Era noite quando o celular de Sanji vibrou sobre a mesinha da sala. Ele o pegou, pensando ser Nami ou outra garota gostosa, que não davam a mínima pra ele — por que pensou que poderia ser uma? Não sei —, mas era o seu melhor amigo, Roronoa Zoro.

“Bora ir ao cinema?”

Olhou ao redor depois de visualizar a mensagem, como se estivesse fazendo algo suspeito, mas se lembrou de que estava vivendo sozinho naquela casa e ninguém iria julgá-lo. Aprontava tanto que se tornara hábito olhar em volta antes de fazer qualquer coisa. Aliás, naquele dia se completariam 7 dias que Zeff estaria desaparecido e Sanji pensava se devia ir na delegacia ou não, informar o desaparecimento do tio e tals, mas a imagem do delegado Smoker o fazia mudar de ideia rapidamente. Aquele era um homem assustador — não que seu tio não fosse um também.

“Marimo, estou meio triste... o velhote de merda ainda não retornou.”

“E você se importa?”

“Credo! Só estou dizendo que sinto falta!”

“Você nunca se importou com o senhor Zeff, tu só não quer ir, apenas diga. Flw.”

Sanji revirou os olhos, entendeu que nem o asno do seu amigo via alguma empatia vindo dele. Pior que Sanji só estava encenando mesmo, nunca ficou triste por Zeff e até mesmo já desejou que o velhote desaparecesse, por que iria reclamar?

“Ele moldou meu caráter.”

“Ô, sobrancelhas, não force algo que não é e venha me buscar.”

“Não me dê ordens!! E nem fale de um jeito como se pudesse desligar o telefone no gancho a seguir!!! Mas me aguarde lá fora........”

Sanji subiu as escadas correndo para tomar um banho, era o terceiro do dia e pensava se Zoro tomaria um, porque era nos sábados que o marimo costumava tomar banho. Esperava que ele não se esquecesse e vestiu uma blusa estampada com uma calça jeans e nos pés um par de all star surrado. Pegou as chaves e foi até a garagem atrás do carro, era o único que dirigia porque Zoro não conseguira ganhar a carteira devido ao seu péssimo senso de direção. Era mesmo um asno e antes de entrar no carro, Sanji deslizou no capô enquanto pensava “Como sou foda, eu tenho um carro!”

E o carro nem era um esporte e nem nada, era um Fiat Uno.

Viu Zoro na calçada e parou o carro. — Entra, marimo!

— Qual é. — Cumprimentou Zoro, sentando no assento do carona. Sanji tirou o cinto de segurança e já foi logo se inclinando para o seu lado, deixando-o super confuso até compreender que seu amigo simplesmente estava o cheirando. — Eu tomei banho hoje.

— Ah! — Exclamou feliz e voltou a colocar o cinto. — Aposto que foi o lembrete que coloquei no seu celular que te lembrou, né?

Zoro revirou os olhos e não respondeu, nunca admitiria que foi o lembrete idiota que o avisou, senão Sanji não pararia de tirar vantagens. Resolveu procurar por uma música decente no rádio, ele sabia que no pendrive de Sanji só havia divas.

— Ah... isso sim é música boa. — Parou na Sprite Roxa de Raffa Moreira.

— Nossa, eu também gosto.

O carro seguiu com os dois acenando a cabeça pra cima e pra baixo, como se fossem dois gangstars num carro esporte com som turbinado e não num Fiat Uno. E gangsta fez Sanji pensar que era quase um, por conta dos “latrocínios” que já fizera, com isso se lembrou de Smoker e depois de Zeff.

— Ai! — Tirou uma mão do volante para levá-la até a cabeça.

— Que foi? Teve uma lembrança ruim de algo que aconteceu há mais de 5 anos e ninguém mais se lembra? — Perguntou um Zoro preocupado.

— Quê?! Não! Eu só pensei no Zeff.

— Ué? Você estava sério àquela hora?

— Àquela hora foi encenação, mas agora me bateu uma saudade e... marimo, será que ele me deixou por que eu dava muito trabalho?

— Ah, com certeza.

— Vai se fuder!

Entraram na sessão do cinema com pipoca e refrigerante, além de trocar algumas ofensas e uma pessoa pedir por silêncio. Durante o filme, Sanji viu Zoro puxar um cantil metálico por debaixo da jaqueta. Aquele infeliz aproveitava o escuro do cinema para beber escondido das sentinelas! Até porque era o único jeito pra ele ficar acordado até o final do filme. Bufou, em outros tempos pediria um pouco, mas agora Sanji não tinha mais vontade de fazer coisas erradas. O aperto que sentiu no carro não o deixara, na verdade, seu peito estava mais apertado. O filme também não ajudava, era sobre um garoto de sua idade que brigou com o pai e que no final provavelmente descobriria que ele o amava. Sanji começou a chorar sem perceber, mas sentiu algo apalpar o seu “colo”.

— Opa! Desculpa, eu queria pegar na sua mão. — Ainda se encontravam no escuro, mas Sanji sabia que o marimo estava com o rosto vermelho de vergonha.

— Pra quê, idiota?

— Estou ouvindo você chorar.

— E você pega no meu saco?

— Pô, já disse que queria pegar na sua mão.

Sanji parou alguns instantes para pensar, pegar a mão de outro homem também era algo deveras estranho. Mas estava tão frágil e ele sabia que a mula do Zoro não tinha maldade, que acabou apertando sua mão fortemente.

— Obrigado, marimo.

— Não há de quê.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!