Um mahou shoujo muito louco
1 É bom salvar um gato mesmo atrasada para a escola
Notas iniciais
Eram sete e treze da manhã. Fulaninha rolava na cama enquanto o alarme do seu celular tocava alto há exatamente treze minutos. A música deveria despertá-la, porém, a garota havia escolhido sua música preferida do Restart como alarme e naquele momento era a trilha sonora do sonho que estava tendo onde beijava o seu crush.
— Acorda dorminhoca!
Fulaninha acordou assutada com seu irmão mais novo pulando em cima dela.
— Tá maluco? Vou te dar uma moca!
— A mamãe deixou – disse o menino, com uma naturalidade que não dava pra saber se era inocência ou puro cinismo.
— É verdade – a mãe gritou de outro cômodo – lembra que combinamos que se o despertador tocasse mais de dez minutos ele podia te acordar?
Foi então que a jovem sonolenta olhou a hora.
— AH, SÃO SETE E QUATORZE! Logo hoje que tem apresentação do trabalho…
Ela correu para o banheiro para se arrumar.
— Se arruma rápido, se não ficar pronta logo vai ter que ir a pé – a mãe advertiu, do lado de fora.
— Mas mãe, hoje vou apresentar trabalho pra turma toda, não posso sair toda esculachada!
— E hoje é a inauguração da ponte que eu projetei, não posso chegar atrasada! Sete e meia estou saindo!
Fulaninha tentou conciliar asseio com velocidade. Tomou o banho mais rápido da sua vida, passou perfume, um batom borrado, colocou um brinco de cada porque não encontrou um par correto. Seus longos cabelos eram demorados de pentear, então ela optou por um turbante. Vestiu o uniforme da escola pelo avesso e quando saiu do banheiro, ouviu o som do carro indo embora. Ela ainda desceu as escadas correndo, mas só deu tempo de ver o carro se afastando, com seu irmãozinho olhando para ela pelo vidro traseiro, dando tchau e sorrindo.
E agora, o que fazer? A escola não era longe, mas também não era tão perto. Dava pra ir a pé mas levava cerca de meia hora, tempo que ela não tinha. De ônibus seriam apenas dez minutos, mas muitas vezes o coletivo demorava muito mais do que isso para passar, então Fulaninha decidiu não correr o risco e resolveu correr, correr muito para tentar chegar a tempo.
A menina saiu correndo como se a sua vida dependesse disso. Já esteva a um quarteirão da escola quando viu dois dobermans enormes encurralando um gato. Os cães rosnavam e pareciam que iam estraçalhar o bichinho.
— Nossa, esses cachorros vão matar aquele gatinho. Mas eu tô atrasada, ai…
Fulaninha parou, respirou e quando ia continuar sua corrida, ouviu um miado sofrido. Os cães abocanharam o gato.
— Larguem ele!
Ela pegou uma pedra que estava no chão e jogou em um dos cachorros. Errou.
— Droga, esqueci que eu sou muito ruim de mira…
A garota procurou por algo que pudesse achar pra espantar os dobermans e finalmente encontrou um galho de árvore. Bateu nos cães insistentemente até que eles desistiram de matar o gato e foram embora.
Fulaninha chegou perto do gato, que parecia estar machucado. Ela o pegou e no colo e o bichinho começou a ronronar.
— Tá bom amiguinho, não vou deixar aqueles cachorros malvados te pegarem de novo.
A garota voltou para casa, deixou o gato no seu quarto, providenciou água e comida e depois voltou para a escola. Chegou mais de uma hora atrasada e, conforme as normas da escola, teve que esperar até a segunda aula na salinha do castigo enquanto a inspetora gritava com ela.
Enfim chegou a hora da segunda aula. Infelizmente, o seminário que tinha que apresentar era na primeira e ela perdeu. Apesar disso, Fulaninha estava feliz por ter ajudado um animal indefeso. De toda forma ela foi para a sala e sentou na cadeira de costume, do lado da sua melhor amiga Suelensen.
— Que houve com você Fulaninha? Não apresentou o trabalho, logo em Matemática que tu tá ferrada – falou Suelensen.
— Eu tava no caminho mas parei pra ajudar um gatinho.
— Agora eu entendi – a amiga deu um sorriso malicioso – encontrou o boy no meio do caminho e parou pra “ajudar” ele. Isso explica o batom borrado e a roupa pelo avesso…
— Não é isso! – Fulaninha ficou vermelha – tinha dois cachorros tentando matar um gato e eu salvei ele.
— Aff, como você é sem graça, na minha imaginação tinha sido bem mais interessante…
Logo a professora da segunda aula chegou e as amigas deixaram a conversa pra depois.
*****
Depois que as aulas acabaram Fulaninha foi pra casa rapidamente. Queria saber como o gato estava e se seria preciso levá-lo ao veterinário.
Chegando em casa foi procurar pelo bichano e o encontrou dormindo tranquilamente em sua gaveta de calcinhas. Ela deixou de lado a revolta por que teria que lavar tudo novamente e foi ver se ele estava machucado.
— Nossa, aqueles cachorros malvados fizeram um estrago em você, tá até sem pelos tadinho! – ela o acariciou – sua cara tá horrível também, vou te levar no veterinário pra ele te consertar.
— Ei, quem você tá chamando de horrível? – o gato falou, enrugando mais ainda o rosto.
— VIXE, VOCÊ FALA!
Com o susto, a primeira reação que a Fulaninha teve foi chutar o animal com tanta força que ele foi arremessado contra a parede. Logo depois ela se sentiu culpada.
— De… desculpa – ela o pegou – você tá bem?
— Miau, esse chute foi mais forte do que a mordida daquele cachorro…
— Isso não é possível… eu devo estar sonhando.
— Eu sei que eu sou um sonho, mas é a pura realidade.
— Espera, preciso de um tempo pra assimilar isso.
A garota seguiu sua rotina normalmente. Tomou banho, trocou de roupa, comeu, stalkeou o facebook do cara que ela ama em segredo. Depois voltou para o quarto procurando o gato.
— Eu estava certa, foi só imaginação minha. Que bom, você é só um gato feio mesmo.
— Já falei pra você parar de me chamar de feio!
— Então você realmente é um gato falante e inteligente – finalmente Fulaninha se convenceu de que não estava imaginando coisas – mas assim, é só você ou todo gato sabe falar mas escondem das pessoas pra continuar sendo mimados?
— Sou apenas eu. Na verdade eu não sou um gato, sou um príncipe de outro planeta e estou temporariamente preso nesse corpo.
A garota nunca acreditou em alienígenas, mas estava conversando com um gato e ouvindo respostas além de “miau”. Sendo assim, a existência de seres extra terrestres não parecia tão absurda.
— Bem, já te salvei dos cachorros, acho que você já pode voltar pro planeta né.
— Ainda não. Estou aqui pra alertar que o planeta Terra está prestes a ser dominado por alienígenas. Não eu, mas por uma raça predadora chamada golons que passa de planeta em planeta, os domina, esgota seus recursos e depois deixam tudo sem vida. Na verdade, alguns deles já estão entre vocês disfarçados de terráqueos.
— Isso é grave! Você deveria contar isso pro exército, pro presidente, pra ONU, pro Homem de Ferro, sei lá, alguém que possa fazer alguma coisa.
— Ah minha querida, eles não podem fazer nada para ajudar. Mas você pode.
— Como assim eu?
— Só uma coisa pode eliminar essa raça que mencionei, tecnologia do meu planeta natal. Porém, neste planeta, poucas pessoas são capazes de manipulá-la. Estou na Terra há cinco anos estudando sua biologia, costumes e tudo mais e com isso descobri que para sincronizar com essa tecnologia você deve preencher alguns requisitos.
— E quais são?
— Ser mulher.
— Ok.
— Ter entre quatorze e dezessete anos. Aliás, qual é a sua idade?
— Quatorze.
— Estar sempre atrasada pra escola.
— É, eu me atraso bastante…
— Ser péssima com números.
— Sempre me ferro em Matemática. Isso é estranho, minha mãe é engenheira e meu pai é astrônomo, mas não puxei isso deles.
— Ser apaixonada por um homem de cinco anos mais velho do que você.
— Não, eu não gosto de ninguém…
O gato a encarou com um olhar de “fala logo a verdade”.
— Tá bom, tem um garoto sim. Ele tem dezenove.
— Pronto, provavelmente você conseguirá sincronizar com a tecnologia e salvar o seu mundo.
— Parece justo… mas ei, por acaso você não vai me conceder um desejo, depois colocar minha alma numa joia e me obrigar a matar bruxas pra depois virar uma bruxa e outra garota me matar?
— Do que você está falando? Não vou te conceder desejo nenhum.
— Sendo assim tá bom!
— Ótimo! Eu vou ficar morando aqui e sempre perto de você, quando uma ameaça golon surgir podemos testar se você sincronizará ou não.
— Por mim tudo bem, mas sabe que meus pais vão ter que concordar pra você ficar aqui ok?
— É justo.
— Vou te chamar de Bigodin.
— Eu já tenho nome. Sou o príncipe Nee Óbio.
— Sou Fulana de Tao, mas todos me chamam de Fulaninha.
— Agora que já nos apresentamos, preciso te falar mais uma coisa.
— Pode falar.
— Você precisa comprar calcinhas novas. Morango? Ursinho? A maioria delas são grandes e parecem uma fralda, tem uma que está até furada. Tudo bem, até que você é bonita, mas como espera seduzir alguém desse jeito?
Fulaninha ficou vermelha de vergonha e de raiva e depois deu outro chute no Nee, dessa vez propositalmente.
— Idiota!
*****
Horas mais tarde, a mãe e o irmão chegaram. Fulaninha foi logo apresentar o novo morador da casa.
— Manheeeee, sabe o que é…
— Você quer alguma coisa ou vai me contar que fez alguma besteira – disse a mulher.
— Nossa, nem me deixou falar, vai que eu quero contar que tirei dez em matemática?
A mãe e o irmão começaram a rir e continuaram por dois minutos.
— Obrigada, estava precisando rir. Mas então, o que você quer falar de verdade?
— É que… eu salvei um gato de rua hoje, tinha dois cachorros brabos tentado acabar com ele. Posso ficar com ele?
— É mãe, podemos ficar com ele? – o garoto, empolgado, se uniu ao pedido da irmã.
— Sei não… você tem cuidar, lembra do que aconteceu com aquele peixe?
— Isso não conta, eu tinha sete anos – Fulaninha fez bico.
Logo, o gato chegou perto deles, miando.
— Minha nossa – a mãe se assustou – esse gato tá muito machucado, temos que procurar uma veterinária de emergência!
— Fica tranquila, eu já examinei, não está machucado.
— Então porque ele tá desse jeito? – o menino perguntou.
— Ele é feio assim mesmo, mas é bem mansinho, olha.
Fulana pegou o gato no colo. Nee queria arranhá-la toda por chamá-lo de feio, mas precisava da aprovação da dona da casa e começou a ronronar pra manter o disfarce.
— Tá bom, mas vocês também vão precisar da aprovação do seu pai.
Fulana e seu irmão que ainda não inventei o nome começaram a comemorar. A maior barreira era a mãe, o pai costumava ser mais permissivo com os pedidos dos filhos. No fundo a mulher também estava feliz, por mais que pegasse no pé da Fulaninha por dormir de mais, tirar notas baixas, esquecer os compromissos, viver no mundo da lua, tropeçar nos próprios pés, etc etc etc, ela se orgulhava do bom coração da filha.
*****
As crianças estavam certas, o pai concordou instantaneamente com a presença do gato quando foi consultado assim que chegou do trabalho. Todos foram dormir, inclusive a Fulaninha, e ela e Nee não se falaram até então. Porém, no meio da noite, a menina acordou com o gato arranhando o seu rosto.
— Ai, o que você está fazendo?
— Tentei te acordar suavemente mas não consegui, então parti pra violência. Venha, estou detectando uma atividade golon perto daqui.
— Como você sabe? – ela perguntou, sonolenta.
— Meu detector está brilhando – ele pegou com a boca algo que parecia uma bússola, que piscava uma luz verde incessantemente.
— Mas o que eu faço?
—É só vir comigo.
— Mas são – ela pegou seu celular na mesa de cabeceira – uma e quatro da madrugada! Não sei como é no seu planeta, mas na Terra é muito perigoso uma garota sair na rua sozinha essa hora.
— Não se preocupe, qualquer arma terrestre não passa de um brinquedo de criança perto dos equipamentos que tenho comigo. Eu te protejo se algo de ruim acontecer.
Fulana sentiu firmeza nas palavras de Nee, então saiu de casa ainda de silenciosamente para não acordar ninguém. O gato começou a correr e a garota o seguiu. Depois de correrem até chegar a um bairro vizinho, Nee parou.
— Chegamos? Não vejo nada de mais – disse Fulana.
— Espera, olha isso!
O gato apontou para uma espécie de galpão. Não havia placa ou algo do tipo que indicasse do que se tratava, mas logo um grande portão de aço se abriu e dezenas de porcos saíram de lá, andando suspeitamente organizados. Pouco depois um caminhão parou, abriu seu baú e os porcos começaram a entrar espontaneamente no veículo.
— É isso, temos que impedir que levem esses porcos! – falou Nee.
— Peraí, você me acordou no meio da noite pra impedir uma ameaça alienígena e agora tenho que parar ladrões de porcos? – a garota contestou.
— Olhe para a cabine do caminhão e preste atenção no motorista.
Fulana fez o que o gato falou e viu que...
— Um macaco?
— Isso. Temos que pará-lo agora, depois de explicou melhor!
— Ok. PARE AGORA! – ela gritou – VOCÊ É UM MACACO, TEM COMER BANANA E NÃO PORCO!
O macaco saiu do caminhão, enquanto os porcos continuavam entrando.
— Não fui com a sua cara humano fêmea – falou o macaco – além disso, o chefe falou “nada de bisbilhoteiros”, então vou ter que acabar com você.
O macaco deu um enorme salto, caindo bem na frente da Fulaninha. Ela gelou de medo, e agora que estava mais perto percebeu que se tratava de um gorila enorme e extremamente musculoso. Um soco daquele bicho a partiria ao meio.
— Rápido Fulaninha, pegue isso!
Nee Obio se sacudiu igual cachorro se secando e uma bolinha pequena, que parecia um grão de feijão, caiu na mão da garota.
— Isso é um carrapato? – ela perguntou.
— Só segure isso bem forte e grite bem alto “Dê me o poder”!
O gorila bateu nos próprios peitos e em seguida deu um soco na direção do rosto da menina. Ela, muito assustada mas com esperança de se salvar, seguiu as instruções do gato.
— DÊ ME O PODER!
A bolinha escura se transformou em uma pedra do tamanho de um ovo, rosa e muito brilhante. Ele se moveu sozinho até o peito da garota, bem por cima do coração, e suas roupas desapareceram.
— Ei, porque eu fiquei pelada? E de onde está vindo essa música?
De fato, uma música instrumental animada estava vindo sabe-se lá de onde. Novas roupas surgiram sobre a garota: um vestido rosa com detalhes brancos rodado e batendo no meio da coxas, botas rosas abaixo dos joelhos. Seus cabelos ficaram rosas também e acessórios bem fofos surgiram, como luvas brancas, um anel, brincos e uma maquiagem elaborada.
— O que aconteceu?
Ela não teve tempo para assimilar, assim que a transformação terminou, o gorila acertou o soco bem no seu rosto, jogando a garota no chão.
— Ai, isso doeu – ela massageou o rosto e logo levantou.
— Ah? – o macaco estanhou – Um humano fêmea normal não sobreviveria ao meu ataque. Não importa, lá vai mais um.
— Fulaninha, aponte o anel pra ele e grite “super raio rosa brilhante”. – disse o Nee.
— SUPER RAIO ROSA BRILHANTE!
Assim que ela deu o grito ridículo, um super raio rosa brilhante saiu do anel e quando atingiu o macaco o pulverizou, sobrando apenas uma purpurina rosa que foi dispersada pelo vento.
— Deu certo! – ela comemorou.
— Eu sabia que você conseguiria (se bem que você só deu uns gritos que eu mandei).
Logo os porcos saíram do caminhão, correndo em todas as direções e fazendo sons irritantes.
— Agora temos que devolver os porcos pro galpão? – disse a garota.
— Não precisa. Devolver os porcos não é importante, a prioridade é não deixar que os golons os levem.
— Isso não faz sentido.
— Amanhã eu te explico tudo. Agora vamos pra casa.
— Certo. Mas como vou explicar essa roupa? É fofa mas parece um cosplay maluco, e o que aconteceu com o meu pijama?
— Chegando em casa eu te ensino a se destransformar.
*****
No dia seguinte, Fulaninha pôde dormir até mais tarde pois era sábado. Era o dia em que tomava conta do irmão, mas aproveitou o momento em que ele estava na sala distraído vendo Pippa Peg para falar com o Nee.
— O que aconteceu ontem a noite? – ela ainda estava confusa.
— Você sincronizou com o traje de batalha do meu mundo. Isso é difícil, a genética dos terráqueos não colabora.
— Isso eu entendi, mas macacos alienígenas roubando porcos? Como eles vão dominar a Terra desse jeito, vão acabar com o nosso estoque de presunto?
— Quem dera fosse tão simples. Aquele era um golon de baixo nível, logo os mais poderosos vão saber o que houve e mandarão soldados mais fortes. Precisaremos de reforços.
— Como assim reforços?
— Precisamos encontrar mais garotas capazes de sincronizar com o traje, assim como você.
— Super amigas lutando juntas pra salvar a terra – os olhos da menina brilharam.
— Isso mesmo. Descanse por hoje, quando o time todo estiver reunido contarei mais sobre a ameaça golon.
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