ! Por que quer saber ?
– Apenas me interessei ..
Parou um tempo , depois me olhou , abriu a boca e começou bem baixinho :
– Quando eu era criança ..... meu pai me batia muito , por que minha mãe tinha morrido , e ele se sentia culpado ..... então ele se aliviava do stress me batendo .... logo eu ficava toda roxa , e não ia pra escola . Fiquei nessa por uns 5 anos , quando tinha 12 anos , já não sabia conversar e ao menos puxar uma conversa amistosa .... então acho que , fiquei anti-social . Meus tios descobriram isso do meu pai e me tiraram dele , esse foi o pior dia da minha vida. No meu aniversário de 15 anos , ele entrou na casa sem que ninguém visse ,veio no meu quarto enquanto eu dormia e tentou me estuprar. Eu gritei muito , e então meus tios apareceram e chamaram a polícia . Ele está preso ........ Então eu ... tentei.
– Wow .... isso é bem tenso.
Ela abriu a boca como se fosse falar algo , mas a fechou.
– Desculpa ter que fazer você lembrar dessas coisas dolorosas ....
– Tudo bem ....
– Sério ?
– S-sim ... — Ela começou a chorar sem parar , e se jogou nos meus braços.
O que eu faço ? Odeio pessoas chorando em cima de mim ! Queria tacar ela longe , sei lá . Mas por algum motivo , me pareceu reconfortante saber que alguém estava me abraçando , mas não por dó , só pra curar sua própria dor na minha.
Espero que não seja assim todos os dias.
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