Um estudo em Flores
2 Banheira de sangue
Notas iniciais
Sua primeira opinião do dia surgiu logo pela manhã quando o som da campainha a acordou. Abrindo minimamente os olhos checou o celular e resmungou ao ver que ainda nem passava das sete. Pensou em ignorar, mas qualquer que fosse o ser humano do outro lado da porta, era insistente e a cada som insistente, surgia um pouco mais de raiva em Joan Watson. Quem seria louco de bater em sua porta naquele horário? Não era Sherlock, pela falta de afeição entre eles, o consultor provavelmente mandaria mais uma de suas mensagens abreviadas ou, em uma urgência, ligaria.
Então, completamente isenta de paciência, levantou-se e atravessou o corredor em passos largos e pesados, os xingamentos surgindo livremente em sua mente e a raiva se concentrando em seu olhar. E foi esse mesmo olhar que fez o homem do outro lado da porta recuar quando a mesma foi aberta.
— Espero que seja importante — saudou descortês.
— Desculpe senhora Watson, mas disseram que é urgente.
Ela o analisou, pasma. Era um entregador, um entregador de flores.
— Flores? — questionou descrente — Uma entrega urgente?
— Eu só obedeço ordens — ele deu de ombros entregando as flores e uma carta para ela — Tenha um bom dia senhora.
— Senhorita — ela corrigiu enquanto fechava a porta.
Franziu o cenho para o buquê incomum que agora estava em suas mãos, pequeno e contendo apenas cravos roxos. Colocou-o sobre a bancada da cozinha e abriu a carta com cuidado. Havia apenas um bilhete dentro.
"Mesmo em um bosque de assassinos surgem flores,
Mas nem por isso se esquecem das dores.
B."
Não tinha certeza do real significado daquele bilhete ou de sua conjunção com as flores, mas seu melhor palpite dizia que se tratava de um engano. Um grande engano. Era melhor acreditar naquilo a ter que ouvir seus instintos gritando que havia algo errado.
Abandonou as flores e a carta sobre a bancada e decidiu se arrumar, uma ideia surgindo em sua mente. Em consequência disso permaneceu alguns minutos fitando seu celular sobre a cama, tentando tomar uma decisão. Ligar ou não ligar para Sherlock?
— Quero acompanha-la nas próximas vezes.
— O quê? — ergueu os olhos para ele, confusa.
— Isso parece importante para você, de alguma forma. Eu quero entender o motivo... sentir isso.
A lembrança a fez decidir. Não importava a quantidade de vezes que Sherlock a magoara ou era grosseiro sem motivo, Joan sabia que conseguira uma façanha quase inédita. Ela o mudara, de alguma forma conseguira isso e não podia desistir totalmente dele agora, mesmo que estivesse com raiva.. ou com medo.
Bufou e alcançou o celular, discando o número rapidamente antes que desistisse.
Ele atendeu no segundo toque.
— Watson?
— Sherlock, acordei você? — questionou por educação, sabia que ele não estava dormindo, tanto pelo tom de voz quanto por conhecer os horários dele.
— Não, não — Sherlock negou rapidamente — Apenas não esperava por uma ligação sua.
— Liguei para fazer um convite.
— Um convite?
— Vou visitar o túmulo do meu paciente hoje, por algum motivo você disse que ia me acompanhar algumas vezes. Então... preciso saber se esse costume permanece ou se acabou junto com nossa parceria.
Fechou os olhos instintivamente, repreendendo-se. Ligou com uma meta de educação consideravelmente alta e lá estava ela sendo grosseira novamente por um evento que já deveria ter superado. Mesmo assim engoliu seu pedido de desculpas.
— O costume permanece — ele respondeu depois de alguns segundos em silêncio.
— Certo, precisa de carona?
— Se não for muito incômodo.
— Nenhum, pego você em meia hora.
Desligou antes que ele pudesse falar mais alguma coisa e se apressou antes que sua própria mente a sabotasse. Não morava tão longe do Sobrado, então não se preocupou quando entrou no carro com a metade do prazo que dera.
Por algum motivo o céu nublado a fez lembrar-se das flores roxas na bancada do seu apartamento, o bilhete incomum ao lado, largado de qualquer jeito. Essa lembrança lhe causou uma sensação estranha e por algum motivo tudo lhe pareceu estranho ao seu redor, tudo parecia errado. Por breves instantes achou que o olhar do policial da esquina a seguia mais do que o necessário e em outro momento achou que uma mulher, sentada no banco de uma praça, estava tirando fotos suas. Depois de tudo o que passou devia, finalmente, estar paranoica como Sherlock.
— Bom dia — ele saudou entrando no carro.
— Bom dia — ela respondeu sem fita-lo.
— Está tudo bem? Parece distante.
— Estou bem, só acordei com o pé esquerdo hoje — Joan respondeu alheia ao olhar preocupado dele, focada em chegar ao cemitério o mais rápido possível.
Afinal precisava de um chá, não de mais questionamentos.
***
Joan suspirou e se ajoelhou diante da lápide, sentando-se sobre a grama verde e úmida. Aquela visita ocorria pelo menos uma vez por ano, duas quando os momentos ruins de sua vida se tornavam muito ruins. Era a segunda vez que estava ali e ironicamente as coisas não estavam tão ruins, os pesadelos não voltaram e seu medo irracional estava quase silêncio, ela estava apenas confusa e precisando relembrar seus dias antes daquela morte. Antes de matar seu paciente, Gerald Castoro.
Era estranho como algo acidental podia se transformar em uma tragédia que mudaria tanto sua vida. Medicina não era qualquer área e muito menos uma rápida, foram anos para se formar, mais anos como residente, mais anos para conseguir alguma experiência e consequentemente alguma reputação, então em um mês tudo mudou. Não foi decisivo, mas um mês foi o suficiente para fazê-la repensar todas as suas escolhas. Estava bem como acompanhante sóbria e não se preocupou com outra coisa até seu primeiro mês ao lado de Sherlock Holmes.
Devia se preocupar com o poder que ele tinha sobre sua vida?
Como Sherlock conseguira mudar tanto sua vida?
Tinha até medo da resposta. Talvez estivesse sob um tipo de hipnose desde o primeiro dia, quando olhou em seus olhos pela primeira vez. Qualquer coisa era possível e preferia nem pensar nas possibilidades.
— Podemos ir?
— Qual o motivo da pressa? — perguntou sem se mexer.
— Temos um caso.
— Temos? — Joan questionou franzindo o cenho.
Não era segredo que qualquer que fosse a relação que existia entre eles, esta estava no mínimo fragilizada. Sherlock tentava ser gentil e, no processo, concertar um erro que pouco compreendia. Mas Joan estava cada vez mais decidida a manter seus caminhos separados. Afinal, ele que tinha ido embora e não entrara em contato durante meses, ou melhor, dois anos. Dois anos que mudaram tudo.
Por que mesmo o convidou?
— Se você concordar em me ajudar, é claro — Sherlock completou inquieto.
Joan suspirou e colocou as flores sobre o túmulo, em seguida se levantou.
— Acha mesmo que precisa da minha ajuda?
— Por favor Watson.
Concordara em ajuda-lo, claro que sim e duvidava se algum dia conseguiria negar ajuda ou qualquer coisa a ele. Então enfiou as mãos nos bolsos de seu sobretudo, aceitando silenciosamente sua incapacidade de seguir sua vida sem ele.
— O que temos?
Sherlock hesitou em responder e Joan estranhou isso. Sentia que o ex-parceiro tinha muito em mente, palavras que sempre lutavam para sair, mas que estavam presas atrás de um orgulho muito espesso para ser ultrapassado.
— Um corpo em uma banheira.
***
A casa era imensa e com certeza pertencia a um dos novos milionários de Nova York, não só pelo tamanho ou detalhes, mas principalmente pela quantidade de policiais e reportares do lado de fora. Havia tantas câmeras e curiosos que ela e Sherlock precisaram de ajuda para atravessa-los e chegar inteiros até o Capitão Gregson.
— Parece que a informação se tornou pública — Sherlock concluiu escapando de um microfone que veio em sua direção em mãos desconhecidas.
— De quem é a casa? — Joan perguntando quando se aproximaram do Capitão.
— A mansão pertence a vitima, Willem Sattler.
Joan parou na batente da porta, surpresa com a informação. Estava certa no final, a casa pertencia a um milionário. Conhecia Willem Sattler, não pessoalmente, mas através dos jornais e principalmente pela televisão. Era o dono da Sattler Prime, uma das maiorias empresas de tecnologia do país e de reconhecimento mundial. Era plenamente possível aquele homem ser socialmente mais famoso que a Madonna.
— Toda a ajuda é necessária — murmurou para si mesma.
Subiram as escadas em silencio, passando por uma mulher chorosa que estava sendo consolada na sala de estar. Era a Sra. Sattler.
— A esposa chegou em casa por volta das oito da manhã — Capitão Gregson informou enquanto os guiava pelo corredor — Disse que a porta estava trancada e achou que o marido estava dormindo, quando não o encontrou no quarto e não ouviu respostas, chamou os seguranças, mas ela mesma o encontrou no banheiro do corredor.
A porta do banheiro foi aberta e o primeiro cheiro que Joan sentiu foi o de sangue, muito sangue.
— E onde ela passou a noite? — questionou Sherlock se aproximando da banheira.
— Disse que estava em Newark, visitando o irmão doente. Estamos verificando.
Joan engoliu em seco e hesitante, se aproximou da vitima. Sattler agora estava no chão do banheiro sobre um plástico da pericia, mas a banheira ainda estava cheia com a água escura de sangue.
— Um dos seguranças o tirou da banheira, achando que poderia estar vivo — Gregson complementou.
O corpo estava coberto por longos e profundos cortes, pelo o que via Joan poderia apostar que foram feitos com o homem ainda vivo.
— Minha teoria é que alguém o paralisou, fez os cortes e o deixou sangrar até a morte dentro da banheira — Sherlock sugeriu agachando-se ao lado dele.
— Nenhuma pista ou suspeitos? — Joan questionou ainda analisando o corpo.
— Nada — Gregson respondeu resignado — Sem sinais de violência ou de alguma luta, a porta não foi arrombada e não há nada nos vídeos de segurança. Os seguranças disseram que ficaram por aqui a noite toda e não viram ou ouviram nada.
— Tem que haver alguma coisa, sempre há — Sherlock insistiu se levantando — Vou olhar pela casa. Watson?
— Vou ficar com o corpo e o banheiro — ela respondeu sem hesitar e sem encará-lo — Alguém pode dar um jeito na banheira?
Não esperou por uma resposta e colocou as luvas de látex, preparando-se. Mesmo tendo o titulo de Doutora em Medicina na sua ficha, geralmente não analisava o corpo na cena do crime e se juntava ao Sherlock na busca de pistas deixadas para trás. Mas naquele dia um pensamento incomum a impediu, uma única pergunta.
Por que mata-lo daquela maneira?
Willem Sattler com certeza tinha seus inimigos. Sócios irritados, donos de empresas concorrentes, contratos que deram prejuízos demais para alguém ignorar. Mas cortá-lo daquela maneira não era um ato raivoso ou descontrolado, muito menos impulsivo. E pela falta de vestígios se tratava de um ato previamente planejado. Que motivo faria uma pessoa cometer tal crime?
— Algo errado? — Capitão Gregson questionou.
Joan piscou para manter o foco e olhou em volta. Sherlock não estava mais ali.
— É precipitado achar que o motivo do crime pode ser... vingança?
— Nunca é precipitado — ele respondeu sincero — Mas porque acha isso?
— Os cortes... — Joan indicou os cortes do peito e do braço — Não parecem feitos aleatoriamente. O assassino intercalou os cortes, lado direito... depois o esquerdo, quase no mesmo sentido e em todo o corpo. Praticamente um padrão. Sugere um ato lento e Sattler não se mexia, sequer estava amarrado. Não há marca alguma.
— Acha que vamos encontrar alguma substancia paralisante?
— Certo... ajude-me a virá-lo.
Com extremo cuidado ambos viraram o corpo, encontrando o mesmo padrão de cortes em suas costas. Em seguida Joan analisou a cabeça e a nuca.
— Não há nenhum hematoma indicando que ele foi apagado, então minhas apostas estão nessa paralisia.
— Vou apressar os exames — Gregson afirmou enquanto chamava um dos policiais.
Não perdeu muito tempo procurando pistas pelo banheiro, estava claro que não havia sangue ou vestígios por ali, e alguns minutos depois confirmou sua teoria quase absurda de que o assassino poderia muito bem ser um fantasma. Era sempre bom manter a mente aberta, não era?
— Encontrei algo no quarto — revelou Sherlock surgindo na porta do banheiro. Então ergueu um pedaço de papel que estava em suas mãos e o leu — Diga-me o que tem feito e direi como será assassinado. Lembre-se que só pede perdão quem um dia já foi mal-intencionado.
— Parece uma ameaça — Joan comentou.
— Tenho certeza que é uma, só não compreendo o motivo ainda. Capitão, precisamos de um histórico bem detalhado do Sr. Sattler. Não tem assinatura, só uma letra. B.
Joan imediatamente o olhou, os olhos arregalados e o cenho franzido de surpresa. Não poderia ser coincidência.
— Espero que não seja mais um desses assassinos psicopatas — comentou Capitão Gregson em tom cansado.
— Assassina — Sherlock corrigiu, virando-se para Joan — Pela letra é uma mulher. Reconhece a mensagem Watson?
Ela pigarreou para clarear a voz, sabendo que não poderia escapar de uma pergunta como essa. Não com todos os olhos virados para ela.
— Reconheço a letra — respondeu sincera — Hoje de manhã recebi flores e um bilhete. B era a assinatura.
Foi a vez de Sherlock franzir o cenho, aproximando-se dela.
— E não ia me contar?
— Não achei necessário, poderia ser um simples engano. Ainda espero que seja.
— E o que tinha escrito no bilhete?
***
Joan respirou fundo e fechou a porta atrás de si. Estava cansada mesmo que o dia tivesse sido quase completamente inútil. Um homem mergulhado em seu próprio sangue dentro de uma banheira, sem vestígios e sem suspeitos, tudo o que tinham eram câmeras inúteis, seguranças distraídos e uma esposa traumatizada incapaz de falar qualquer coisa.
E tudo o que podia fazer se resumia em esperar. Esperar os resultados dos exames, esperar o resultado da autopsia, esperar que Sherlock e sua nova parceira, Kitty, consigam encontrar algo relevante na vida agitada que Sattler teve.
Ah sim, Sherlock.
Ligou a televisão apenas para extinguir o silencio agoniante do apartamento, sabia que a programação não fugiria do esperado: um documentário ou uma longa entrevista sobre como o grande nome milionário morrera tragicamente aos 36 anos e como ele revolucionara uma tecnologia que nem conseguiam compreender direito. Provavelmente se irritaria com a repetição disto nos próximos dias, mas ainda era melhor do que a sufocante obrigação que ela sabia que viria. A mídia não pararia até o responsável pelo crime ser preso.
— Estão em cima da bancada — informou enquanto abria as cortinas.
Cruzou os braços observando Sherlock ler o bilhete e em seguida olhar as flores mais de perto. A testa dele enrugava a medida que surgia um novo pensamento, complementando ou descartando o anterior, e o olhar passeava rapidamente do bilhete para as flores e das flores para o bilhete.
— Não sei se compreendo muito bem as palavras desse bilhete, mas tenho quase certeza de que há um significado nessas flores — ele revelou no fim.
— Por que pensa isso?
— Não acha a escolha de flor um pouco incomum? — Sherlock questionou, passando suavemente os dedos sobre as pétalas roxas — Cravos roxos não são como rosas ou lírios, tampouco são usadas como um buquê completo. Um aqui, outro ali e é o suficiente.
— O que tem em mente? — Joan questionou indo até a geladeira para servir qualquer liquido que encontrasse lá dentro.
— Os mais apaixonados por flores não presenteariam um amigo com estas flores e sabe o porquê? Cravos roxos simbolizam, acima de tudo, solidão.
— Então... aceitando que isso não é um engano ou uma coincidência, devo acreditar que alguém quer me mandar um recado? E no caso, esse alguém seria a suposta assassina de Sattler?
— Exatamente — Sherlock concordou pegando o buquê — Estou confuso quanto ao que você dever fazer com as flores, isto e os bilhetes podem ser tudo o que temos da assassina...
Em algum momento Joan parou de ouvir, não fez por mal ou por implicância, apenas perdeu o foco quando percebeu o que ficara na bancada. Ali, onde segundos antes estava o buquê embrulhado havia um risco vermelho, como se alguém tivesse passado um dedo ensanguentado.
— Sherlock...
— O quê?
Notou que ele se aproximara rapidamente, talvez pela expressão assustada que ela provavelmente tinha.
— Parece sangue.
— É sangue — Joan confirmou com firmeza. Reconhecia sangue de longe — É melhor avisar o Capitão...
— Silêncio — Sherlock pediu, interrompendo-a.
Joan o observou caminhar lentamente até o corredor e se aproximou, olhando para o mesmo ponto que ele fitava no chão. Havia mais, mais uma mancha de sangue e outras, formando um caminho pelo corredor.
— Ainda pode estar aqui — ele sussurrou se adiantando para seguir a trilha.
Ela queria voltar e encontrar seu celular, ligar para o Capitão Gregson ou pelo menos para o porteiro, mas aquela era sua casa e Sherlock já estava se arriscando sem ela. Então ambos seguiram em silêncio pelo corredor até o fim da trilha, a porta do banheiro. Eles se entreolharam antes de Sherlock assumir e abrir a porta com cautela, temendo que realmente houvesse um assassino ali os esperando.
Mas só encontraram sangue. Joan arfou com a cena, parecia que estava revivendo o momento que entrara no banheiro de Willem Sattler, a única diferença era a ausência de um corpo e a viscosidade do que tinha na banheira. Na sua banheira, quase transbordando, havia apenas o puro e espesso sangue.
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