Notas iniciais
Capítulo 3 para finalizar a história. Boa leitura.

Repassar os últimos acontecimentos lhe causava grande angústia ao mesmo tempo em que parecia anestesiado, completamente fora da realidade. O local da cerimônia estava muito bonito em suas embaçadas lembranças; o cheiro do perfume favorito e as vozes da mãe e da irmã elogiando sua beleza nas vestes de noivo, também. O rosto de seus amigos e familiares preenchidos pelo choque eram a última coisa da qual Gaara lembra antes de um surto que resultou em sua rápida e desenfreada fuga. Ele só queria ficar longe de tudo e de todos, talvez fingir que aquilo foi um sonho do qual logo acordaria, mas levou muito tempo. E ninguém foi capaz de achá-lo pelo o que pareceu ser semanas.

Quando o choque amenizou, ele era de novo o garoto não correspondido pelo amigo de infância. Ou assim soava melhor, já que a realidade de abandonado no próprio casamento ainda parecia cruel demais. Foi para isso que Hinata revelou o segredo que ele tanto queria guardar? Para viver cerca de três anos com a pessoa que sempre amou e depois ser deixado de lado na hora mais importante? Preferia que Naruto tivesse terminado com ele quando Sasuke apareceu falando sobre a paternidade forjada — acreditando ou não, Naruto o perdoaria de qualquer jeito —, ou tivesse dado o fora que esperava quando soube através de Hinata sobre seus sentimentos. A verdade é que nunca imaginou que Naruto seria capaz de enchê-lo de sonhos só para arrancá-los de uma vez. Crueldade não combinava com ele. Ou talvez fosse difícil demais para Gaara admitir que amava alguém assim.

No lugar de desaparecer permanentemente como queria, retornou ao local em que foi feliz por algum tempo, quando acreditava que o relacionamento com Naruto estava dando certo de algum jeito, que tudo seria dali para melhor. Soube entrar no quarto que conhecia bem demais, com um pouco de bagunça reinando sem sua intervenção. Não tinha ninguém por lá na hora, nem ele ficou receoso de encontrar seu ex-, ou Sasuke, ou os dois. Como podiam machucá-lo mais depois de fugirem juntos no dia do casamento? O fato é que não flagrou ninguém, nem quis recolher uma roupa ou outra que sua irmã teria esquecido por lá quando foi pegar as coisas dele. Deve ter levado seus pertences para a casa de sua preocupada mãe, apenas aguardando sua volta. Mas ele não voltaria.

Nem sabia direito a razão de estar de novo no quarto do ex-, olhando fotos antigas e relembrando a vida que tiveram juntos; parece que queria ter certeza que a relação, mesmo a amizade, tinha sido unilateral. Naruto não gostava dele de verdade, apenas era conveniente tê-lo por perto, ter alguém como Gaara gostando de si. Dar-se conta daquilo foi como morrer lentamente. Apesar de tudo, não buscava vingança ou qualquer meio de feri-lo, apenas aceitaria que nem a amizade deles podia ser salva e ficaria longe; estava se despedindo daquele quarto e daquelas fotos — mais uma forma de morte.

Ouviu a porta abrir e logo o dono do quarto passou por ela. As pedrinhas azuis não tardaram a lhe encontrar, até porque Gaara não tentou ocultar sua presença. Continuou onde estava, parando apenas de olhar as fotos para olhar para Naruto.

— Gaara! — a voz que sempre fazia seu nome soar melhor causou algo diferente do costumeiro rebuliço interno nele. Mas não podia negar que apesar de um tempo após o casamento que não aconteceu ainda ficava fascinado com os olhos azuis quase saltando pela surpresa de vê-lo ali.

Naruto veio logo até ele, como que para saber se não era uma miragem. Tê-lo tão animado em sua direção costumava ser uma de suas visões favoritas.

— Você voltou! Que bom! Eu estava preocupado, todos estávamos! — tentou um abraço um pouco desesperado, mesmo para os padrões de Naruto, mas Gaara não correspondeu. Só ficou quieto enquanto ele tagarelava como esperado. — Eu errei com você. Mas pode me perdoar? Foi por isso que você voltou, não foi?

— Não. Para as duas perguntas. — respondeu e se soltou de Naruto imediatamente. Ele estava confuso demais para perceber que Gaara começava a andar para a saída. — Eu só quis voltar aqui porque me traz muitas lembranças importantes, mas já vou embora. Não peguei nada, só quis olhar.

— Espera! Aonde você vai? — o pegou pela mão.

Gaara olhou para a mão desesperadamente agarrada à sua e riu sem saber direito qual era a graça antes de olhar nos olhos de Naruto.

— Não é da sua conta.

Aproveitou o segundo momento de confusão do ex- para soltar-se dele de novo e sair por onde tinha vindo. Mas Naruto logo caiu em si e tentou fazê-lo ficar.

— Eu não tô mais com o Sasuke.

— Já, já vocês voltam. — Gaara continuou andando.

As idas e vindas daquele casal já não o surpreendiam, e nem eram de sua conta. Não era mais melhor amigo e confidente de Naruto para ter que escutar o que o marrento do Sasuke fez até que a reconciliação viesse.

— Não! Eu não quero mais nada com ele! — exclamou seguro do que dizia, como se não fosse sucumbir ao Sasuke mais cedo ou mais tarde.

Em um contexto diferente, Gaara provavelmente acabaria cedendo no momento em que Naruto começou a chorar, antes de mesmo de abraçá-lo por trás para que não fosse embora. A versão de si que se interessaria em saber o que tinha acontecido era só uma lembrança agora. Gaara teve o que queria — se é que queria alguma coisa de fato quando voltou àquele local —, apenas tendo uma certa má sorte por não conseguir sair antes de alguém chegar. Mas o drama de Naruto não era necessariamente um problema, não para Gaara, mas para o próprio Naruto que não estava obtendo o êxito que esperava.

— Eu devia ter me casado com você. — tentou um golpe baixo para capturar Gaara pelas emoções. — Não é tarde demais para você me perdoar, nem para um recomeço.

Palavras bonitas o convenceram da última vez, quando Naruto retornou após um tempo processando a informação de que desde cedo seu amigo o amava em segredo, mas tinha se contentado com a relação fraterna — a única coisa que Naruto suspostamente poderia oferecer. A partir dali, foram praticamente três anos com Naruto dizendo todas as coisas bonitas que Gaara sempre quis ouvir dele, dando esperança de um futuro juntos. Era a sua chance de ser a pessoa sortuda na mira da afeição de Naruto, então venceu os receios e aproveitou.

O tempo lhe mostrou antes mesmo da traição, que seu momento estava passando. Naruto gostava dele, mas não o suficiente. Nunca poderia dizer com precisão o que era que faltava, apenas sabia que nunca o teria plenamente. Gaara era um grande amigo que estava no lugar certo e na hora certa para Naruto. Um jogo um tanto sujo do destino, mas a culpa foi dele em querer viver esse romance unilateral quando teve a oportunidade.

— Eu amo você. — a calma confissão fez com que Naruto entendesse que estava aceitando um recomeço. — Mas você ama o Sasuke. Não importa com quem ou onde esteja, sempre volta para ele. Não quero e nem faço parte disso.

— Foi um erro! Não vai se repetir! — tentou desesperadamente se explicar. — Eu tenho certeza de que você e eu podemos recomeçar, retomar nossos planos. Dá tempo!

Gaara teria rido de como ele tentava se enganar e enganá-lo de uma maneira tão boba. Parecia uma criança convencendo os pais de que não comeu a sobremesa antes da hora enquanto tinha a boca suja e farelos na roupa. Gaara teve pena de si mesmo por não ter sido forte antes, tomando todas as decisões erradas que tinham custado sua amizade com Naruto. O fato de não estar sentindo o que normalmente sentiria enquanto escutava promessas vazias de um recomeço anunciava definitivamente que perdeu qualquer coisa que pudesse ter em relação à Naruto; o tempo se encarregaria de mostrá-lo, não Gaara.

Há muito já tinha passado o momento de arranjar culpados além de si e das decisões erradas, como, por exemplo, todos os romances que lhe fizeram acreditar que Naruto e ele eram possíveis; as fases que estavam passando deveriam resultar no tal do final feliz. A amizade de infância tinha sido maculada quando Naruto não teve a decência de terminar com ele sem fazê-lo passar tanta vergonha no dia do casamento. Nada podia haver entre duas pessoas que cresceram juntas, foram grandes amigas, se a confiança já não existia, e o processo de recuperar qualquer vínculo parecia ser desgastante demais para as migalhas de recompensa que Gaara teria — se conseguisse algo além de frustração. Seu romance foi um fiasco e levou a amizade junto. Restava aceitar que eles nada mais eram que um livro bom com um final ruim.

A reação às fracas propostas de recomeço foi continuar calmo como se nem as tivesse ouvindo. Uma hora Naruto cansou do monólogo e não gostou muito de ser retirado do caminho, sem hesitação por parte de Gaara, que ao contrário de si não choraria.

Notas finais
Uma pena que não teve a repercussão que eu esperava (GaaNaru não é um ship tão raro, mesmo do fandom br), mas eu nunca desisto de uma fanfic. O final era para ser o pior possível, e evitei escrever morte etc. Só o fato do Naruto e do Gaara terem perdido o elo entre eles para sempre bastou para quebrar o coração de qualquer GaaNaru shipper. Obrigada quem leu e até qualquer hora ❤
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!