Notas iniciais
Todos os capítulos (ou quase todos) possui notas de rodapé. Desculpe-me só agora avisar.

Durante vários dias, a nave esteve sendo pilotada em posição praticamente no automático; enquanto Rud e Tony passavam horas diárias, tentando localizar o estranho defeito, sem, contudo, obter nenhum sucesso. Também, não conseguimos mais contato com Malderran.

Nosso objetivo agora era encontrar um planeta, onde tivesse oxigênio suficiente e a gente pudesse desligar os motores e até, descer, para com isto, procurar melhor o estranho defeito da nave, que nos desviou da rota principal.

Ainda sentia falta da Terra, de meus familiares e colegas. Já fazia quarenta e cinco dias susterianos, mais de cem dias terráqueos, que eu estava no espaço. Tempo mais do que suficiente, para termos chegado a Suster.

Sentado na poltrona do co-piloto, na cabine de comando, perguntei a Tony, que estava na poltrona principal:

— Por que o senhor não me fala mais sobre seu planeta?

— Você já sabe tudo! Sabe tanto quanto eu!

— Ah sei sim! Nunca estive em outro lugar, a não ser Malderran!

— Você não sabe nada de Merlin?

— Sei apenas que Luecy foi construído lá.

— O nome dele não é Luecy! É Mark Três!

— Por que Mark Três? Já existiu Mark um… Mark dois…

— Que eu saiba não! — Negou Tony.

— Então por que Mark Três?

— Os fabricantes quiseram dar este nome e pronto! Provavelmente algum protótipo!

— Pra mim ele continua sendo Luecy!

— Por que Luecy?

— Porque ele é metido à inteligente, igual a um amigo meu da Terra, que tem esse nome.

— Você sabia que Merlin é a cidade mais avançada de todo o Universo? É lá que foi fabricada esta espaçonave. É lá que foi fabricado aquele computador do senhor Frene. É lá que foi fabricado a mais de quinze anos, o sistema pelo qual o senhor Frene, acompanha sua vida na Terra. Tudo que existe de sofisticado em eletrônica em nosso planeta, foi fabricado em Merlin. Atualmente, eu e Rud, estamos morando lá.

— Tem algo que não entendo! Os caras da NASA até duvidaram de mim por isso!

— O que é?

— Em seu planeta, o dia é mais longo do que o dia na Terra, porém o ano passa mais depressa. Deveria ser o contrário.

— É garoto! Num ponto você tem razão. Só que quem controla o dia, é o que vocês chamam de movimento de rotação, Suster girando em torno de seu próprio eixo e quem controla o ano, é o movimento de translação. No caso da Terra, ela gira em torno do Sol. É algo muito complexo! Você já estudou isto?

— Que jeito? Vocês não me deixaram! Me roubaram da escola! Sabia que estou ficando atrasado? Já tenho dez anos e ainda estou na terceira série. E vou perder este ano novamente!

— Não se preocupe! Enquanto você estiver conosco, tudo em você continua sendo de seus nove anos! Você não envelhece! Continuará sendo criança pra sempre!

— Já sei disso! E não me interessa muito!

— Por quê? Não é bom?

— Até seria bom! Se fosse na Terra!

— Meu planeta é tão ruim assim?

— Não! Não é! Eu até faço um acordo com vocês! Se toparem, eu viverei em seu planeta pra sempre e estarei muito feliz!

— Que acordo?

— Comigo, vocês levam pra lá, meus pais, meus irmãos, minha irmã e todos meus amigos!

— Oh louco Regis! Aí foge de nosso objetivo!

— Vocês não me amam?

— Muito! Mas e os demais?

— É o preço pra que eu fique feliz com vocês!

— Em se falando de seus pais e irmãos; até aí vai. Agora: e seus coleguinhas? Eles vão querer levar os pais e os coleguinhas deles! Teríamos que encher uma espaçonave gigante! Nós estaríamos mudando o destino de muita gente. E isso não é certo!

— Vocês estão mudando meu destino! Acham isto certo?

— O seu não estamos mudando! Desde o seu nascimento, seu destino já era o de morar conosco, em nosso mundo!

— Quem disse? Deus?

— Talvez sim!

— Não acredito! Eu nasci na Terra! Lá é meu lugar!

— Regis: já falamos muito sobre isso! Nós precisamos de uma criança! Precisamos de você!

— Não há mesmo jeito, de uma mulher de seu planeta, ficar grávida?

— Não, Regis! Não há!

— Mesmo que seja com um homem da Terra?

— Você, Regis? — Riu ele. — Já pensa que é hominho pra sexo? Você não gera filhos!

— Não falei de eu! — Neguei bravo. — Não sou doido!

— Não há jeito! Nossas mulheres são estéreis!

— E um homem de seu planeta com uma mulher da Terra?

— Os homens de meu planeta, também são estéreis!

— Quer dizer que, se eu viver em seu planeta, também serei estérico?

— Estéril, Regis! Histérico você está é aqui conosco agora!

— O que que é isso?

— Histérico? — Riu ele. — É como você anda! Sempre bravo! Nervoso! Mal educado!

— Troque de lugar comigo! Aí o senhor vai ver quem ficará estérico!

— Alem do tal histérico, em meu mundo você será sim, também estéril!

— Não poderei ter filhos?

— Você será sempre criança! Será bom! Eu garanto!

— Senhor Tony: busque o Erick. Sei que ele vai gostar! E garanto ao senhor que ele é muito bom e educado. Vocês irão amá-lo e ele também vai amar a todos de seu mundo!

— Não, Regis! Isso não é comigo!

— Já que Merlin é tão avançado, por que o povo de lá, não estudam direito e cria um jeito de fazer um tipo de insi... Um clone, ou bebê de aproveita!

— Inseminação artificial! Bebê de proveta! — Corrigiu-me ele.

— Sei lá! Na Terra, que é tão atrasada, isso já acontece há muito tempo!

— Acho que estaríamos mudando os planos de Deus! — Insinuou ele.

— Isso vocês já estão mudando, comigo!

— Mesmo que quiséssemos fazer o que diz, não há como fazer uma inseminação artificial com óvulos e espermatozóides mortos!

— E um clone humano?

— Só se clonarmos você!

— Seria outro eu? Idêntico e gêmeo?

— Idêntico sim! Gêmeo não dá! Ninguém nasce grande!

Calamo-nos por alguns segundos, depois insisti:

— O senhor não me respondeu ainda, por que o ano em Suster, é mais curto do que na Terra, enquanto que o dia é mais longo.

— O ano em Suster, é composto de noventa e nove dias!

— O senhor Frene já me falou isso, mas eu não entendi patavina! Na Terra, noventa e nove dias, são apenas três meses! Quer dizer que, enquanto na Terra, passa um ano, em Suster, passam quatro?... Está errado!... Da outra vez que estive lá, eu tinha nove anos na Terra e lá eu tinha quatorze. Do jeito que o senhor fala, eu teria nove vezes quatro… trinta e seis anos…

— Parabéns! — Riu ele. — Prova que você sabe tabuada.

— Lógico! — Me exibi. — Aprendi no segundo ano!

— Mas é claro que a lógica está errada! A conta é bem mais complexa! Noventa e nove dias susterianos!

— Ah, é verdade! Cada dia em seu planeta tem trinta e duas horas! É diferente da Terra!

— E cada hora, oitenta minutos! E cada minuto oitenta segundos! Portanto, um minuto em meu planeta, é maior do que um minuto em seu planeta. Por isso que o ano é mais curto. O dia é mais comprido devido o movimento de rotação. Suster gasta trinta e duas horas, para dar uma volta em torno de si mesmo! Isto tem lógica, em se comparando à Terra, pois ele é bem maior. O ano é mais curto, devido o movimento de translação. Ou seja: Suster demora noventa e nove dias, para dar uma volta em torno de nossas duas estrelas. É complicado. Você entendeu?

— Só um pouco!

— Não esquenta muito com isso não! É mais complexo ainda! Suster nem gira em torno das estrelas! Ele fica dançando no meio delas, como um pião quando tá acabando a força, preso em dois campos magnéticos distintos.

— Por que na Terra o ano é dividido em meses e semana e em Suster não?

— Suster também funciona de maneira semelhante. Isso tem a ver com as diferentes fases da lua. Quantas luas tem na Terra?

— Uma só! Ué!

— Quer dizer: Quantas fases da lua?

Dei de ombros como quem não sabe.

— São quatro fases: Minguante, quarto crescente, nova e cheia. Somando as quatro fases, dura o tal período de um mês.

— Por que tem mês com trinta dias e outros com trinta e um?

— Porque é o tempo que demoramos pra fazer a viagem de sua Terra até meu planeta Suster! — Ironizou ele.

— Acha!

— Brincadeira! Não liga pra isso não! O mais importante agora é a gente tentar voltar pra casa!

— Será que vamos conseguir?

— Claro! Veja na frente, nossa próxima parada.

— Um planeta!

— Logo estaremos lá!

— Será que a gente vai poder descer?

— Ainda não dá pra saber!

Nossa nave, apesar de direção ignorada, seguia de encontro àquele novo planeta, a uma velocidade de cento e trinta e quatro milhões, trezentos e oitenta e seis mil, trezentos e sessenta e três quilômetros por segundo. Ou seja: uma velocidade inacreditável. Muito alem da velocidade da luz.

Durante algum tempo, em busca daquele novo planeta, segui conversando com meu companheiro e fazendo muitas diferentes perguntas a respeito do Universo. Fiquei sabendo, por exemplo, que o nome Mira, da garota do planeta dos gigantes, era o nome de uma estrela variável, gigante vermelha, conhecida como “a maravilhosa”, na constelação da Baleia; a lua está a apenas trezentos e oitenta e quatro mil e quatrocentos quilômetros distante da Terra e que aquela espaçonave susteriana, faria tal viagem em bem menos de um segundo; e em volta da Terra, que tem quarenta mil, duzentos e cinquenta quilômetros de circunferência, em apenas um trilhonésimo desse tempo e até ao Sol, que está a cento e quarenta e nove milhões de quilômetros, em pouco mais de um segundo[1]. E que o Sol, tem cento e nove vezes, o diâmetro da Terra, ou que cabem um milhão e trezentos mil planetas Terra em seu interior.

— Como o senhor pode saber de tudo isso? — Interroguei-o.

— Estudei muito sobre seu sistema solar! Sou um viajante do espaço!

Rud, entrou na cabine e percebendo o planeta que se aproximava, sorriu dizendo:

— É garoto! Parece que seu Deus, está de nosso lado!

Agora que a nave já se preparava para pousar, ele leu o relógio computadorizado:

— Dezenove per cento de oxigênio, três per cento de gás-carbônico, setenta e oito per cento de nitrogênio, zero de radiação, trinta graus centígrados, sessenta por cento de umidade no ar. Zero de raios ultravioleta.

— É um planeta apto à vida. — Confirmou Tony. — Iremos pousar.

— Eu não me sentirei mal? — Perguntei-lhes.

— Tenho certeza que não! — Confirmou Rud.

— O que é ultravioleta?

— São raios nocivos, emitidos por estrelas e que atravessam o espaço, atingindo o planeta. Na terra eles provocam até câncer, mas são barrados por uma camada que fica lá na estratosfera, que o homem diz ser a tal camada de ozônio.

— Minha professora já falou sobre isso!

— É isso! Ozônio é formado por três moléculas de oxigênio.

O solo daquele planeta era idêntico ao da Terra, com grandes florestas verdes e até mesmo, pequenos e diversos rios, de águas muito límpidas e possivelmente potável.

[1] É preciso ponderar que tal nave atinge tais velocidades no vácuo, onde não há atritos. Em passagem por trechos com atmosfera, esta velocidade se limita à velocidade da luz: 299.792.458 metros por segundo.