Um garoto no Mundo Mágico - Ano 2
2 O Pigmento Obscuro
Como é difícil hoje em dia encontrar alguém que faça um sorvete que-não-derrete tão delicioso quanto aos da Dedos de Mel. Infelizmente são raros os doces iguais aos da antiga loja. Bom, ao menos o Beco Diagonal quebra um galho em tanto com essa barraquinha de sorvete.
Sorvetes explosivos nunca foram tão gostosos pelo fato do vendedor só ter pistache, mas se fosse baunilha como esse daqui... Por Merlin! Seria uma gostosura sem igual.
Antes que pergunte o que estou fazendo sentado na frente da Floreios e Borrões com um monte caixa no chão e comendo esse delicioso e refrescante sorvete, peço que se acalme quando souber que acabei de sair da Travessa do Tranco. Bom, logo após Adele ser acertada pelo balaço, Morôni vinha nos avisar que o correio havia chegado, e com isso a lista de materiais. Fora o padrão, duas coisas novas acabaram nos surpreendendo que são: meu Vira-tempo, o qual vinha em uma carta separada e assinada por Dante Bouguereau, chefe dos aurores do Ministério da Magia; e a outra novidade é que haviam distintivos de monitores em três cartas, a minha, a da Alexis e a do Luke. Curiosamente Adele não recebeu um distintivo, o que me deixa imaginando quem seria a monitora da Sonserina... Enfim.
Dante conseguiu me contatar e saber que se tratava do meu Vira-Tempo pois meu nome está gravado nele, só não lhe mostro agora porque estamos em local aberto e atualmente ele é um artefato consideravelmente raro. Pois bem, o Vira-Tempo estava quebrado quando chegou. O auror pediu desculpas por não ter conseguido traze-lo intacto, mas esperava que ainda estivesse funcionando, o que seria muito bom... Diferente da realidade.
Eu pesquisei nas lojas algum local que poderia consertar artefatos mágicos quebrados e me disseram para encontrar uma tal de Scapular na Travessa do Tranco, o que ocasionou em uma busca sem sucesso. Então me indicaram outro comerciante de índole suspeita que, quando eu o encontrei, dizia ser extremamente mais caro o concerto do artefato, além de levar um tempo considerável e que não funcionaria como antes. Uma dica meu amigo, jamais quebre um Vira-Tempo ou tenha ele roubado. Não demorou muito e uma mulher negra com algumas bijuterias nas roupas e braços apareceu e simplesmente encostou a ponta dos dedos na ampulheta que logo se encheu de areia e reparou o vidro. Simples. Sem nenhuma complicação.
Bom, o dinheiro, que era pago antecipadamente, já estava na mesa e a mulher apenas pegou o pequeno saco de galeões. Logicamente uma briga entre os dois começou pelo fato dela ter roubado o cliente (vulgo eu) do outro homem. E com um aceno ela apenas pediu para que eu saísse dali.
O sorvete está acabando... Deve ter mais alguns galeões no meu bolso, qualquer coisa eu compro mais já que tenho tempo de sobra até escurecer.
Uma coisa que ainda está me intrigando é este “livro”. Sem título, totalmente branco com uma espécie de bilhete no inicio. Talvez um livro mágico? Provavelmente, agora a questão era como fazer mostrar o que há escrito nele.
Virei o livro de um lado para o outro em cima da mesa enquanto dava mais algumas lambidas no sorvete.
— “Eu sou a rejeição, a consequência de uma ferida. Posso causar guerra e morte, o fim da vida. Você pode não me querer, mas eu estarei lá; Quando então o seu amor finalmente acabar... Quem sou eu?” – comentava uma voz feminina. – Livros como esses não deveriam estar nas mãos de crianças, Collin, principalmente nas suas.
Logo uma moça de cabelos negros trajando praticamente um vestido e óculos sentou-se na cadeira ao lado da minha, cruzando as pernas e retirando um cigarro do bolso.
— Desculpe... – falei sem entender.
— Profeta Diário. Li a reportagem do que aconteceu no Espelho dos Mortos – acendendo o cigarro, a mulher logo tratou de traga-lo e então expelir sua fumaça. Então a morena desviou seus olhos para o livro em cima da mesa. – Sabe abri-lo, não?
— Sim.
— Então me mostre.
Então levantei a capa do livro no inicio, na pagina que havia o bilhete. Revirando os olhos a mulher levou suas mãos até o bilhete e o retirou, amassando o papel e jogando em um canto qualquer do Beco Diagonal.
— Abra.
Tá... Isso foi meio retardado de minha parte em não ver o que havia detrás do bilhete, que por sinal é aparentemente uma charada:
“Eu sou a rejeição, a consequência de uma ferida.
Posso causar guerra e morte, o fim da vida.
Você pode não me querer, mas eu estarei lá
Quando então o seu amor finalmente acabar
Quem sou eu?”
A mulher deixou a fumaça esvaziar de sua boca novamente enquanto me observava. Eu nunca consegui me acostumar com aquele cheiro. A charada é peculiar, mas não conseguia dizer exatamente do que se tratava. A morte em si? Depressão? Raiva? Bom... Amigo, você sabe o que ela é? Eu tenho algumas ideias, mas... Não sei.
— Sofrimento...? Raiva.
— O que você sentiu quando atacaram o Ministério? – tragou o cigarro novamente.
— Medo... – mirei meus olhos para baixo.
— E quando descobriu que eram mercenários que estavam atacando inocentes apenas para resgatar o Duende?
— Raiva – voltei a olha-la, onde um sorriso formava-se no canto de sua boca.
— E quando mataram sua mamãezinha?
— O que você quer?!
— Se eu for a Valquíria, Collin? Você nunca a viu. E certamente eu poderia querer terminar a brincadeira que começou no espelho dos mortos. Além de que você não pode me garantir que sua família ainda esta viva, já que os deixou em casa – minha boca secou após ela falar. – Sabe muito bem que os Collins são um alvo fácil, principalmente pela relação que há com Luch e os outros docentes... Uma jogada inteligente para tomar Hogwarts.
Qual a necessidade disso? Ela estaria apenas revelando um plano...
— Mas o que você sentiria Collin, se estivesse em casa vendo seu pai e irmãos sendo esquartejados vivos por vários mercenários enquanto Valquíria dança em volta do tumulo da sua mãe em chamas...
— Cala a boca!
O silêncio pairou no ar por alguns segundos. Meu peito estava apertado. Sentia meu rosto queimar e os olhos umedecerem. A morena sorria... Por que ela sorriu? Por que você está sorrindo? Gosta de me ver sofrer? Eu farei o mesmo com você... Não é o que quer, sofrimento?! E farei sem pressa...
— Viu...
Vi o que? Vi que você é Valquíria?! Sim, mas sendo ou não você não entende o que farei contigo... Não há...
— Não olhe para mim como se estivesse com diarreia, Collin, olhe para o livro.
— ...
Mirei os olhos para o livro, o qual revelava desenhos formando-se como se a tinta estivesse deslizando pelo papel. É isso...?
— O ódio é a chave... E a resposta da charada – falou lançando o bagaço do cigarro para longe.
“Além das três maldições”, virando a página pude vislumbrar o sumário, contendo uma quantidade considerável de capítulos, sejam eles com nomes de maldições, animais, encantamentos e etc.
— Horcruxes... Achei que o Ministério proibia a manipulação de artes das trevas.
— Digamos que eu não sou do Ministério... – falou a morena virando seu rosto para o lado oposto e deixando a mostra uma parte de seu ombro por baixo da alça de seu “vestido”, o qual possuía um crânio sendo agarrado por um dragão.
— ... Eu deveria te denunciar.
— Mas não fará isso.
— E o que me impede?
— No que adianta possuir um livro mágico se não pode usufruir de seu conhecimento? – esboçando um sorriso, a mulher levantou-se da cadeira enquanto arrumava seus óculos. – Um dia terá que escolher Collin, e espero não me surpreender quando ele chegar.
Observei a mulher de pé por alguns instantes e logo um homem trajando um terno aproximou-se dela, agarrando-lhe pela cintura de dando-lhe um beijo.
— Desculpe a demora Dillenburg.
— Não se preocupe querido. Estávamos apenas conversando... Coisas do trabalho.
Minhas mãos fecharam lentamente a capa do livro enquanto olhava para o homem, posteriormente coloquei o copo de sorvete em cima dele. Era Mordred... O vice-ministro. Ele está namorando uma comensal?
— Ah sim. Sr. Collin.
— Sr. Feinster.
— Vamos indo? – comentou Dillenburg envolvendo seu braço no do homem. – Se ainda estiver curioso Collin, não precisará de muito para me encontrar.
Dando uma piscadela em minha direção, a mulher começou a caminhar com o vice-ministro.
Eu deveria levantar antes deles sumirem da minha vista e dizer ao vice-ministro sobre a marca da Dillenburg e o livro. Mas... Quantos livros assim você terá a sorte de encontrar? É um conhecimento de algo que nunca vão lhe ensinar... Mesmo que pareça simples.
Tirando o copo de sorvete de cima do livro, abri sua capa e fui até o sumário. As letras estavam começando ficar mais opacas. Movi meus dedos até as ultimas folhas e o abri não muito longe do capitulo desejado. Como poderiam colocar isso em um livro assim...
— O que?! – me espantei vendo o capitulo desejado com as páginas rasgadas. – Não!
Meus olhos rodearam a minha volta após o grito. Espero não ter chamado atenção. “- Não...”, sussurrei. “Horcruxes”, sem páginas ou qualquer outra informação no capítulo. No lugar havia apenas outra mensagem:
“Aqui não cobrinha, não ainda”.
— Merda! – fechei com força o livro.
Contudo não poderia negar tudo isso, era algo considerável de mais para ser jogado fora, não concorda meu amigo? Bom, eu terminarei o sorvete e depois irei voltar para casa. Eu preciso ler isso com mais calma... Será que realmente não deveria ter entregado? O que você acha? É muito arriscado ou errado de mais ter o conhecimento disso? Eu sempre quis algo assim... Na realidade, algo a mais. Mas apenas por curiosidade. Não sei se teria forças suficientes para manipular a arte das trevas, além de que nem tenho habilidade suficiente para utilizar uma varinha... Ah caro amigo. Enfim, conhecimento nunca é demais.
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