Um novo olhar
6 ...em vão ela queima
Notas iniciais
"Konoha, oito da noite.
...E o pior de tudo foi ver Sakura perdoar minha traição. Um lixo como eu merecia ser arrebentado por ela."
O corpo de Naruto relaxou, os olhos trêmulos, fixos no rosto daquela que amava, buscavam em sua expressão um traço de que ela mentia para lhe fazer bem. Não encontrou, mas algo nos olhos dela lhe falavam daquilo que Naruto não entendia.
Era um grande esforço para Sakura libertar o amigo da promessa que ela abrigava no peito. Desde o momento que ele a fizera, Sakura não duvidou de que Naruto a cumpriria. Engolir o egoísmo era como esmurrar o próprio corpo enquanto engolia adagas. Cansava-a mais do que qualquer batalha.
"Não, não está." Naruto ameaçou se agitar.
"Está." Murmurou, cessando o toque e lançando a Naruto um olhar que lhe arrepiou a espinha. "Você se esforçou muito. Eu sou grata por você ter tentado tanto."
A cabeça dele tombou para frente encostando nos joelhos de Sakura, se não estivesse sentada, Naruto teria se prostrado diante dela. A tensão foi percebida por ele quando as pernas de Sakura se recolheram minimamente. Estava abusando da proximidade, do toque. Deliberadamente falhava com ela, porém pedia por abrigo.
"Desculpa." Afastou-se. E o ato doou a ele uma postura submissa, encurvado, Naruto quase beijava o chão.
"Levanta a cabeça." Sakura sussurrou, a respiração acelerando. "Levanta a cabeça." Naruto a balançava devagar de um lado para o outro. "Levanta. A. Cabeça." A frase saiu espremida.
A negativa foi repetida, e Sakura puxou-o pela gola do casaco, obrigando-o a sentar. A raiva lhe queimou as veias ruborizando seu rosto.
"O que pensa que tá fazendo?! Disse em tom firme, ignorando a expressão ferida de Naruto. "Se eu sou importante pra você, você vai fazer o que acha melhor, não o que pensa ser bom pra mim." Ela o sacudiu uma vez dosando a força. "Se você for atrás dele só pra me agradar, nunca mais olha na minha cara! E não adianta tentar mentir porque você não sabe!"
Se não fosse por Sakura, Naruto teria continuado no chão. Ela tentou levá-lo de volta para a vila, porém ele se recusou. A solidão agora o chamava, e ele precisava atender seu chamado.
Andou até a noite e caminhou um pouco por ela. Quando se encontrou com a "folha-diário" pouco tinha para escrever. Era mais surpresa do que palavras, culpa acima de tudo; gratidão, alívio e lembrança. A mente o jogava contra si mesmo atacando-o pela nostalgia do instante com Sakura ao mesmo tempo em que lhe libertava de se condenar por aquilo.
Olhou-se no espelho em uma pausa da luta. O azul de seus olhos pareciam escuros. "Como meu coração", pensou.
Tinha olheiras e aspecto de moribundo. Não se reconhecia como aquele que batia no peito e falava de "seu jeito ninja" e sobre a amizade com Sasuke. Procurou esse Naruto no reflexo, mas viu apenas o rapaz que havia se tornado. Um jovem que se inclinava para o que a razão lhe mostrava.
Percebeu que mesmo se tivesse recebido uma "injeção de ânimo" de Sakura não conseguiria voltar à firmeza de sua postura quanto ao amigo. Alguns fatos haviam se cristalizado em sua mente e lhe faziam questionar se Sasuke retribuía sua amizade, nem que fosse com a menor das migalhas.
O olhar de desprezo de Sasuke se avivou em seus pensamentos, e Naruto, pela primeira vez em semanas, deixou que ele ficasse. Encarou a folha meditando sobre a imagem, contudo não era muito bom nisso e o desconforto logo lhe veio.
"Mas ela não arrebentou." Rabiscou. "Por que será? Não era para ela entender.
Quando Sasuke me olhou o ódio era pra mim? Parecia...
Ele teria me matado Não eram olhos de quem sente amizade. E todas as outras vezes..."
O ar de superioridade, as palavras, as expressões. Muito em Sasuke apontava para o oposto da amizade em relação a Naruto. E quanto a Sakura...
"Ele teria matado ela?
Se eu não tivesse chegado..."
A garganta lhe secou de imediato, fazendo as letras saírem trêmulas. Sasuke sentia amizade por alguém? Tinha algum afeto pelos seus companheiros de time?... Por que continuar a buscá-lo? Trazê-lo a todo custo como se ele fosse uma criança mimada? Não fora ele mesmo que escolheu aquele destino? O que significava salvar um amigo? Ele era mesmo isso: um amigo?
"Ele teria feito. Não pararia, só atropelaria ela sem pensar...
Por que eu quero salvar essa pessoa?"
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