Um menino no espaço - 2ª parte
9 Idêntico à Terra.
Nossa nave pousou tranquilamente em um grande cerrado, porém, ao lado de uma grande selva, possivelmente, jamais explorada por alguém.
Após a porta se abrir, o senhor Rud, me disse:
— Pode descer, Regis.
— Desce o senhor primeiro! — Pedi, desconfiado.
— Está com medo de que?
— De nada! O senhor é mais velho! — Esbocei leve sorriso.
— Da outra vez, você não viu que eu era mais velho! Pode descer primeiro! Dou-lhe permissão!
— Não quero descer!
— Que isso garoto! — Exclamou Tony, me apanhan-do nos braços e descendo comigo. — Aqui você se sentirá bem!
Estando em solo, aspirei bastante ar, forçando os pulmões e pude perceber um clima saudável, com uma temperatura mais quente do que na nave.
Enquanto os dois companheiros começaram a vistoriar a nave externamente, eu, aproveitando as delícias de, talvez curta liberdade, segui devagar, ao encontro daquela vasta floresta, de árvores verdes.
— Regis, não vá muito longe! — Gritou o senhor Rud, quando eu já me encontrava a mais de cem metros de distância.
Na entrada da floresta, segui por estreitas trilhas, que acusavam ter sido usada por algum ser vivo, por diversas vezes.
Caminhando devagar, só se ouvia o ruído de algum inseto e a brisa calma, daquele planeta, iluminado por uma estrela muito distante e por isto, diferente do clarão de nosso Sol.
De repente, em um pequeno declive do terreno, me encontrei com um riacho, de água límpida e com certeza, saudável.
Descendo ao lado de sua margem, podia ouvir o barulho de água caindo e não demorou para me deparar com uma pequena e muito bonita cachoeira, que terminava em grande volume de água, represada naturalmente, em um espaço aberto e claro na floresta.
Criança, naturalmente, procura fugir um pouco de banho. Só que banho de casa, de chuveiro. Uma piscina. Ou melhor: um belo rio, de água muito limpa, em dia de trinta graus de temperatura; uma criança, que a mais de cem dias terráqueos, não entrava em qualquer tipo de banho; aquele encontro, era uma tentação irresistível; tanto que, sem pensar duas vezes, estando sozinho, me despi por completo e saltei, para aquela tentação refrescante.
Por muito tempo, fiquei nadando sozinho, comple-tamente nu e livre, naquelas águas cintilantes, dentro daquela piscina criada pela natureza.
— Regis! — Chamou-me alguém.
Quando olhei, eram Tony e Rud, que haviam me encontrado.
— Você não tem medo de nadar aí? — Perguntou-me o senhor Tony.
— Por que teria, senhor Tony? — Perguntei-lhe.
— É um local estranho! Não se sabe o que vai encontrar!
— Não há nada de errado! Venha nadar também!
— Já faz tempo que você saiu da nave! — Alegou o senhor Rud.
Porém, os dois se despiram também, ficando apenas de cuecas e saltaram dentro d’água, no maior estilo “bomba”, criado por meninos sapecas.
— Que água gelada, Regis! — Exclamou o senhor Rud.
— Que nada! — Neguei rindo e jogando-lhe água. — Está uma delícia!
— Pare com isso, seu peraltinha!
— O senhor tem medo d’água?
E continuei jogando-lhe água, com ambas as mãos. Porem, os dois homens juntos, reagiram, me pegando e me jogando para o alto, para que caísse, de encontro ao paraíso, em forma de represa.
Aquela brincadeira se tornara uma felicidade comple-ta, tal que me fizera esquecer a saudade que sentia de meu mundo, perdido no Universo de Deus.
Mais tarde, quando saímos da água e vestia minha cuequinha, o senhor Rud, me perguntou em tom de gozação:
— Regis, não é você que não gosta, que a gente o veja peladão?
— Não gosto mesmo!
— E como estava nadando igual Adão?
— Não sabia que vocês iriam aparecer por aqui!
— Por que tem vergonha da gente?
— Não tenho vergonha! Só não gosto de me expor, do jeito que vim ao mundo!
— Você é uma criança! Não tem nada demais!
— O senhor gosta de ficar pelado?
— O que você tem por baixo da cueca, eu também tenho! — Brincou o senhor Tony. — Não me interessa ficar olhando!
— E por falar nisso: — Insinuou o senhor Rud. — Seu pingolim está diferente! O que aconteceu?
— Promessa idiota de meu pai! Fui operado de pintose!
— O quê? — Riu o senhor Tony. — Não seria... fimose?
— Sei lá! — Dei de ombros. — Onde que é a operação?
— Só você mesmo, Regis!
Com as roupas nas mãos, seguimos seminus, de volta à espaçonave, a qual se encontrava a pelo menos quinhentos metros distante.
©©©
Algumas horas mais tarde, de dentro da nave, deu para perceber, que a claridade lá fora, aumentara considera-velmente e ao descermos para ver, percebemos que, antes da estrela anterior, desaparecer no horizonte azul, outra estrela, surgia, trazendo muito mais luz e calor, em uma distância bem inferior.
— Senhor Rud, outro Sol! — Exclamei.
— Não é um Sol, Regis! — Negou o senhor Rud. — É outra estrela! Porém, ainda não deve ter nome!
— Eu posso batizar ela? — Perguntei.
— Claro! Que nome você dará a ela?
— Regis! Estrela Regis! Pode ser?
— Por que seu nome, a uma estrela?
— Uma homenagem pra mim! Não tem a estrela Mira, em homenagem a menina dos gigantes?
— Acha certo, você mesmo se homenagear?
— Deixa, senhor Rud! — Pedi manhoso. — Acho que ela não vai se importar!
— Está bem! Não estou me opondo! E a outra estrela: como deve se chamar?
— A outra se chamará… Estrela… Rud! Que tal?
— Obrigado! Não mereço, mas agradeço!
— E este planeta vai se chamar…
Pensei por alguns segundos e não descobria um nome apropriado:
— Tony! — Sugeriu o senhor Rud.
— O senhor acha mesmo!?
— Por que não?
— Não achei adequado! Que tal Mark Três?
— Esse é o nome do Luecy!
— Não importa! Parece ideal!
— Se você deseja: tudo bem!
Voltei às pressas até a nave, apanhei meu material escolar e em uma folha de meu caderno de tarefas, escrevi uma pequena mensagem, dobrei o papel e o coloquei dentro de uma pequena caixa de acrílico transparente, que ganhara do senhor Tony e então, corri até a floresta próxima, encontrei umas árvores pequenas, fortes e bem visíveis, coloquei a caixinha com muito jeito e sorrindo disse a mim mesmo:
— Acho que aqui, os exploradores do espaço vão encontrar fácil.
Depois, pensando melhor:
— Só tem um problema: e se eles não souberem ler em Português?
Nisso apareceu o senhor Tony, que me seguira, pensando que eu voltara a nadar.
— O que está fazendo Regis?
— Deixei uma mensagem, aos exploradores do espaço!
— Oh! Muito bom! Posso ver?
— Claro!
Apanhei a caixinha, abri-a e lhe entreguei o bilhete.
Após ele abrir o bilhete e olhá-lo, perguntou-me:
— O que está escrito aqui?
— O senhor não sabe ler?
— Não sua letra!
— É tão feia assim?
— Até que não, para uma criança! Acontece que eu não sei ler seu idioma maluco!
— E como o senhor me entende?
— O aparelho em seu pescoço, traduz as nossas palavras, mas não as nossas letras!
— Estou novamente confuso!
— Por quê?
— Como eu consigo ler as coisas escritas em seu planeta?
— O senhor Frene, sabe ler e escrever sua linguagem, como você. Ele te acompanhou a vida toda. Aprendeu com você. O que há de escrito em meu planeta que você entende, é o que ele fez, para você se familiarizar.
— Não está certo! Ele está mudando o destino de muita coisa, por minha causa… Isto não está certo!
— Leia pra mim, o que está escrito em seu bilhete.
Então eu li:
Mensagem para os exploradores do espaço.
— Não quis dar meu nome a nada! — Chamou-me a atenção Tony. —Por quê? Não gosta de mim?
Fiquei sem jeito, vermelho de vergonha e sem saber o que dizer:
— Sabe o que é… Não tinha outra coisa… Que tal o nome do rio?
— Não acho tão importante!
— Desculpe-me senhor Tony… Eu gosto do senhor… espere que eu já volte…
Saí correndo com o papel na mão, de volta à espaçonave; entrei em meu quarto, apanhei uma borracha e um lápis preto, apaguei o nome Regis e em seu lugar escrevi: “Estrela Tony”. Abaixo de minha assinatura acrescentei o nome do rio.
Tornei a guardar o lápis e a borracha na bolsa escolar e voltei ao encontro do senhor Tony, dizendo:
— Agora está tudo certo, senhor Tony!
— O que você fez?
Então eu reli o bilhete inteiro:
A mensagem aos exploradores corrigida.
Ele, sem jeito, tentou explicar que só estava brincando. Tentou me pedir para voltar do jeito que estava antes. Só que sem jeito, só me abraçou dizendo:
— Obrigado garoto! É por isso que a gente te ama! Sabe?
— O senhor me faz um favor?
— Qual?
— Os exploradores do espaço, podem não saber ler Português. Então o senhor escreve um bilhete igual a este, em sua linguagem?
— Faremos isso agora mesmo! Vamos?
E então, seguimos abraçados de volta à nave. Arranjei-lhe uma folha de papel e uma caneta, onde ele rabiscou em uma linguagem tão estranha, que mais parecia tudo igual, mas como ele alegava que estava escrito a mesma coisa de meu bilhete, decidi então colocá-lo na mesma caixinha.

Juntamente com as mensagens, deixei o seguinte desenho:
Fale com o autor