Um estrangeiro em Paris
34 Epílogo
Milo e Camus caminhavam de mãos dadas ao longo das brilhantes e coloridas ruas da capital japonesa.
Era o segundo ano consecutivo em que os membros da diversa família se reuniam no apartamento de Hyoga para o natal. Devido às restrições impostas pelos pais do namorado do caçula, a solução mais simples para manter a unidade do grupo era repetir os planos do ano anterior.
O casal de andarilhos parou no sinal fechado para pedestres, sitiado pela multidão que aguardava sua vez. O asfalto escuro brilhava com as poças remanescentes da chuva que havia caído ao fim da tarde, tornando o ambiente ainda mais expressivo.
O curto dilúvio de inverno também havia trazido consigo um vento frio e constante que se recusava a deixar a metrópole. A corrente de ar fazia com que Milo se apertasse ainda mais contra o namorado, ganhando um afago nos cachos sob o gorro de lã como resposta automática.
— Só mais alguns quarteirões e chegaremos. – O francês disse enquanto checava o céu noturno, parcialmente ofuscado pela infinidade de luzes multicoloridas que emanavam dos anúncios nas superfícies dos prédios.
Pouco tempo depois o sinal se tornava verde e ambos eram envolvidos por uma horda de locais enquanto atravessavam uma avenida sem fim. Milo apontava discretamente para as atrações que cercavam o centro da capital japonesa e Camus se deleitava com o divertimento do namorado. O ruivo ria dos comentários maravilhados e pontuava vez ou outra nos assuntos que o grego naturalmente conduzia.
— Mas é sério, se ela reclamasse mais uma vez que eu estava escrevendo na cafeteria eu iria...
— Chegamos! – O francês o cortou, parando em frente a uma porta pequena que não aparentava levar a lugar algum – E não, você não faria nada além de guardar o notebook e reclamar comigo quando chegássemos em casa.
— A audácia! – Exasperou-se.
Os cantos dos lábios finos do ruivo se curvaram para cima. Milo prosseguiu depois de esboçar uma expressão de pura reprovação.
— Tem certeza? – Olhou para a fachada sobre a porta com desconfiança enquanto ajeitava o gorro cinza, empurrando com o indicador os cachos fugitivos para debaixo da lã.
Camus retirou o celular do bolso frontal de seu sobretudo e verificou rapidamente a tela, confirmando com um aceno.
— Vamos entrar? – Sugeriu com a mão livre espalmada na superfície fria. Ao receber um murmúrio positivo do grego, empurrou a pequena porta com os dedos desnudos, revelando um cofre repleto de tesouros.
A loja era muito maior do que ambos poderiam imaginar, mesmo após terem recebido de Shun uma descrição detalhada sobre as preciosidades que ali continham. Havia lembranças de Tóquio para turistas desinformados, artigos religiosos, artigos históricos e, ao mesmo tempo, estantes abarrotadas de livros. Todos os gostos eram bem-vindos, desde literatura clássica até longas edições de quadrinhos diversos. Como se essa coleção de produtos não fosse suficiente, havia ainda camisetas personalizadas, videogames e pelúcias próximas ao caixa.
Camus, em sua busca pelo aprendizado da cultura nipônica, comprou romances com traduções diretas para o inglês e um pequeno livro de poemas escrito em caracteres silabários. Milo, por sua vez, havia realizado uma compra mais heterogênea, contendo livros, jogos e uma pelúcia do personagem Totoro, a qual deixou a loja sob um de seus braços.
De dedos entrelaçados, ambos prosseguiram distraidamente com o turismo a pé. Se depararam após alguns quarteirões com uma rua longa e estreita, coberta por lanternas e tendas sobre os bancos externos aos restaurantes ainda abertos.
Escolheram o local que possuía o melhor aroma e Milo sorria enquanto Camus explicava com empolgação o que eles estavam comendo. O francês seguia imerso em seus estudos sobre o país, fazendo pequenas observações enquanto visitavam os locais programados. Porém, nenhum tema o fazia falar tanto quanto culinária. Nestes momentos o grego apenas se sentava e observava com carinho o entusiasmo que o namorado exalava.
— Você reparou que no último ano você está muito mais tolerante com coisas que não foram feitas no nosso apartamento em Paris? – Pontuou, contente.
— Você tem que provar isso. – Ignorou o comentário enquanto se inclinava para lhe oferecer comida. Naquele instante, alimentar o homem a sua frente com o melhor que o Japão poderia oferecer era seu único objetivo.
— Camus, desse jeito eu não vou conseguir comer nada na ceia! – Fazia um X com as mãos cruzadas, impedindo que a ponta do hashi atingisse seus lábios.
— Só mais esse, prometo. – Insistiu amorosamente, vendo-o ceder na sequência. O grego sempre cederia nas refeições e ele sabia.
Ansioso e sem ser capaz de desviar o olhar, o francês aguardou. Mastigando teatralmente, Milo não conseguiu manter a expressão de mistério por muito tempo, sorrindo enquanto fechava os olhos em deleite.
— Eu disse! – Camus não conseguiu conter um sorriso vitorioso, batendo no balcão de madeira com a palma da mão. Um pouco afastado do casal, o cozinheiro que trabalhava em frente a chapa riu, fazendo com que o loiro compartilhasse o divertimento, mal notando a garoa fria que recomeçava a tamborilar sobre a tenda.
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Camus passou o braço direito sobre os ombros do namorado e Milo capturou para si os dedos que pendiam em seu peito. Dividiam um pequeno guarda-chuva transparente enquanto caminhavam sem pressa por ruas mais afastadas do centro de Tóquio.
Do lado esquerdo havia uma sequência incalculável de árvores ricamente iluminadas com luzes natalinas, precedendo gigantescos prédios atrás delas. Do outro lado, sob a intermitente admiração do grego, havia o mar. Apesar do desnível entre as residências e a costa, o loiro ouvia com clareza as ondas abaixo de si, chocando-se sem descanso contra o concreto. O delicioso gosto de sal pairava preguiçoso em sua língua.
— As festas passadas foram tão caóticas que eu nem consegui questionar se o Japão comemora ou não o natal. – Milo se virou para fitar o namorado, que o respondeu com um roçar dos lábios frios em suas bochechas coradas pelo vento.
— Foi mesmo, não é? Nossas novidades, a mudança do Dite e do Carlo, as fofocas sobre o possível relacionamento dos meus pais... – Ambos riram com a lembrança – Esse ano podemos aprender juntos.
Em um movimento declarado de carinho, Camus beijou delicadamente a orelha escondida sob o gorro cinza. Com um sorriso enviesado e pensamentos maliciosos, esgueirou a ponta de seu nariz por baixo da lã.
Milo se desviou com brusquidão, insultando o prazer estampado no rosto do francês que o puxava para perto novamente.
— Mas então, – O ruivo prosseguiu sorrindo, apontando para as árvores reluzentes com a sacola em sua mão esquerda – até onde eu sei tudo isso é comercial. Assim como o dia das bruxas ou o dia dos namorados, por exemplo.
— Uma desculpa para comemorar? Assim como nós?
— Exatamente.
Quando deram por si, estavam em frente ao prédio de Hyoga. Por não haver portaria, o casal saiu para o passeio noturno portando um molho de chaves emprestadas, o que permitiu uma entrada imediata e silenciosa.
Ao atingirem o andar do caçula, puderam ouvir os risos que escapavam através da porta.
— Até que enfim vocês chegaram! – Afrodite os recebeu com um sorriso contagiante e os auxiliou na retirada dos pesados casacos, gorros e cachecóis. Vestia um avental rosa em tons pasteis sobre o pulôver natalino, se divertindo em ser participativo em datas comemorativas.
— Pra você! – Milo segurou com ambas as mãos a pelúcia que havia comprado, mirando o melhor amigo.
— Ah! Um Totoro!!! – Exclamou em êxtase, capturando o objeto com seus dedos delgados e o comprimindo contra o peito estreito – Uxo... ele é lindo e já está adotado como meu primeiro filho, mas nós dois já trocamos nossos presentes, isso não é justo.
— Eu sei, mas você é o maior fã de animações que eu conheço, ainda mais se tratando do Studio Ghibli... Além disso a loja era incrível, eu não poderia sair daquela preciosidade sem trazer algo para o meu melhor amigo. – Roubou a pelúcia de volta, empurrando-a às cegas contra o torso de Camus enquanto puxava o sueco para um abraço apertado.
O francês revirou os olhos, sorrindo enquanto rumava em direção aos demais convidados na sala de estar.
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Quando todos se estabeleceram, Natássia se apossou do grego enquanto Camus e Bengt guiavam Afrodite na preparação dos pratos que seriam servidos na ceia. Após alguns meses em Amalfi, o aspirante a cozinheiro notou o quanto era divertido ajudar o esposo na cozinha, decidindo ser o chef da principal refeição da noite.
Na sala de estar, os demais se divertiam dando início a retrospectiva do ano que passara. Em breve a ceia ficaria pronta e todos dividiriam suas histórias favoritas.
O brinde foi marcado pela comemoração de múltiplas conquistas. Afrodite, apesar da estreia recente, já era amplamente reconhecido no meio artístico por seu talento e sensibilidade. Já seu esposo estava submerso em numerosos patrocínios, comandando diversas pesquisas na Universidade de Roma.
Vibrando em outra frequência estavam Camus e Milo, morando juntos há mais de um ano em um relacionamento ainda jovem, porém profundo, estável e saudável. Ambos estavam ansiosos para o lançamento do primeiro livro de suas carreiras, cujo anúncio prévio havia rendido muitas vendas antecipadas.
Os casais restantes, entretanto, eram as maiores estrelas da noite. Hyoga e Shun, assim como Natássia e Bengt, haviam firmado seus respectivos relacionamentos com a seriedade merecida. Como evidências dos compromissos selados, a ex-bailarina havia se mudado de volta para Estocolmo e os pais de Shun já permitiam viagens esporádicas na companhia do namorado.
A ceia prosseguiu transbordando risadas, alegrias e cumprimentos ao mais novo chef.
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No dia seguinte Camus e Milo partiram para o interior do país, buscando refúgio na direção do Monte Fuji. Iriam conhecer algumas vilas mais afastadas dos grandes centros urbanos, optando por um passeio calmo e romântico antes que as festas da virada do ano tivessem vez.
Na Estação de Trem de Tóquio, o francês foi convencido a entrar em uma cabine de fotos, onde se rendeu obedientemente a todas as poses solicitadas pelo namorado. O resultado foi satisfatório para Milo, que sorria orgulhoso enquanto carregava tiras e tiras de pequenas fotografias.
Quando já estavam embarcados e prontos para partir, Camus aproveitou a inércia para suspender a mesa entre eles e vasculhar as imagens cuidadosamente. Ao escolher sua favorita, a destacou das demais com excessivo capricho e guardou o pequeno quadrado de papel em sua carteira, sem notar o sorriso apaixonado do observador grego.
O trem percorreu um longo trajeto até que o ruivo se cansasse de tantas interrupções na leitura de seu romance. De tempos em tempos seu olhar se desviava das páginas amareladas para capturar um vislumbre do homem distraído a sua frente. Silenciosamente, resolveu mudar de lugar, indo se sentar ao lado de Milo enquanto o envolvia em um abraço afetuoso.
Pelo resto do trajeto ambos fitaram juntos os campos que fluíam rabiscados pela janela.
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Desceram em uma vila distante de Tóquio, imersa em uma atmosfera completamente diferente do formigueiro urbano comum entre as grandes capitais.
Ambos haviam planejado uma extensa caminhada sob o céu cinza até a cabana que alugaram pelos próximos dias. Desse modo, deixaram a estação de trem com vestimentas adequadas, mochilas contendo apenas o necessário e uma cópia do mapa offline da região em seus smartphones.
Atravessaram vastos campos de plantações durante o trajeto, hipnotizados pela beleza e pela calmaria da região. Muitas vezes se permitiram apenas parar e admirar as longas planícies que se estendiam sob seus pés. Em breve começaria a nevar e a paisagem desapareceria sob camadas e camadas de gelo.
Adquiriram garrafas d’água nas duas primeiras paradas e almoçaram na terceira. As três vilas visitadas haviam sido igualmente pequenas e aconchegantes, com uma multidão de vendedores em barracas espalhadas pelas ruas. Camus quis provar cada iguaria em que seus olhos inquietos pousavam, cada fruta desconhecida, cada bebida espalhafatosa. Milo ria das caretas e experimentava o que passava pelo crivo do francês.
Só conseguiram dar continuidade à viagem no meio da tarde e ainda levariam mais alguns quilômetros de caminhada até alcançarem o destino planejado.
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Milo levantou uma sobrancelha ao notar que Camus não estava mais ao seu lado. Parou no meio da estrada de terra batida, virando-se para encarar o ruivo que lhe sorria enigmaticamente.
Ambos estavam aos pés da colina que circundava o lado esquerdo da estrada. O terreno inclinado era coberto por um bosque fechado que já sentia o gosto do inverno, soturno e úmido. As copas altas das árvores semicongeladas obscureciam uma trilha estreita que tinha início sob as botas do francês.
Milo sorriu, aceitando a mão que lhe era oferecida enquanto a mata os engolia a cada passo adiante.
— Se eu tivesse acabado de te conhecer diria que você está se preparando para me matar. Como em filmes de terror ruins, sabe? Quando você se pergunta como o personagem bonito foi capaz de cair em uma armadilha tão óbvia?
— Talvez porque o assassino fazia o tipo dele e valia a pena tentar a sorte. – Retrucou enquanto seguia na frente, apertando os dedos unidos aos seus em uma provocação branda.
Milo cogitou em silêncio por alguns segundos.
— Pode ser que você tenha razão.
Camus riu, a voz grave ecoando pelo bosque. Decidiu entrar no passatempo.
— Mas, como você me conhece e sabe que eu ainda não pretendo te matar, o que acha que eu estou fazendo?
— Hm... Você gosta do drama. – Ouviu outra risada escapar dos lábios rosados do namorado – Estou falando sério, eu sei que você gosta de ambientes frios, quietos, aconchegantes, românticos...
O francês corou, sorrindo enquanto afundava o rosto no cachecol grande que envolvia seu pescoço, falsamente focado na subida a frente.
— Acredita que eu estava sentindo falta disso? – Milo sorriu, fitando os fios acobreados que triunfaram em escapar das grossas camadas de roupas.
— Disso o que?
— Desse tipo de ambiente. Seu tipo de ambiente.
O ruivo se virou para trás por tempo suficiente para ver os olhos cor de mar brilharem em sua direção. Sorrindo em resposta, o grego prosseguiu.
— É só que nós seguimos o sol o ano inteiro, sempre pulando de um lugar para o outro. E eu não estou reclamando, todas as experiências foram incríveis. Porém, quando eu penso em casa, eu penso em você, Camus, e todo esse cenário a nossa volta grita o seu nome. Eu estava sentindo falta disso.
Subitamente o francês se sentiu envolvido por uma sensação acolhedora, como se estivesse entrando em uma banheira com água recém-aquecida. Sua mente nublada pelo vapor imaginário era incapaz de formar qualquer sentença coerente. Por sorte, foi salvo pela estrutura de madeira escura que surgia através das árvores.
Milo o ultrapassou com rapidez, ansioso para ver de perto o local que o namorado havia escolhido. Apesar de optarem em conjunto por uma viagem tranquila nos arredores do Monte Fuji, o ruivo desejou surpreender com a acomodação. Desse modo, curioso e eufórico, o grego buscou pela chave na varanda, desaparecendo no interior da edificação ao encontrá-la em um dos vasos de plantas.
Contrastando com o loiro vibrante, Camus reduziu a frequência de seus passos, deixando que os olhos claríssimos perscrutassem lentamente o exterior da cabana alta e rústica. Examinava com atenção cada detalhe e comparava com o que vira no anúncio, checando se os motivos que o levaram a escolher aquele lugar eram, de fato, reais.
Satisfeito, o francês decidiu prosseguir com sua cuidadosa contemplação, sentindo estalidos de fagulhas se acenderem pouco a pouco em seu peito. Deslizou lentamente os dedos pela madeira aveludada do corrimão, ouvindo os degraus que levavam a entrada rangerem sob seu peso. Inspirando fundo, seguiu pelo caminho desbravado pelo namorado, fechando a porta atrás de si para manter o frio afastado.
Seu olhar correu imediatamente pelo lado esquerdo da edificação, onde ele sabia que a cozinha estaria. Esboçando um sorriso contido, deixou que os orbes claros se arrastassem pelo cômodo sem paredes até alcançarem a copa adjacente, posicionada mais ao fundo.
Orgulhoso da escolha que havia feito, Camus decidiu que era hora de inspecionar o lado direito, inteiramente tomado pela ampla sala de estar. Seu corpo cansado vacilou ao ver os dois sofás gigantescos em frente a lareira, mas foi distraído de suas intenções por passos agitados no andar de cima.
Apoiado na barra de madeira que servia como guarda-corpo, Milo sorria para si.
— Precisamos acender a lareira. – Tirou o gorro de lã preguiçosamente, fazendo com que os dedos de francês se contraíssem ante o desejo de desamassar os cachos aloirados.
O segundo andar só existia no lado esquerdo da cabana, também dividido em dois cômodos. O primeiro deles, acima da cozinha, era coberto pela mesma madeira escura que erguia a estrutura externa. O segundo, sobre a copa, era desnudo e abrigava a enorme cama de casal que os aguardava.
— Como desejar. – Devolveu o sorriso, andando até o fundo da sala e pressionando o acendedor automático. O som característico do início da combustão foi logo substituído pelo lento crepitar da lenha seca.
— Obrigado. – Respondeu com a voz doce.
Completamente rendido, Camus se virou para fitá-lo novamente. Atrás de seu alvo, cobertores grossos e de aspecto aconchegante descansavam de maneira convidativa, fazendo-o suprimir o desejo imediato de enovelar o namorado entre eles.
— O que mais eu posso fazer por você? Está com fome?
— Por enquanto não, estou suficientemente satisfeito. – Fingiu seriedade – E quanto ao senhor, Professor Sivan, a viagem cumpriu suas expectativas?
— Não totalmente, mas nós ainda temos tempo. – Sorriu.
— Que tal enchermos aquela banheira enorme para um repouso merecido? – Apontou o polegar na direção do cômodo fechado em frente a cama.
— É uma boa ideia, mas eu não estou tão cansado assim. Você está?
Milo negou com um aceno mudo. Aprumou-se, esticando ambos os braços em uma oferenda, aguardando que Camus subisse para tomá-los.
Sentindo as fagulhas serem bem-sucedidas em acenderem algo em seu interior, o francês abandonou sua mochila ao pé da escada e subiu de dois em dois degraus, sem jamais desviar o olhar de seu objetivo. Ao alcançar o topo, escorregou seu corpo por entre os braços abertos do namorado e afundou o rosto nos cachos macios, inalando profundamente enquanto o comprimia em uma busca ébria por contato. Dedos longos se apossaram da nuca arrepiada enquanto o nariz gelado desenhava uma linha torta sob a pele bronzeada. O traçado vacilante nasceu sobre o pulso acelerado ao lado do pomo de adão, indo morrer nos lábios fartos.
O beijo que se seguiu era ávido, necessitado, porém firme e familiar. Minutos depois Milo partia o contato, segurando o rosto a sua frente com ambas as mãos. Desejava observar o céu grego nos olhos do francês ser tomado por um eclipse tempestuoso. As pupilas dilatadas de prazer cresciam sobre o azul desbotado, roubando um sorriso do expectador atento.
— Eu amo você. – Sentindo-se subitamente lido com maestria, só restou a Camus declarar-se.
Tempo depois ambos estavam perfeitamente aquecidos dentro da banheira fumegante, deixando uma pilha de roupas amarrotadas pelo chão.
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Após uma leve refeição cuidadosamente preparada pelo francês, Milo sugeriu que ambos fizessem uma visita noturna à vila mais próxima. Pouco depois as grossas camadas de roupa retornavam, assim como as botas impermeáveis por conta da caminhada que os esperava na descida pelo bosque. As mochilas, contudo, foram substituídas por carteiras e lanternas antes que o casal partisse para a pequena aventura.
A trajetória foi cumprida de forma incrivelmente animada, apesar da escuridão da mata que os envolvia. Quando deram por si, já era possível avistar as delicadas luzes que emanavam da vila, fazendo a empolgação do grego crescer de maneira exponencial à medida que a agitação se aproximava.
Ambos foram surpreendidos pela expressão do comércio local, ainda mais significativo nos quarteirões centrais. Um alto volume de transeuntes circulava pelas ruas apertadas, envolvendo o casal em multidões inquietas.
— É quase como se estivéssemos em uma das cenas iniciais de A Viagem de Chihiro, sabe? Aquela em que a cidade acorda quando o sol se põe? – Milo sorria maravilhado, fazendo a brasa espalhada pelo corpo de Camus se acender um pouco mais, transformando-se em uma chama baixa que o agasalhava de dentro para fora.
— Consegue ver aquele rio logo ali na frente? Pelo que me lembro tem uma ponte muito bonita que liga as duas margens, acho que vai te lembrar ainda mais do filme. – Pontuou, sentindo-se rapidamente viciado no êxtase que o grego exalava.
— Foi a primeira vez que vimos algo juntos, se lembra? – Apertou os dedos entrelaçados aos seus com carinho.
— Como eu poderia me esquecer? – Camus sorriu, saudoso.
— E você dormiu! Me deixou sozinho na cama sem saber o que fazer!
— E você foi cavalheiro o suficiente para me deixar e ir para o sofá. Poderia ter dormido comigo.
Milo deu de ombros.
— Não teria sido uma atitude legal. Nós estávamos finalmente desenvolvendo uma amizade fora da universidade, você com certeza pensaria mal de mim. – Remexeu o cachecol pesado sobre os ombros enquanto atravessavam um enorme arco de madeira.
— Isso não é verdade. – Camus parou para auxiliá-lo, dobrando a vestimenta de maneira elegante e puxando o gorro cinza para baixo, se certificando que as orelhas sob a lã estavam devidamente aquecidas – Eu teria me culpado na manhã seguinte por não ter saído da cama e deixado o meu convidado mais à vontade.
Milo riu, cobrindo com seus dedos enluvados as mãos alvas que pressionavam as laterais de sua cabeça. Deu um passo à frente, oferecendo um beijo em agradecimento.
Brevemente desnorteado, Camus pestanejou, tentando recobrar a sobriedade enquanto era guiado em direção à ponte.
— Você reparou que apesar dos muitos turistas também há várias pessoas locais por aqui? – O grego parou no centro da estrutura de madeira, observando os caminhantes de aspecto cotidiano.
— Sabe aquele arco grande pelo qual passamos na saída da vila? – Camus o guiou para uma das extremidades, permitindo que eles contemplassem o canal escuro que corria sob a ponte.
O loiro acenou positivamente, incentivando-o a continuar.
— É um torii, um portão que assinala a proximidade de santuários. Há um templo logo naquela subida, por isso há tantos locais circulando por aqui.
Milo o olhou com surpresa, fazendo-o sorrir timidamente.
— Eu pesquisei sobre as atrações próximas na hora de alugar a nossa cabana. – Se justificou.
— Você previu tudo sobre essa viagem, não é? – Sua expressão era de admiração e orgulho.
— Quase tudo. – Desviou o olhar, sorrindo. O vento congelante trouxe uma folha parcialmente queimada pelo frio e Camus aproveitou para mudar o assunto – É linda, não é?
O grego tocou nos flocos de gelo que cobriam as extremidades da lâmina.
— É sim. – Respondeu absorto enquanto sequestrava a folha dos dedos alvos, que cederam delicadamente.
— Além do motivo do templo, também é comum ver as pessoas que moram por aqui admirando a paisagem.
— Mesmo no inverno?
— Inclusive no inverno. Os japoneses dão muito valor à natureza, então espaços como esse são adorados o ano inteiro. Para eles, cada estação tem a sua beleza característica.
Milo pareceu refletir sobre o novo aprendizado, derramando um silêncio confortável entre eles. Camus fechou os olhos para sentir a brisa gelada que fluía na direção das águas.
— Então no Japão a beleza é eterna? Ao contrário do resto do mundo, onde as coisas são sempre tão breves?
— Na verdade aqui a beleza também é breve. E é exatamente por isso que não são somente os turistas que vêm admirar a paisagem invernal. Os japoneses sabem que o belo é finito, senão momentâneo, então eles o veneram enquanto podem.
— Eu adorei essa forma de pensar. Será que consigo levar esse ensinamento para a vida? Acho que facilitaria muita coisa... – Desviou o olhar das águas hipnóticas para fitar o namorado.
— Você tem razão, nós aproveitaríamos mais se pensássemos assim. – Capturando algo nos olhos cor de mar que só ele conseguia enxergar, Camus sorriu – Mas, pensando bem, eu acho que já coloco esse conceito em prática.
Sem conseguir ler o sorriso do francês, Milo aguardou pela conclusão.
— Acho que eu aprendi a aproveitar as coisas enquanto elas duram. – Os dedos do namorado pairaram sobre os seus em um elogio mudo – Também aprendi que as coisas não se expiram e desaparecem, e sim que elas se transformam. Inclusive, eu mal posso esperar para ver a beleza dos próximos passos.
Milo sorriu, partindo os lábios desenhados para uma resposta que nunca veio. Um vento forte o interrompeu, golpeando tudo e todos sem o menor indício de remorso.
— Nós podemos voltar para a cidade? Está tão frio. – Se aproximou do corpo sólido a sua frente até que as pontas dos narizes se tocassem.
O ruivo o achou adorável.
— Claro que podemos. O que acha de um jantar bem quente? Já está com fome? – Desacoplou-se do namorado, dando liberdade para que ambos retornassem pelo caminho que vieram.
Milo acenou avidamente, esboçando um sorriso cujo valor Camus julgava inestimável. Para o francês, tal ato funcionava como um fole que atiçava a chama baixa em seu interior, transformando-a em uma fogueira estável e crepitante.
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O jantar havia sido tão agradável quanto Milo esperava que fosse, pois as escolhas de Camus nunca o decepcionavam. Após deixarem o restaurante, visitaram o templo no alto da vila e finalizaram o passeio comprando provisões para os dias seguintes, já que pretendiam passar mais tempo na cabana e nas trilhas que os levariam ao Monte Fuji.
A noite estava alta no céu quando avistaram a resistente estrutura de madeira escura. A ausência de estrelas indicava que o próximo dia seria tão cinza e frio quando o anterior.
Ao invés de irem para a cama, Milo e Camus passaram horas conversando em frente a lareira acesa enquanto dividiam uma garrafa de sake. Havia muito o que confidenciar, desde os numerosos acontecimentos do dia agitado até as fofocas trocadas na ceia da noite anterior.
O cansaço só veio durante a madrugada, quando subiram esgotados e consideravelmente embriagados para o segundo andar. No lado direito da cama, Camus não conseguia compreender como o colchão não estava ardendo em chamas. Demorou longos minutos para entender que a sensação que o incendiava provinha do rosto do grego afundado em suas costas. Se remexeu sobre os cobertores para se certificar de sua conclusão, recebendo um braço pesado em seus quadris e pernas peludas que se misturavam as suas.
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No dia seguinte Milo foi o primeiro a despertar. Preparou um café fumegante no mais absoluto silêncio e vestiu um conjunto de pesadas roupas de inverno, pronto para se aventurar pela varanda externa do segundo andar.
O Monte Fugi se erguia descomunalmente grande no horizonte e a floresta que os separava estava coberta por uma neblina espessa. Apesar do frio, as árvores altas ao redor da cabana impediam que a maior parte do vento o atingisse, o que tornava a situação mais suportável.
O sentimento de deleite o fez suspirar profundamente, enquanto um sorriso quase imperceptível se desenhava no rosto bronzeado. Sorveu uma generosa porção de café quente, ouvindo o zumbido que fluía da mata. Nada estava fora do lugar e ele nunca esteve tão completo, tão em paz e tão feliz.
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Camus despertou serenamente, sentando-se ao notar a ausência do grego ao seu lado. Vislumbrou uma silhueta alta através da porta de vidro e sorriu, sentindo o fogo que ardia em seu interior se espalhar com inesperada violência, como se um barril de gasolina desabasse em seu peito. Levantou-se e, com os pés nus, rumou para o banheiro. Ele precisava se certificar que aquele momento era real. Impeliu água gelada contra o próprio rosto ao mesmo tempo em que as chamas o consumiam por dentro, fazendo-o perceber que por mais que se esforçasse não conseguiria parar de sorrir.
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Milo se virou ao som da porta sendo aberta atrás de si.
— Pelos deuses, Camus! – Puxou a manta que descansava em seus ombros e rapidamente a arremessou sobre os braços expostos do francês.
— Eu estou bem, o clima está agradável. – Abraçou o loiro com carinho, sorrindo contra os lábios grossos.
— Você vai adoecer, isso sim. – Milo atritou as mãos abertas por todas as partes do torso alvo que conseguia de alcançar – É um absurdo você sair no inverno japonês de camisa e short. E ainda por cima está descalço! Você tem que colocar pelo menos uma bota antes de vir aqui fora!
Camus capturou o maxilar enviesado com seus dedos compridos, iniciando um beijo prolongado que fez com que o grego se esquecesse da censura. A cadência era perfeita e ensaiada, os movimentos cuidadosamente sincronizados. Nenhum dos dois se lembrava de quando haviam atingido o estado de ressonância.
Ao som contínuo da natureza que os cercava, Camus delicadamente rompeu o beijo sem se afastar do corpo quente e acolhedor.
— Eu tenho mais uma curiosidade japonesa para compartilhar. – Sorriu, acariciando a face dourada com o polegar.
Milo devolveu o sorriso, aguardando.
— Na verdade... – Desviou os olhos claríssimos para o céu carregado de nuvens acinzentadas, fingindo incerteza – Acho que está mais para um ditado.
— Bom, acho que eu aceito um ditado, já que é tudo o que você tem para me oferecer por agora. – Simulou resignação.
— O ditado diz o seguinte... preste atenção! – Viu o sorriso do grego se ampliar em divertimento e expectativa. O loiro o conhecia suficientemente para saber que tramava algo – Veja bem, o ditado diz o seguinte.
Deu um passo para trás, enrolando de propósito.
— Camus! – Milo cruzou os braços sobre o próprio peito em uma reprimenda.
— O ditado na verdade é uma declaração de amor, que pode ser recitada por quem a tem como verdade. – O ruivo deliberadamente mudou o tom de suas sentenças, fazendo com que as sobrancelhas do grego se elevassem em curiosidade.
Milo percebeu que, de repente, o antigo professor de retórica estava de volta, o preparando com informações relevantes para uma conclusão que ele não havia previsto.
— E o que essa declaração de amor, que você tem como verdade, diz?
Os azuis se encontraram e dessa vez Camus não desviaria, permitindo que namorado lesse o tudo o que havia dentro de si. Inspirou fundo e seu sorriso se expandiu como um botão de cerejeira em abril.
— “Quando eu olho para você, eu vejo o resto da minha vida diante dos meus olhos”.
Dizendo isso, se ajoelhou em uma única perna, descansando os braços cruzados sobre o joelho dobrado a sua frente.
E então, silenciosamente, o incêndio tomou conta de seu ser. Labaredas derramavam-se como ondas revoltas, se infiltrando em cada canto de seu corpo e destruindo o que ainda restava de suas antigas estruturas. Após meses de dedicação ao desmonte, o fogo o ajudava a demolir os resquícios finais. Totalmente desprendido de sua antiga cela e pronto para navegar mundo afora, seu primeiro passo não poderia ser em uma direção diferente da que Milo estava.
“Meu corpo queimou como um celeiro cheio de penas. Nada estava pegando fogo, mas havia fogo em todos os lugares”
― Kaveh Akbar, Calling a Wolf a Wolf
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