Gon não sabe disso, mas às vezes sinto inveja ao ver o brilho em seu olhar quando fala de seu pai.

É estranho ele admirar tanto uma pessoa que o largou, sabe? Mas, pra ser franco, eu acho que Gon faria o mesmo. Filho nenhum lhe faria ficar preso num lugar, liberdade corre em suas veias. A mais genuína, por sinal.

Queria poder ver uma tragédia como se fosse um romance também. Mas diferente do seu pai, minha família me prendeu num lugar.

Semidespido e sentindo o frio gelado que saía dos vãos das pedras do calabouço, quando meu corpo não queimava com a descarga elétrica.

Um breu me envolvia e a luz que tanto ansiava era a que me queimava de fora pra dentro. Ficava inconsciente e esperava vê-la no outro dia. Era o meu feixe de luz, o meu amigo.

Por muito tempo tive comportamentos autodestrutivos, foi difícil esquecer o peso das correntes e, quando me sentia bem, eu pensava que havia algo errado.

Eu ainda senti isso ao lado de Gon, que queria explorar e encontrar seu pai, que não havia maldade no seu olhar. Mas o jeito que sua pele me queima é diferente, é como o sol que não chegava debaixo da terra.

Um lugar com cheiro de enxofre e sangue. Úmido e gelado.

Bem, eu acho que passei a ver romance nessa tragédia. Porque assim como o seu pai, se minha família não tivesse feito o que fez, não teria condições de acompanhá-lo e quem sabe encontrá-lo...

Me pergunto que tipo de homem é seu pai, embora eu já saiba a resposta. Sinto que Gon é exatamente igual a ele.

Como eu disse, nada fará com que Gon fique quieto. E eu estarei ao seu lado, porque não há motivo pra me afastar de uma luz tão terna.

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