Um novo começo.
15 Duas notícias.
Notas iniciais
Já haviam se passado uma semana desde que Christina e Caleb haviam dado o primeiro beijo um do outro. Christina no início ficara surpresa, mas depois ela se acostumou com a ideia. Ela estava aprendendo a amar Caleb, da mesma forma que aprendera a amar Uriah.
Ah, Uriah. Christina só fora vê-lo três vezes na semana toda, e em todas as vezes ele estava dormindo. Ela ainda não estava pronta para encará-lo; para ver o quão pouco ele se lembrava dela, do pouco que passaram juntos.
Zeke e Hana passavam o maior tempo possível cuidando do tratamento de Uriah e da recuperação da memória. Estava levando um tempo, mas Uriah havia melhorado e o médico constatou que seria possível que ele conseguisse lembrar-se de tudo. Era difícil, porém não impossível.
Caleb e Christina estavam arrumando as malas. Tris e Tobias já haviam feito as deles. Cara também. Zeke e Hana tinham permissão para permanecer aqui até que Uriah fosse transferido para outro hospital.
O departamento não seria mais um lar para eles. Ele serviria de laboratório de pesquisas e experimentos.
– Caleb, eu preciso vê-lo. Preciso de coragem para vê-lo quando ele acordar. – Christina falou, com os olhos marejados.
– Você tem certeza, Chris? – Caleb perguntou, sentindo uma pontada de ciúme em seu peito.
– Estou sendo covarde. Serei ainda mais covarde se eu não for vê-lo. – ela disse, tanto para ele quanto para si mesma.
– Tudo bem. Se quiser, eu posso ir com você. – Caleb disse. Seu interior implorando para que ela aceitasse a proposta.
– Não. – ela disse de repente. – Desculpe. Bem, eu preciso fazer isso sozinha, Caleb. Espero que entenda.
– Eu entendo. – ele assentiu.
Terminaram de arrumar suas malas em silêncio. Por fim, acabaram e Caleb se esforçou para quebrar o silêncio.
– Como será que vai ser agora? Como será começar a viver definitivamente sem as facções?
– Está sendo normal, não? – Christina sorriu. – Eu tenho que ir. Vou visita-lo antes de sairmos daqui. Até mais tarde. – ela se aproximou e beijou a bochecha de Caleb. Ele fechou os olhos ao sentir o toque.
Ela caminhou até a porta, e quando estava prestes a sair, Caleb falou.
– Chris? – ela se virou e ele continuou. – Eu estou com medo.
– Medo? – ela perguntou confusa.
Pausou. Caleb estava nervoso. Olhou para ela e viu seus olhos. Tão negros; tão lindos. Não sabia como Christina iria reagir com o que ele estava prestes a dizer, mas mesmo assim o fez.
– Estou com medo de te perder para ele. – ele baixou a cabeça.
Christina sentiu seus olhos arderem e a vista embaçou. Lutou para afastar as lágrimas e o nó que estava em sua garganta. Percebendo que Caleb se voltou para suas malas, ela saiu do quarto.
Enquanto caminhava em direção ao quarto de Uriah, foi invadida por seus pensamentos. Ela estava tão apavorada quanto Caleb. Ela não sabia o que esperar. Não sabia como seria de agora para frente.
Depois de Will, ela aprendeu a amar Uriah. Ele preenchia seu vazio e tornava seus dias mais alegres. Depois, Uriah sofreu o acidente e tudo mudou. Sem Tris e Uriah, ela se via perdida. Até Caleb. Ele chegou e a cativou. Ele demonstrou se importar com ela e perdeu várias noites de sono, enquanto ela chorava em seu peito e ele a consolava. Depois ele falara sobre seus sentimentos e tudo bagunçou. Ela não sabia como se sentia em relação à Uriah. Talvez não passasse de amizade. Mas também não sabia como se sentia em relação à Caleb. Ela tinha aprendido a amá-lo.
E agora ela estava com medo do que aconteceria. Não queria partir o coração de Caleb. Não queria ter que deixar Uriah. Ela amava os dois e tinha medo de perde-los.
Seria possível? Ela pensou. Amar duas pessoas na mesma intensidade?
Chegou ao quarto de Uriah e bateu a porta. Alguém falou “entre” e ela o fez. Hana estava colocando uma bandeja sobre a mesa. Ele tinha acabado de comer. Ela olhou para Uriah e ele a olhou no mesmo instante. Ele arregalou os olhos em surpresa e depois fez uma expressão confusa.
Christina sentiu seu coração palpitar. Sua respiração já estava acelerada pelo nervosismo.
– Olá. – Uriah tomou a iniciativa.
– Oi. – Christina falou, timidamente. Se aproximou da cama e se voltou para Hana. – Eu poderia conversar com ele a sós? – ela perguntou gentilmente.
– Claro, só não demorem. – ela pediu.
E depois saiu do quarto. Christina pensou que ficar sozinha com Uriah talvez fosse melhor. Isso só aumentou seu nervosismo.
– Posso me sentar com você? – ela sorriu. Suas mãos tremiam.
– Claro. – Uriah sorriu e indicou a cadeira que havia ao lado de sua cama.
– Então... – ela se sentou e lutava com o nó ainda preso na garganta. – Como se sente?
– É estranho. – ele falou. E depois sorriu. – Eu tenho certeza de que a conheço, mas não consigo me lembrar. Desculpe.
Christina sentiu seus olhos marejados. Arriscou olhá-lo e olhou. Ele estava fitando-a com o olhar, analisando cada movimento dela. Ela não suportou mais olhá-lo e observou a janela. Seus pulmões pareciam faltar ar.
– Você está triste. – ele disse o que conseguiu enxergar.
– Dias difíceis. – ela falou, dando de ombros. Uma lágrima escorreu dos seus olhos e ela rapidamente a enxugou.
– Eu não me importo se você chorar aqui. – ele sorriu, fazendo com que Christina sorrisse também.
– Eu sei que não. – ela disse.
Fizeram silêncio e as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Uriah não se incomodou. Christina chorava ali em silêncio, apenas movendo as mãos para limpar as lágrimas que não paravam de descer.
– Eu sinto sua falta. – ela disse num sussurro.
Uriah viu a sua dor. Ele deixou o silêncio tomar conta do quarto. Não queria encher Christina de perguntas. Então forçou sua mente.
(Narração do Uriah)
Conversávamos e nos divertíamos, rindo de alguma coisa. Ela era tão linda. Não era uma morena qualquer. Era a morena que me cativara, cada dia mais.
– Sabe, Uriah, você tem sido a única coisa fixa em minha vida até agora. Você e Tris. Amo Tris e daria minha vida por ela sem pensar duas vezes. Porém é muito importante para mim, saber que posso me apoiar em você. – ela me olhava e eu tentava decifrar o que se passava em sua mente. Mal conseguia me concentrar com aqueles lindos olhos me fitando. – Quero que saiba que poderá sempre contar comigo, certo? – ela pausou. Respirou fundo e continuou. – Você é a minha base, Uriah.
As palavras dela soavam doce e eram sinceras. Eu aprendi a ama-la. E estava me apaixonando por ela a cada dia que se passara.
– Você também é a minha base, Chris. – segurei sua mão e ela sorriu.
Uriah estava tão focado na sua memória que mal percebeu o que Christina tinha falado com ele nesse tempo. Ela se despediu dele e caminhou em direção a porta.
Christina. A morena que ele via todas as noites em seus sonhos. Ele se lembrara dela.
Quando se deu conta que ela estava girando a maçaneta do quarto, ele falou.
– Chris, espere...
Christina sentiu seu coração parar quando ele a chamou. Ele se lembrava do seu apelido. Ela permaneceu imóvel, ainda com a mão na maçaneta, de costas para Uriah.
– Eu me lembro de você. – ele completou.
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TRIS
Havíamos feito as malas hoje pela manhã. Como Tobias conseguira o emprego, nós ganhamos um apartamento. O governo pagaria pelo aluguel até que conseguíssemos nos estabilizar com a nova vida. Tobias e eu moraríamos em um apartamento próximo ao Palácio do Governo, já que ele seria assistente de uma dos nossos representantes, Jeanine.
Fui chamada para participar do Conselho – o grupo de pessoas que decidiria quem teria o poder maior sobre Chicago. Tobias achou a ideia o máximo, mas acho que política não é o meu forte. Acabei aceitando, pois só participarei de algumas reuniões para decidirmos nosso líder.
Já havíamos saído do departamento e agora estávamos em frente ao edifício que moraríamos. Subimos com nossas malas e paramos em frente a porta. Tobias pegou a chave e a posicionou na fechadura.
– Está pronta? – ele perguntou sorrindo.
Assenti. E ele abriu. Entramos e olhei ao redor do apartamento.
– Você gostou?
Estava todo mobiliado. Havia um sofá médio encostado à parede. A TV estava posta a parede oposta e havia apenas um móvel pequeno abaixo dela, contendo aparelhos eletrônicos. Havia uma mesa na sala de jantar, com quatro cadeiras. Também haviam alguns quadros nas paredes, dando um ar mais suave ao apartamento.
– É aconchegante. Incrível. – falei, e já podia me imaginar morando ali com Tobias.
– Essa não é a melhor parte. – ele ainda tinha o sorriso. – Vem comigo.
Ele segurou minha mão e me guiou pelo apartamento. Passamos por um corredor e paramos a uma porta. Ele abriu e entramos.
Era um quarto. Tinha uma cama de casal e um armário para roupas. Havia uma TV e alguns objetos decorativos no móvel que a sustentava. Uma janela média na parede com cortinas brancas, que davam suavidade ao local. Ao lado da cama de casal, havia uma pequena mesa que continha um abajur e um telefone fixo.
Seria estranho um apartamento desses em Chicago – a quarta cidade (é assim que a chamam agora). Era tão moderno.
– Eu achei diferente de qualquer coisa que pensaríamos em morar algum dia. Mas é aconchegante. E o único disponível próximo ao meu trabalho. Quando nos organizarmos, eu prometo conseguir um lugar melhor, Tris. – Tobias falou, parecendo ler meus pensamentos.
– Não se preocupe, está ótimo. – falei, me sentando na cama.
Era macia. Deixei que meu corpo caísse sobre ela. Eu estava exausta e aquela sensação era maravilhosa.
– Ah, não. Nem pense. – Tobias falou se aproximando de mim, lendo minhas intenções. — Temos reunião do Conselho em vinte minutos. Levante.
Fiquei em silêncio e fechei os olhos. Ele se sentou ao meu lado e segurou minha mão.
– Tris, precisamos conversar. – ele falou. Seu timbre de voz estava tenso. Abri os olhos e olhei para ele. – Eu tenho duas notícias que talvez você não fique feliz em ouvi-las.
– E quais são? – perguntei, me sentando ao seu lado na cama.
– Minha mãe está a caminho. Para o nosso apartamento. – ele falou e eu pude ver a tensão em seus ombros.
Ótimo. Evelyn moraria conosco.
– E antes que você tenha um surto, a próxima notícia é pior. – ele completou. Fiquei em silêncio esperando que ele continuasse a conversa. Ele respirou fundo e desviou o olhar. – Nita será minha secretária.
Então por isso que Tobias tem estado tenso a semana inteira. Ele estava com medo da minha reação.
Tem razão, Tobias. Essa notícia é muito pior. Agora eu já posso surtar.
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