Um fio de flores
1 Sangue, lágrimas e flores
Notas iniciais
Boa leituraa e nos vemos lá embaixo.
O vermelho se estendia pelos corpos, se enrolando, esticando, tomando os torsos e almas daquela sociedade em vínculos inquebráveis.
Akai Ito era, com certeza, uma das coisas mais belas que existiam. A lenda do fio vermelho que ligava o mindinho das almas destinadas a se encontrar. Uma história contada para aflorar a crença por amor nos mais jovens. O provir é um mistérios que causa-nos curiosidade excessiva. Mas a lenda do fio, especificamente, chamava muito a atenção e cativava inúmeras pessoas, exalava esperança no encontro de uma alma gêmea.
Porém, Kirishima Eijirou não era como os outros, e isso ele podia afirmar com convicção. Seus sentimentos por essa lenda eram herméticos, afinal, o ruivo falso era uma anomalia da sociedade. Ele, diferente de qualquer outra pessoa, era especial… tinha nascido com o fio cortado.
Sem um futuro alguém para a vida toda, estava fadado à solidão conferida por seu dom… singular.
Ah, claro, como pude esquecer? Kirishima nasceu com uma deficiência, não podia ver cores além de cinza. A única coisa de coloração distinta que entrava em sua visão era proporcionada por sua extraordinariedade, aquilo invisível para todos. Seus fios vermelhos do destino.
O futuro estava ao seu alcance.
Em certa parte de sua vida, foi triste saber que nunca teria uma alma gêmea, bullying não lhe era estranho quando a questão do destino era envolvida. Afinal, ele sabia o de todos, porém o próprio era misterioso, provavelmente inexistente. Conforme o tempo passou e ele percebeu que tinha um dom único, cogitou utilizá-lo para juntar casais, também essa foi a época que tingiu seu cabelo. A infantilidade de dizer que era um “Cupido do fio vermelho” subiu-lhe à cabeça. Ninguém poderia dizer que, para ele, não era divertido e satisfatório ver os outros felizes com os amores de suas vidas.
Só que Kirishima sabia, bem no fundo, e lembrava-se todos os dias, que nunca teria aquele deleite, estaria sozinho, para sempre. Ter consciência disso fazia suas entranhas revirarem. Estaria ele fadado à infelicidade?
Perguntas como essa invadiam sua mente quando não havia com o que se distrair, frequentemente quando sozinho em casa, ou antes de dormir. Era uma rotina que tirava-lhe o sono. Por que com ele? Por que daquele jeito? Kirishima, com certeza, preferiria não poder ver os fios e ter uma alma gêmea — mesmo que sofresse muito para encontrá-la — do que ser amaldiçoado daquela forma cruel.
No entanto, se há algo que Eijirou sabia, era que a vida seguia. Ela não pararia por ele e por seu constante estado de melancolia, logo, o garoto também seguiria em frente, de cabeça erguida. De que adiantava se lamentar? Sorrir e poder alegrar alguém sempre seria melhor, distraia-lhe de regulares demônios internos e pensamentos invasivos.
A vida se tornou pacata, a rotina era sempre a mesma. Isso é, até o fatídico dia em que um estudante novo chegou.
Ele tinha um semblante fechado e enfurecido, com nítidas marcas evidenciadas com seu franzir de cenho. O cabelo era claro e os olhos crepitantes. Apesar de não poder diferenciar as cores do homem, havia algo nele que o atraía. Porém, o carmim do fio que ligava-se a ele, lembrava o falso ruivo de sua fragmentada realidade.
Não poderia ficar com ele também, Bakugou Katsuki — como, logo mais, soube que se chamava — já era destinado à alguém. Se apaixonar não era uma opção. Nunca foi.
Como a primeira impressão é a que fica. A expressão colérica que pendia em sua face no primeiro dia afastou possíveis amigos para o homem. Ele se tornou o que podia denominar como, minimamente, solitário.
Seu humor neurastênico não era exatamente convidativo. Os cortes rudes e grosseiros que saiam-lhe da boca não contribuíam para sua imagem. Poucas semanas e o garoto já escorria pelas bocas das pessoas, como o veneno que elas cultivavam e transformavam em palavras. Bakugou Katsuki, o calouro encrenqueiro… ou melhor, intrigante.
Pelo menos era assim que Eijirou o enxergava. Também por esse motivo que se aproximou com persistência e bom humor. Encarar aquilo como um desafio tornou as coisas relativamente mais fáceis para o ruivo. Não era porque tinha se prometido não se apaixonar por ele que se impediria de cultivar uma amizade.
Como qualquer um que tivesse contato com o menino do dom, sua magnetização natural atraía-o. O modo energético que se portava, a personalidade brilhante e os sorrisos vívidos serviram de objetos de fascínio para Bakugou. Não demorou, então, para que as barreiras baixassem e a simpatia surgisse entre os dois.
O tempo correu e a amizade floresceu, criando raízes nos corações dos dois. O fio se enrolou, formou nós. Kirishima sabia o que aquilo significava. Bakugou estava se apaixonando.
Péssimas notícias, pois com ele não era diferente.
O que deveria se manter apenas como amizade, os sentimentos que ele deveria suprimir. Tudo aquilo vinha em ondas de desgosto. Embrulhar de estômago e, então, vômito. Necessitava de um extravaso. Suas entranhas se contorciam.
E tudo apenas piorou quando o intercambista chegou. Porque Kirishima tinha o poder de ver o destino. E ali estava a outra ponta do fio. O futuro de Katsuki escrito nas estrelas há mais tempo do que se podia contar. E ele sabia, o ruivo sabia que nunca poderia competir com fatos.
Se liga, Eijirou, vocês são apenas amigos.
Quem dera. Como fibras férreas, se sentia ligado e atraído pelo outro homem. A esperança era sua ruína. A solidão era sua melhor amiga, afinal, mesmo que estivesse rodeado de pessoas queridas e amadas, sempre que encarava suas mãos monocromáticas, sem um fio de vida, se sentia desaparecer em poeira e dor. Sua felicidade sempre seria passageira.
E mais uma vez, sorrisos amarelos eram sua maior arma. Olhos profundamente mentirosos, máscara de ilusão, e ninguém nunca perceberia, porque era Kirishima Eijirou. O raio de sol da academia. Não existia algo que o abalasse.
E foi em uma aula que tudo começou a se destruir.
Não fazia tanto tempo que as tosses se iniciaram, talvez um resfriado? Tosses secas seguidas de falta de ar. Não era comum se ver debilitado, não que se importasse tanto, afinal, era apenas uma gripe. Mas foi durante uma explicação de química que a tosse se tornou tão forte, que o professor mandou-lhe para fora de sala, explicando que deveria beber água ao menos.
Mal chegou ao meio do trajeto até os bebedouros e pétalas caíram delicadamente por dentre seus lábios. Eram pétalas de flores.
Seria belo, se não fosse trágico.
Droga.
“Hanahaki Disease é uma doença na qual a vítima tosse pétalas de flores quando sofre de amor unilateral. Iniciando por seus pulmões, flores criam raízes por dentro de seu corpo, apertando, sufocando e fazendo, como uma estratégia de defesa, com que você vomite os corpos estranhos, as pétalas. De acordo com o quão avançada é seu caso, você chega a tossir e vomitar flores inteiras. Até os pulmões serem totalmente tomados por pétalas e os espinhos furem-os em apertos possessivos e cruéis. Você se torna seu próprio jardim cálido de exício”
Era uma doença rara, Kirishima sabia, porque os fios existiam, mas para ele não. Porém o pensamento nunca havia passado por sua mente. A possibilidade… argh.
Frustração não era o bastante para expressar o que sentia. Toda a cautela de anos para quê? Se apaixonar em poucos meses de convívio? Estúpido, estúpido, estúpido.
E as flores caiam mostrando sua fragilidade emocional. Novamente confirmando àquilo que lembrava-se todos os dias. Nunca teria um “final feliz”. Era o preço a se pagar por ter acesso ao destino.
Semeando um jardim de angústias e inseguranças, plantando os mais diversos medos e fazendo florescer frondosos desgostos. Um jardim mental e um jardim físico.
E as flores insistiam em cair com a tosse frequente.
No começo foi fácil esconder com a desculpa de uma doença repentina, mas com os sintomas piorando cada vez mais, Eijirou preciso se ausentar do colégio. Agindo estranhamente aéreo, decidia-se sobre o rumo que tomaria.
E novamente flores caíam como em dias primaveris. Florescendo por seus órgãos e criando raízes do amor em seu coração. O amor podia ser a coisa mais bonita vista, mas era uma faca de dois gumes para o ruivo. Seus sentimentos quando estava com Katsuki eram surrealmente doces, mas seu jardim interno contava o tempo que lhe restava em uma ampulheta de espinhos.
Certo, ele tinha duas opções.
Fazer a cirurgia que retiraria todas as flores e espinhos que se enroscavam e preenchiam seus órgãos, mas perder o sentimento que nutria pelo outro garoto. Ou optar por seguir com aquele amor e definhar em prol dele.
Só de pensar em perder tudo que sentia por Bakugou, seu estômago revirava, mas apenas pensar nele fazia com que o universo aplicasse-lhe uma punição. E as flores voltavam a cair.
Já fazia mais de três meses e respirar era cada vez mais difícil, porém o amor pelo detentor de seus pensamentos era maior. Sabia que se fizesse a cirurgia algo ficaria faltando, um vazio tomaria sua vida e nara relacionado àquele sentimentos voltaria. Porém, quantas mais vezes teria que fazer aquele procedimento? Quantas vezes já não tinha feito? Tinha feito? Não se lembrava, afinal, amores possíveis foram apagados.
E mais uma vez, colocou tudo para fora junto com flores inteiras, em aflição e lágrimas. Seus questionamentos infindáveis.
Sangue, lágrimas e flores.
Um cenário tragicamente poético. A morte finalmente havia o alcançado. A ruína de seu corpo e o florescer que rompia-o em um jardim. “As flores que crescem nas adversidades são as mais belas”.
Notas finais
Comentários e críticas construtivas são sempre bem-vindos
Até a próxima!
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