Um final alternativo
8 Confiança?
Notas iniciais
Não consigo pensar em nada, meu desespero é agoniante. Eu devo... o que eu devo fazer? Me pergunto várias coisas enquanto corro, ainda descalço, por uma rua vazia. Não conheço nada desta cidade, provavelmente um domingo pela falta de movimento. Mas nem penso sobre, tudo que tenho em mente agora é um misto de desespero. O que eu poderia dizer pra ele? Aliás, ele sabia disso ontem? Sabia por que chorei tanto? Por que estava no hospital? Estou fugindo novamente, mas desta vez não fujo de Gon, quero fugir das respostas. Mesmo se eu quisesse perguntar, não conseguiria encará-lo pra obter a verdade. Não depois de tudo que passamos ontem, juntos. Me sinto traído, desde o hospital até aqui ele fingiu não saber de nada?
"Por que ele não me disse que estava com o diário? Por que não me disse a verdade?"
Talvez Gon sequer tenha lido o diário, estava preocupado comigo não estava? Mas ele estava evitando o assunto o tempo todo ontem. Estas perguntas me rodeiam a cabeça com prováveis respostas que não quero ouvir, e cada vez mais perguntas agoniantes.
"Eu te amo"
Me lembro da ultima parte no meu texto. Sinto meu rosto queimar só de pensar nisso. Se ele leu, entendeu meus sentimentos? Talvez não, ele é o tipo inocente que jamais leva uma frase com malícia.
Fico sentado pensando, minha mente viaja sobre milhares de possibilidades. Quando me dou conta... o sol já se foi e sinto meu estômago roncando de fome. Provavelmente estou no meio da tarde agora, o céu está negro com nuvens cobrindo tudo. Gotas de chuva começam a cair devagar, uma a uma, até iniciar uma tempestade forte. Com pouca roupa me encharco logo, mas não sinto vontade de sair do balanço. Meu corpo está gelado e nem tenho forças pra levantar depois de correr tanto. Um pouco de tontura com enjoo, mas acredito que seja falta de comer.
Afinal o quão infantil estou sendo? Eu não fui sincero com ele em momento algum até aqui. Mais que isso, eu fui egoísta e detestável. Que direito eu tenho de preocupá-lo novamente? De usar a palavra "verdade"? Me afastei dele, tentei destruir minha vida sem pensar em nada nem ninguém. Tudo o que Gon fez até agora foi ficar ao meu lado. Ele cometeu erros no passado mas os corrigiu como pode. E ainda parece estar corrigindo, mesmo que sem intenção.
"Você não precisa de amigos... assassinos são sozinhos Kill."
A frase de Illumi ecoa na minha mente enquanto a chuva abafa todo e qualquer som a minha volta. Talvez ele tivesse razão,e agora entendo o porquê. Eu sou uma pessoa destinada a solidão, magoado pensei somente em mim e magoei Gon. Nunca soube lidar com sentimentos, nunca soube sentir algo por alguém. Gon foi o primeiro para mim, em tudo. Na minha mente, sua definição sempre foi luz. Pois Gon realmente iluminou tudo em mim, ele me guiou por onde andava, sempre me salvando. Por mais que tenha o protegido em situações do passado, era ele quem me salvava de novo e de novo. Eu nunca mereci estar ao seu lado, muito menos...
–Você não muda mesmo né?
Me viro assustado, e como sempre me surpreendo pelo óbvio. De pé ao meu lado, agora segura um guarda-chuva e me encara, aparentemente irritado próximo a mim.
–Gon eu... -Ele me impede de falar, se aproxima de mim, pega minha mãe e me puxa com força.
–Você ainda não se recuperou totalmente, e está na chuva sem comer nada. Vamos pra casa! AGORA! — Nunca vi Gon com este tom sério de sermão antes. Ele realmente está irritado.
–Gon espera. — Puxo minha mão e paro, o fazendo virar e me olhar. Não organizei praticamente nada na minha mente, mas me sinto em obrigação a dar uma explicação, mesmo que mínima pra ele — Eu... é que...
–Não li. Estava ao lado do seu corpo. — De tudo que esperava ouvir, isto foi a coisa mais inesperada a sair dele. Sua voz sai clara e firme, vencendo o barulho incessante da chuva — Encontrei você desmaiado rodeado por garrafas de bebida e cartelas de remédio, a primeira coisa com a qual me preocupei foi chamar uma ambulância.
–Então você... você não...
–Voltei depois ao local pegar os poucos pertences que você havia deixado e encontrei somente o diário com sua carteira.
Ele realmente não leu. Gon não sabe mentir, e mesmo que soubesse. Ele não mentiria pra mim. Nunca mentiu e sei que jamais o faria. Sua sinceridade é algo que não questiono. Isso significa que posso explicar a minha maneira. Explicar de uma forma menos desesperada, e deixar tudo claro. Talvez consertar as coisas. entre a gente e manter a amizade que relembramos ontem a noite. Tento falar algo, agora mais calmo e decidido, mas Gon se aproxima de mim em um passo largo e rápido. Pelas suas ações fico na duvida se ele vai me bater ou puxar novamente pra sairmos da chuva, mas ele só para na minha frente, bem próximo a mim. Nos cobrindo com o guarda-chuva, me olha nos olhos sem o mínimo de vergonha como sempre. Por ser centímetros mais baixo, ele ergue a cabeça para me encarar e vejo seus lábios se moverem devagar.
–Killua, eu te amo.
Meus pensamentos são quebrados uma ultima vez e minha mente fica em branco. Meu corpo que antes eu sentia gelado e pesado, agora está quente e sem força alguma. Meu peito bate forte e mal consigo respirar. A chuva para junto com seu áudio, tudo a nossa volta para. O tempo perde o sentido na minha mente agora, e só consigo ter uma unica coisa clara na minha mente:
Gon está me beijando!
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