Notas iniciais
Mais um capítulo, boa leitura!

A vida de Sofia na França estava sendo bem corrida. Durante a semana ela se dedicava ao estágio pela manhã e de noite frequentava um curso de extensão em história da moda. Na parte da tarde ela aproveitava para repassar a matéria e também para explorar um pouco os encantos de Paris, ainda mais bonita durante a primavera européia. De uns tempos para cá ela se viu interessada em arte e estava fazendo um circuito pelos museus, teatros e igrejas da capital francesa. Esse amor repentino por artes na verdade representava uma forma de trazer o namorado para perto. Admirar um belo quadro, uma escultura ou ver um bom texto no teatro, era uma forma de estar bem próxima do mundo e dos gostos de Sidney. Muitas vezes ela se pegava imaginando os comentários e as expressões que ele faria diante de tais obras. Como a bolsa paga pelo estágio não era muito alta, ela também conseguiu um emprego como recepcionista nos finais de semana em eventos fashions. Ocupar seu tempo era a melhor forma de espantar um pouco a tristeza e o desânimo que a saudade estava lhe causando.

–- Excusez-moi, vous savez où ... – um casal tentou pedir uma informação ao esbarrar em Sofia

–- Oi, pode falar em português! Eu também sou brasileira – falou a loira ao perceber o sotaque e ver o rapaz com a camisa da seleção brasileira

–- Ai que bom – ele disse aliviado – Estou tentando gastar todo meu francês, mas está difícil ...

–- Tive dificuldades também no início, os franceses não gostam de falar inglês e o meu francês era bem capenga – falou Sofia

–- Você está aqui há muito tempo? – perguntou a moça

–- Quase três meses! Vim passar um semestre fazendo estágio em moda. E vocês? – ela indagou

–- Chegamos a pouco e viemos em lua de mel ... A original lua de mel em Paris – riu a mulher

–- Ai não tem lugar melhor mesmo para um casal ... – disse a loira com uma leve melancolia na voz

–- Estamos procurando um bistrô aqui pelas redondezas que nos disseram que é divino, parece que o nome é Fu ... Foguete ... ou algo do tipo – ele falou fazendo biquinho

–- É o Fouquet’s – Sofia riu da tentativa dele – Lá é muito bom, mas tem um outro aqui perto que é bem mais romântico, acho que seria ideal para vocês. Eu e o meu namorado amamos quando fomos lá – ela se recordou de momentos com Sidney

–- Seu namorado é daqui ou veio com você? Nossa que experiência incrível – falou a moça

–- Não ... ele ficou no Rio. Nós passamos o ano novo aqui e isso não faz muito tempo, então cada pedacinho deste lugar me lembra nós dois – ela disse

Os três ficaram conversando mais um pouco enquanto Sofia dava algumas dicas da cidade para os recém-casados

...….................

–- Amor? Me ajuda aqui por favor – falava Anita ao chegar em casa carregada

–- Oi princesa, como você demorou! ... – disse Ben vindo até ela

–- Ué sai do trabalho e fui direto para o supermercado, sou uma “dona de casa” agora! Será que o bonito aí não percebeu que está faltando um monte de produtos, principalmente de limpeza? – ela rebateu

–- Tá bom, mas pra que tudo isso? Nossa casa é pequena ... não estamos mais no casarão não – ele ria da quantidade de sacolas

–- Não tem exagero nenhum, cada coisa que eu comprei tem a sua utilidade e era necessária – ela disse e foi explicando cada item

–- Nossa aquela garota por quem eu me apaixonei cresceu mesmo e se tornou uma mulher ... uma mulher linda, que eu amo. Minha mulher! – ele se aproximou para um beijo

–- Ai para Ben que eu tenho que guardar isso tudo – ela disse amolecida com os carinhos dele

–- Paro não, me desculpe! Antes vem aqui para matar a saudade do seu maridinho, depois eu te ajudo com as compras – ele foi a envolvendo até chegarem ao sofá

–- Marido? – ela falou feliz ao sair do beijo

–- É ué ... de certa forma é o que somos. Eu não preciso de um papel, de um juiz ou de um padre para me considerar seu marido e você minha mulher. Nenhuma convenção pode ser mais forte do que eu sinto em relação você – ele disse

–- Eu também sinto assim – ela concordou – Mais oh! No futuro ... bem lá na frente ... eu quero essa convenção sim tá?

–- Tudo que você quiser – ele disse beijando a aliança que ela usava que foi presente dele nos 18 anos dela

–- Amor! – ela falou enquanto ele fazia uma massagem nos ombros dela

–- Oi?

–- Eu reparei que o Bernardo e a Meg estão meio brigados, ele comentou alguma coisa com você? -- Anita petguntou

–- Não, mas ontem e hoje notei ele meio aéreo -- comentou Ben

–- Eu pensei em fazer um jantar aqui em casa e convidá-los, o que você acha? Podemos fazer algo como foi com a Marcela e o Leo -- sugeriu Anita

–- Ótima ideia, mas só vamos chamar os dois? – ele perguntou

–- A casa é pequena né? Mas pode vir mais gente se você quiser – ela falou

–- Pensei no Daniel para ele não se sentir excluído, ele seria o único da faculdade a não ser convidado – lembrou Ben

–- Mais ele vai ficar num jantar com dois casais? Acho que ele vai se auto excluir do convite – brincou Anita

–- Ai seria opção dele, mas não queria deixa-lo de fora – Ben ponderou

–- Por mim tudo bem! – falou Anita

–- Podemos chamar o Sidney também ... Ai ficam dois casais e mais dois caras saudosos da Sofia – falou o rapaz

–- Para que a minha irmã nunca teve nada com o Daniel, tá! – observou Anita

–- Porque não quis né? Daniel é doido por uma chance

–- Isso pode ser, afinal ele não perdoa ninguém, mas eles não tiveram nada e não tem porque ele ter saudade da Sofia. Mais fácil você fazer companhia ao Sidney nas lembranças saudosas -- ela falou irônica

–- Não começa hein! – ele disse descontente

–- Eu não quero começar nada, desfaz essa ruga ai – concordou Anita fazendo um carinho no rosto contrariado de Ben

–- Mas serinho eu estou me sentindo em falta com o Sidney, meu amigo deve estar derrubado e eu nessa correria do dia a dia tenho dado pouca atenção a ele. Pô o cara é meu brother! – se lamentou Ben

–- Vamos chamar ele sim para elevar o moral dele, ele está bem pra baixo mesmo. A Sofia também está, tenho achado ela bem tristinha nas nossas conversas – lembrou a menina

–- Logo ela que está fazendo o que sempre sonhou, e foi pra lá porque quis. Difícil imaginar isso, ela deve é estar deslumbrada com a vida parisiense, mon' amour -- falou Ben

–- Ela foi porque devia! Não se perde uma oportunidade profissional dessas, mas a saudade está batendo sim. Ela tenta disfarçar, mas as únicas horas que eu sinto empolgação na voz e no olhar é quando ela está falando de moda e do estágio ou ouvindo alguma notícia do “Tosco dela” – relatou Anita

–- Sofia com saudades do “muquifão” essa é boa! – desacreditou Ben

–- Do casarão não ... quer dizer também, mas a família ela sabe que está aqui e que ela não vai perder e nem deixar de fazer parte. Por nós ela tira essa distância de letra, uma conversa por vídeo é o suficiente. O problema é o Sidney – disse Anita

–- Mas esse ela também não vai perder ... nunca perdeu, nem com todas as desfeitas e ofensas. O Sidney ama a Sofia incondicionalmente desde criança e não vai ser agora que esse amor vai acabar -- opinou Ben

–- Eu sei disso, você sabe disso e, no fundo, até a Sofia sabe disso, mas a distância física é muito difícil de lidar. Quando você gosta muito de alguém é quase que impossível você afastar a insegurança por um todo, sempre temos medo de perder ou estar perdendo aquela pessoa, mesmo com a certeza do amor correspondido – falou Anita

–- É ... eu sei bem disso – ele disse se recostando no sofá

–- Que foi? Seu olhar ficou distante – ela falou fazendo um carinho nele

–- Deixa pra lá – ele tentou desconversar

–- Deixa pra lá não! O que está te aflingindo – insistiu Anita

–- Eu me lembrei do medo que eu senti de te perder quando recebi aquela mensagem do Antônio, o que acabou se concretizando. Na verdade eu sabia que eu ia te perder, pior ... que eu ia te deixar. Meu medo maior era por ter que te decepcionar, tanto que eu não conseguia te encarar.

–- Aquilo me incomodou muito, você não era aquele covarde – falou Anita

–- Depois que eu deixei a cabana sem conseguir tirar a verdade do Antônio e com a certeza de que eu iria terminar com você, eu só pedia pro tempo parar, para eu não ter que te encontrar e te magoar – ele falou sentindo um nó na garganta

–- Mas se o tempo tivesse parado, a gente estaria separado do mesmo jeito: você vagando no bosque e eu em casa sonhando com o momento de te ver e sem conseguir contato. Ia acabar ficando muito preocupada!

–- Justamente, você continuaria sonhando e feliz! Já o nosso encontro se tornou um pesadelo. Eu estaria sem você, mas você não estaria sem mim, eu não teria te feito mal. e você teria se mantido com um coração leve, puro e doce -- ele imaginou

–- Só por curiosidade ... O que você está querendo dizer do meu coração agora? -- ela perguntou

–- Você entendeu o que eu quis dizer! O seu coração é lindo ...

–- E todinho seu! -- ela o interrompeu

–- Principalmente isso ... -- ele sorriu -- Mas você sabe que ele foi muito sacrificado. Ninguém melhor do que nós dois para saber por tudo o que passamos – disse Ben

–- Eu também tive muito medo de te perder, principalmente enquanto eu estava pousando de noivinha feliz e você se envolvendo com a minhã irmã. Ela era tão linda e leve ... tão diferente do que eu tinha me transformado -- ela falou se recostando no peito dele

–- Você estava linda gótica, na época não quis falar nada porque não convinha dar força para aquela sua postura -- ele confessou

–- Obrigada ... não convinha mesmo -- ela disse

–- O engraçado é que quando o Sidney me mostrou que a nossa primeira vez estava na internet, eu me senti traído por quem me chantageava, que irônico isso! Depois me senti perdido ao ver o seu desespero, mas de alguma forma eu cultivei uma esperança de que com a revelação do vídeo e no meio daquele caos nós iriamos nos unir novamente -- ele deu um selinho nela -- Quando eu vi que não e a sua descrença em mim, a certeza de ter te perdido foi avassaladora. Que bom que eu estava enganado!

–- Muito, muito, muito enganado .... Nunca, nunca, nunca deixei te amar e te querer -- ela foi falando e distribuindo beijos pelo rosto dele

–- Nunca?

–- Nunca! -- ela afirmou

–- Nem quando você me chamou de monstro?

–- Ai golpe baixo, que lembrança horrível! Nas não, nem aí. E você sabe disso está é fazendo charme -- ela sorriu

–- É que as vezes eu preciso de provas -- ele a derrubou no sofá e se deitou por cima

–- ... Mas então ... eu também fiquei insegura -- ela afirmou

–- Quer beijinho também?

–- Claro que quero ..., mas agora eu vou falar e você vai ter que me ouvir ou ... ou me calar! -- ela provocou

–- Te calo com todo prazer -- ele deu um beijo caloroso nela

–- Acha que eu me senti como vendo você pegar t-o-d-a-s as meninas do colégio? -- ela perguntou ao se esquivar de um outro beijo

–- Sinceramente? – ele devolveu

–- Claro! Não é esse o jogo? -- ela indagou

–- Magoada e muito decepcionada, mas também vitoriosa por ver que eu sai que nem um louco tentando encontrar em alguém alguma coisa que me tirasse do buraco, que despertasse em mim pelo menos dez por cento do que você despertava e no final eu só me afundava mais -- ele resumiu

–- Na verdade eu só me senti magoada, decepcionada e muito enciumada. Gostei da sua perspectiva dos fatos – sorriu Anita

–- Você tem alguma dúvida que eu tinha todas, mas estava sozinho e vazio? O que eu procurava nelas eu nunca ia encontrar ... Eu procurava você desesperadamente -- ele parou de falar e a olhou fixamente

–- Então eu estava pior que você porquê eu nunca te procurei em ninguém, sempre tive certeza que outro Ben não existiria e que sem você eu não teria chances de voltar a ser feliz. Meus conflitos tinham um agravante porque eu tinha certeza que você não me queria mais e eu tentava não te querer também, mas como era impossível eu resolvi desistir de ser feliz – ela confessou

–- A gente está disputando quem sofreu mais? Que brincadeira sádica -- ele gargalhou

–- Tem razão! Mas adorei ver que já conseguimos rir daquele pesadelo -- suspirou Anita aliviada

–- Eu te amo e eu também nunca deixei de te querer -- ele disse

–- Eu também te amo muito ... marido! – ela disse feliz

Os dois se olharam mais uma vez e se entregaram a um beijo apaixonado e lento ... Até que foram voltando a realidade ...

–- Eu me perdi! Porque mesmo a gente começou essa conversa que se transformou num desabafo misturado com verdade e consequência? – ele perguntou

–- Estávamos falando de Sofia e Sidney – ela disse

–- Verdade e também em como eu estou sendo um amigo relapso – se lamentou Ben

–- É tem isso também -- ela sorriu

–- Vou procura-lo e é já -- ele disse se levantando depois de mais um selinho

–- Nada disso, agora você vai me ajudar a guardar as compras -- ela o segurou

–- Fica ai descansando que eu guardo sozinho. Divisão de tarefas, você compra e eu guardo, você cozinha e eu lavo, você me ama e eu te amo ... e você deita e eu te beijo ... e vice-versa -- ele voltou a se deitar por cima dela para um beijo

–- Deixa que eu guardo seu sedutor!

–- Já que você insiste ... Vou lá então -- ele falou

–- Faz isso ... E não se esqueça de o convidar para o jantar -- falou Anita

–- Hoje?

–- Não, hoje vamos comer pizza! Depois do dia de trabalho e da ida ao supermercado estou com zero vontade de encarar a cozinha! Nem como ajudante. Se quiser pode chamar ele para vir comer pizza com a gente -- ela falou

–- Não! Depois deste "jogo" eu quero te namorar muito. Só eu e você -- ele deu um selinho nela já de pé e perto da porta

–- Não demora então -- ela pediu

–- Tá bom, vai ser rápido ... Eu trago o jantar, que pode ser pizza ou algo mais romântico -- ele a beijou e saiu

Autora: Carol

Notas finais
Bom feriado e até o próximo!