Um novo trilhar
3 Capítulo 2 - Consulta
Notas iniciais
O relógio marcava 9hs10. A consulta estava agendada para as 9hs30. Carlos olhava tudo ao redor.
O consultório era pintado em cores neutras, com objetos de decoração colocados em locais estratégicos, o que fazia o ambiente parecer maior e aconchegante. Havia algumas fotografias representando famílias em grande parte das paredes.
Suzana folheava uma revista, mas na verdade não se atentava a nada. Estava ansiosa.
Com uma pontualidade que poderia ser comparada a dos britânicos a recepcionista que aparentava não ter mais que vinte anos informa que o casal seria atendido.
Ela levanta da sua mesa feita em mármore e guia o casal até a sala onde a consulta seria realizada.
Suzana apertava a mão de Carlos que a acariciava com o polegar. A recepcionista abre a porta e pede para entrarem. Atrás de uma mesa relativamente grande estava uma mulher que ao vê-los se levanta prontamente.
Enquanto a recepcionista fecha a porta, a mulher os cumprimenta.
– Bom dia. Luísa Gandra, muito prazer.
– Bom dia. Sou Carlos Castiel e essa é minha esposa Suzana. O doutor Antonio Motta me indicou a senhora.
– Sim, ele me disse que vocês queriam marcar uma consulta comigo. Por favor, sentem.
A mulher aparentava estar na casa dos cinquenta anos. Era de estatura mediana, com a voz grave e um semblante sério. A uma primeira impressão passava confiança.
Tornou a se sentar, ficando com os cotovelos apoiados na mesa. Carlos e Suzana estavam sentados a sua frente.
– Bem, imagino que estejam aqui porque querem aumentar a família.
– Exatamente. — diz Suzana com um sorriso de orelha a orelha.
– São casados há pouco tempo?
– Completamos quinze anos semana passada.
– Quinze anos? — diz a médica com surpresa. — Mas vocês aparentam ser tão jovens.
– Casamos cedo. Ela tinha vinte e eu vinte e quatro anos.
– Também me casei jovem, com vinte e um.
A médica puxava assunto para manter o casal relaxado. Era uma tática bastante usada no meio médico, Carlos sabia disso, mas Suzana não estava ali pra conversar coisas cotidianas. Percebendo a inquietação da mulher, a médica decidiu enfim abordar o assunto.
– Bom, vamos ao que interessa — disse em um tom descontraído. — A senhora usa ou usou algum tipo de contraceptivo?
– Usei dos vinte aos vinte cinco anos, mas parei exatamente pra ver se conseguia engravidar.
– Certo. Então há dez anos a senhora não usa pílulas, correto?
Suzana concordou com um manear de cabeça. A médica ia fazendo anotações em um papel que o casal deduziu ser um receituário.
– Atualmente suponho que não utilizem nenhum método para evitar gravidez, camisinha, DIU, nada.
O casal concordou.
As perguntas continuavam, ora diretamente para Suzana, ora especificamente para Carlos, ora para ambos. A cada resposta a médica fazia anotações e mantinha o semblante sério.
– Certo. Vou passar uma série de exames para os dois. Assim que os resultados estiverem prontos quero que voltem aqui. Com os resultados poderei ver qual o melhor tratamento para vocês.
Carlos e Suzana agradecem e saem do consultório.
Dentro do carro Suzana olhava as diversas guias.
– Nossa quanta coisa.
– Quer desistir? — pergunta Carlos com um olhar irônico.
– Claro que não.
– Como imaginei — diz rindo. — Amanhã fazemos todos esses exames aí. Até o fim da semana provavelmente estejam prontos, aí levamos pra ela dar uma olhada.
– Não vejo a hora. — diz ela com empolgação.
– Nunca vi alguém tão ansiosa pra fazer exame de sangue, fezes, urina... Você é mesmo única amor.
– Não são apenas exames pra mim amor, são uma esperança, expectativa de respostas. Tenho certeza que vai dar tudo certo, você vai ver.
Carlos se sente feliz ao ver a esposa daquela maneira. Suzana era a mulher de sua vida, nunca teve dúvidas quanto a isso. E vinte e um anos de convivência com ela só fez constatar mais uma coisa. Não poderia viver sem ela.
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Apenas uma coisa deixou Suzana mais ansiosa do que ter os resultados dos exames feitos por ela e Carlos nas mãos. A posição da médica quanto a eles.
Como havia sido dito na primeira visita ao consultório dela, assim que os exames estivessem prontos eles deveriam levar os resultados para que a mesma os visse.
Lá estavam eles, com todos os resultados em mão, dentro do horário marcado, mas nada da doutora Gandra os chamar.
– Porque não nos chama de uma vez?
– Ela está com paciente Suzana, temos que esperar.
– Mas chegamos no horário.
– Eu sei. Você está muito nervosa, tenta relaxar um pouco.
– Não consigo.
– Vamos esperar mais dez minutos. Se ela não atender a gente falo com a recepcionista. Pode ser assim?
Suzana concordou. Ficou mexendo no celular em uma tentativa de tentar se distrair. Inútil.
Pouco tempo após a proposta de Carlos, ela olha novamente no relógio. Antes que pudesse dizer algo mais, o telefone na mesa da recepcionista toca.
– A doutora Gandra pediu para entrarem.
O casal sorri amigavelmente para a jovem e seguem até a sala da médica. Ela fazia algumas anotações quando o casal pediu licença ao entrar.
Como da primeira vez ela os cumprimentou e pediu para que sentassem.
– Trouxeram os resultados dos exames?
– Sim senhora. — responde Suzana ao entregar diversos envelopes para a médica.
Doutora Luísa coloca os óculos de leitura e começa a analisar um por um todos os papéis.
Após algum tempo ela cruza as mãos com os cotovelos apoiados sobre a mesa, analisando o casal.
– Bem, com base nas informações que vocês me passaram na primeira vez que estiveram aqui e com os resultados dos exames já tenho uma posição quanto à situação de vocês.
Ela tinha um tom sério na voz, o que deixou Suzana um pouco tensa. Carlos parecia indiferente.
– Vocês me informaram que há cerca de dez anos não usam nenhum meio de contraceptivo, correto?
O casal concorda com um meneio de cabeça.
– Bem, quando esse é o caso, aconselhamos o casal a fazer exames como esses que pedi após um período de seis meses a um ano sem ter ocorrido uma gravidez.
– Ou seja, se dentro de um ano sem usar remédio, camisinha, o que seja a mulher não engravidar é porque realmente há algum problema com ela, é isso? — pergunta Suzana.
– Não necessariamente. Pode sim ser algo na mulher, mas também pode ser no homem ou em ambos.
– E nosso caso se encaixa em qual dessas possibilidades? — pergunta Carlos.
Ela pega as anotações que havia feito, dá uma rápida relida e então volta a encarar o casal.
– Ambos. Vou explicar exatamente o caso de vocês. No seu caso senhor Carlos, os exames apontaram que o senhor tem azoospermia, que é ausência de espermatozóides.
– E o que causa isso?
– Podem ser inúmeros fatores. Doenças que impedem a saída de espermatozóides, como fibrose cística, o que já pude ver aqui que não é seu caso ou situações que interfiram na própria produção pelo testículo.
Carlos fica em silencio por um tempo, como se buscasse algo em sua memória.
– Quando eu era criança tive caxumba. Essa pode ser a razão dessa ausência de espermatozóides?
– Provavelmente.
Suzana parecia confusa.
– Já ouvi algo do tipo, sobre a caxumba "descer" no homem, mas não consegui entender o que isso tem a ver.
– Vou explicar para a senhora. Isso acontece porque o vírus da caxumba se adéqua bem às células que vivem nos testículos. Se as células forem afetadas, o sistema imunológico do homem passa a atacar esse local para proteger o organismo da infecção. E é nessa ação de autodefesa que a fertilidade do homem pode ser prejudicada. Se a inflamação afetar só um dos testículos, as chances de infertilidade são de 30%. Se afetar os dois, o homem tem 50% de chances de ficar com problemas.
Carlos estava desnorteado.
– Me perdoa amor. Eu não sabia juro que não sabia.
– Você não tem que pedir perdão de nada. — diz Suzana com os olhos começando a marejar. — Como ia saber?
Doutora Luisa permanecia com o semblante sério. O passar dos anos naquela profissão, vendo casos parecidos com o do casal Castiel acabaram por fazer com que ela não se envolvesse sentimentalmente com os pacientes.
– Certo — disse Suzana respirando fundo e contendo as lágrimas pressionando o canto interno dos olhos com os indicadores — A senhora disse que nós dois apresentamos problemas. E o meu, qual é?
– O útero da senhora é bicorno.
Suzana a olhou como se tivesse sido xingada.
– Útero bicorno ou septado nada mais é que um útero dividido em dois. Na maioria dos casos esse útero acaba ficando com o formato parecido com o de coração, isso que dificulta ou impede a mulher de engravidar.
– E tem alguma explicação pro meu útero ter ficado assim? Quer dizer, foi o tempo que passei tomando pílula ou tem a ver com alguma doença que eu possa ter tido na infância, como o Carlos?
– Não. É uma má formação congênita, ou seja, a senhora já nasceu com ele assim.
– A senhora pode explicar um pouco mais sobre esse tipo de útero, por favor? Estamos um pouco confusos. — se pronunciou Carlos.
– Claro que posso. O útero bicorno pode ter tamanhos diferentes nos seus lados, ou seja, pode ter um lado grande e um pequeno, os dois grandes, os dois pequenos.
– A senhora disse que ele pode dificultar ou impedir a gravidez, é isso?
– Exatamente.
– E por quê?
– O útero bicorno tem uma capacidade muito limitada para esticar, e veja, se o óvulo fecundado se fixar em um lado muito pequeno do útero bicorno, a gravidez fatalmente não irá à diante. Mas se a gravidez ocorre no lado maior do útero, a gravidez vai à diante sem problemas desde que bem acompanhada por um especialista.
– Então mesmo tendo isso eu posso engravidar!? Isso tem tratamento?
– Sim, é possível fazer uma cirurgia e resolve 99% dos casos, mas os senhores precisam estar cientes que as chances de uma gravidez de risco são muito grandes, não apenas devido essa anomalia no útero, mas também devido à idade da senhora. Hoje em dia não é mais nenhum bicho de sete cabeças ter o primeiro aos trinta e cinco anos de idade, mas isso em mulheres saudáveis e sem problemas como o que a senhora apresenta.
Carlos passava as mãos pelo rosto e cabelos.
– Vou resumir o que entendi, a senhora, por favor, me corrija se eu estiver errado. Podemos ter um filho apesar das complicações que temos, porque pelo o que entendi eu produzo poucos espermatozoides, mas ainda assim, produzo, e a Suzana pode fazer uma cirurgia pra correção desse útero bicorno aí.
– Isso mesmo. No caso do senhor sua linha de raciocínio está correta, apenas para complementar, como por vias naturais a gravidez não ocorreu, o mais indicado seria uma inseminação artificial, com o esperma do senhor ou o de um doador.
– A senhora está me ofendendo. Minha mulher não vai ter um filho de outro homem.
– Como disse senhor Carlos, ou do senhor ou um doador, a escolha fica a critério do casal.
– Isso não precisa ser escolhido doutora Luísa. Meu filho, meu esperma. — disse o homem com a voz alterada, mas sem chegar a gritar.
Suzana estava com a cabeça baixa, parecia distante, pensativa, alheia a discussão da médica com o marido. Voltou a olhar para doutora.
– Só mais uma pergunta doutora. Como toda cirurgia vou precisar de um tempo de recuperação após fazer essa não é? Ou seja, o tempo vai se encurtar ainda mais pra mim, digo, a cada dia vou ficar mais velha, meus óvulos vão diminuindo com o tempo certo?!
– Sim, em termos mais simples é isso mesmo.
– Eu posso fazer a inseminação sem passar pela cirurgia?
Carlos olhou boquiaberto para ela. A médica também mostrou certo espanto com a pergunta.
– Sim, a senhora pode, mas não pode esquecer que será uma gravidez de alto risco...
– Obrigada. Era só isso o que queria saber.
Suzana levanta colocando a bolsa em seu ombro.
– Existem outras possibilidades além dessa. Eu conheço vários orfanatos, poderia indicar para vocês fazerem uma visita.
Agora era Carlos que se levantava.
– Acho que não fui claro com a senhora agora a pouco. Minha mulher e eu queremos um filho nosso. Nosso. Não de outro homem, outra mulher, outro casal, que seja. Queremos um filho nosso.
– Entendo... Os senhores estão nervosos, precisam pensar na possibilidade...
Carlos explodiu, socando a mesa a sua frente e fazendo com que a médica se afastasse abruptamente para trás.
– NÃO! Não vamos fazer inseminação com o esperma de outro homem, não vamos visitar orfanato nenhum, muito menos adotar o filho de ninguém! Ou teremos um filho nosso ou simplesmente não teremos. Ficou claro doutora Luísa?
A médica não disse nada. Carlos abraçou Suzana pelos ombros e saíram da sala sem olhar para trás.
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