Um mar de distância
5 Capítulo 5 - Promessas
Bakugou nunca havia visto as areias de Nijunami tão lotadas, mas não podia ser diferente, já que a praia era o palco da Billabong Nijunami Masters; a principal competição nacional de surf do Japão. Todos os anos ele assistia ao torneio bem de perto, na primeira fila de frente para o mar, acompanhava todos os surfistas profissionais e fazia questão de aprimorar seus próprios movimentos. E desde que completou a maioridade, começou a disputar pequenos torneios regionais, seu maior objetivo, e de seu grande mestre, era que disputasse a Nijunami Masters junto aos maiores surfistas do país.
Para concretizar esse desejo, foi necessária uma campanha árdua durante todo ano; viagens às mais diversas praias e muito treino duro. Tanta dedicação lhe causou algumas privações, mais precisamente uma rosada e bochechuda, porém não era como se ela ficasse aborrecida e chateada com as suas ausências. Na verdade, Ochako era uma de suas maiores incentivadoras, sempre lhe preparava uma gota de sorte e lhe dava antes das competições. Não havia nada de mágico nas poções, pois agiam apenas com a química do organismo, nas sensações que os seres sentiam. Não que Katsuki precisasse sentir-se mais autoconfiante e orgulhoso do que já era, mas tomar qualquer coisa preparada por ela o fazia ter a impressão de tê-la bem perto e, por ora, isso era suficiente.
Agora, finalmente, todo seu esforço estava sendo recompensado. Após uma manhã inteira de altas ondas e várias eliminações, estava prestes a disputar a última bateria da Nijunami Masters. Bakugou Katsuki era uma maldito finalista! Ele não podia estar mais feliz.
— Toma, come essa banana! — Mitsuki descascou a fruta e enfiou na boca do filho.
— É bom pra dar energia… bebe um pouco de água também, pra ficar hidratado — disse David, estendendo uma garrafa d'água que Katsuki prontamente aceitou.
— E você vai surfar com essa longboard! — ordenou Mitsuki, com a prancha em pé ao seu lado.
— Tsk, não vou surfar a última bateria com essa merda! — disse, assim que terminou de engolir a banana.
— Muleque idiota! — gritou, dando um tapa na cabeça do filho. — Vai usar essa longboard, sim! Ela tem todos os adesivos dos patrocinadores, inclusive lá da loja. E eu acho bom você empinar bem o bico da prancha quando for cuspido na próxima baforada, seu bastardo ingrato!
— Tsk... Me dá essa merda, cacete! — Pegou a prancha a contragosto, preferia mil vezes a que Ochako havia desenhado, discretamente, suas iniciais no dialeto submarino; mas, irritar sua velha não era um bom presságio.
Estava na hora de voltar para o mar. Recebeu o incentivo dos amigos que fizeram questão de comparecer ao evento; deu uma alongada nos membros inferiores e superiores; olhou em direção à arquibancada, feita especialmente para os comentaristas e juízes da competição; viu All Might de pé, com o polegar para cima e um sorriso satisfeito no rosto. Embora não fizesse parte do time de avaliadores nem de locutores, ele sempre tinha um lugar vip em grandes competições, era uma celebridade afinal, não podia simplesmente ficar na areia da praia.
Entretanto, Katsuki queria poder ouvir um último conselho de seu mestre, mas tinha certeza que ele diria alguma coisa como: “Bakugou, meu garoto, dê o seu melhor, PLUS ULTRA!”. Era um conselheiro de merda, assim como era um puta mestre e amigo, nunca saberia como o retribuir, então, apenas assentiu. Daria todo seu sangue nesta bateria e, sem dúvidas, levaria o título para casa.
— SENHORAS E SENHORES, ESTAMOS DE VOLTA À NIJUNAMI MASTERS! — anunciou Yamada Hizashi, comentarista e narrador da competição. — E o que vocês vão assistir em poucos instantes, meus amigos, é a final, A FINAL, A ÚLTIMA BATERIA DO NIJUNAMI 2020! E quem está nessa final? Aizawa Shota, por favor, me dê o nome dos atletas.
— Togata Mirio, que é o atual…
— Esse eu conheço, Aizawa! — interrompeu, energicamente. — É o campeão mundial, o atual campeão mundial de surf. E quem vai enfrentar o campeão?
— Bakugou Katsuki, o novato que pleiteia o título desde o início da temporada — respondeu, cansado. — Ganhou vários campeonatos regionais, apesar do temperamento explosivo e de algumas interferências polêmicas na bateria de Ohama, ganhou a simpatia do público.
— YEAAAAH! — exclamou, ensurdecedor, fazendo até o público tremer. — Mas isso não é contra as regras, Aizawa?!
— Sim… — Suspirou. — Um surfista não pode atrapalhar a pontuação de outro que tenha a prioridade da onda, quando isso acontece ele pode ser penalizado por interferência. Se causar duas interferências pode ser desqualificado da bateria.
— Esse novato é mesmo um ESTOOOOOURO! SERÃO TRINTA MINUTOS DE PURA ADRENALINA! — gritou, balançando o microfone e parte da arquibancada. — E toca a sirene que indica o início da bateria! É HORA DO SHOOOOOOW!
Ambos surfistas estavam posicionados e prontos para a primeira onda. Nijunami formava ondas perfeitas em backdoor, que quebravam da direita para a esquerda, justamente a especialidade de Bakugou, e não podia ser diferente já que crescera surfando essas ondas. Além disso, era o tipo de onda que proporcionou os onze títulos ao All Might, por isso, mesmo Mirio sendo mais experiente e campeão mundial, Katsuki não se sentiu intimidado nem por um segundo.
— Yamada, parece que eles vão dividir o pico nessa primeira onda — constatou Aizawa, atendo à bateria.
— Que remada sinistra! Parece que eles vão descer a onda de frente para a parede, Aizawa, DE FRONTSIDE! Eles se dividem. Togata Mirio para a esquerda, Bakugou Katsuki pra direita… tá lá dentro Mirio, saiu... SAÍ TOGATA MIRIO! — gritou, jogando o corpo pra trás em pura euforia. — TUBAÇO DE TOGATA MIRIO, O ATUAL CAMPEÃO MUNDIAL! FALA AIZAWA!
— Foi um tubo excelente — concordou, mas sem a empolgação do colega. — Ele já vinha mandando muito bem, num ritmo impressionante na bateria anterior, estava no lugar certo para backdoor. Com certeza terá uma nota bem alta, mas vamos ver como foi o tubo do Bakugou, do outro lado.
Havia uma tela gigante ao lado direto da praia, até quem estivesse longe do mar podia ver os surfistas em alta definição, bem como o replay de todas as manobras da bateria. Servia tanto para o público, que se posicionava entre o telão e a arquibancada, quanto aos juízes da competição.
— EXATAMENTE, MEU AMIGO! A gente revê essa imagem do Mirio, o tubaço de backdoor, YEAAAAH! E olha lá o Bakugou… posicionado na prancha, segura, pega um tubinho e sai… não foi a melhor onda do dia!
— Certamente — Aizawa assentiu. — Ele teve que acelerar no início, mas ficou fundo numa onda muito rápidá. Ele não vai conseguir uma boa pontuação final se fizer performances como essa.
— FALOU TUDO MEU AMIGO! — berrou tão perto que Shota deve que se afastar. — Os juízes se preparam para dar a nota… sai a nota de Togata Mirio… que é 9,93! QUE NOTÃO, MEU AMIGOS! Ele comemora! Com toda a razão, porque foi um NOTAÇO! Agora os juízes se preparam para revelar a nota do novato, Bakugou Katsuki, o surfista mais esquentado desta bateria! E a nota é… 7,83… É… Mas por essa nós já esperávamos, né Aizawa?
— Sim, mas parece que o jovem Bakugou não ficou muito contente — revelou ao perceber o murro que Katsuki deu no mar.
— Só que não teremos tempo para chorumelas! LÁ VEM OUTRA ONDA DAS BOAS! — Yamada gritou pondo-se de pé. — E veio a onda, Togata Mirio pega no backdoor, toca lá dentro… Será que ele vai sair? E... ELE SAI NA BAFORADA! E logo em sequência vem Katsuki, bota o bico pra dentro de frontside, atrasa a prancha... tá lá dentro... outra baforada, vai sair? SAIUUUUUUUU! — Terminou a narração se jogando de volta na cadeira. — Que que isso, meus amigos! Se vocês queriam um show tá aí pra vocês. A GRANDE FINAL DO NIJUNAMI MASTER! O que você tem a me dizer, Shota?
— Foi uma excelente onda — admitiu, tranquilo. — Mirio entrou bem fundo, ficou bem deep, mas foi um tubo mais curto e saiu bem na baforada. Já o Bakugou teve um drop mais crítico, pegou um tubo grande, passou bem clean. A grande diferença é que Mirio saiu com a baforada, o Katsuki entrou com a baforada, ficou lá dentro e só saiu depois.
— YEAAAAH! BATERIA PEGANDO FOGO NA FINAL! — Yamanda quase não teve tempo de respirar quando Mirio pegou outra onda. — Lá vem o campeão novamente! E tá descendo a onda de costas para a parede, de backside! Tentou sair do tubo e acabou morrendo ali dentro. Ah... muito funda essa onda. Mastigou o Togata Mirio…
Toda praia lamentou o ocorrido, ao mesmo tempo, ficaram impressionados por ver o atual campeão mundial de surf ser engolido por uma onda. Não é sempre que se pode presenciar tal fato. Apesar de já ter o título mais importante do surf profissional e já está classificado para a Championship Tour, no Havaí; Mirio também queria o título de Nijumaster.
— Sai a nota das duas ondas do Togata Mirio: 9,10 e 5,17 respectivamente — anuncia Aizawa. — Ele realmente não foi muito feliz nessa última onda, mas só as duas maiores notas são somadas para pontuação final, então, essa nota 5 será descar....
— E parece que vai sair a nota do Bakugou também! — interrompeu o colega assim que viu os juízes mostrarem a nota. — E ELE GARANTIU UM BELO 9,20! Vocês pensaram que ele ia ficar desanimado com aquele 7??? NÃO! Ele simplesmente deu um show na última backdoor e mandou logo um 9,20! YEAAAAAH!
— É uma nota bem alta, mas não é o suficiente para fazê-lo levar o título de Nijumaster e garantir uma vaga na Championship Tour — frisou Aizawa.
E Katsuki tinha ciência disso, pois as duas maiores notas do seu adversário somavam 19,03 pontos, já as suas maiores notas resultavam apenas em 17,03 pontos. Ele teria que pegar uma puta onda alta para conseguir o título da competição. Cacete! Olhou a areia da praia e viu toda sua torcida na linha de frente; Kirishima e Ashido, lado a lado, pareciam gritar feito loucos; sua velha, provavelmente, reclamava alguma coisa com David que, pacientemente, ouvia e tentava acalmá-la; All Might mantinha-se de pé na arquibancada, em uma pose imperante, que exalava confiança e determinação.
As pessoas mais importantes da sua vida estavam ali. Bom… quase todas, visto que faltava apenas uma certa sereia, mas havia prometido que ganharia o título e fariam uma comemoração particular à noite. Ele não podia decepcioná-la de maneira alguma, na verdade, não queria decepcionar nenhum deles. Por isso, quando voltou seus olhos para o horizonte e percebeu o tamanho da onda que vinha, decidiu que aquela seria a onda que lhe proporcionaria o título de Nijumaster.
[...]
— Puta merda, Ochako! Eu tô feliz pra caralho! — disse enquanto deitava-se ao lado dela na Sansunton. — Foi um backdoor tenebroso! Eu entrei de backside, posicionei a prancha no tubo, esperei a onda cair, e na hora de sair, coloquei a prancha pra cima e saí na baforada!
— Deve ter sido perfeito... — Ochako constatou, sem tirar os olhos das estrelas.
— Porra, Bochechas, foi insano! — exclamou, empolgado. — A praia inteira vibrou quando eu saí do tubo, o All Might falou que nunca viu uma final que o novato consegue nota máxima surfando backdoor, de backside. Cacete, Ochako, foi a porra de uma nota 10!
Bakugou nunca se sentiu tão eufórico na vida, talvez só no dia em que beijara Ochako pela primeira vez; logo, a sensação de ter fogos de artificios explodindo dentro de si era quase que uma novidade. Estava extremamente feliz! Sentia-se um idiota toda vez que tinha vontade de sorrir, afinal, tinha um carranca e uma reputação de bad guy a zelar, só que nada era relevante quando estava com ela, podia sorrir igual a um desvairado que Ochako não se importava, tirava sarro da sua cara, mas o acompanhava no final.
Porém, enquanto narrava sua vitória excepcional, não percebeu a mesma euforia e empolgação, que o anestesiava, em Ochako. A sereia parecia até estar contente por ele ter conquistado o título de Nijumaster, entretanto, parecia perdida em seus próprios pensamentos, distante, como se nadasse pelas estrelas e não pudesse tocá-las. E o fato de não ter reclamado, nem uma única vez, da quantidade de palavrões que ele falara durante a explanação entusiasmada, comprovava sua teoria.
— Sua okaa-san deve ter ficado orgulhosa — Ela concluiu.
— A velha maldita quase infartou na praia, ainda bem que o David tava lá pra segurar a onda dela! — Katsuki virou-se na direção de Ochako, que se mantinha longe, fitando as estrelas como se a realidade de nunca poder alcançá-las agora lhe atormentasse. — Por que a cara de quem comeu peixe estragado?
— Ei... não comi nada estragado! — Desviou o olhar do céu e esboçou um leve sorriso. — E não é nada… Eu só… só queria ter visto sua competição.
— Tsk… não precisa fazer essa cara só por causa disso, se quiser posso te mostrar a reprise no celular. — Ela assentiu, conformada. Katsuki detestava vê-la tão distante e tão introspectiva. — Eu só espero que você não tenha flertado com nenhum surfista na minha ausência, Bochechas.
E esse era sempre o artifício que usava quando Ochako parecia melancólica: distração. Bakugou tinha êxito na maioria das vezes, mas com o passar do tempo estava cada vez mais difícil fazê-la se esquecer das diferenças que tinham. Não era fácil para ele também, porém, qualquer coisa era melhor do que não estar com ela.
— Hum… é tipo conversar com outros humanos? — Ochako perguntou, encarando-o.
— É tipo conversar querendo muito beijar a outra pessoa. — respondeu, fitando-a de volta.
— Oh… E se eu flertasse com outro surfista você ficaria com… Como é mesmo a palavra? — Olhou para baixo, tentando se lembrar. — Ah, Ciúmes! Ficaria com ciúmes, Kacchan?
— Não, Bochechas — falou, apoiando-se com o braço direito para erguer o tronco em direção à sereia, que fez um bico fofo ao ouvir a negativa. — Eu ficaria muito puto!
E ela sorriu. Puta merda! Aquele simples sorriso fazia todas as suas entranhas se revirarem, assim como fazia todas as células do seu corpo almejá-la. Não tinha como resistir aos encantos de sua sereia, mesmo que se esforçasse, falharia copiosamente. E sabia que o sentimento era recíproco, pois apenas com uma singela aproximação, Ochako suspirou desejosa e mordeu o canto direito da boca, causando-lhe um arrepio na espinha. Então, sem mais delongas, Katsuki capturou-lhe os lábios.
Conforme dedicavam-se a arte de beijar, seja nas tardes de sol ou nas noites de luar, Bakugou descobriu que, além do característico gosto de maresia, Ochako era doce; mas não como o sabor enjoativo das sobremesas que sua velha preparava; era extravagante, suave e delicioso. E, normalmente, ele saboreava seus lábios e sua língua gradativamente, preenchendo todas lacunas de suas bocas e corações, contudo, dessa vez, ela parecia ávida e desesperada.
Ochako o abraçava pelo pescoço, aprofundando ainda mais o contato; seus corpos agora estavam colados, ele podia sentir as escamas que cobriam o volumoso seio de sereia, fazendo pequenas cócegas em seu tórax; e Katsuki sabia que ela podia notar o efeito que provocava nele: excitação. Mesmo assim, prosseguia acariciando seu pescoço desnudo, seus cabelos loiros e suas costas largas; beijava-lhe com tanta intensidade que se assemelhava aos beijos invernais de despedida. Mas talvez essa fosse apenas a maneira dela parabenizá-lo pelo excelente desempenho na competição, por isso, era uma lástima ele não poder prosseguir com a gratificação.
— Cacete… — disse Katsuki, ofegante, ao se separarem. — Esqueceu que eu não tenho brânquias?
Ela sorriu, culpada, e desviou o olhar. Mas que porra! Geralmente, um beijo operava milagres no humor de Ochako, mas diante daquela íris fosca e longínqua, ele soube que havia algo de muito errado com ela.
— Caralho! Desembucha logo, Bochechas! — ordenou, sentando-se na pedra e mirando-a firmemente.
A sereia acompanhou o movimento de Katsuki, sentou-se na rocha abraçando a cauda e, fitando a escuridão do horizonte, começou a falar:
— É que… é só que… — Suspirou derrotada, não podia mais guardar aquilo, então, respirou fundo, iria contar de uma vez só. — Existe uma lenda, na verdade, uma canção entre os povos do atlântico, é sobre uma sereia que busca seu amante… é mais ou menos assim:
“Entre o aqui, entre o agora
Entre o norte, entre o sul
Entre o oeste, entre o leste
Entre o tempo, entre o lugar
Da concha
A canção do mar
Nem calma nem calma
Procurando por amor novamente”
Se Katsuki não estivesse tão aflito com a situação, teria se deleitado com a voz aveludada e terna de Ochako. Talvez, no final das contas, houvesse algum tipo de magia no canto de uma sereia, visto que o mar e a brisa suave, que soprava naquela noite úmida de outono, acompanhavam-na perfeitamente durante a melodia. E ela continuava a cantar:
“Entre os ventos, entre as ondas
Entre as areias, entre as margens
Da concha
A canção do mar
Nem calma nem calma
Procurando por amor novamente” ¹
— E o que isso tem a ver com essa sua cara de lua, Bochechas? — perguntou, assim que ela terminou de cantar.
— Eu descobri que essa sereia é uma selkie! — respondeu otimista. — Diz a história que elas são uma espécie nômade, que possuem a habilidade de se tornarem humanas! Elas só precisam retirar suas peles, Katsuki!
— Porra, Ochako, é só uma lenda! — Esfregou os cabelos de maneira ansiosa, sabia exatamente onde ela queria chegar.
— Mas e se não for?! — questionou agitada, aproximando-se dele. — E se elas forem reais? Se elas ainda estiverem nadando por aí… E se eu pudesse encontrá-las e… ser como elas…?
— Puta merda, Ochako, você não pode estar falando sério! — exclamou incrédulo — Isso é só a porra de uma lenda!
— Mas se não for, Katsuki? — retrucou na mesma altura. — Eu preciso descobrir mais sobre elas, procurar pistas e… não sei, talvez, ir atrás delas…
— Você só pode estar de brincadeira comigo… — Riu sem graça. — Quantas merdas dessas você já não ouviu lá no Atlântico, hein? Histórias cheias de magia e o diabo a quatro… São só histórias, cacete! Não são reais!
— Mas dessa vez é diferente! — Ochako começava a ficar chateada com a falta de fé de Katsuki. — Eu conheci uma anciã que…
— Essas velhas não sabem de porra nenhuma! — interrompeu-a irritado, jogando a cabeça pra trás em um gesto de pura frustração.
— Por que você não consegue acreditar?! — Ela perguntou com a voz embargada.
— Porque essas merdas só enchem a gente de falsas esperanças, cacete! — respondeu rude. — E como surfar a porra de uma onda quebrada, não dá resultado nenhum!
— Mas eu preciso acreditar em alguma coisa! — retrucou, com os olhos marejados e batendo com o punho fechado na pedra. — Você não me entende…
Katsuki, dentro de suas limitações, tentava ser o mais paciente possível com Ochako. Todas as vezes que ela lhe contava lendas e histórias antigas do povo submarino, ele a ouvia, a incentivava a descobrir mais e a estudar possibilidades de estarem juntos em terra firme. Durante os primeiros anos, a probabilidade de haver uma chance de estarem mais próximos o enchia de esperanças e expectativas, porém, após diversas tentativas fracassadas e histórias ilusórias, Bakugou estava descrente. Mas dizer que ele não a entendia? Logo ele que sofria com o mesmo desejo que o dela… Ochako só podia estar ficando louca!
— NÃO FODE, OCHAKO! — gritou, pondo-se de pé e encarando-a de cima. — ME DIZ QUAL PARTE EU NÃO ENTENDO! A PARTE QUE EU SOU UM MALDITO HUMANO E VOCÊ A MERDA DE UMA SEREIA, OU A PARTE QUE ESSAS HISTÓRIAS NÃO PASSAM DE UMA PORRA DE UM FAZ DE CONTA?! HEIN?!
— A PARTE QUE EU QUERIA ESTAR AO SEU LADO HOJE, MAS NÃO PUDE PORQUE SOU UMA SEREIA DE MERDA! — berrou em resposta, deixando as lágrimas, que segurava com tanto empenho, rolarem. Estava magoada demais, não só pelas palavras dele, mas com toda a situação que os mantinha sempre separados. — Eu queria tá lá, Kacchan… — disse entre soluços. — Ao seu lado, comemorar a sua vitória junto com seus amigos… Te beijar na frente de todo mundo… Te abraçar na areia da praia… Eu tô cansada de ter você pela metade!
— Mas que merda, Ochako. — Ajoelhou-se ao seu lado e a puxou para um abraço a fim de consolá-la.
Ela chorava angustiada. Estava desolada. Bakugou queria realizar todas as vontades de sua sereia, principalmente, fazer cessar todas as lágrimas que insistiam em cair; mas, o que fazer quando o seu coração estava tão fragmentado quanto o dela? Sentia-se encurralado, ficando pouco a pouco sem ar, exatamente como no dia que quase se afogara na Gruta Azul.
— Eu quero mais… quero uma plenitude que essa cauda não pode me dar. — Ochako disse, afastando-se e encarando os olhos nebulosos de Katsuki. — E não adianta negar, eu sei que você também quer, por isso eu preciso ir...
— Tsk… Eu só não quero que você se decepcione de novo — falou, limpando algumas lágrimas da bochecha rosada de Ochako.
— Eu sei… — Ela repousou sua testa na dele. — Mas eu prometo que essa vai ser a última vez.
Katsuki riu cético. A verdade é que ela nunca desistiria de buscar respostas e possibilidades; havia uma determinação implacável que preenchia todo âmago da sua sereia, uma ânsia que nem as tempestades mais cruéis e devastadoras poderiam estagná-la. Ele admirava isso em Ochako, então, apenas assentiu e selou a promessa com um beijo singelo.
Após os ânimos acalmados, Katsuki limpou mais uma vez o rosto de Ochako, deu mais dois selinhos em sua boca e voltaram a se deitar abraçados na Sansuton. Talvez passasse a noite com ela, contemplando as estrelas e trocando carícias, pois era certo que não conseguiria dormir depois de tantas emoções em um único dia.
— Quanto tempo você acha que essa “aventura” vai levar, Bochechas? — Katsuki perguntou, sentindo aos poucos a normalização do compasso de seu coração.
— Não sei exatamente, de qualquer forma tenho que ir pro Atlântico no inverno, mas... acredito que levará mais duas estações até eu voltar. — Suspirou ao fazer a constatação.
Cacete! Já era difícil ficar uma estação inteira longe, e agora teria que ficar duas só por causa dessa merda de selkies. Ele odiava os meses que ficavam a um oceano de distância, mas não tinha outra opção senão ceder aos vereditos de sua sereia. Suspirou cansado. Visto que não tinha escolha, apenas a apertou em seus braços e disse:
— Eu vou esperar, Bochechas!
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