Um lugar chamado liberdade
3 Minha liberdade.
Notas iniciais
Chego em casa depois de uma manha bem agitada, destranco a porta e entro. Retiro as varias camadas de roupa e o gorro que uso e jogo junto com a mochila dentro de um armário ao lado da porta, passo a mão pelo cabelo pra ajeita-lo e também pra aliviar a dor da cartilagens acima de minha cabeça. Movo-as para os lados tentando captar sons da casa e ouço um suspiro vindo do andar de cima, retiro o meu tênis coberto de neve e me encaminho para o segundo andar.
Bato na segunda porta do corredor e como ninguém responde resolvo entrar. O quarto esta escuro e alguém se move lentamente na cama todo enrolado nas cobertas, me aproximo com passos lentos e silenciosos, me aproximo e o descubro, vejo meu gêmeo que ainda dorme, passo a mão pelo seu rosto e retiro sua franja do olho. Seu cabelo é mais curto que o meu, mas sua franja cobre metade do rosto, passo a mão pelo seu rosto e retiro a franja do seu olho. Ajeito a coberta sobre o corpo do Uriel e saio ainda em silencio.
Vou até a ultima porta do corredor entrando, me derrubo na cama e a ultima coisa que vejo é o relógio marcando 10:17.
Uriel e eu estamos correndo, é escuro e com muitas plantas sobre nossos pés, ouço passos e arfadas atras de nós. Vejo uma luz a nossa frente que cada vez fica mais próxima. Atravessamos a fonte luz e a escuridão se torna em um belo campo, ao longe tem um lago e uma casa de madeira a sua frente. Ouço varias pessoas la dentro, forço um pouco a vista e de repente tudo que parecia longe fica mais perto. Vejo tudo oque acontece claramente. Homens entram e saem varias vezes, parecem procurar alguma coisa. Minha visão volta ao normal e Uriel que estava até agora ao meu lado começa a correr em direção a casa.
Corro atras dele para impedi-lo. O alcanço e puxo o seu braço, derrubo ele no chão para que não nos vejam e cubro sua boca para que não grite. Ouço coisas sendo jogadas e quebradas, Uriel se debate por baixo de mim querendo se soutar, ele morde minha mão e passa a gritar. Esculto passos rápidos vindo em nossa direção, sinto meu coração bater forte e o mundo começa a ficar mais devagar. Puxo Uriel pra corrermos e como se uma gosma nos impedisse dificultando os nosso passos. Voltamos para a escuridão e o tempo volta ao normal, continuo correndo puxando ele.
Uriel tropeça em uma raiz e cai no chão se machucando, tento ajuda-lo a se levantar mais ele grita de dor, o cheiro de sangue vem até mim como uma onda, meu coração acelera como se tivesse recebido uma descarga elétrica. Ouço alguém vindo, volto a puxar-lo mas ele diz torcer o pé. O som fica cada vez mais alto e mais próximo. Um homem de terno surge e vem pra cima do Uriel e de mim, eu consigo desviar do seu ataque mas ele segura Uriel de um modo que o machuca ainda mais. Sinto o meu corpo esquentar e vou pra cima do homem que se assusta. Tudo fica escuro. Ouço gritos de desespero, sinto o gosto da carne e do sangue na minha boca.
Volto a ver tudo embaçado, depois de um tempo imóvel percebo o corpo do homem, ele esta mutilado, algo que aparenta ter sido feito por uma besta selvagem. Olho para minhas mãos cobertas de sangue e com pequenos pedaços de pele. Olho em volta procurando meu irmão, o vejo encolhido próximo de um arbusto, ele me olha com medo e desespero. Tento me aproximar, mais ele começa a tremer.
Eu me agacho e com cuidado me aproximo dele, ele recua, eu abaixo minha cabeça quase ao chão em sinal de que seria "eu". Ele me abraça ainda tremendo de medo ouço seus soluços enquanto fala o meu nome.
—. . . thanael. . . . NATHANAEL!!
Abro os olhos assustado e quase caio da cama.
—Oque foi?- pergunto assustado.
—Levanta, a janta ta pronta- ele fala levemente irritado saindo logo em seguida.
—Certo.
Me levanto ainda sonolento, procuro minha toalha (joguei ela por aqui). Encontro-a e vou para o banheiro em junção ao meu quarto. Debaixo d'água tento esquecer do que aconteceu hoje, principalmente dessa lembrança que a tanto tempo quero esquecer.
Passo a mão pelo meu cabelo para tentar tirar o excesso de água, oque não resolve pois ele volta a cobrir as minhas costas. Saio do banho com a toalha na cintura e outra sobre a cabeça tento inutilmente secar o cabelo. Deixo a toalha em minha cabeça enquanto abro o guarda-roupa, pego uma camisa branca, uma calça militar forrada e uma boxer azul clara.
Já vestido ajeito a calça para que a extensão que tenho na coluna fique pra fora (não é nada pequena, tenho que enrola-la no corpo pra sair) passo a toalha para seca-la pois os pelos são compridos da mesma cor que meu cabelo. Desço pra cozinha e vejo Uriel ainda no fogão, me aproximo sorrateiramente e o abraço colocando meu nariz em seu pescoço.
—Adoro o seu cheiro.
—Pega pra você.
—Quanto carinho, parece até um cacto.
—Sou uma rosa, bonita, cheirosa, mas cheia de espinhos- Fala com um sorriso. Ele olha pra mim e me da um pequeno beijo nos lábios.
—Agora, mudando de assunto. Posso saber porque você não foi pra faculdade?
Ele me olha por cima do ombro. Fico olhando para oque ele faz no fogão e com um suspiro me afasto indo pra mesa, me sento enquanto Uta desliga o fogo e coloca um omelete no meu prato, ele se senta a minha frente.
—Não vai me falar oque aconteceu?
—Preciso? Porque não quero.
—Precisa, não gosto de ficar sabendo das coisa por ultimo.
—O ônibus pra faculdade foi arrebentado por uma caminhonete e eu salvei um garoto, depois eu o levei pro How's onde a Mika esta trabalhando, depois eu levei ele até a pensão da velha morsa e no caminho pra casa um carro pegou fogo.- falo o meu dia resumido "Tão resumido que pulou a melhor parte".
—Essa neve toda ta destruindo a cidade.
—também acho. Que tal nos mudarmos?
—Que? Pra onde?
—Que tal pra velha cabana?
—E ficarmos isolados de todos de novo? E como fica a Mikail?
—A gente leva ela na bagagem.
—Ela não vai gostar nado de ser empacotada- Fala rindo — Quem sabe um dia.
Terminamos de comer e eu lavo a louça enquanto Uriel a seca. ao terminar vamos pra sala. Eu me estico por inteiro no sofá maior, Uta me olha balançando a cabeça, ele deita em cima de mim de barriga pra baixo, começo a mexer no seu cabelo enquanto ele muda os canais da teve. Ele para em um filme de romance, não demora para que ele comesse a dormir ressonando docemente. O filme acaba depois da meia- noite. Me sento devagar para não acorda-lo, pego o controle e desligo a teve, ajeito Uriel no meu colo e o carrego (como uma criança) até o seu quarto apagando as luzes no caminho.
Coloco-o na cama e o cubro com o edredom, me viro pra sair mas tenho a barra da minha camisa segurada.
—Deita comigo?-Uriel fala em um sussurro
—Ta bem.
Ele se afasta para me dar espaço, ergo a coberta e me enfio debaixo dela. Uriel se aproxima e me abraça se aninhando em meu peito, passo a acaricia seu cabelo novamente e com um leve suspiro ele volta a dormir. Passo a noite em claro guardando o seu sono (isso me lembra de quando eramos pequenos e durante a tempestade ele vinha chorando pra minha cama. Que nostálgico).
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