Um novo trilhar
10 Capítulo 9. Baque
Notas iniciais
Os meses se passaram rapidamente. Quando se deram conta Suzana acabara de completar cinco meses de gestação, uma gestação que muitos diriam não passar do primeiro trimestre.
Ela era acompanhada por doutor Robles, que em um primeiro momento não conseguia acreditar naquela gravidez. Ele era um médico renomado, nada religioso, apenas focado na ciência, mas por conhecer a história do casal não deixou de sentir alegria por eles.
Suzana desde a confirmação da gravidez entrou em repouso absoluto. Não saia do quarto para ir a outra parte da casa que não fosse o banheiro e isso porque seu quarto com Carlos era uma suíte. Nem em seu ateliê ela ia mais, afinal para isso ela teria que utilizar as escadas, o que geraria esforço. Pra muitos um esforço simples, mas para ela era algo muito além do permitido pelo médico.
Carlos conseguiu conciliar o trabalho no escritório e em casa. Havia contratado um rapaz, amigo de Lia, que cursava o terceiro ano da faculdade de direito. Deixou o jovem responsável por pequenos processos e causas, enquanto os de maior relevância ele mesmo tratava no escritório de sua casa.
Ele parecia outra pessoa. Não era o mesmo Carlos que parecia frio e distante na primeira gravidez de Suzana. Apesar de ter cuidado da esposa da primeira vez, agora era evidente que os cuidados e a proteção haviam sido redobrados.
– Me sinto a Rapunzel presa na torre.
– E eu a bruxa má. — diz Carlos rindo.
– Amor, precisamos pensar em nomes.
– Mas já? Não tínhamos combinado de só saber o sexo na hora do parto?
– Sim, mas o que tem a ver? Já escolhemos um nome de menino e outro de menina.
– Se for menino você escolhe, se for menina eu.
– Por mim tudo bem.
– Se for menina, quero Isabela.
– Isabela... Gosto desse. E o apelido vai ser Isa ou Belinha.
– E menino? Qual você quer?
– Estou em dúvida... Felipe, Davi ou Eduardo.
– Gosto mais de Felipe, mas não vou interferir na sua escolha.
Suzana sorri com a mão na barriga.
– Tira uma foto? Quero várias fotos pra mostrar quando ele já estiver grandinho.
Carlos pega uma máquina fotográfica em suas coisas. Um de seus hobbys era fotografar, mas já havia um tempo não o fazia. Enquanto tirava fotos de Suzana conversava com ela.
– Ele? Pode ser menina...
– Você prefere uma menina não é?
– Não que eu prefira, sendo menino ou menina vou ficar feliz, mas imagino uma miniatura sua quando penso que pode ser uma menina. O sorriso igual ao seu.
Suzana via o brilho nos olhos do marido enquanto ele falava. Não tinha como duvidar do amor que aquele homem sentia por ela.
– Carlos?
– Hum?
– Eu te amo.
– Eu também te amo meu amor.
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Já era madrugada e o casal dormia. Parecia ser mais uma noite normal, mas não era.
Algo estava errado. Uma pontada muito forte. Suzana ficou assustada. Pouco depois começou a ter contrações. Não podia ser, faltava muito tempo, ainda não era hora. Outra pontada seguida por uma contração.
Levou a mão na parte mais baixa do ventre. Sangue.
Ela começou a chorar e Carlos acordou imediatamente. Não precisou perguntar o que havia acontecido.
Levantou da cama em um salto e puxou o lençol que os cobria. Mais sangue.
Ligou desesperado para doutor Robles que disse estar indo imediatamente para o hospital onde Suzana fazia o pré natal. Mandou Carlos leva — lá para lá o quanto antes.
Durante o trajeto um filme conhecido pelos dois voltou a rodar na mente deles. Suzana estava perdendo o bebê.
Nada impediu Carlos de dirigir na velocidade máxima e chegar ao hospital em tempo recorde.
Chegaram praticamente ao mesmo tempo em que doutor Robles, o que fez Carlos ficar um pouco mais calmo, mas não seguro do que estava por acontecer.
O médico entrou em um corredor acompanhado de sua própria equipe e levou Suzana.
Carlos estava nervoso, não conseguia ficar parado. O medo começou a tomar conta de si.
Já havia se passado muito tempo desde que o médico havia levado Suzana, mas não aparecera para dar uma posição do que estava acontecendo. Lembranças de uma conversa vieram a sua mente.
FLASH BACK ON
– Eu fiquei um tempo no ateliê hoje, pintando e pensando bastante. Quando terminei resolvi pesquisar mais sobre gestações de risco na internet. Na grande maioria dos casos não é possível salvar a mãe e o bebê. Para que os dois não morram o médico pede para que algum responsável decida quem deve ser salvo. No meu caso esse responsável seria você.
– Suzana, você não...
– Quando questionarem você Carlos, quero que você escolha o neném. Quero que você salve a vida dele no meu lugar.
FLASH BACK OFF
Carlos estava prestes a invadir o local quando o médico apareceu. Carlos correu na direção dele, o segurando pelos braços, o desespero dominando seu olhar.
– E a Suzana doutor? E a criança?
Com o olhar duro doutor Robles o encarou.
– Houve uma complicação senhor Castiel.
– Que tipo de complicação? O que foi? Me fala!
– A criança virou na barriga da sua esposa. Isso costuma acontecer nessa fase da gestação. É quando a criança já fica em posição para o nascimento.
– O senhor está esticando muito o assunto doutor Robles, por favor, eu imploro! O que aconteceu com a minha esposa?
– Como o útero da senhora Suzana é bicorno e com ambos os lados pequenos, no momento em que a criança virou o útero se rompeu. Ela perdeu muito sangue. Tentamos estancar a hemorragia, mas foi inútil.
Carlos sentia o sangue congelar nas veias a cada palavra dita pelo médico.
– O que aconteceu com ela? O que aconteceu com a Suzana doutor? — perguntou com desespero quase que palpável na voz.
– Tivemos que realizar uma histerectomia.
– Por favor, fale a minha língua!
– Tivemos que retirar o útero da sua esposa.
Carlos levou as mãos ao rosto, o esfregando com uma força desnecessária. Em seguida passou a mão pelos cabelos e cruzou as mãos na nuca.
– E a criança?
O médico hesitou por um instante. Baixou a cabeça por um breve momento, como se procurando as palavras e a melhor maneira de usá-las. Carlos sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo.
– No momento em que a criança se virou o cordão umbilical se enroscou em seu pescoço. E a sufocou. Não pudemos fazer nada senhor Castiel. Sinto muito.
Carlos ficou congelado. Reuniu as poucas forças que lhe restaram e fez uma última pergunta ao médico.
– Era menino ou menina?
– Era uma menina.
Carlos fechou a mão em punho e enfiou o pulso na boca, na tentativa frustrada de conter o choro. Não conseguiu. Chorou como uma criança. O médico continuou diante dele, o olhando, semblante duro, mas seus olhos também estavam marejados.
– Sei que isso não vai aliviar a sua dor, mas a criança tinha acabado de completar cinco meses e era muito pequena, não havia se desenvolvido completamente. Dificilmente ela resistiria.
– Ela já sabe?
– Ainda não.
– Eu posso vê-la?
– Ela ainda está sedada. Assim que acordar aviso o senhor.
– E a criança? Posso vê-la?
– Por favor. Vou levá-lo até onde o corpo está.
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Carlos nunca tinha entrado em um necrotério antes e jamais imaginou que tivesse que fazer algo assim, ainda mais para ver o corpo de um filho.
Ele parecia alienado de tudo enquanto doutor Robles conversava com uma enfermeira. Pouco depois o médico o levou até onde o corpo da criança estava.
Carlos se aproximou com cautela, como se estivesse se aproximando de uma criança que acabara de pegar no sono. E era essa a impressão que ele teve ao olhar para a criança. Sua filha. Tão pequena, tão frágil, parecia uma bonequinha.
O corpo era menor do que se esperava para um recém nascido, afinal o tempo de gestação não havia se completado. Aquela criança não deveria estar ali, não merecia estar morta.
Mais uma vez Carlos chorou enquanto a olhava, mas dessa vez as lágrimas eram acompanhadas por um desabafo.
– É tudo minha culpa.
– Do que o senhor está falando? — indaga o médico confuso.
– Eu sou fraco demais, meu sangue e tudo o mais não tinha a vitalidade necessária para gerar uma criança. Se eu tivesse incentivado e apoiado a Suzana a tentar outra inseminação, com um esperma que não fosse meu, não estaríamos aqui agora. Mas eu a convenci a deixar isso pra lá e ela acabou engravidando de mim. De um homem pela metade. E agora esse é o resultado. — disse olhando a criança morta a sua frente.
– Não diga isso senhor Castiel. Você e sua esposa viveram um verdadeiro milagre. Uma mulher com útero bicorno e um homem que teve sequelas de caxumba jamais poderiam ter um filho e vocês tiveram.
– Não doutor Robles, não tivemos. Essa pobre criança nem soube o que é a vida. Eu não soube o que é ser pai e a Suzana... — ele mais uma vez levou o punho a boca — Ela não soube e nunca mais vai saber o que é ser mãe.
Ele olhava enquanto a enfermeira cobria novamente o corpo da criança com um pequeno lençol.
– Eu fracassei doutor. Não pude dar o que a minha esposa mais queria na vida. E agora, mesmo passando por cima do meu orgulho não poderia dar.
Doutor Robles o olhava, mas não voltou a dizer nenhuma palavra. Deixou o homem colocar toda sua dor pra fora.
– Vou voltar para a sala de espera. Quando puder ver minha esposa, por favor, me avise.
Saiu do necrotério sem olhar para trás.
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