Um novo amanhã
3 Capítulo 3
Notas iniciais
—SE VOCÊ MEXER NA MINHA CAUDA, EU TE MATO- gritei, jurando que ia mesmo perdê-la.
—Eu já falei que não vai doer, sua bobona. Mamãe me ensinou como faz tudo direitinho.- Olhando para o rosto da Azura, era claramente perceptível que tinha passado a última noite chorando. Nós duas ainda estávamos tentando superar perdas recentes, e pra ser sincera, acho que até hoje não superei. Meu corpo doía como nunca, e cordas me prendiam pelos pulsos e calcanhares ao que parecia ser uma mesa improvisada de madeira.- Tente não se mexer tanto…- Ela ergueu um livro em frente ao seu rosto. Eu ainda me sentia meio letárgica graças ao que aconteceu há alguns dias, e mal tinha forças pra gritar com ela. O livro começou a ser folheado velozmente por mãos invisíveis, e eu tinha uma ideia do que aconteceria em seguida.
—EU JÁ PEDI PRA PARAR- me debati tentando me soltar das amarras. Sem sucesso. À essa altura eu já conseguia sentir o gosto salgado das lágrimas em minha boca.
—Você vai me entender depois, Eva- um brilho azul saía do livro, e logo a mão que não estava o segurando começou a criar uma aura azulada também. Com essa mesma mão, ela foi se aproximando da minha barriga até tocá-la.- Folaigh…-seu tom de voz mudou.
—Azura...por favor…-tentei mais uma vez interrompê-la.
—agus…-continuou. Meu corpo queimava, e o calor irradiava da minha barriga, exatamente do lugar onde Azura tocava.-...maolú.
A dor que eu sentia no corpo todo sumiu, assim como o calor que eu sentia. Encarei o teto enquanto minha visão ia ficando cada vez mais turva e escura. Apaguei outra vez.
Ouvi vozes femininas próximas de mim. Abri os olhos bem devagar, mas qualquer raio de luz que entrava no ambiente úmido com cheiro de mofo onde eu estava, fazia minha cabeça latejar muito. -Finalmente acordou, bobona.- falou Azura, com um sorriso no rosto.
—Eu vou te matar, só espera eu me levantar daqui, sua vaca!- eu disse, mas até minhas cordas vocais pareciam doer a cada palavra dita.- Quem é essa daí?- franzi o cenho.
-É a senhora Naya- Azura olhou a mulher que parecia ter uns 200 anos.- Ela cuidou de nós durante esse tempo que você apagou. Ah, ela também cuidou pra que….-ela fez uma pausa.- Não desse nada errado com sua cauda.
—Minha cau...SUA VACA!!!- Gritei outra vez. Naya veio até mim e apoiou a mão no meu ombro. Sussurrou que ficaria tudo bem, e pediu que me acalmasse.
—Você não vai perder sua cauda. O feitiço que Azura usou faz com que sua cauda não fique visível para os humanos, mas continua visível para os que são da mesma espécie que você e para as feiticeiras também.- ela apontou para um lugar no fundo daquele espaço. Uma pedra tinha um brilho avermelhado, e estava sobre um suporte de pedra polida.- Aquela pedra vai proteger esse feitiço enquanto ela não for destruída.
Voltei a encarar o teto. Raízes desciam dele, e gotas caíam de suas extremidades graças à absorção da umidade do solo lá em cima. Então era isso...estávamos numa caverna não muito longe da superfície. Azura e Naya se afastaram um pouco para continuar a conversa, muito provavelmente era algo ainda sobre feitiços. Levantei meu corpo e me sentei. Senti uma dor nas costelas do lado direito, que me fez recuar um pouco e levar minha mão até o local. Meu tronco inteiro estava enfaixado. Apoiei meus pés no chão, olhando ao redor enquanto tentava analisar melhor o lugar. Úmido, só a luz do sol iluminava a caverna (e era bem pouco) e provavelmente quando o fim da tarde chegasse não daria nem pra enxergar à um palmo de distância do meu nariz. Olhei para o teto. As mesmas raízes de antes estavam lá. As paredes também tinham raízes que se projetavam para fora das pedras, em alguns lugares até pequenas flores brancas apareciam. As duas ainda estavam conversando, dessa vez estavam perto daquela mesma pedra com brilho avermelhado. Eu queria tomar um ar, então fui lá pra fora.
Fitei a grama verdinha, e me joguei sobre ela. Fiquei encarando o céu por um bom tempo,e fechei os olhos. Senti o vento tocando em minha pele.
Consegui ver os olhos da minha mãe outra vez. O escudo se formando ao meu redor.
Tentei me concentrar e manter meus pensamentos longe daquilo, mas tudo que eu conseguia sentir era um aperto no meu peito. Abri os olhos, encarei o céu outra vez. Voltei à fechá-los.
A voz de Azura ecoou dentro de minha cabeça com um “...segure esses livros enquanto eu pego os outros!”. O vento balançava minhas vestes...sim, o vento. Estava muito bom ali. Olhei ao redor, e me perguntei como Azura conseguia pegar os livros em meio à toda aquela confusão…
O vento ficou mais forte.
Lembrei de quando coletava raízes perto de casa, meus pais preocupados com alguma coisa que eu nunca soube muito bem o que era. “Estudamos eles por um tempo”, meu pai disse. “E agora eles são muitos”.
A grama se movimentava com mais força agora, folhas que se soltavam das árvores graças ao vento forte, colidiam com as minhas pernas e iam embora, ou esbarravam em meus braços e continuavam sua trajetória da mesma forma.
“Não está tão tarde assim”, eu disse à minha mãe. A indecisão era clara em seu rosto. Mesmo assim, ela me deixou ir.
Agora meus cabelos se agitavam muito mais com o vento.
Um brilho dourado do outro lado do rio.
Meus pés machucados pelas pedras.
Azura. Livros. Mamãe.
Escudo. Azul.
Lágrimas começavam a escorrer pelo meu rosto, aquecendo minhas bochechas e deixando minha boca salgada outra vez.
Três homens cercando meu pai...e um deles suspendendo sua cabeça…
Abri os olhos. Encarei o céu outra vez. “Não sei exatamente o que farei daqui pra frente, mas…”
Sequei minhas lágrimas.
Ergui meu tronco e fiquei sentada na grama por um tempo. Minhas costelas estavam me matando. Olhei para a entrada da caverna, e percebi que Naya me lançava um olhar carinhoso. “Vem comer com a gente”, gritou Azura, que estava ao lado de Naya. Me levantei e fui até elas.
“Deixarei a vingança me guiar.”-sussurrei baixinho.
O cheiro da comida era muito bom, sentei-me à mesa. Azura parecia fazer algum tipo de oração, agradecendo o alimento. Vi a senhora pegando tigelas e vindo na nossa direção. Eu encarava seu rosto, que transparecia amor e generosidade. Agradeci com um gesto de cabeça pela comida.
Olhei para o conteúdo da tigela.
Frutinhas azuis com raízes pra tirar o gosto de planta.
Ele nunca gostou do sabor de planta.
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